A Revolução Chinesa é um nome que em geral pode ser dado aos anos finais do Século de humilhação em três fases diferentes, mas ligados na história moderna da China:
Revolução Xinhai de 1911 - 1912 Revolução Nacionalista Chinesa de 1921 - 1928 Revolução Comunista Chinesa de 1931 - 1949
A Revolução Xinhai de 1911 foi liderada (a partir de 1912) por Sun Yat-sen que teve como desfecho a criação da República da China, dando fim a monarquia chinesa, e se encerrou com após a abdicação de Pu Yi do trono Qing em Fevereiro de 1912 e o posterior início da Era dos Senhores da Guerra na China. A fim de encerrar com a era dos senhores da guerra, Sun Yat-sen reorganizou o partido nacionalista e deu início a uma série de campanhas no sul da China. Chiang Kai-shek o sucedeu e reunificou a parte principal da China em 1928. A Revolução Comunista foi um processo que se iniciou de fato em 1931 com a criação da República Soviética da China e se encerrou em 1º de Outubro de 1949 com a proclamação da República Popular da China.
Em uma visão geral e mais ampla, o período de 30 anos (1911 - 1949) foi decisivo para a formação moderna, tanto da China, quanto do povo chinês: a China abandonou definitivamente o feudalismo e o absolutismo que governava a nação há mais de dois mil anos de forma ininterrupta; bem como este período foi marcado pela presença do pensamento tridemista e de sua vertente, o maoísmo, e a resistência contra o Imperialismo, antes da descolonização da maior parte do mundo com a fundação da ONU e o fim da Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, o período desencadeou pelos menos, ao todo, a morte de 16 milhões de chineses, incluindo militares e civis ao longo da Guerra Civil Chinesa, Revolução Comunista Chinesa, Revolução Xinhai, Era dos senhores da guerra, Segunda Guerra Sino-Japonesa e os conflitos externos menores como o Conflito Sino-Soviético de 1929 e a Invasão japonesa da Manchúria em 1931.
Antecedentes
Desde a Primeira Guerra do Ópio, a Dinastia Qing se encontrava instável política e economicamente. Principalmente na viradada século XIX para o século XX, vários movimentos sociais diferentes haviam nascido na China, desde reformistas que desejavam uma monarquia constitucional até revolucionários anarquistas ou republicanos.
thumb|esquerda|250px|As esferas de influência na China.
Com cerca de 400 milhões de habitantes, a China do final do século XIX era um país submetido aos interesses das principais potências imperialistas.
Depois de 1895, a partilha da China entre as potências imperialistas parece inevitável. As grandes potências foram obtendo o controle de pontos estratégicos da China, do litoral e dos portos fluviais, por meio das "concessões territoriais", tornando o país uma semi-colônia. No mesmo ano, entrega a Rússia o território por onde passará a ferrovia Transiberiana, concessão ampliada em 1898, pela entrega do sul da península de Liaotung, com Port Arthur e Talien por 25 anos. À Alemanha (1898) arrenda por 99 anos, a Baía de Kiauchau e entrega o monopólio das minas de Shantung. À França arrenda Kwangchowwan também por 99 anos, e a Grã-Bretanha, por idêntico prazo, Kowloon e Wie-hai-wei. Em todos esses territórios, transformados em verdadeiras colônias, a China renuncia ao exercício de sua soberania.
Reforma dos Cem Dias
Entre 1898 e 1900, ocorreu duas tentativas de recuperação do país. A primeira durante o denominado período dos Cem Dias de Reforma, liderada por Kiang Yu-wei, conhecido como o "Confúcio moderno," cujo programa, adotado pelo Imperador Guangxu, procurou abrir caminho à modernização da China. Promulgou cerca de 70 decretos que compreenderam: reforma do ensino, com a criação de uma Universidade em Pequim e de escolas superiores para a difusão da ciência e da técnica europeia, a criação de um exército nacional, reforma da agricultura e o amparo ao comércio e a indústria, a criação de um departamento oficial de traduções, para a divulgação de obras estrangeiras. A reação dos conservadores, apoiados pela regente Tseu-Hi, culmina com a prisão do imperador, a fuga de Kiang Yu-wei (1898) e a revogação dos decretos reformistas.
