Incidente em Antares foi o último romance escrito por Érico Veríssimo. Escrito em 1971, faz uso do fantástico e do sobrenatural para abordar temas reais (o chamado Realismo Fantástico). As principais temáticas sobre as quais Veríssimo escreve nessa obra são a violência do regime militar e a chegada de indústrias estrangeiras ao Brasil.
Enredo No ano de 1963, em 11 de dezembro, morrem sete pessoas em Antares, uma cidade fictícia governada por políticos corruptos. Como os coveiros estão em greve, os defuntos passam a vagar pela cidade, vasculhando a intimidade de parentes e amigos. Devido à sua condição de defuntos, podem fazer isto sem temer represálias.
Análise O livro é dividido em duas partes, onde se misturam acontecimentos reais e irreais.
Na primeira parte, é apresentado o ajustamento das duas facções políticas da cidade (os Campolargo e os Vacariano) às oscilações da política nacional. Apresenta também a união dos mesmos em face da oportunidade de participação do Rio Grande do Sul na política nacional e diante da ameaça oferecida pelos comunistas, como são conhecidos na cidade os membros da classe operária, que reivindica seus direitos.
Na segunda parte, acontece o "incidente" do título, com a greve geral em Antares e a morte inesperada de sete pessoas, incluindo a matriarca dos Campolargo, Quitéria. Durante o cortejo de Dona Quitéria, os Campolargo são impedidos de sepultá-la, pois os coveiros, em greve, cercam o cemitério, impedindo o enterro, e desta forma, aumentam a pressão sobre os patrões. Os mortos, não sepultados, adquirem "vida" e passam a vasculhar a vida dos parentes e amigos, revelando, então, a podridão moral da sociedade. Como as personagens são cadáveres, estão livres das pressões sociais e podem criticar à vontade a sociedade.
O real em "Incidente em Antares" Já que a obra emprega o Realismo Fantástico, coexistem no livro elementos fictícios e eventos reais. Entre os fatos históricos retratados em Incidente em Antares, há os seguintes:
Guerra dos Farrapos; Período Regencial; Guerra do Paraguai; Abolição da escravatura; Brasil Império; Revolução Federalista; Primeira Guerra Mundial; República Velha; Era Vargas; Nazismo e Fascismo; Segunda Guerra Mundial; Governo de Eurico Gaspar Dutra; Segundo Governo Vargas; Governo Juscelino Kubitschek; Governo Jânio Quadros; Governo João Goulart; Ditadura militar.
A leitura dos trechos do livro em que tais momentos da História são apresentados é excelente para adquirir conhecimento acerca deles, por intermédio da literatura. Inclusive, sobretudo no que se refere a períodos ditatoriais, há informações verdadeiras - embora escusas da história oficial - que podem ser descobertas quando se lê Incidente em Antares (por exemplo, a tortura empregada nos porões de delegacias ao longo do Regime Militar).
O município de Antares miniaturadaimagem|243x243px|A trama se passa em Antares, uma cidade fictícia do Rio Grande do Sul. Nas páginas iniciais desses escritos de Veríssimo, é possível encontrar dados sobre a história de Antares, a cidade fictícia onde se passa a trama. Tudo teria começado com o surgimento do Povinho da Caveira, um povoado à margem esquerda do Rio Uruguai, pertencente ao município de São Borja, localizado na região missioneira do Rio Grande do Sul. A fundação desse vilarejo foi feita, no século XIX, por Francisco Vacariano, cujas características descritas se encaixam na definição de um "coroné". Chico Vacariano, como era chamada essa figura autoritária e escravocrata, herdou terras de seu avô - concedidas pela Coroa Portuguesa - mas também se apossou, à força, de terras alheias. A somatória desses territórios deu origem ao Povinho da Caveira.
