Mairatã, Mairatá ou Mair-atã (do tupi antigo Mair-atã, "Mair-forte" ou "Maíra-forte"NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p 254.) é uma entidade mitológica dos povos tupis,FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 066. um herói civilizador da antiga linhagem dos Maíras.MÉTRAUX, Alfred. A religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribus Tupi-Guaranis. Tradução de Estevão Pinto. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950. 412 p. (Brasiliana, v. 267).
Mair-atã é neto de Mair-poxi (ou Maíre-pochy, de Mair-poxy, "Maíra-feio", "Maíra-ruim" ou "Maíra-mau") e, como os demais profetas da sua linhagem, é dotado de poderes sobre-humanos. Ele ensinou técnicas culturais, organizou a vida humana, roubou o fogo dos urubus (façanha atribuída em outras versões a outros heróis), introduziu o cultivo da mandioca (em outra versão atribuída a Sumé, também da linhagem dos Maíras) e inaugurou a ordem social.
Este é a quem os tupis, antigos e modernos, costumam chamar apenas de “Mair” ou “Maíra”, o profeta por excelência, por ser ele o mais reverenciado (às vezes são também atribuídas a ele façanhas de outros Maíras, como se todos se aglutinassem numa só entidade, ou como se todas fossem desdobramentos de uma só), e é o pai dos gêmeos míticos Sol (Korahi ou Quaraci, nascido Mairaíra) e Lua (Sahi ou Jaci, nascido Mucuraíra). Ele mora isolado no Ikaiwéra ou Ikaiwára, lugar inacessível aos mortais a oeste das antigas sedes dos tembés, além das cabeceiras do Gurupi e do Pindaré (oeste do Maranhão, próximo às divisas com Pará e Tocantins).NIMUENDAJÚ, Curt; WELPER, Elena (tradução). Mitos Tembé coletados por Curt Nimuendajú. In: Martius-Staden-Jahrbuch. Editores: Eckhard E. Kupfer et al. São Leopoldo: Oikos, n. 63 (2020), p. 298-338
Em sua missão civilizadora pelo mundo, ele encontrou homens entre ingratos e incrédulos, então, sentindo-se só (uma característica comum aos Maíras), criou do tronco de uma árvore uma mulher para ser sua companheira que, após engravidar, não conseguiu acompanhá-lo em sua jornada, ficando para trás. Guiada pelo filho em seu ventre, chamado Mairaíra (ou Mair-aíra, Mair-a'yra, "Mair-filho", "filho de Maíra"), ela primeiro parou na casa de Mucura (“Gambá”), que também a engravidou, gerando Mucuraíra (ou Mucur-aíra, Mykur-a'yra, "Mucura-filho", “filho de Mucura”, “filho do Gambá”), e depois na casa dos jaguares, que a devoraram. Os bebês, devido aos poderes divinos de Mairaíra, se salvaram e foram criados pela Avó Jaguar (em outra versão eles foram jogados no lixo e recolhidos por uma mulher, que os criou), mas, crescidos, souberam pela fala de um jacu que sua família adotiva (os jaguares) matou sua verdadeira mãe. Matando-os em vingança, os rapazes seguiram em busca do pai Mairatã, que só os reconheceu após uma série de desafios, completando a separação entre natureza e cultura.
Após os desafios, Mairaíra e Mucuraíra voltaram para Mairatã, ou simplesmente Maíra, e Mairaíra desafiou o pai para uma competição de tiro ao alvo. Tomou do arco e atirou uma flecha num rochedo; a flecha penetrou profundamente na pedra e aí permaneceu. Depois mandou que Mucuraíra fosse buscar a flecha e atirou mais uma vez, com o mesmo êxito. Maíra tentou fazer o mesmo que seu filho mas, todas as vezes que atirou, a flecha resvalou pela pedra e se perdeu. Superando o pai, Mairaíra e Mucuraíra se despediram e foram embora para nunca mais voltar. Eles foram então elevados ao céu, respectivamente, como Quaraci, o Sol, e Jaci, a Lua.
Ver também Maíra (mitologia) Mitologia tupi-guarani
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