Os charruas são um povo originário americano o que no século XVI se localizava entre os rios Paraná e Uruguai, tendo como centro a região da atual província Argentina de Santa Fé.

A partir do século XVII, pressionados pela colonização espanhola em Santa Fé e pelos sucessivos conflitos com os guaranis missioneiros, os charruas foram progressivamente deslocados para o sul e o leste, ocupando a Banda Oriental, atual Uruguai, e a região da coxilha de Haedo. Esses conflitos tiveram um episódio central em 1701-1702, quando uma coalizão de índios ditos "infiéis", com destacada presença dos charruas, yaros, bohanes e balomares, enfrentou uma guerra punitiva movida pelos guaranis missioneiros a serviço da Coroa espanhola. Após a expulsão dos jesuítas em 1768 e a instauração, pela Coroa espanhola, do governo político-militar sobre as antigas missões, o enfraquecimento do sistema missioneiro permitiu a reversão parcial desse deslocamento. Os charruas expandiram-se novamente para o norte e o nordeste, em direção a Entre Ríos e ao Rio Grande do Sul, e posteriormente a Corrientes, região que acabariam por abandonar por ação das autoridades coloniais de Santa Fé. Como resultado desses sucessivos avanços e recuos, fundiram-se com outros povos que ocupavam esses territórios, como os chanás, minuanos, caingangues, yaros e bohanes. Vulgarmente, todo esse grupo de povos começou a ser chamado de "Charrua", e essa é a razão pela qual hoje essas tribos são confundidas ou tidas como conformando uma nação charrua. Día de la Nación Charrúa y de la Identidad Indígena. Museo Nacional de Antropología, 10 de abril de 2022.Pueblos originarios. CharrúasConsejo de la Nación Charrúa reclama aparición de Santiago Maldonado11 de abril: nación charrúa identidad indígena

Nação Charrua Os povos charruas durante a época colonial eram chamados de vários nomes no Uruguai, Argentina e Brasil (Rio Grande do Sul): guayantiranes, yaros, balomares, negueguianes, manchados, martidanes, mepenes, tocagues, bohanes, minuanos, charruas etc. Os historiadores passaram a chamar todos esses povos de "Charruas". Desconhece-se etimologia.Juan José Rossi. Los Charruas, p. 83. Buenos Aires: Editorial Galerna, 2002

Os Charruas de origem pampeana popularizaram-se, cultural ou etnicamente, no chamado complexo Charrua ou Nação Charrua juntamente com os yaros, bohanes, chanás e minuanos (ou guenoas). Os Chanás também fazem parte do complexo Chaná-Timbu, e assim se confundem com os Tapes Guaranis, considerados por eles como seus opostos e, na maioria das vezes, seus inimigos. Sobre as relações entre esses grupos há opiniões diferentes:

Para Samuel Lafone Quevedo (1897Lafone Quevedo, Samuel 1897. Los indios chanases y su lengua. Con apuntes sobre los querandíes, yaros, boanes, güenoas o minuanes y un mapa étnico. Boletín del Instituto Geográfico Argentino XVIII: 115-151. e 1900Lafone Quevedo, Samuel 1900. La raza pampeana y la raza guaraní. Los indios del Río de la Plata en el siglo XVI. Buenos Aires, Compañía Sudamericana de Billetes de Banco.) os Charruas eram uma das "Nações" pampeanas (habitantes da planície que vai do Chaco à Patagonia) que fazia parte do tipo Guaycuru e os demais povos citados eram "parcialidades" da mesma nação.

Para Samuel Lothrop (1932Lothrop, Samuel 1932. Indians of the Paraná Delta, Argentina. Annals of the New York Academy of Science XXXIII: 77-232. e 1946Lothrop, Samuel 1946. Indians of the Paraná Delta and La Plata Littoral. En Steward, J. (ed.); Handbook of South American Indians I: 177-190. Washington DC, United States Government Printing Office.) os charruas e os demais eram "tribos distintas" aparentadas culturalmente e fisicamente e linguisticamente semelhantes aos Guaycurus do norte.

