Ana de Castro Osório OSE • ComMAI (Mangualde, Mangualde, 18 de junho de 1872 – Sé, Lisboa, 23 de março de 1935) foi uma escritora, especialmente no domínio da literatura infantil, jornalista, pedagoga, feminista e activista republicana portuguesa.

Biografia

Nascimento e Família

Nascida em Mangualde, a 18 de junho de 1872, e batizada também em Mangualde a 18 de dezembro de 1872, Ana de Castro Osório era filha de João Baptista de Castro (1845-1920), reputado bibliófilo, notário e magistrado, conservador do registo predial em Mangualde, natural de Eucísia, Alfândega da Fé, e de Mariana Adelaide Osório de Castro Cabral e Albuquerque (1842-1917), activista feminista, natural de São Jorge de Arroios, Lisboa. A sua mãe era filha do Tenente-General José Osório de Castro Cabral de Albuquerque (1799-1857), natural de Algodres e Governador de Macau, e de Ana Doroteia Moore Quintius, de nacionalidade neerlandesa, natural de Macau. Sobre o seu pai sabe-se ainda que publicou um livro sobre "Questões Jurídicas" (1868) durante a sua estadia universitária em Coimbra, quando este era companheiro de casa de Teófilo Braga, e que em 1911 julgou e aprovou o pedido de Carolina Beatriz Ângelo para ser incluída nas listas de recenseamento eleitoral, tornando-se assim na primeira mulher a votar no país. Ana era também a mais nova dos quatro filhos do casal, sendo irmã de Alberto Osório de Castro (1868-1946), juiz, maçon e poeta, João Osório de Castro (1869-1939), juiz e escritor, e de Jerónimo Osório de Castro (1871-1935), comandante e presidente da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, sendo ainda tia do engenheiro e empresário industrial Jerónimo Pereira Osório de Castro (1902-1957), do médico veterinário, professor e autor Jerónimo de Melo Osório de Castro (1910-1976), do dramaturgo e escritor João Osório de Castro (1926-2007) e do ex-bastonário da Ordem dos Advogados e poeta António Osório (1933-2021).Revista COLÓQUIO/Letras n.º 52 (Novembro de 1979). Cartas inéditas de Aquilino Ribeiro, pág. 47. esquerda|miniaturadaimagem|310x310px|Ana de Castro Osório em jovem (fotografia pertencente ao espólio do poeta António Osório, doado à Biblioteca Nacional de Portugal)miniaturadaimagem|369x369px|Carolina Beatriz Ângelo, a primeira eleitora portuguesa, e Ana de Castro Osório, presidente da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Fotografia publicada no jornal O Século por Joshua Benoliel (1911)

Carreira Profissional e Literária Em 1895, residindo em Setúbal, e tomando como principal interesse o jornalismo, Ana de Castro Osório começou a publicar os seus primeiros artigos e crónicas no periódico "Mala da Europa", sendo elogiada publicamente pelo político, poeta e escritor ultra-romântico português Tomás Ribeiro, pai da poetisa e futura colega de activismo Branca de Gonta Colaço.

Anos mais tarde, envolvida na luta pelo republicanismo e pelos direitos da mulher, nos primeiros anos do século XX, começou a colaborar com a revista "A Sociedade Futura", fundada por Maria Olga de Moraes Sarmento da Silveira e seu marido Manuel João da Silveira, com o objectivo de divulgar o movimento feminista no país, seguindo-se outras colaborações com o periódico "Jornal dos Pequeninos", a revista mensal da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP), "A Mulher e a Criança", e pouco depois, com o jornal setubalense "O Radical", onde desempenhou um papel de destaque com as suas obras, de 1910 a 1911, fundando ainda a Escola Liberal de Setúbal e a Lusitânia Editora Limitada, situada no local de sua moradia, em Lisboa, actuando como um dos principais divulgadores da poesia e obra de Camilo Pessanha. Para além de assinar sob o seu próprio nome, de entre os vários pseudónimos que adoptou, também utilizava os nomes Ann Moore e Ana Doroteia Moore, em homenagem à sua avó materna.

Primeira organizadora da Liga Republicana e primeira presidente.

