thumb|250px|Pintura de 1870 de Édouard Detaille retratando um soldado de elite do 12.º regimento de dragões do exército francês
Originalmente, um dragão era um tipo de soldado que se caraterizava por se deslocar a cavalo mas combater a pé. Inicialmente e até meados do , as unidades de dragões constituíam, assim, uma espécie de infantaria montada. Contudo, posteriormente, os dragões transformaram-se, passando de infantaria montada a tropas de genuína cavalaria. Hoje em dia, a designação "dragões" é mantida como título honorífico de algumas unidades cerimoniais ou blindadas de diversos exércitos.
História thumb|esquerda|200px|Soldado do 5.º Regimento de Dragões do Exército do Eleitorado de Hanôver no
Talvez o antepassado mais remoto do que viria a ser o dragão tenha sido o dímaco (dimakhēs em grego) da antiga Macedónia. O dímaco era um tipo de soldado de cavalaria pesada que também lutava a pé quando era necessário.
O termo "dragão" — como designação de um tipo de soldado — terá aparecido em meados do para se referir aos membros do corpo de arcabuzeiros que combatiam a pé e se deslocavam a cavalo, criados em 1554 pelo marechal de França Carlos 1.º de Cossé, conde de Brissac para servir no Exército do Piemonte. A origem do termo é, contudo, incerta, pensando-se que se pode referir aos supostos dragões contidos nos estandartes das tropas do conde de Brissac ou a uma espécie arcabuz curto ou carabina usada pelas mesmas e que era então chamada "dragão". Também é referida ocasionalmente a hipótese do termo se ter originado do fato de um soldado de infantaria a galope — com a sua casaca solta e a mecha a arder ao vento — se parecer com um dragão.CARMAN, W. Y., A Dictionary of Military Uniform
Quando, no início do , o Rei Gustavo II Adolfo da Suécia introduziu os dragões no seu Exército, dotou-os de um conjunto multifuncional de armas que incluía um sabre, um machado e um mosquete. Este modelo de armamento para os dragões foi a seguir imitado por muitos dos restantes exércitos da Europa.
Estas primeiras tropas de dragões não eram ainda consideradas parte da cavalaria, mas sim infantaria montada. Assim, as unidades de dragões mantinham os atributos e caraterísticas da infantaria, por exemplo usando tambores em vez dos clarins e trombetas típicos da cavalaria e sendo enquadradas por oficiais de infantaria. Nesta época, os dragões eram usados para uma série de missões militares que incluíam o estabelecimento de piquetes e postos avançados, a defesa de pontes ou desfiladeiros na vanguarda ou retaguarda do corpo principal do exército e a disponibilização de mosqueteiros desmontados para apoio à cavalaria de linha. Por outro lado, a flexibilidade que os dragões tinham como infantaria montada tornava-os na arma ideal para servir como uma espécie de gendarmaria em missões de segurança interna, incluindo a perseguição de contrabandistas, o patrulhamento das estradas e a repressão de desordens públicas. Sendo providos de cavalos de qualidade inferior e de equipamento mais básico, os regimentos de dragões eram muito mais fáceis de levantar e manter que as dispendiosas unidades de cavalaria de linha.YOUNG, Peter, HOLMES, Richard, The English Civil War miniaturadaimagem|O Marquês de Alorna, usando o capacete típico dos dragões do final do século XVIII. Portugal, 1800. Em 1762, o exército francês introduziu um novo uniforme para os seus regimentos de dragões, substituindo o chapéu tricórnio por um capacete de metal com crista (capacete de dragão), baseado nos capacetes clássicos da Grécia e Roma Antigas. Era feito de aço com uma crista de latão dourado e tinha uma faixa em volta imitando pele de pantera e uma crina de cavalo ou pluma negra, presa na crista. Este capacete foi logo adotado por vários países europeus e, no final do século, acabou evoluindo para formatos diferentes.