Para Antonio Serrano (1936Serrano, Antonio 1936. Etnografía de la antigua provincia del Uruguay. Paraná, Talleres gráficos Melchior. e 1946Serrano, Antonio 1946. The Charrua. En Steward, J. (ed.); Handbook of South American Indians I: 191-196. Washington DC, United States Government Printing Office.) os Charruas eram uma "Nação" com características culturais próprias, e as demais "tribos" faziam parte da "Nação Charrua".

Existem várias estimativas da população Charrua e grupos étnicos relacionados no momento da chegada dos espanhóis, as quais variavam entre 8.000 (5.000 no Uruguai) e 100.000 pessoas ou mais. Em 1828, quando o Uruguai se tornou independente, a população indígena era de 30.000 pessoas e a população de origem caucásico, de 70.000. De acordo com alguns estudos históricos, o número de indígenas e seus descendentes em território uruguaio era superior ao número na época da conquista. Isso se deve ao fato de que o território recebeu uma importante imigração de guaranis fugidos das missões jesuíticas, que estavam sendo destruídas, e que se estabeleceram ao norte do Rio Negro.

Eram altos, com uma média de 1,70 metros para os homens e 1,67 metros para as mulheres, de aspecto sério e taciturno, porte duro e feroz. Os homens apresentavam barba como distintivo varonil, na qual os caciques usavam engastadas como adorno pedras e, após o contato com produtos da civilização europeia, latas e vidros. A tatuagem no rosto consistia em três linhas que iam da raiz dos cabelos até a ponta do nariz e duas linhas transversais que iam de zigoma a zigoma. Para a guerra e festas, pintavam a mandíbula superior de branco.

Características

Cultura Sendo os Charruas uma nação de Pampeanos - grande e genérico grupo que habitava, de norte a sul, o Chaco, o Pampa e a Patagônia argentina -, possuíam fisiotipos e cultura material semelhantes aos grupos subétnicos dos antigos Puelches ou Pampas, dos Tehuelches ou Patagônicos, dos Tobas e dos Caduveos. No entanto, por volta do século XV, parecem ter recebido importantes influências culturais guaranis amazônicas, cujo ramo sul (os Chandules) rodeavam ambas as margens do alto Rio da Prata desde seus assentamentos no delta do Paraná.

Diferentes fontes discordam sobre a prática da música entre os Charruas. Enquanto alguns negam sua existência, outros citam seu uso para fins bélicos, com conchas e gritos. Sem dúvida, o caso mais exemplar é o do arco musical feito por Tacuabé na França, que atualmente é conhecido como "arco Tacuabé".

Veneravam a lua, que chamavam de Guidaí e praticavam uma religião animista. Dos Guarani tiraram a crença em Tupã, Gualicho e n'O Maligno.

Eram um povo guerreiro e caçador, porém demonstravam uma acentuada aversão à morte que os levava a cortar uma falange para cada parente morto, além de lacerações autoinfligidas por todo o corpo, tamanha era sua aversão que dentro deste ritual era comum o ferido passar vários dias em uma cova separada da tribo sem comida ou água.

Sociedade e Economia No momento da conquista espanhola seu modo de produção era caçador-coletor, ainda que conseguissem, após o contato com os espanhóis, desenvolver um complexo equestre, e com este, uma rudimentar pecuária composta de equinos e bovinos. Dados ao sistema de produção caçador-coletor, eram nômades, como também o eram quase todos os outros indígenas do Pampa. Por isto, os únicos vestígios materiais de sua civilização são pequenas vasilhas de barro, assim como parte de suas armas típicas, lanças, flechas, boleadeiras. Não eram agricultores. A alimentação era caça e frutos, que foi modificada durante o contato com os espanhóis, passando a preferir a carne de cavalo. Também, após o contato, passaram a cobrir o corpo com uma camisa curta de pele curtida e sem mangas, a qual durante o inverno a usavam com os pelos para o lado de dentro e no verão, com eles para fora. As mulheres usavam uma saia de algodão até os joelhos, porém, não sabiam fiar nem tecer; os panos de algodão que passaram a usar, eram adquiridos dos guaranis.