Para além das peças de carácter jornalístico, Ana de Castro Osório começou também a escrever, em 1898, diversas obras didácticas, romances, novelas, contos e peças infantis, incluindo a colecção de 18 volumes "Para as Crianças" (1897-1935) que lhe conferiu um lugar cimeiro como criadora da literatura infantil em Portugal.

Casamento A 10 de março de 1898, com 25 anos, Ana de Castro Osório casou-se na igreja paroquial de Nossa Senhora da Anunciada, em Setúbal, com Francisco Paulino de Oliveira (Nossa Senhora da Anunciada, Setúbal, 1864 - São Paulo, Brasil, 13 de março de 1914), filho de João Vitorino de Oliveira e Maria José Gomes de Oliveira, também naturais de Setúbal (freguesia de Nossa Senhora da Anunciada), guarda-livros, poeta, publicista e membro do Partido Republicano Português, comummente conhecido como Paulino de Oliveira. Anos antes, tinha recusado veementemente o pedido de casamento do poeta Camilo Pessanha, contudo, a amizade entre os dois manteve-se até à morte deste, em 1926.

Do seu casamento, teve dois filhos: o poeta, dramaturgo, historiador literário, ensaísta e político, dirigente do Nacionalismo Lusitano, João de Castro Osório (1899-1970) e o escritor, jornalista e crítico literário José Osório de Castro (1900-1964), pai da actriz Isabel de Castro (1931-2005).

Maçonaria Com o virar do século, em 1907, a escritora mangualdense tornou-se membro do Grande Oriente Lusitano, integrando a Loja Humanidade, sendo esta inteiramente feminina, e adoptou como nome simbólico maçónico o nome de Leonor Fonseca Pimentel, em homenagem à revolucionária portuguesa do século XVIII, conhecida como a "Portuguesa de Nápoles". Activismo Republicano e Feminismo miniaturadaimagem|340x340px|Suplemento do jornal O Século sobre as sufragistas da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, publicado a 12 de maio de 1910. 5 - Ana de Castro Osório; 6 - Maria Veleda; 7 - Beatriz Paes Pinheiro de Lemos; 8 - Maria Clara Correia Alves; 13 - Sofia Quintino; 14 - Adelaide Cabete; 15 - Carolina Beatriz Ângelo; 16- Maria do Carmo Joaquina Lopes|alt= Com o crescente clima de instabilidade político-social existente na Europa, Ana de Osório Castro começou a focar os seus esforços na luta pela causa republicana e a igualdade de direitos entre homens e mulheres, reflectindo muitas vezes esses mesmos ideais nas suas obras literárias, e assim tornando-se numa das mais reconhecidas pioneiras activistas feministas em Portugal.

Mudando-se para Lisboa, em 1905, escreveu "Às Mulheres Portuguesas", o primeiro manifesto feminista português, seguindo-se a sua integração no Grupo Português dos Estudos Feministas e ainda, em 1908, com o apoio do político republicano António José de Almeida, a fundação da organização e associação política Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP), no 2º andar do nº 6 da Rua dos Castelinhos, em Lisboa, juntamente com as médicas e sufragistas Carolina Beatriz Ângelo e Adelaide Cabete, entre outras proeminentes mulheres da sociedade portuguesa de então.

Durante esse prolífero período, a escritora e activista publicou diversas obras e artigos de carácter político e social, nomeadamente sobre o direito ao voto, à educação, ao trabalho e a importância da independência económica da mulher em caso de abandono ou viuvez, entre outros temas, como também escreveu e fez distribuir, gratuitamente, folhetos de divulgação de normas educativas e de higiene para jovens mães, com o título "A Bem da Pátria".

Durante a Primeira República Portuguesa, imediatamente após a implantação da República, a escritora colaborou com Afonso Costa, então Ministro da Justiça, na elaboração da lei do divórcio. Segundo Ana de Castro, "a lei do divórcio é necessária não para separar os que estão separados e sem escrúpulos seguem o seu destino, mas para libertar os que estão presos". Quando a lei foi aprovada, tornou-se numa das principais conquistas dos movimentos feministas em Portugal.