Contudo, os dragões estavam em desvantagem quando enfrentavam a genuína cavalaria. Assim, procuraram sempre obter melhores condições em termos de equitação, armamento e estatuto social. Na transição do para o XIX, na maioria dos exércitos europeus, os dragões tinham evoluído já de tropas de infantaria montada para verdadeiras tropas cavalaria. Nesta altura, as antigas missões de exploração e funções de piquete anteriormente atribuídas aos dragões tinham sido já assumidas pelos hussardos, caçadores a cavalo e outras unidades de cavalaria ligeira em exércitos como os da Áustria, França e Prússia. Os exércitos de Espanha e Portugal chegam mesmo a abolir os dragões transformando-os em regimentos de cavalaria de linha. Inversamente, com o objetivo de reduzir os seus gastos militares, o Exército Britânico transforma todos os seus regimentos de cavalaria em unidades de dragões, que no entanto desempenham funções de cavalaria de linha. Uma exceção foi o Exército da Rússia, onde — devido à existência dos cossacos — os dragões mantiveram as suas missões originais até mais tarde do que a generalidade dos restantes exércitos.
Durante as Guerras Napoleónicas, os dragões assumiram geralmente uma função de cavalaria média, intermédia entre os couraceiros (cavalaria pesada) e a cavalaria ligeira. Os dragões montavam cavalos maiores que os da cavalaria ligeira e estavam armados com espadas direitas em vez dos sabres curvos daquela. O Imperador Napoleão formava frequentemente divisões completas de dragões com os seus 20 ou 30 regimentos daquele tipo, usando-as como cavalaria de choque para quebrar a resistência do inimigo. Em 1809, os dragões franceses obtiveram sucessos notáveis contra o Exército Espanhol nas batalhas de Ocana e de Alba de Tormes. Por seu lado, os dragões pesados britânicos executaram cargas devastadoras contra a infantaria francesa nas batalhas de Salamanca em 1812 e de Waterloo em 1815.McNAB, Chris (Editor), Armies of the Napoleonic Wars, Osprey Publishing
thumb|350px|Dragões do Exército Francês escoltando prisioneiros alemães no início da Primeira Guerra Mundial, no
Em 1914, ainda existiam regimentos de dragões nos exércitos Alemão, Austro-Húngaro, Britânico, Dinamarquês, Espanhol, Francês, Norueguês, Peruano, Russo e Sueco. Os seus uniformes variavam consideravelmente, faltando-lhe as caraterísticas específicas dos uniformes dos regimentos de hussardos ou de lanceiros. Ocasionalmente, ainda recordavam as suas origens como infantaria montada. Assim, os regimentos de dragões alemães usavam o mesmo modelo de pickelhaube (capacete de espigão) da infantaria e os dragões britânicos usavam fardas escarlates (em contraste com as restantes unidades de cavalaria que usavam fardas azuis). Contudo, em todos os restantes aspetos, os dragões tinham já adoptado as mesmas táticas, funções e equipamento dos restantes ramos da cavalaria, sendo a sua distinção um título meramente tradicional.
Provavelmente, a última utilização de genuínos dragões (montados a cavalo) em combate foi feita pelo Exército Português na guerra em Angola, durante a década de 1960 e o início da década de 1970. Em 1966, os Portugueses criaram um pelotão experimental a cavalo, para operar contra a guerrilha na região de capim elevado do Leste de Angola, onde cada soldado estava armado com uma espingarda automática G3 para combater a pé e uma pistola para disparar a cavalo. As tropas a cavalo podiam aceder a terrenos difíceis (inacessíveis a veículos motorizados) e tinham a vantagem de ter uma visão desimpedida sobre o capim para controlar todo o terreno em redor (que as tropas apeadas não dispunham). Além disso, tropas tão pouco convencionais como estas criavam uma impacto psicológico sobre o inimigo, o qual não estava preparado para lidar e enfrentar tropas a cavalo. O sucesso obtido pelo pelotão experimental, levou a que a totalidade da unidade de origem fosse transformada de um grupo de reconhecimento blindado num grupo de três esquadrões a cavalo conhecido como "Dragões de Angola". Uma das típicas operações levadas da cabo pelos Dragões de Angola — cooperação com forças helitransportadas — consistia em os dragões perseguirem e empurrarem os guerrilheiros numa dada direção, sendo as tropas helitransportadas lançadas na retaguarda, cortando o caminho de fuga do inimigo.CANN, Jonh P., Contra-insurreição em África - o modo português de fazer a guerra, Lisboa: Atena, 1998
Dragões em vários países e regiões Brasil miniaturadaimagem|338x338px|Soldado do regimento dos dragões. Brasil década de 1770. Pintura de Carlos Julião.|alt= Durante o período colonial, os dragões constituíram um dos mais prestigiados tipos de tropas no Brasil, desempenhando tanto missões militares de defesa externa como missões de segurança interna.