O nome do lugarejo passou a ser Antares graças a um evento inusitado. Um naturalista passou por tais terras e, durante uma conversa com Chico, mostrou a ele a estrela Antares no céu. O senhor Vacariano gostou do nome desse astro e decidiu mudar o modo como seu povoado era chamada, tornando-a homônima à estrela.
Com o crescimento gradual de Antares, o lugar foi promovido a vila e, finalmente, a município; emancipando-se de São Borja. Vale mencionar que, enquanto esses personagens, fatos e até mesmo a cidade de Antares foram inventados pelo autor; o município de São Borja de fato existe.
Vacarianos e Campolargos A descendência de Chico Vacariano herdou as posses e a influência política local do patriarca, de modo a ser bastante respeitada/temida na cidade. A hegemonia em Antares, portanto, costuma ser monopolizada por essa família.
Tal cenário mudou com a chegada de Anacleto Campolargo ao município, visto que esse senhor abastado conquistou, aos poucos, terras e poder em Antares. Dessa forma, o controle da cidade passou a ser disputado entre as famílias Vacariano e Campolargo durante gerações.
A rivalidade entre os dois grupos infiltrou-se, particularmente, no campo político. No entanto, o envolvimento de tais homens na política local não buscava diretamente melhorias para a população - quaisquer decisões tinham o objetivo de garantir benefícios pessoais para os membros dessas famílias. Isso é evidenciado, implicitamente, no posicionamento dos referidos senhores: Vacarianos, embora integrassem o partido liberal, apoiavam o império vigente e defendiam a escravidão; Campolargos, apesar de terem criado o parido conservador, eram pró-república e abolicionistas. Ou seja, essa incoerência ideológica mostra que o intuito não era salvaguardar valores, mas dar suporte ao que beneficiasse cada um em dada situação.
A despeito da inexistência dessas famílias na realidade, a crítica sutil de Veríssimo ao descrevê-las na obra se estende ao real: a participação de inúmeras pessoas na política, desde a colonização até os dias atuais, não é motivada para oferecer melhores condições de vida ao povo, mas para satisfazer interesses pessoais. Isso pode ser observado, por exemplo, nos casos de corrupção, em que políticos, em vez de considerar a população, enriquecem a si mesmos. esquerda|miniaturadaimagem|279x279px|Nessa obra de ficção, Getúlio Vargas foi quem pôs fim aos conflitos entre Vacarianos e Campolargos. A disputa entre tais famílias foi dinâmica, sendo branda às vezes e bastante intensa em outros momentos. Nos pontos críticos, cometeram-se atrocidades entre esses adversários, como tortura, assassinatos e estupro. Houve, até mesmo, contendas entre integrantes do mesmo grupo: dois primos do lado Campolargo se esfaquearam.
Os conflitos somente se findaram com a vinda de Getúlio Vargas à cidadezinha. No contexto da Política do Café com Leite, em que São Paulo e Minas Gerais se alternavam na indicação do presidente da república, Vargas tinha o anseio de que o Rio Grande do Sul também participasse da política nacional, a partir de sua eleição. Para fazê-lo, seria necessário angariar votos. Assim, é descrito no livro que Getúlio teria comparecido a Antares (o que claramente não ocorreu de verdade, dado que a cidade é fictícia) para garantir a maioria dos votos no município. Com o intuito de alcançar essa conquista, Vargas convence os patriarcas da época das duas famílias mais relevantes do local (Xisto Vacariano e Benjamim Campolargo) a deixarem as desavenças de lado e unirem-se "pelo amor ao Rio Grande".
A partir desse momento, a estabilidade nas relações de Vacarianos e Campolargos foi assegurada pela existência de inimigos comuns, como os paulistas e mineiros (na época da República Velha), mas também os trabalhadores, que posteriormente na trama colocam em xeque os privilégios dessas famílias a partir da reivindicação de seus direitos.