Pouco meses depois, devido a conflitos internos na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, nomeadamente com a facção que apoiava a militante Maria Veleda e discordava da proposta apresentada por Ana de Castro Osório ao Governo Português para se alterar o Código Eleitoral, que se fosse aprovada só permitiria o voto para as mulheres que pagassem impostos, fossem maiores de idade e pertencessem à elite intelectual, tendo portanto que ser instruídas, e consequentemente excluía grande parte da população feminina do país por ser analfabeta, a escritora e activista feminista demitiu-se do cargo de presidente e fundou a Associação de Propaganda Feminista, juntamente com Carolina Beatriz Ângelo, Joana de Almeida Nogueira e Rita Dantas Machado, entre outras activistas.

Emigração no Brasil miniaturadaimagem|260x260px|Ana de Castro Osório (representada na primeira fila à direita) e principais figuras da facção republicana na obra "Pela República" da autoria de Roque Gameiro Em 1911, viajou para o Brasil quando o seu marido foi nomeado cônsul em São Paulo. Trabalhou como professora e escreveu vários livros, entre os quais "Lendo e Aprendendo" e "Lição de História", dois manuais utilizados tanto pelas escolas brasileiras como portuguesas. Três anos mais tarde, Paulino de Oliveira faleceu em São Paulo, a 13 de março de 1914, vitimado pela tuberculose.

Após enviuvar, Ana de Castro Osório regressou a Portugal com os seus dois filhos, João de Castro Osório (1899-1970) e José Osório de Oliveira (1900-1964), fixando residência em Lisboa, nomeadamente no primeiro andar do número 17 da Rua do Arco do Limoeiro (atual Rua Augusto Rosa), junto à Sé.

Beneficência e Esforço de Guerra Atenta ao clima de tensão e iminente guerra na Europa, em 1914, Ana de Castro Osório fundou a Comissão Feminina Pela Pátria, com Ana Augusta de Castilho, Antónia Bermudes e Maria Benedita Mouzinho de Albuquerque Pinho. Esta tornou-se na primeira instituição organizada em Portugal com o objectivo de mobilizar as mulheres para o esforço de guerra, inovando também ao conduzir os primeiros cursos de enfermagem em Portugal que não eram ministrados por e para freiras, por iniciativa da médica Sofia Quintino que coordenou toda a operação. Anos mais tarde, com a participação das forças militares portuguesas na Primeira Guerra Mundial, Elzira Dantas Machado, ao tempo Primeira-Dama, remodelou a comissão feminina e fundou a Cruzadas das Mulheres Portuguesas (CMP), um movimento de beneficência que prestava assistência aos soldados mobilizados e às suas famílias.

Função Pública Assumiu ainda, em junho de 1916, a pedido de António Maria da Silva, ministro do Trabalho e Previdência Social, o cargo de subinspectora dos Trabalhos Técnicos Femininos. Ao seu desempenho foram-lhe apontadas várias críticas e acusações, nomeadamente pela jornalista Adelaide Abrantes, no jornal "A Voz", questionando a utilidade do cargo, sendo no seu ponto de vista um caso de favorecimento do ministro às suas "afilhadas", que viviam em conivência com a classe dos patrões ao não aplicarem no terreno as novas leis de trabalho decretadas pelo governo, tais como a abolição dos serões das costureiras.

Últimos Anos miniaturadaimagem|260x260px|Ana de Castro Osório na sua biblioteca pessoal (1928) Nos anos seguintes, Ana de Castro Osório continuou a escrever e afirmou-se como uma escritora reconhecida a nível nacional e no Brasil, regressando a este país em 1922, para proferir uma série de conferências no Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Sobre essas conferências, escreveu o livro "A Grande Aliança" (1924) e tornou-se colaboradora do jornal feminista O Corymbo.Bonilha, Caroline Leal. Corymbo: memória e representação feminina através das páginas de um periódico literário entre 1930 e 1944 no Rio Grande do Sul. Mestrado. UFPEL, 2010

No fim da Primeira República Portuguesa, sentindo-se "desiludida" com a situação política em Portugal, reduziu a sua intervenção pública ao trabalho na Cruzada das Mulheres Portuguesas e à sua escrita.

Falecimento