Como armas usavam o arco e flecha com carcases, boleadeiras, dardo, funda e lança. As flechas tinham as pontas feitas de pedra lascada. Após o contato com os espanhóis, as boleadeiras, que eram atadas com corda de tucum, passaram a ser ligadas com tiras de couro. As tendas Charruas, primitivamente, eram feitas com quatro estacas e esteiras de palha no teto e nas paredes. Após o contato com os espanhóis, passaram a usar largos pedaços de couro e armas dos espanhóis e dos portugueses, como armas de fogo.

Os Charruas não eram pacíficos, tinham uma organização social muito forte centrada em cacicados chefiados por um cacique, um chefe que, embora pertencesse a uma linhagem, tinha que ser eleito e acordado permanentemente pelo grupo, onde os laços interpessoais eram muito importantes, e mantinham poligamia.Es común que se use para todos los pueblos amerindios la palabra arawak taina cacique, pero esta es una generalización incorrecta (lo mismo que la palabra indios); con cacique se suele mezclar a muy diferentes modos de gobierno entre los aborígenes americanos, en el caso de los charrúas (como en otros pámpidos, etc.) la palabra correspondiente en antropología es de jefatura con jefes semihereditarios.

As mulheres cuidavam das tarefas domésticas e dos cavalos. O homem se dedicava à guerra e à caça. Faziam conselhos de família para decidir sobre assuntos de guerra ou outros interesses. Aprenderam a montar com os espanhóis, tornando-se exímios cavaleiros, hábeis na guerra e na caça. Atacavam fazendas, raptavam mulheres, castravam meninos e os levavam como escravos, e matavam os homens adultos, como forma de resistirem a dominação espanhola e tomada de seus territórios. Não praticavam o canibalismo.

Até 22 de março de 1732 concordam com a paz com Montevidéu. O acordo, feito com Juan Antonio de Artigas, reconhecia os direitos e as leis Charruas enquanto estes concordassem em reconhecer a legalidade espanhola,Comisión Nacional Archivo Artigas (op. cit., Vol. 1, p. 600). En "Convenio de Paz con los minuanes por el Alférez Real de Montevideo D. Juan Antonio Artigas del 22 de marzo de 1732" (n.º 10, p. 70). continuaria até a Guerra Guaranítica. Depois da guerra Guaranítica seriam leais a José Artigas e seus tenentes, e posteriormente a Fructuoso Rivera e o Estado Oriental do Uruguai até a batalha de Salsipuedes.

Idioma Ver artigo principal: línguas Charruanas

A própria língua Charrua se extinguiu quase sem ser documentada, segundo Azara era: uma língua muito nasal, gutural e diferente de todas elas. Azara menciona que Yaros, Bohanes, Chanás e Minuanos eram diferentes. A língua dos Yaros e dos Bohanes pode ter sido do grupo Kaingang, pertencente à família linguística Jê. Teodoro Vilardebó compilou dois grupos de palavras Charrua em 1841 e 1842, embora de duas fontes indiretas; seu compêndio, com cerca de 70 palavras é conhecido como Códice Vilardebó.

Quanto ao parentesco das línguas Charrua, com as de outros grupos linguísticos da América do Sul, existem diferentes teorias. Essas línguas foram estudadas por amerindologos como Mauricio Swadesh e Terrence Kaufman. Foi proposto que poderia haver uma relação entre as línguas Charrua e as línguas Arawak (Perea e Alonso, 1937), com as línguas Matacoanas (Ferrario), com as línguas Lule-Vilela (Rona , 1964) e as línguas Guaicuruanas (Suárez, 1974).Las primeras tres propuestas son discutidas por Longacre (1968: 353–4), que encuentra como más convincentes las propuestas de Ferrario a favor de la conexión con las lenguas matacoanas, citado por Censabella (1999: 61)Sušnik (1978: 94) parece decantarse a favor del parentesco con el grupo guaicurú.

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