O Desmodus rotundus, conhecido popularmente como morcego-vampiro, é um morcego da família Phyllostomidae, encontrado em toda a América do Sul, América Central e no México. A espécie habita geralmente tocas ou cavernas muito úmidas, possuindo pelagem fina e sedosa, com as partes superiores marrom-escuras e as inferiores mais claras. [SIMMONS, N. B. Order Chiroptera. In: WILSON, D. E.; REEDER, D. M. (Eds.). Mammal Species of the World: A Taxonomic and Geographic Reference. 3. ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2005. v. 1, p. 312-529.]

Entre as aproximadamente 1100 espécies de morcegos, o Desmodus rotundus é uma das três espécies hematófagas que, além de atacar aves, ataca também mamíferos, na maioria das vezes de médio ou grande porte. Estes morcegos conseguem caminhar no solo, apoiando-se nos seus dedos e costumam morder suas presas nas orelhas, dedos e outras extremidades, pois são locais de difícil percepção. Ao contrário do que as pessoas pensam, os morcegos vampiros não chupam, e sim lambem o sangue que sai da mordida deferida por eles. Sua saliva contém uma substância anticoagulante que está sendo pesquisada para uso em doenças circulatórias [BARQUEZ, R.; PEREZ, S.; MILLER, B.; DIAZ, M. 2008. Desmodus rotundus. In: IUCN 2008. 2008 IUCN Red List of Threatened Species. <www.iucnredlist.org>. Acessado em 15 de fevereiro de 2009.].

Descrição

Estrutura física e tamanho Morcegos-vampiro são morcegos de tamanho médio. Da cabeça ao tronco eles alcançam uma medida de 70 a 90 milímetros de comprimento e um peso de 15 a 50 gramas. O comprimento das asas, uma importante medida para morcegos, alcança entre 50 e 63 milímetros e a envergadura da asa mede entre 35 e 40 centímetros. Quase toda a estrutura física do morcego-vampiro é semelhante aos outros morcegos. A membrana da asa é composta de duas camadas de pele que se estende dos punhos até os pés. Ela é esticada pelos dedos fortemente alongados dos membros dianteiros. Outras peles da asa se estendem do ombro para os punhos e entre as pernas. A última é chamada de uropatágio e serve para muitas espécies de morcegos para apanhar insetos. Uma vez que essa função é inexistente no Desmodus rotundus, ela é pequena e glabra para essa espécie. Não existe uma cauda. Em oposição a muitas outras espécies de morcegos, as pernas traseiras são fortes e musculosas, proporcionando aos animais, entre outras coisas, um rápido rastejar para frente no chão. Além disso, morcegos vampiros também podem saltar (ver Locomoção). A cor do pelo desse animal é marrom acinzentado no lado posterior e um pouco mais clara no lado inferior.

O Desmodus rotundus se diferencia das outras espécies de morcegos-vampiros pelo polegar alongado, a falta de pelugem do uropatágio, as orelhas pontudas e pela quantidade de dentes.

Dentes e face O focinho do morcego-vampiro é curto e em forma de cone. Ele não tem a verdadeira folha nasal como em muitas outras espécies de Phyllostomidae, mas um montículo em formato de ferradura acima das narinas. As orelhas são pontudas e pequenas e contêm um pequeno formato de lanceta no trago. Em contraposição, os olhos são relativamente grandes para um morcego.

O Desmodus rotundus possui os menores dentes entre as espécies de morcegos-vampiros. A arcada dentária conta com vinte dentes que estão dispostos na forma 1/2- 1/1-2/3-0/0 x2. Os maiores são os incisivos e os caninos. Eles são em forma de foice e adaptados para cortar a pele de suas vítimas. Os dentes molares são regressivos e não possuem nenhuma superfície extra, apropriada para mastigar. No lado inferior da língua encontram-se dois sulcos, que se contraem e se dilatam durante a refeição. Outras adaptações à alimentação especial são os curtos condutos do esôfago e do estômago em forma de mangueira.