Guerra dos Boxers Fracassada a tentativa moderada, os chamados Boxers passam à ação violenta com a Guerra dos Boxers. No contexto marcado por privilégios e humilhações levou inúmeros chineses a organizarem atos de rebeldia. Em 1900, os Boxers, membros de uma sociedade secreta que praticava o boxe sagrado, iniciaram uma revolta nacional contra os estrangeiros. Os nacionalistas chineses, insatisfeitos com a presença estrangeira no país, deram início a uma série de atentados, que acabaram gerando uma guerra. Como método de luta, os revoltosos matavam missionários cristãos, comerciantes e autoridades ocidentais e realizavam atentados contra os bens das companhias estrangeiras que operavam na China. Um exército internacional composto por europeus, norte-americanos e japoneses sufocou a rebelião. Os chineses foram condenados a pagar uma indenização e a permitir a presença de tropas estrangeiras no país.
Revolução de 1911
thumb|esquerda|200px|Sun Yat-sen, primeiro presidente da República da China e fundador do Kuomintang.
O médico Sun Yat-sen, que criaria em 1905 na cidade de Hong-Kong, a Sociedade para a Regeneração Chinesa, de orientação republicana, socialista e revolucionária, foi um dos mais importantes líderes revolucionários Anti-qing a época. Através do apoio de chineses fora da China, antigos participantes da Reforma dos Cem Dias, políticos liberais, estudantes e militares, inspirados pelos Três Princípios do Povo desenvolvidos por Sun Yat-sen que buscava uma ampla mobilização popular através de um discurso de teor nacionalista e anticapitalista, suas exigências eram a queda da dinastia Qing e a expulsão imediata de todos os estrangeiros que se apossavam das riquezas do país além de reformas sociais como a redistribuição de terras e equalização da propiedade.
Os acontecimentos que levaram à queda da dinastia Qing, a chamada Revolução de Xinhai, desenvolveram-se entre 10 de outubro de 1911, data em que se iniciou Revolta de Wuchang. Rapidamente, conseguindo o apoio político de outras províncias, eclodiram-se diversas revoltas ao longo do país. Em 12 de fevereiro de 1912, quando o último imperador, Puyi, abdicou definitivamente, Sun, que estava em exilio, é proclamado Presidente (provisório) da República da China, com sede em Nanquim, em novembro de 1911. Apesar da queda imperial, monarquistas, incluindo o antigo Primeiro-Ministro da dinastia Qing, Yuan Shikai, continuaram combatendo e lutando contra as forças nacionalistas do recém-fundado Kuomintang. Para evitar que a guerra continuasse, Sun negociou com Yuan o cargo de presidente provisório, cargo que Yuan acabou assumindo oficialmente após as Eleições Gerais de 1913 e o assassinato de Song Jiaoren.
Consequências thumbnail|direita|200px|Yuan Shikai.
Yuan Shikai, confirmado presidente em 1913, contra a vontade de Sun Yat-sen e do Kuomintang, dissolve o parlamento e rompe com a constituição chinesa, dando início a chamada Segunda Revolução e a Guerra de Proteção Nacional.
Durante a Primeira Guerra Mundial, os problemas da China se agravaram. Em 1914, o Japão declara guerra à Alemanha e viola a neutralidade da China. Em 1915, apresenta as "Vinte e Uma Exigências" que, embora apenas parcialmente aceitas por Pequim, desmoralizam o governo, que julga propicia a hora para restaurar o Império. De dezembro de 1915 a março de 1916, Yuan Shikai ostenta o título de Imperador, mas, diante da forte oposição, é obrigado a abandonar o trono, porém conserva o cargo de presidente até sua morte em junho de 1916.
