Pedro Weingärtner (Porto Alegre, – Porto Alegre, ) foi um pintor, desenhista e gravurista brasileiro.

Filho de imigrantes alemães, provavelmente foi introduzido na arte por seu pai, que era um desenhista diletante. Com 24 anos decidiu dedicar-se à pintura e foi estudar na Europa às suas próprias custas. Depois de algum tempo passou a ser financiado pelo imperador Dom Pedro II. Permaneceu vários anos frequentando academias famosas e recebendo orientação de distinguidos professores. Depois de terminada sua preparação instalou um atelier em Roma, mas viajava com freqüência para o Brasil, onde fez muitas exposições e conheceu a fama, sendo considerado um dos melhores pintores brasileiros em atividade. Nos seus últimos anos fixou-se em Porto Alegre, mas passou a enfrentar a concorrência dos pintores da nova geração, inclinados para a estética modernista.

Viveu num período de profundas transformações na sociedade e na cultura do ocidente, em que se chocaram dois modelos radicalmente diversos de civilização. Foi um fiel e disciplinado seguidor dos princípios acadêmicos mais conservadores, mas não permaneceu alheio ao mundo em mutação ao seu redor, e sua obra vasta e polimorfa é um sensível reflexo das contradições de seu tempo. Seu estilo funde elementos neoclássicos, românticos, naturalistas e realistas, expresso em paisagens, cenas de gênero e retratos, dedicando-se também aos temas clássicos e mitológicos. Sua contribuição mais notável à arte brasileira talvez sejam suas pinturas de inspiração regionalista, retratando imigrantes e gaúchos em suas atividades típicas, que têm grande valor estético e documental, sendo um pioneiro neste campo temático. Era dono de uma técnica refinada que dava grande atenção ao detalhe, e que em certos momentos se aproximou da fidelidade fotográfica. Deixou também vários trabalhos em gravura em metal, outro campo em que foi um precursor no Brasil.

Quando faleceu, as vanguardas modernistas já o consideravam um artista ultrapassado, e com a hegemonia que rapidamente conquistaram sua produção foi esquecida com a mesma celeridade. Somente nas últimas décadas vem recuperando prestígio. No Rio Grande do Sul sua posição já está assegurada como o mais notável dos seus pintores acadêmicos e como uma figura fundamental para o entendimento da evolução das artes no estado na virada do século XIX para o século XX, e embora tenha trabalhos em inúmeras coleções privadas e em grandes museus do Brasil, o que se conhece de sua vida e obra ainda é em muito fragmentário e desconexo. Vários pesquisadores, especialmente gaúchos, atualmente estão se dedicando a remediar esta situação, e sua reputação começa a se restabelecer no resto do país, mas muito ainda está por fazer para que sua contribuição seja corretamente entendida e apreciada.

Vida Primeiros anos Era filho dos imigrantes alemães Inácio Weingärtner e Angélica Schäfer. Seu pai apreciava a arte e desenhava amadoristicamente, transmitindo seu gosto para seus cinco filhos e duas filhas. Seus irmãos Inácio Junior, Miguel e Jacob levariam a arte a sério e se dedicariam à litografia, e com toda probabilidade Pedro foi iniciado nas artes gráficas por Inácio Junior, que era oito anos mais velho e fora aluno de um respeitado litógrafo alemão domiciliado em Porto Alegre, Augusto Lanzac von Chanac, mantendo mais tarde uma oficina gráfica própria que ganhou fama na cidade produzindo todo tipo de ilustração e impresso, incluindo retratos e paisagens urbanas. Walter Spalding referiu, a partir de informações transmitidas pela viúva do pintor, que ele teria recebido lições de desenho de Araújo Guerra, hábil caricaturista português, mas isso parece improvável, já que só constam registros de sua presença na cidade a partir de 1880. Aquiles Porto Alegre disse que Pedro frequentou o ateliê do pintor Delfim da Câmara, embora não se saiba se era um aprendiz ou mero visitante.Guido, Angelo. Pedro Weingärtner. Divisão de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio Grande do Sul, 1956, pp. 12-16Damasceno, Athos. Artes Plásticas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora Globo, 1971, pp. 196-216