Locomoção Certas adaptações na estrutura física e no comportamento do morcego-vampiro são qualificados como “espetaculares” por especialistas. Por exemplo, o Desmodus rotundus pode ficar parado sobre o chão com as membranas do patágio dobradas e executar uma espécie de movimento com saltos de várias alturas. Assim os animais correm sobre seu polegar extremamente alongado (1. Dedo). Além disso, esses morcegos são extremamente rápidos para saltar da sua posição inerte para o voo, mesmo depois de uma refeição que aumenta seu peso corporal, dificultando a subida ao ar novamente. Eles também são capazes de descer do voo para a terra e imediatamente ficar parados. O Desmodus rotundus possui características específicas na anatomia do esqueleto e dos músculos. Por exemplo, as extremidades dianteiras extremamente fortes (na forma de membranas do patágio dobradas), que possibilitam tal desempenho. Essas adaptações habilitam esses morcegos a descerem ao chão ao lado de uma presa grande (boi, cavalo) e correr para se aproximar dos mesmos. Durante o processo de alimentação o Desmodus rotundus pode seguir lentamente os movimentos da presa ou reagir rapidamente aos movimentos de defesa.

Habitat e Disseminação O Desmodus rotundus se concentra no continente americano e sua área de disseminação se estende do norte do México até o sul da América do Sul (região central do Chile, Argentina e Uruguai). Ele também se encontra em algumas ilhas fora da costa sul-americana como na Ilha de Margarita e em Trinidade e Tobago, mas não se encontra presente no Caribe. Habita tanto em áreas úmidas quanto secas nos trópicos e subtrópicos, essas sendo florestas, pradarias e regiões montanhosas de até 2400 metros de altitude.

Modo de Vida miniaturadaimagem|Vaca com uma mordida fresca de um morcego vampiro

Horário de Atividade e Convivência em Grupo O morcego-vampiro é um animal de hábitos exclusivamente noturnos. Para dormir, se aloja principalmente em buracos, mas também em árvores ocas, minas, poços ou casas abandonadas. Devido à quantidade de sangue ingerido por esses morcegos, os locais onde descansam normalmente têm um cheiro forte de amônia.

Esses animais vivem em grupos de 20 a 100, por vezes podendo formar colônias de até 2000 morcegos. Esses grupos se dividem em haréns, compostos de 8 a 20 fêmeas junto de seus filhos, além de um macho que fica em torno deles. Outros machos formam grupos entre eles mesmos. Frequentemente os morcegos machos disputam seu lugar no harém, podendo gerar brigas violentas, muitas vezes acompanhadas de sons agressivos.

Funções Sensoriais e Orientação Os morcegos-vampiro demonstram ter habilidades e desempenho parecidos ao de outras espécies de morcego, em relação à orientação. No entanto, pesquisas sobre essa espécie encontraram peculiaridades que podem ser interpretadas como uma adaptação específica à alimentação hematófaga, ou seja, a base de sangue.

Os morcegos são os únicos mamíferos que possuem uma função sensorial chamada de ecolocalização, isto é, através da emissão de ondas ultrassônicas, são capazes de detectar obstáculos no meio ambiente. Essa função sensorial no Desmodus rotundus é semelhante à de outras espécies de morcegos da família Phyllostomidae, e pode ser considerada uma função não-especializada da espécie. Os sons são emitidos através da boca, normalmente duas harmônicas (sobretons) intensivas, que cobrem uma faixa de frequência total entre 43 e 100 kHz. Quando o animal está parado, a intensidade do som é baixa (máx. 84 dB NPS, 10cm além da boca do morcego); voando, a intensidade do som sobe a até 120 dB. A duração do som varia de 1 a 0,4 milissegundos (ms), de acordo com a situação. No voo, os sons são emitidos durante o batimento das asas.U. Schmidt, C. Schmidt: Echolocation performance of the vampire bat (Desmodus rotundus). In: Zeitschrift für Tierpsychologie. Band 45, Nummer 4, Dezember 1977, S. 349–358, PMID 610226.U. Schmidt, G. Joermann: Echoortung bei der Vampirfledermaus Desmodus rotundus. In: Z. f. Säugetierkunde. Band 46, 1981, S. 129.G. Joermann, U. Schmidt: Echoortung bei der Vampirfledermaus Desmodus rotundus. II. Lautaussendung im Flug und Korrelation zum Flügelschlag. In: Z. f. Säugetierkunde. Band 46, 1981, S. 136.G. Joermann: Echoortung bei Vampirfledermäusen (Desmodus rotundus) im Freiland. In: Z. f. Säugetierkunde. 49, 1984, S. 221.