Entretanto, um golpe militar em Cantão faz com que Sun Yat-sen exercesse novamente a presidência. Mas a situação do governo central estava muito deteriorada, visto que, o governo de Sun não controlava mais do que uma porção reduzida do território. O controle das outras regiões deslocou-se para as tradicionais elites rurais, que se agrupavam em torno de chefes militares. Várias províncias reivindicavam autonomia, e determinados territórios foram retalhados em "feudos" independentes. Os chefes militares locais (os chamados "senhores da guerra") lutavam constantemente entre si e impunham todo tipo de arbitrariedades ao povo, como impostos e paralisação de colheitas e trabalhos públicos.
thumb|esquerda|270px|Estudantes reunidos em Pequim durante o Movimento Quatro de Maio.
Em 1917, a China declara guerra à Alemanha na esperança de contar com a colaboração das potências imperialistas no período pós-guerra para que renunciassem às suas esferas de influências no país, que as tropas estrangeiras fossem retiradas, e que lhes fossem devolvidas as concessões e territórios arrendados. No entanto, a Paz de Versalhes lhe é desfavorável, pois as demandas chinesas para por fim ao estatuto semicolonial em que a China se encontrava não foram aceitas; o que provoca violenta agitação em todo o país, e a recusa do tratado. O Movimento do Quatro de Maio, antiimperialista e antifeudal, com o qual o proletariado chinês passa a aparecer no movimento político do país, possibilitou a propagação do marxismo-leninismo e sua combinação com a prática da revolução chinesa, preparando a ideologia e os dirigentes para a fundação do Partido Comunista da China.
Em 1922, os Tratados das Nove Potências asseguravam reconhecer a integridade territorial da China, que, em troca, deveria manter a política de portas abertas. Internamente, a nação sofre, depois de 1920, os efeitos da guerra civil, dirigida pelos "senhores da guerra," que possuíam enorme poder nas províncias e controlavam, juntamente com outros grandes proprietários de terra, cerca de 88% das áreas produtivas. Em 1924, Sun Yat-sen reorganiza o Kuomintang, e nesse ano, Chiang Kai-shek, no comando da Academia Militar de Whampoa prepara, com a colaboração de oficiais alemães e soviéticos, o Exército Nacional Revolucionário.
Revolução de 1949
A Primeira Frente Unida e o Massacre de Xangai
O Movimento de 4 de Maio de 1919 e a relevância politica das revoluções promovidas pelo Kuomintang, influenciou na criação do Partido Comunista Chinês (PCCh), cujos principais fundadores foram o intelectual Chen Duxiu, o educador Peng-Pai e o ativista político Mao Tse-tung.
Em 1924, Sun Yat-sen, estabelecido em um governo paralelo no sul da China, começou a cooperar ativamente com o Partido Comunista, formando a Primeira Frente Unida, organizando as massas operárias e camponesas para a Expedição do Norte. Após o falecimento de Sun Yat-sen, o 2º Congresso Nacional do Kuomintang apontou Chiang Kai-shek como líder, que passou, com Chiang Kai-shek como representante, passa a controlar o Partido Nacional do Povo. Disposto a submeter os chefes militares locais e impor-se ao país todo, Chiang Kai-shek contou com a colaboração dos comunistas em suas campanhas militares de reunificação da China, empreendidas entre 1925 e 1928. O apoio do Kuomintang era uma orientação da Internacional Comunista, que havia aclamado Chiang Kai-shek como um de seus dirigentes honorários – apesar do anticomunismo do líder chinês. O PCC aceitou disciplinadamente essa decisão. No entanto, o PCC apresentava algumas divisões internas. Alguns achavam que a revolução seria feita a partir das cidades, tendo como núcleo a classe operária. Por sua vez, Mao Tse-tung e outros dirigentes consideravam que a revolução deveria partir dos camponeses, maioria absoluta da população.
thumb|O Generalíssimo Chiang Kai-shek em março de 1945.