Depois da morte do pai, em 1867, Weingärtner teve que buscar emprego para auxiliar a família numerosa. Conseguiu uma colocação na Ferragem Rech, e por sua dedicação ganhou a confiança do patrão e passou a receber um ótimo salário, mas a jornada era longa e não lhe permitia praticar suas habilidades artísticas senão à noite, em poucas horas que roubava ao sono. Angelo Guido, seu primeiro e principal biógrafo, afirmou que ele detestava o trabalho e por isso, em 1877, chegou a adoecer gravemente. Mudando-se para o campo, sob os cuidados da família, alarmada com sua condição, em poucos meses estava restabelecido, tendo passado todo este tempo entregue a desenhar e a pintar. Mais tarde ele reconheceria que a doença fora providencial, permitindo-lhe reconhecer inequivocamente sua verdadeira vocação.Guido, pp. 17-19

Estudos na Europa

Assim, em 12 de fevereiro de 1878, reunindo suas economias e enfrentando forte resistência familiar, Weingärtner partiu para a Europa, a fim de obter formação acadêmica no Liceu de Artes e Ofícios de Hamburgo. Mas não permaneceu ali, dirigindo-se em outubro do mesmo ano para Karlsruhe, a fim de ingressar na Academia Grão-ducal de Arte de Baden, na época dirigida por Ferdinand Keller. Nesta conceituada escola estudou com Theodor Poeckh e também possivelmente com Ernst Hildebrand, e deve ter recebido influência do próprio Keller. Segundo um atestado de frequência emitido pela escola, ele fez "muitos progressos".Guido, pp. 19-21

Com a transferência de Hildebrand para Berlim em 1880, Weingärtner abandonou a escola e o seguiu, matriculando-se em 12 de outubro na Real Academia de Artes da Prússia, onde iniciou seu treinamento na pintura a óleo. Datam desta época suas primeiras paisagens, e seus avanços já eram significativos o bastante para poder enviar alguns trabalhos para a Exposição Brasileira-Alemã de Porto Alegre. A influência de seus mestres alemães se revela no seu amor pelo detalhe, pela obra diminuta e pela dedicação à pintura de gênero então em voga, com um estilo realista e suas temáticas poéticas e sentimentais do cotidiano popular. Outros pintores que podem ter deixado uma marca em sua produção foram os românticos alemães do início do século, como Ludwig Richter e Ferdinand Waldmüller, e contemporâneos seus como Hans Thoma, Karl von Piloty, Franz von Defregger, Max Liebermann e Emil Schindler.Guido, pp. 21-30

Nesta altura sua situação financeira começou a se tornar difícil, suas economias se esgotavam, e aparentemente a família não tinha condições de ampará-lo. Sem poder sustentar-se, decidira arranjar emprego como fotógrafo e abandonar a pintura. A situação foi revertida temporariamente através de uma pequena pensão oferecida por seus amigos brasileiros Martin Bromberg, Jacob Koch e Bartolomeu Sesiani, ricos comerciantes em viagem turística que ele encontrou por acaso, podendo com este auxílio continuar seus estudos.Guido, pp. 23-25

Em 1882 se dirigiu a Paris, na França, onde estudou na Academia Julian com Tony Robert-Fleury e William Adolphe Bouguereau, artistas de enorme fama que permaneciam fiéis à tradição acadêmica em plena efervescência do surgimento das vanguardas pré-modernistas, como o impressionismo. Em Paris disciplinou-se no estudo do nu, um motivo muito prezado pelo público francês e considerado obrigatório para que um artista demonstrasse sua competência, e entrou em contato mais profundo com a tradição clássica, o que se refletiu em obras de caráter historicista inspiradas em temas da Antiguidade.Guido, pp. 31-32 Também ali deve ter sido introduzido na técnica da gravura em metal.Bohns, Neiva Maria Fonseca. "Realidades simultâneas: Contextualização histórica da obra de Pedro Weingärtner". 19&20, Rio de Janeiro, v. III, n. 2, abr. 2008

