A Linha do Douro é uma linha de caminho-de-ferro em Portugal, de bitola ibérica, que liga Ermesinde ao Pocinho, numa extensão de cerca de 160 Km. A linha segue principalmente o vale do Rio Douro, de onde retira o nome, e na sua extensão máxima terminava na fronteira com Espanha junto a Barca d'Alva, totalizando cerca de 200 km. Começou a ser construída em 1875, chegou a Penafiel ainda nesse ano, e foi concluída em 9 de Dezembro de 1887, com a inauguração do troço até Barca d'Alva e La Fregeneda, já em Espanha. Em final de ano foi inaugurada a Linha internacional de Barca d'Alva-La Fregeneda a La Fuente de San Esteban desde esta estação até à rede que liga com Salamanca, em La Fuente de San Esteban. A ligação internacional foi encerrada em 1 de Janeiro de 1985, e o lanço entre Pocinho e Barca d'Alva fechou em 18 de Outubro de 1988. Na década de 1990, iniciou-se um programa de modernização de parte da Linha do Douro, que incluiu a duplicação da via férrea. A Linha do Douro foi o ponto de origem dos quatro caminhos de ferro de via métrica na região de Trás-os-Montes: a Linha do Tâmega, de Livração a Arco de Baúlhe, a Linha do Corgo, da Régua a Chaves, a Linha do Tua, de Foz Tua a Bragança, e a Linha do Sabor, do Pocinho a Miranda do Douro. A Linha do Douro é considerada a mais bela em Portugal, e por isso a que tem mais potencialidades turísticas, sendo por isso percorrida parcialmente por comboios históricos rebocados por locomotivas a vapor.
História thumb|Cachão da Valeira, em 1903. Antecedentes Ao longo da história, o Rio Douro foi a principal via de comunicação natural ao longo da região, existindo registos da sua utilização desde a ocupação romana. No entanto, apesar da sua importância, este curso de água sempre foi muito difícil de navegar, tendo um dos passos mais importantes para abertura à circulação fluvial sido a demolição do Cachão da Valeira, entre 1780 e 1791, que permitiu a navegação do Douro até Barca d’Alva e a fronteira com Espanha.
Planeamento Em 1867, o governo português apresentou às Câmaras os projectos para várias linhas férreas em bitola ibérica, unindo o Porto ao Pinhão, a Braga, e à fronteira com Espanha no Minho. Apesar do empenho que as populações e o próprio governo tinham na construção destas linhas, devido à sua necessidade, só em 14 de Junho de 1872 foi decretado o início das obras na Linha do Minho e a realização de estudos para o traçado da Linha do Douro, que devia passar por Penafiel.
O principal propósito da Linha do Douro foi, além de providenciar transporte para as povoações ao longo da via, transportar adubos, sementes e outros produtos para o interior, e escoar a produção agrícola destas regiões; por outro lado, iria fornecer uma alternativa ao transporte fluvial, bastante limitado pela então reduzida capacidade de navegação no Rio Douro, e permitir um melhor acesso ao interior transmontano.VIEGAS, 1988:27 Devido à sua importância, a construção da Linha do Douro adquiriu uma maior prioridade em relação a outros projectos ferroviários em Portugal, nomeadamente a continuação do Caminho de Ferro do Sul até ao Algarve.SANTOS, 1995:118
thumb|left|Horários dos comboios do Porto a Caíde em 1875. Troço entre Ermesinde e o Pinhão
Os trabalhos da Linha do Minho iniciaram-se no dia 8 de Julho de 1872, tendo o primeiro troço, até Braga, sido aberto à exploração em 20 de Maio de 1875. As obras na Linha do Douro principiaram em 8 de Julho de 1873, tendo o primeiro tramo, entre Ermesinde e Penafiel, entrado ao serviço no dia 29 de Julho de 1875 O troço seguinte, até Caíde, foi inaugurado em 20 de Dezembro do mesmo ano, e a linha chegou ao Juncal em 15 de Outubro de 1877.
A linha foi aberta à exploração até Régua em 15 de Julho de 1879, ao Ferrão em 4 de Abril de 1880, e ao Pinhão em 1 de Junho de 1880.
