António de Oliveira Marreca (Santarém, 26 de Março de 1805 — Lisboa, 19 de março de 1889) foi um emigrado liberal, economista de renome, escritor, professor e político português. Fez parte do primeiro directório republicano. Foi deputado às Cortes e administrador do Distrito de Angra do Heroísmo (1851). Pode ser considerado como um dos últimos e mais significativos representantes das correntes doutrinais que em matéria económica se desenvolveram no princípio do século XIX em Portugal, tendo associado o seu pensamento económico a uma actividade intelectual diversificada e a uma intervenção social e política relevante. Foi simultaneamente romancista, economista, político da ala esquerda do regime monárquico constitucional português e precursor do republicanismo. Pertenceu à Maçonaria.
Biografia António de Oliveira Marreca nasceu na Ribeira de Santarém, a 26 de Março de 1805, filho de António de Oliveira Marreca e Maria José Casimira Delgado Marreca.
Era ainda estudante quando foi preso por incompatibilidade com o regime absolutista e por ter professado publicamente ideias liberais. Depois de se evadir da prisão, emigrou para Londres, cidade onde permaneceu e estudou, e depois para França, país onde residiu de março de 1832 a agosto de 1833, regressando nesse ano a Portugal na sequência da vitória liberal.
A gestão da Imprensa Nacional e a afirmação como economista (1834-1838) Durante a fase de instabilidade política que se seguiu à vitória liberal, de 1834 a 1838, António de Oliveira Marreca foi um dos três administradores (os outros foram Rodrigo da Fonseca Magalhães e José Liberato Freire de Carvalho) que estiveram à frente da Comissão Administrativa que geriu a Imprensa Nacional de Lisboa. Foi esse o seu primeiro cargo público.
Foi um dos fundadores de O Panorama, periódico que principiou a publicar-se em 1837, ali publicando trabalhos seus que lhe granjearam reputação de economista. Essa reputação foi consolidada quando em 1838, Oliveira Marreca publicou a obra Noções Elementares de Economia Política e de Estatística, com a qual deu um importante contributo para a introdução no pensamento económico e político português das novas ideias que surgiam então nas ciências económicas europeias. Também se encontram colaborações da sua autoria em diversas publicações periódicas, nomeadamente no Jornal da Sociedade dos Amigos das Letras (1836), Revista universal lisbonenseRevista universal lisbonense : jornal dos interesses physicos, moraes e litterarios (1841-1853) [cópia digital, Hemeroteca Digital] (1841-1853), Revista do Conservatório Real de Lisboa (1842) e a Illustração Luso-Brasileira (1856-1859).
A primeira experiência parlamentar (1838-1842) Foi eleito deputado pela primeira vez nas eleições gerais realizadas a 12 de Agosto de 1838, em representação do círculo eleitoral de Viseu, tendo prestado juramento na Câmara dos Deputados a 8 de Janeiro de 1839. A eleição ocorreu num momento de viragem política, já que das eleições daquele Verão surgiu um realinhamento das forças políticas, com os sectores moderados da nova ordem setembrista a aparecerem conciliados com os antigos cartistas, gerando-se uma terceira força, ordeira, também apelidada de doutrinária, bem apoiada parlamentarmente e com algumas ideias novas, formando o então denominado centro moral e constitucional. Para além de Oliveira Marreca, faziam parte deste grupo Alexandre Herculano, António Luís de Seabra e Rodrigo da Fonseca, os quais, na linha deste último, assumiam aquela cor parda' sobre a qual podiam assentar todas as outras cores.
Em 1840, Almeida Garrett afirmava que este centro defendia a monarquia representativa contra os adeptos do absolutismo (os miguelistas) e da democracia (os setembristas radicais), razão pela qual José Liberato Freire de Carvalho, um setembrista radical, não se coibiu de chamar a estes ordeiros uns meros fingidos aderentes à Revolução de Setembro.