O olfato do Desmodus rotundus é muito bem desenvolvido.H. Stephan, P. Pirlot: Volumetric comparison of brain structures in bats. In: Bijdragen tot de Dierkunde. 40, 1970, S. 95.K. P. Bhatnagar, F. C. Kallen: Cribriform plate of ethmoid, olfactory bulb and olfactory acuity in forty species of bats. In: J. Morphol.. 142, 1974, S. 71.R. Kämper, U. Schmidt: Die Morphologie der Nasenhöhle bei einigen neotropischen Chiropteren. In: Zoomorphol.. Band 87, 1977, S. 3. Para alguns cheiros, a capacidade olfativa do morcego é semelhante à dos humanos.U. Schmidt: Vergleichende Riechschwellenbestimmungen bei neotropischen Chiropteren. In: Z. f. Säugetierkunde. Band 40, 1975, S. 269. Estudos indicam que os morcegos-vampiro usam seu olfato principalmente no contato dentro de seu grupo social, mas também para encontrar e identificar suas presas.U. Schmidt: Orientation and Sensory Functions in Desmodus rotundus. In: Natural History of Vampire Bats (Editors: A. M. Greenhall, U. Schmidt). CRC Press, Boca Raton 1988, S. 143.

A visão é extremamente bem formada, como observado em estudos sobre acuidade visual (dependendo da intensidade de iluminaçãoU. Manske, U. Schmidt: Visual acuity of the vampire bat, Desmodus rotundus, and its dependence upon light intensity. In: Zeitschrift für Tierpsychologie. Band 42, Nummer 2, Oktober 1976, S. 215–221, PMID 1007656.), tamanho do campo de visão e resolução da velocidade.K. Hessel: Vergleichende optokinetische Untersuchungen zur Leistungsfähigkeit des visuellen Systems bei neotropischen Fledermäusen (Fam. Phyllostomidae) und der Hausmaus. Diss., Bonn 1998. Além disso, o morcego-vampiro tem a capacidade de diferenciar padrões visuais,U. Manske, U. Schmidt: Untersuchungen zur optischen Musterunterscheidung bei der Vampirfledermaus, Desmodus rotundus. In: Z. Tierpsychol.. Band 49, 1979, S. 120. podendo identificar facilmente a silhueta de árvores ou rochedos quando está voando ao ar livre. Para distâncias abaixo de meio metro, esse morcego parece confiar principalmente em sua ecolocalização.G. Joermann, U. Schmidt, C. Schmidt: The Mode of Orientation during Flight and Approach to Landing in two Phyllostomid Bats. In: Ethology. Band 78, 1988, S. 332.

Adaptações específicas à alimentação hematófaga se desenvolveram nesses morcegos vampiros especialmente em dois sistemas sensoriais: a audição (orientação acústica passiva) e o tato, incluindo a capacidade de sentir a alteração de temperatura no ambiente.

A audição do morcego-vampiro é sensível, principalmente na faixa de frequência ultrassônica entre 50 e 100 kHz (a faixa de sua própria ecolocalização), assim como em uma gama de frequência entre 10 e 30 kHz. Conforme estudos eletrofisiológicos, o Desmodus rotundus possui uma intensidade mínima de captação sonora muito baixa, o que significa que ele possui uma excelente capacidade auditiva.U. Schmidt, P. Schlegel, H. Schweizer, G. Neuweiler: Audition in vampire bats, Desmodus rotundus (PDF; 733 kB). In: J. Comp. Physiol. A. Band 168, 1991, S. 45. Além disso, os pesquisadores encontraram no cérebro do morcego-vampiro células nervosas que só reagiam a pequenos ruídos (frequências sonoras em larga faixa), bem como neurônios que respondiam apenas ao barulho da respiração de humanos. Esse e outros resultados de pesquisasU. Gröger, L. Wiegrebe: Classification of human breathing sounds by the common vampire bat, Desmodus rotundus. In: BMC Biology. 4, 2006, S. 18. indicam que esse morcego pode usar muito bem sua audição extremamente poderosa para rastrear presas, por meio do ruído da respiração ou dos movimentos mais curtos.