Em 1719, chegam a Minas Gerais duas companhias de dragões enviadas de Lisboa, que fora constituir os famosos Dragões Reais de Minas. A sua missão principal era a da garantia da segurança dos distritos mineradores e seus caminhos, funcionando como uma espécie de polícia militar montada. O batismo de fogo se deu em janeiro de 1720 em Pitangui (MG) quando ajudaram a debelar o motim promovido pelo revoltoso Domingos Rodrigues do Prado (Feu de Carvalho — Ocorrências em Pitangui). Em 1729, chega da Metrópole Portuguesa, uma terceira companhia de dragões, que acaba por ser enviada para participar nas operações militares de defesa do Sul do Brasil. Esta companhia — acrescida de oficiais dragões adicionais vindos diretamente da Metrópole — deveria ser o núcleo de um regimento de dragões a ser formado na Colônia do Sacramento. Esse regimento irá ser formado em 1736, mas como Regimento de Dragões do Rio Pardo. Com base em efetivos dos Dragões Reais de Minas são também criadas as companhias de dragões de Cuiabá e de Goiás.
Em 1765, as unidades de dragões servem também como modelo e núcleo para a constituição do Esquadrão de Cavalaria da Guarda do Vice-Rei no Rio de Janeiro. No entanto, esta unidade é classificada como de cavalaria ligeira e não de dragões.
Para além das unidades de dragões de 1.ª linha, são, ainda, criadas diversas unidades de dragões auxiliares nas milícias das várias capitanias brasileiras.
Mais tarde, na sequência da ocupação portuguesa da Cisplatina, são, ainda, criados os regimentos de dragões de Montevidéu e da União (em Paysandú).
Os dragões são extintos na sequência da Independência do Brasil e da reorganização do novo Exército Brasileiro em 1825. Os antigos dragões de Minas, do Rio Pardo, de Montevidéu e da União tornam-se, respectivamente, o 2.º, 5.º, 6.º e 7.º regimentos de cavalaria de 1.ª linha. O antigo Esquadrão de Cavalaria da Guarda do Vice-Rei — que já havia sido transformado em 1.º Regimento de Cavalaria do Exército por dom João VI em 1808 — torna-se o 1.º Regimento de Cavalaria de 1.ª Linha.Manual de Campanha - Emprego da Cavalaria, Brasília: Exército Brasileiro, 1999
Com a Independência, é criada também a Imperial Guarda de Honra dos Mosqueteiros de .
Em 1916, o deputado federal e historiador Gustavo Barroso iniciou uma ação no sentido de exaltar as tradições militares do Brasil. Após uma análise da cronologia do 1.º Regimento de Cavalaria, apresentou em 1917, à Câmara dos Deputados, um projeto de lei de sua autoria, solicitando permissão para resgatar as tradições do regimento. O Senado Federal conferiu aprovação final ao projeto de lei no ano de 1927, tendo o uniforme histórico da Imperial Guarda de Honra voltado a ser envergado pela Unidade no desfile de comemoração do 7 de setembro daquele mesmo ano.
Para a confecção dos uniformes em 1927 foram tirados moldes de peças autênticas pertencentes a antigos oficiais da Imperial Guarda de Honra no acervo do Museu Histórico Nacional, como as do barão de Sabará, tendo se recorrido à estampa de Jean-Baptiste Debret, que foi devidamente estudada e interpretada. O uniforme em branco e vermelho, com capacetes de bronze com plumas, tem influência das cores dos dragões austríacos, homenagem também a Imperatriz Leopoldina. A cor das plumas varia de acordo com o posto e a arma utilizada são lanças.Página do Dragões da Independência