Oliveira Marreca foi de imediato tido no Parlamento como uma voz respeitada, tanto pela sua postura política como pelo seu saber em ciências financeiras e económicas, em que era indiscutível autoridade. Fazendo longas intervenções, centrou a sua acção parlamentar sobre as temáticas da despesa pública, pugnando pelo seu controlo e pelo aproveitamento máximo da força de trabalho da população portuguesa, indo ao extremo de sugerir que o Governo se entendesse com a Igreja para pôr fim às missas diárias, vistas como uma perda de tempo para o trabalho.
No seu primeiro mandato foi também autor de uma proposta de Lei que visava a criação de caixas económicas distritais. também se mostrou particularmente sensível às questões eleitorais, insurgindo-se contra o caciquismo e a manipulação eleitoral, pedindo a repetição das eleições nos círculos onde havia notícia de coacção pela violência.
Nas eleições gerais de 22 de Março de 1840 foi novamente eleito pelo círculo eleitoral de Viseu, tendo prestado juramento a 5 de Junho de 1840. No Parlamento continuou a ser um deputado activo, particularmente versado e com interesse nas matérias económicas e financeiras. Neste mandato interveio num leque vasto de matérias, com destaque para a fixação dos contingentes militares face às dificuldades financeiras do Estado, a fixação dos juros e limites da dívida pública, a reforma administrativa e a colecta dos direitos alfandegários e de navegação. Continuou na sua defesa da criação de instituições bancárias, particularmente as voltadas para o crédito rural. Pugnou também pela liberdade de imprensa e pela reforma judicial.
Durante a breve passagem, em 1840, de Alexandre Herculano pelo Parlamento estabeleceu-se uma estreita colaboração entre o escritor e Oliveira Marreca, que se traduziu no combate ao projecto de lei que criava um depósito bancário para a fundação de jornais, medida considerada restritiva à liberdade de imprensa, e na preparação, como já fizera François Guizot na França, de um projecto de reforma do ensino popular. Nessas lutas contaram com a colaboração de alguns amigos como António Luís de Seabra e Vicente Ferrer Neto de Paiva, este último o autor dos Elementos de Direito das Gentes que se destacou por ser um dos filósofos de inspiração krausista que mais influenciou na renovação das ideias jurídicas em Portugal.
A 30 de Março de 1842 foi publicado o Manifesto das oposições Setembrista, Miguelista e Cartista dissidente. Oliveira Marreca fazia parte da comissão central que o redigiu, a qual integrava, entre outros, Sá da Bandeira, Almeida Garrett e José Estêvão Coelho de Magalhães. Como consequência, nas eleições gerais realizadas Junho de 1842 não foi eleito, interrompendo assim a sua presença parlamentar após duas legislaturas.
A deriva para a esquerda e o regresso à actividade parlamentar (1842-1852) Fora do Parlamento, Oliveira Marreca dedicou-se com afã à escrita, passando a ser uma das vozes mais activas na oposição ao cabralismo. Quando se desencadeou a Revolução da Maria da Fonte e se verifica o golpe palaciano da Emboscada trabalhou activamente para a constituição da Junta Revolucionária de Lisboa de 1846.
Fez uma curta passagem pelo cargo de director da Biblioteca Nacional de Lisboa, interrompendo o mandato de António Feliciano de Castilho, que retomaria o cargo após a sua exoneração. Foi também o 45.° guarda-mor da Torre do Tombo de 1861 a 1887.
Apesar da efectiva derrota que a Convenção de Gramido trouxe às posições da ala esquerda do liberalismo, Oliveira Marreca não cede, continuando na imprensa a lutar pela mudança política e pelo fim de todos os resquícios do cabralismo. É neste contexto que acaba incluído entre as hidras a que o marechal Saldanha se refere numa intervenção feita em 1848. Nela o marechal afirmava ser necessário esmagar com mão de ferro a hidra revolucionária, dando lugar às notícias sobre a chamada Conspiração das Hidras, mais uma inventona do que uma verdadeira conspiração, onde pontificariam Oliveira Marreca, Rodrigues Sampaio, Latino Coelho e José Estêvão, que, durante algum tempo, tinham defendido soluções republicanas para a política nacional. A repressão policial não se fez esperar, o que obrigou os acusados a passar à clandestinidade.