Em 1883, novamente na penúria, foi obrigado a abandonar a Academia Julian. Para poder completar sua formação, em 13 de abril solicitou uma pensão ao imperador Dom Pedro II, a qual, por intervenção do Barão de Itajubá, embaixador brasileiro em Paris, reforçada com um atestado de proficiência que Bouguereau forneceu, lhe foi concedida em janeiro do ano seguinte, ao valor de trezentos francos.Guido, pp. 31-35

Maturidade e fama thumb|300px|Má colheita, 1889. Coleção particular thumb|300px|Bailarinas, 1896. Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

Em 1884 participou de seu primeiro salão da Academia Imperial de Belas Artes, na cidade do Rio de Janeiro, para onde enviou dois retratos, um do frei Caetano de Troyana e outro do kaiser Guilherme I, bem como cinco estudos de cabeças realizados ainda em Berlim, os quais, se não lhe granjearam muita notoriedade, pelo menos justificaram sua pensão aos olhos do governo brasileiro.

No ano seguinte excursionou pelo Tirol, fixando-se em Mayrhofen, onde a título de experiência executou obras inspiradas no impressionismo com tipos e paisagens locais, mas por fim optou deliberadamente por seguir sua índole acadêmica, acentuando-se o caráter realista de suas composições. Depois visitou Munique, na época o mais dinâmico centro da cultura alemã, onde teve aulas com Karl von Piloty. A viagem não foi longa, devido a exigências nos termos de seu contrato de pensão, e em 1886 seguiu para Roma, onde abriu em 1887 um ateliê na Villa Strohl-fern, um palacete com cem ateliês de aluguel que foram frequentados por muitos artistas que se tornariam famosos, como Ilya Repin, Emil Fuchs e Mikhail Vrubel.Tarasantchi, Ruth Sprung. "O Pintor Pedro Weingärtner". In: Pedro Weingärtner: um artista entre o Velho e o Novo Mundo. Catálogo de exposição. Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2009, pp. 22-23; 41

Após sua instalação, já ausente do Brasil há muitos anos, pediu autorização do imperador para uma visita de seis meses à pátria, chegando em Porto Alegre em agosto de 1887 e sendo recebido com festa em um navio embandeirado lotado de amigos e admiradores. Embora em férias, pintou vários retratos que causaram impressão muito positiva e mostrou obras trazidas da Europa, tornando-se logo uma unanimidade de crítica e de público, objeto de várias notas e artigos na imprensa. Por força dos compromissos assumidos, deixou Porto Alegre em novembro, seguindo para o Rio de Janeiro, onde realizou sua primeira exposição individual, em fevereiro de 1888. Apresentando dez trabalhos, o evento foi um êxito. Oscar Guanabarino, arrebatado, o considerou o mais destacado pintor do Brasil. Aproveitou a estadia na cidade para visitar o imperador, a fim de expressar sua gratidão pelo auxílio recebido. Durante o encontro o monarca admirou-se com a tela Direitos documentados, que viu em uma fotografia trazida pelo artista. Informado de que a obra lhe fora enviada da Europa como presente, disse que ela jamais havia chegado às suas mãos. Weingärtner acabou descobrindo que ela havia ficado retida na alfândega e, não sendo reclamada, fora posta em leilão, e teve grandes trabalhos para localizá-la e recuperá-la do adquirente. O caso foi muito comentado na imprensa e atraiu grande público adicional para a exposição que estava em andamento.Guido, pp. 40-43