O Ilê Aiyê, ou Ilê, é o primeiro bloco afro do Brasil e se consolidou como uma das expressões culturais do Carnaval de Salvador.

Fundado em 1974 por moradores do bairro do Curuzu, constitui um grupo cultural que promove a expansão da cultura de origem africana no Brasil. A expressão significa, em língua iorubá, Mundo negro ou Casa de negro ou ainda Casa da Terra.

História O Ilê Aiyê foi fundado em 1 de novembro de 1974 por Antônio Carlos dos Santos e Apolônio de Jesus no bairro do Curuzu, com a proposta de ser um bloco negro. Sua primeira apresentação ocorreu no carnaval de 1975, tendo participação de menos de cem pessoas. Nela o grupo apresentou a música Que Bloco é Esse, de Paulinho Camafeu:

A história do Ilê Aiyê mistura-se à história do terreiro Ilê Axé Jitolu e sua responsável, a Ialorixá Mãe Hilda. Por aproximadamente 20 anos, o terreiro serviu ao bloco como diretoria, secretaria, salão de costura e recepção de associados. No Carnaval, o bairro do Curuzu é palco de um ato cultural-religioso, a bênção para a saída do bloco.

O surgimento do grupo evidenciou a fragilidade do conceito de democracia racial, provocando críticas como a do jornal A Tarde, que em 12 de fevereiro de 1975 tinha como manchete: "Bloco Racista, Nota Destoante". Inicialmente seus fundadores pretendiam nomeá-lo "Poder Negro". Entretanto, a Polícia Federal da Bahia impediu o registro do bloco com este nome alegando conotações negativas e "alienígenas". Além disso, à época, a imprensa baiana apoiou e incentivou a proibição acusando o movimento de formação do bloco de ter "inconcebíveis intenções subversivas" por pretender vincular a situação do negro brasileiro à do negro americano.

Atualmente o bloco mantém uma associação cultural com cerca de 3 mil associados, sendo considerado um patrimônio da cultura baiana, marco no processo de reafricanização do Carnaval da Bahia. Caracteriza-se também como uma entidade de militância negra, contando com ações de valorização da cultura e de combate ao racismo.

Com vários discos gravados, o Ilê Aiyê excursiona freqüentemente ao exterior. O projeto cultural mantém escolas para crianças carentes em Salvador. Entre os maiores sucessos do bloco estão "Que Bloco É Esse", "Depois que o Ilê Passar", "Charme da Liberdade", "Viva o Rei", "Décima Quinta Sinfonia", "Exclusão", "Deusa do Ébano".

O objetivo da entidade é preservar, valorizar e expandir a cultura afro-brasileira.

Rituais

A Bênção e o Ritual de Saída do Ilê Aiyê A celebração, que mescla elementos culturais e religiosos, inicia-se com uma orquestra de percussão e um coral negro, entoando cânticos e ritmos ancestrais. Até 2009, a liderança desse ritual era exercida por Mãe Hilda, ialorixá e figura central na história do Ilê Aiyê. Mãe Hilda, com a sua sabedoria e fé, conduzia a oferenda de milho branco cozido e pipoca, alimentos sagrados para Oxalá, orixá da paz, e Obaluaê, orixá da saúde.

Após a partida de Mãe Hilda, sua filha e sucessora, Hildelice Benta dos Santos, carinhosamente conhecida como Doné Hildelice, assumiu a responsabilidade de manter viva a tradição. Doné, termo do candomblé jeje para sacerdotisa, preserva com zelo cada detalhe do evento, garantindo a continuidade desse marco cultural de Salvador.

O ponto culminante do ritual é a revoada de pombas brancas, um símbolo de paz e pureza, que anuncia a saída da Deusa do Ébano, a representante da beleza negra escolhida pelo Ilê Aiyê. A partir desse momento, o bloco inicia seu desfile pela ladeira do Curuzu, contagiando o público com sua música, dança e ancestralidade. O ritual de saída do Ilê Aiyê no Curuzu transcende a mera celebração carnavalesca, representando um ato de resistência cultural e religiosa. A tradição, transmitida de geração em geração, fortalece os laços da comunidade afro-brasileira com suas raízes africanas, preservando a memória e a identidade de um povo.

Deusa do Ébano Das majestades que o bloco desperta, tem uma que é divindade: a Deusa do Ébano. Eleita durante a Noite da Beleza Negra, uma festa que ocorre desde 1979 e foi idealizada por um dos frequentadores do bloco, Sérgio Roberto dos Santos, a partir dos concursos tradicionais de Rainhas do Carnaval. Nos anos anteriores, de 1976 a 1978, antes de a festa ter nome, o concurso elegeu três rainhas. A primeira escolhida, em 1976, foi Mirinha, (Maria de Lourdes Cruz – Salvador, 1958).

A festa subverte a proposta dos concursos de beleza tradicionais, tornando-se um evento de celebração da raça negra. Em sua dimensão política e estética, o concurso é um exercício de autovalorização e de decomposição dos discursos racistas, a partir do reconhecimento da beleza negra. Não se usam padrões de idade ou de medidas para definir a vencedora. O que faz valer a vitória é a força da "deusa" em envolver a plateia e os jurados com sua simpatia e performance.

O espetáculo ocorre antes do Carnaval e é aberto por um cortejo coreografado, com figurinos e adereços da diretora artística e estilista do bloco, Dete Lima. Desse cortejo, em 1985, nasceu o Grupo de Dança do Ilê Aiyê. A programação da noite segue com a apresentação das candidatas – com roupas do Ilê e fantasias individuais. Quando a vencedora é escolhida, ocorre a passagem do manto da deusa eleita no ano anterior.

A eleita é destaque nas saídas do bloco no Carnaval e participa de todas as suas atividades durante o ano. É consenso que o concurso tem como resultado a consciência de pertencimento étnico-racial e suas reverberações no campo político. São mulheres conscientes de sua dimensão social.

Discografia Álbuns de estúdio Ano Álbum 1984 Canto Negro I 1989Canto Negro II 1996 Canto Negro III 1998 Ilê Aiyê 25 Anos 2015 Bonito de se ver

Ver também Bairro da Liberdade em Salvador

Ligações externas

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