Troço entre o Pinhão e Barca d'Alva e ligação internacional Com a abertura do troço até ao Pinhão, concluiu-se a principal finalidade da linha, que era estabelecer uma ligação ferroviária ao longo da região do Douro. No entanto, já então se planeava a sua continuação até à fronteira em Barca d’Alva, pelo que, em 23 de Julho de 1883 foi decretada a construção deste troço. Assim, a linha foi inaugurada até Foz-Tua em 1 de Setembro de 1883, e até ao Pocinho no dia 10 de Janeiro de 1887. A via férrea chegou a Côa em 5 de Maio de 1887, e a Barca d'Alva em 9 de Dezembro de 1887,MARTINS et al, 1996:12CAPELO et al, 1994:228 no mesmo dia que o troço internacional Barca d'Alva-La Fregeneda, que ligará depois à La Fuente de San Esteban, permitindo a conexão entre a Linha do Douro e a rede ferroviária espanhola, tendo-se desde logo iniciado o serviço directo entre o Porto e Salamanca. O troço Barca d'Alva-La Fregeneda foi financiado por um grupo de estabelecimentos bancários da Praça do Porto, denominado de Sindicato Portuense.Martins et al, 1996:39REIS et al, 2006:36, 56 Também em 1887, inagurou-se o primeiro lanço da Linha do Tua, de Foz Tua a Mirandela.REIS et al, 2006:35
A conclusão da ligação internacional foi um dos motivos para o declínio do tráfego fluvial no Rio Douro. No século XIX, uma das mercadorias mais importantes a ser transportadas na Linha do Douro foram os produtos contra a filoxera, um insecto que assolou a região vinícola durante vários anos.BARRETO, 2017:15
Formação dos Caminhos de Ferro do Estado Uma lei de 14 de Julho de 1899 criou os Caminhos de Ferro do Estado, uma organização governamental, mas com uma certa independência, que tinha como propósito gerir as linhas que eram propriedade do governo português. A Linha do Douro foi integrada na Divisão do Douro e Minho desta operadora.REIS et al, 2006:62-63
Fases da Construção Entre as EstaçõesExtensãoInauguraçãoEncerramentoErmesinde – Penafiel30,311 km 29 de Julho de 1875Penafiel – Caíde7,328 km20 de Dezembro de 1875Caíde – Juncal18,818 km15 de Setembro de 1878Juncal – Régua38,371 km15 de Julho de 1879Régua – Ferrão15,813 km4 de Abril de 1880Ferrão – Pinhão7,611 km1 de Junho de 1880Pinhão – Tua12,993 km1 de Setembro de 1883Tua – Pocinho31,678 km10 de Janeiro de 1887Pocinho – Côa9,061 km5 de Maio de 188718 de Outubro de 1988Côa – Barca d'Alva - fronteira18,882 km9 de Dezembro de 1887
thumb|Rede Complementar ao Norte do Mondego, decretada em 1900, que inclua vários projectos com ligação à Linha do Douro, alguns dos quais foram construídos. Século XX Década de 1900 Em 7 de Fevereiro de 1902, foram aprovados dois projectos para a construção de pontes sobre o Rio Douro, sendo uma rodoviária, para acesso à Estação do Pinhão, e outra, de tipologia rodo-ferroviária, junto à localidade do Pocinho, para transportar a Linha do Sabor e a Estrada Real 9. No início daquele ano, previu-se a introdução de carruagens de primeira classe nos serviços entre o Porto e Barca d'Alva. Em 1909, entrou ao serviço o lanço entre Livração e Amarante da Linha do Tâmega.REIS et al, 2006:12
O troço internacional entre Barca d'Alva e La Fregeneda revelou-se um fracasso financeiro, o que levou, nos inícios do século XX, à falência do Sindicato Portuense e à sua integração na Companhia das Docas do Porto e dos Caminhos de Ferro Peninsulares. A ligação internacional passou então a ser gerida pela Compañía del Ferrocarril de Salamanca a la Frontera Portuguesa, tendo sido utilizada pelo Sud Expresso por várias vezes ainda no século XIX, de forma a reduzir o tempo de percurso em cerca de cinco horas.