Na sequência da revolução francesa de 1848 voltam a surgir organizações carbonárias, tendo sido instituída a 17 de Maio uma Comissão Revolucionária de Lisboa, tendo como liderança um triunvirato constituído por Oliveira Marreca, José Estêvão e Rodrigues Sampaio. Os dois últimos foram não só maçons mas grão-mestres de grandes lojas maçónicas. À Comissão aderem José Maria Caldeira do Casal Ribeiro, José Félix Henriques Nogueira, Anselmo José Braamcamp, Luís Augusto Palmeirim e Joaquim Tomás Lobo de Ávila, entre muitos outros.
A Comissão Revolucionária de Lisboa transformou-se rapidamente num núcleo de propaganda da doutrina republicana que será o primeiro embrião do Partido Republicano Português.
Nesse ambiente conturbado, o número de 20 de Junho de 1848, o jornal ’A República - Jornal do Povo fez um apelo à integração dos miguelistas nos republicanos, escrevendo: Homens que seguistes D. Miguel!!! Quereis união? Atirai com D. Miguel para a história.
Apesar dos tempos conturbados que vivera, em 1848 pertenceu ao júri da Exposição Nacional que se realizaou em Lisboa naquele ano. No Relatório Geral do Jurado da Exposição Nacional de 1848, publicado no ano seguinte e de que foi o principal autor, apresenta um conjunto de interessantes considerandos sobre a economia portuguesa à época.
A partir de 1850, Oliveira Marreca passa a pertencer a uma influente tertúlia, que se reunia aos sábados, incluindo políticos e intelectuais como António de Melo César e Meneses, Luís Augusto Rebelo da Silva, Júlio Caldas Aulete, Bulhão Pato e Rodrigo José de Lima Felner. Este grupo terá grande influência na vida política e intelectual das décadas imediatas.
Em 1851 foi nomeado administrador do Distrito de Angra do Heroísmo, pouco se demorando naquela cidade açoriana.
António de Oliveira Marreca foi eleito sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa a 13 de Fevereiro de 1852.
Foi novamente eleito deputado, numa eleição intercalar, para a 8.ª legislatura (1851-1852), agora pelo círculo de Oliveira de Azeméis, tendo prestado juramento a 24 de Maio de 1852.
Nesta sua curta passagem pela Câmara dos Deputados (a legislatura terminou a 24 de Julho de 1852), Oliveira Marreca deu seguimento, com o mesmo entusiasmo, à sua actividade parlamentar, voltando a dedicar-se à área fiscal e económica.
Participou num inquérito ao comércio do sal e tentou a aprovação de legislação de fomento da exportação do vinho verde, que então apenas escoava cerca de 10% da produção nacional daquele produto. Também participou activamente na elaboração de um projecto de Lei para criação e regulamentação de um fundo geral para amortização das dívidas do Estado.
Nas eleições gerais realizadas a 12 de Dezembro de 1852 voltou a não ser eleito, perdendo o seu assento na Câmara dos Deputados e voltando à actividade jornalística e literária.
A docência e a última passagem pela actividade parlamentar (1852-1859) Não tendo sido eleito para a Câmara dos Deputados, por Decreto de 30 de Dezembro de 1852 foi Oliveira Marreca nomeado lente de Economia Política do Instituto Industrial de Lisboa.
Em 1853 Oliveira Marreca apresenta um documento sobre estatística na Academia Real das Ciências de Lisboa, com o título Parecer e Memória sobre um projecto de Estatística. Nele defende a criação de um sistema estatístico nacional capaz de acompanhar a acção governativa e o desenvolvimento da actividade económica.