Portanto, os sucessores de Xisto Vacariano (Tibério Vacarino e sua esposa, Dona Briolanja) e de Benjamim Campolargo (Zózimo Campolargo e sua mulher, Dona Quitéria) viveram em relativa harmonia, graças à aversão comum ao que genericamente chamavam de "comunistas" - quaisquer pessoas que reivindicassem justiça social, clamando por mudanças no status quo.
Anatomia de uma cidade gaúcha de fronteira No início da década de 1960, uma equipe de pesquisadores foi envida a Antares para fazer uma pesquisa científica, na qual seria estuda a cidade como um todo, sendo contempladas informações econômicas, sociais, nutricionais, culturais, etc. O estudo foi dirigido pelo professor Francisco Martim Terra (um descendente de Horácio Terra, irmão de Ana Terra, personagem de "O Tempo e o Vento") e contou com o apoio do jovem universitário Xisto Vacariano Neto - filho de Tibério e neto do velho Xisto.
A princípio, o grupo foi bem recebido e pôde realizar tranquilamente sua pesquisa. Os dados coletados durante alguns poucos anos, juntamente com suas respectivas análises, foram reunidos e publicados na forma de um livro, intitulado Anatomia de uma cidade gaúcha de fronteira, já que Antares é um município riograndense localizado à beira da fronteira do Brasil com a Argentina. Uma vez que uma série de problemas sociais podiam ser observados no município, a obra abordava recorrentemente esse assunto. No entanto, houve o cuidado de não efetuar uma crítica direta, de modo que o livro não especificava qual era a cidade gaúcha de fronteira mencionada - em momento algum, o nome de Antares foi exposto.
Apesar da hospitalidade inicial, os pesquisadores ganharam a antipatia dos habitantes da cidadezinha quando os antarenses tiveram acesso ao conteúdo daquele livro, por meios diretos (via leitura do livro) ou indiretos (a partir de boatos). A insatisfação se dá, primeiramente, porque a população, em geral, é alienada, de modo a ser incapaz de, com olhar crítico, reconhecer problemas sociais ao seu redor. Dessa forma, quando uma série de problemáticas reais da sociedade de Antares é exposta no livro, o povo antarense encara tais informações como mentiras e fica ofendido. Portanto, a fúria da população em relação aos pesquisadores se dá porque, na sua condição de alienados, os antarenses concebem que o livro é uma coleção de mentiras.
Mais uma vez, a partir da ficção, é possível desenrolar reflexões quanto à realidade. A crítica injusta dos habitantes de Antares aos pesquisadores ilustra duas situações reais. Em princípio, podemos perceber que muitas vezes, conforme prevê Karl Marx, o capitalismo propicia que os trabalhadores permaneçam alienados, isto é, alheios à realidade, sendo de certa forma impossibilitados de perceber muitas injustiças presentes em seu meio social. Outros cenários a que pode nos remeter esse trecho da obra de Erico Veríssimo são o do negacionismo e o do conspiracionismo, nos quais é marcante o desprezo à ciência - o rigorosíssimo método científico, o qual busca chegar a conclusões que sejam tão compatíveis com a realidade quanto é possível, é rejeitado e adotam-se crenças levianas para compreender o mundo.
Tortura de inocentes Erico Veríssimo, por meio da história do personagem João Paz e de sua esposa, expõe uma realidade, infelizmente, corriqueira ao longo da Ditadura Civil-Militar Brasileira (1964-1985): a tortura. Entre os torturados, encontram-se opositores do regime, familiares de tais opositores e até mesmo diversos inocentes. O intuito da tortura era empregar a violência como forma de fazer adversários do governo revelarem os nomes de outros oponentes. No entanto, torturar pessoas é um método que, além de cruel, é ineficaz; pois o sofrimento da vítima é tamanho que ela comumente acaba fazendo qualquer coisa para pôr fim à dor - por exemplo, confessando crimes que não cometeu e dizendo nomes de "aliados" que,na realidade, não têm qualquer envolvimento com a oposição. É o que ocorre na narrativa.