Décadas de 1920 a 1940 Em 1927, a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses venceu o concurso de arrendamento das linhas dos Caminhos de Ferro do Estado, tendo começado a gerir as antigas ligações desta operadora, incluindo a Linha do Douro, em 11 de Maio desse ano.
Em 5 de Janeiro de 1940, ocorreu um descarrilamento ao quilómetro 115,47 da linha, entre Covelinhas e Gouvinhas, devido a um demoronamento. A locomotiva, com o número 248, caiu ao rio, levando à morte do maquinista e do fogueiro, embora o veículo tenha sido posteriormente recuperado e colocado num pedestal na estação de Contumil.
Décadas de 1960 e 1970 Nos finais de 1968, verificou-se uma grande falta de locomotivas na região Norte do país, devido ao atraso na entrega do segundo lote da Série 1400, pelo que a C. P. enviou várias das suas locomotivas do Sul e Sueste para o depósito de Contumil, incluindo a 501, que foi encarregada dos principais comboios na Linha do Douro, especialmente os semi-directos da Régua ao Porto. Nesse ano, algumas das estações da linha utilizavam um sistema de exploração no qual eram colocadas em eclipse nas alturas de menor movimento, deixando dessa forma de intervir na circulação dos comboios, como forma de reduzir os custos com o pessoal.
thumb|left|Estação de Barca d'Alva, em 1995. Décadas de 1980 e 1990 Em 30 de Setembro de 1984, o Governo Espanhol aprovou o encerramento de várias linhas férreas, incluindo o troço entre La Fuente de San Esteban e La Fregeneda, que fazia parte da linha internacional até Barca d'Alva. Esta linha apresentava um tráfego muito reduzido, que era essencialmente composto, nos últimos anos, apenas por uma automotora que fazia os serviços locais entre La Fuente de San Esteban e Barca d'Alva. Como estava programado, este troço fechou a 1 de Janeiro do ano seguinte, junto com a linha até Barca d'Alva. No dia 18 de Outubro de 1988, foi encerrado o lanço entre as estações de Pocinho e Barca d'Alva. Este tramo foi quase totalmente abandonado, em contraste com a antiga linha em Espanha, que foi categorizada como monumento, e declarada como Bem de Interesse Cultural, sendo regularmente alvo de inspecções.
Em 1994, o lanço entre Porto e Régua fazia parte da rede dos serviços Auto Expresso da C. P., que permitia o transporte de automóveis nos comboios de passageiros.
Na década de 1990, a Linha do Douro foi alvo de profundas obras de remodelação no distrito do Porto que visaram a duplicação e electrificação da via, e que permitiram uma melhoria considerável do serviço prestado. As obras de electrificação e duplicação da via foram inauguradas primeiramente no troço entre Ermesinde e Valongo, em 15 de Setembro de 1995,REIS et al, 2006:150 seguindo-se o lanço até Cête em 26 de Setembro de 1999. As obras incluíram a construção de uma estação em Caíde.REIS et al, 2006:233
Século XXI miniaturadaimagem|Comboio eléctrico urbano da CP Porto na nova estação de Penafiel. Década de 2000 As obras de remodelação da parte suburbana da linha do Douro prosseguiram pelo Vale do Sousa, sendo concluídas entre Cête e Penafiel (com a inauguração de uma nova estação nesta cidade) em Setembro de 2002, e daí até Caíde, não tendo avançado, tal como previsto, até ao Marco de Canaveses, o que obrigava os passageiros com destino a esta estação a efectuar transbordo em Caíde para comboios a diesel, especificamente para o serviço Regional.
No final da década de 2000, a Linha do Douro perdeu os seus últimos tributários de via estreita que ainda resistiam. Em Agosto de 2008, foi encerrada a Linha do Tua entre o Tua e o Cachão, e em Março de 2009 foi a vez dos últimos troços das linhas do Corgo (Régua–Vila Real) e do Tâmega (Livração–Amarante). Se a Linha do Tua foi encerrada devido à construção da Barragem de Foz Tua (que submergiu os primeiros 16 quilómetros da linha), as Linhas do Corgo e do Tâmega foram oficialmente encerradas para se proceder a profundas obras de renovação; contudo, as obras nunca chegaram a avançar e as linhas foram definitivamente encerradas em 1 de Janeiro de 2012.