A tartaruga-de-pente, tartaruga-legítima, tartaruga-de-escamas ou tartaruga-verdadeira (nome científico: Eretmochelys imbricata) é uma tartaruga marinha da família dos queloniídeos (Cheloniidae), encontrada em mares tropicais e subtropicais. Espécie criticamente ameaçada de extinção devido à caça indiscriminada. Tem como habitat natural recifes de coral e águas costeiras rasas, como estuários e lagoas, podendo ser encontrada, ocasionalmente, em águas profundas. A espécie tem uma distribuição mundial, com subespécies do Atlântico e do Pacífico. Eretmochelys imbricata imbricata é a subespécie atlântica, enquanto a subespécie Eretmochelys imbricata bissa é encontrada na região do Indo-Pacífico.
Sua alimentação consiste em esponjas, anêmonas, lulas e camarões; sua cabeça estreita e sua boca formam um bico que permite buscar o alimento nas fendas dos recifes de corais. Elas também se alimentam de outros invertebrados, como por exemplo ctenóforos e medusas. Devido às práticas de pesca humana, as populações de tartaruga-de-pente ao redor do mundo estão ameaçadas de extinção e a espécie é classificada como criticamente ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN / IUCN). Vários países, como a China e o Japão, utilizam a carne da tartaruga-de-pente na alimentação. Os cascos das tartarugas-de-pente são usados para fins decorativos. De acordo com a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), é ilegal a captura e o comércio de tartarugas-de-pente e produtos delas derivados, em muitas nações.
Etimologia e taxonomia miniaturadaimagem|esquerda|190px|Tartaruga-de-pente (no alto à direita) em 1904 em um desenho de Ernst Haeckel
A tartaruga-de-pente foi inicialmente descrita por Carlos Lineu como Testudo imbricata em 1766. Foi movida para o gênero Eretmochelys pelo zoólogo austríaco Leopold Fitzinger em 1843. Em 1857, a espécie foi novamente descrita como Eretmochelys imbricata squamata, uma denominação que não existe mais.
Há duas subespécies aceitas para o táxon E. imbricata. O termo Eretmochelys imbricata bissa (Rüppell, 1835) refere-se a todas as populações do Eretmochelys imbricata que residem no Oceano Pacífico. A população do atlântico tem vindo a ser considerada uma outra subespécie, Eretmochelys imbricata imbricata (Lineu, 1766). O nome da subespécie imbricata permaneceu porque o tipo de espécime que Lineu inicialmente utilizou para descrever as espécies era do Atlântico.
Fitzinger descreveu o nome do gênero Eretmochelys a partir do grego eretmo e chelys, correspondente a "remar" e "tartaruga", respectivamente. O nome remete às tartarugas com barbatanas. O nome de espécie imbricata é latim. Este descreve adequadamente as tartarugas com escutes posteriores. O nome da subespécie de tartaruga-de-pente do pacífico, bissa é latim para "dupla". A subespécie foi inicialmente descrita como Caretta bissa porque foi a segunda espécie do gênero.
Anatomia e morfologia
miniaturadaimagem|280px|Imagem aproximada do bico
A tartaruga-de-pente possui a aparência típica de uma tartaruga marinha. Tal como os demais representantes de sua família, apresenta um corpo em formato plano e seus membros em forma de barbatanas, adaptados à natação. As adultas geralmente atingem entre 60 e 100 centímetros de comprimento e pesam entre 73 e 101,4 quilos, em média. A tartaruga-de-pente mais pesada a ser capturada tinha 167 quilos. O casco ou carapaça tem um fundo laranja com uma irregular combinação de faixas claras e escuras, com predominância das cores marrom e preto radiando para os lados. Uma de suas características mais facilmente distinguíveis são os espessos escudos (placas) que compõem a carapaça. Embora a carapaça possua cinco escudos centrais e quatro pares de escudos laterais, como ocorre em vários membros da mesma família, o escudo posterior sobrepõe-se de tal maneira que dá à margem traseira de sua carapaça uma imagem semelhante à beira de uma serra ou uma faca. Sua carapaça é conhecida por atingir quase um metro de comprimento. Seus rastros na areia são assimétricos, pois rastejam em marcha alternada, diferente da tartaruga-verde (Chelonia mydas) e da tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), que rastejam simetricamente. Devido ao consumo dos venenosos cnidários, sua carne pode chegar a certos níveis de toxicidade.
Distribuição miniaturadaimagem|280px|Outro modelo da possível distribuição da tartaruga-de-pente; círculos vermelhos representam nidificações primárias; círculos amarelos são nidificações secundárias
As tartarugas-de-pente ocupam uma vasta faixa do globo terrestre, sendo encontradas predominantemente em recifes tropicais dos oceanos Índico, Pacífico e Atlântico. De todas as espécies de tartarugas marinhas, é uma das mais associadas com as águas tropicais. Duas das principais subpopulações reconhecidas são a atlântica e a indo-pacífica.
Subpopulação atlântica No Atlântico, as populações podem ser vistas no oeste do Golfo do México e, mais ao leste, chegam até a ponta sul do continente africano. O limite norte da espécie pode ir para além do Estuário de Long Island na fronteira norte dos Estados Unidos da América. Do outro lado do Atlântico, tartarugas-de-pente foram avistadas nas águas frias do Canal da Mancha, a espécie de tartaruga registrada mais ao norte, até o momento. O alcance mais ao sul conhecido é o Cabo da Boa Esperança, na África.
miniaturadaimagem|esquerda|200px|Espécime em Saba, nas Antilhas Holandesas miniaturadaimagem|200px|esquerda|Espécime, cujas características da carapaça (margem serrilhada e a sobreposição dos escudos) estão evidentes
São presentes nas Caraíbas, a partir da costa brasileira (especialmente Bahia e no litoral sul de Pernambuco), no sul de Flórida e no Havaí. Também têm sido observadas nas praias de Antígua e Barbuda. A Costa Rica tem ninhos, especificamente nas imediações do Parque Nacional Tortuguero. Cuba é um lugar de alimentação à população das Caraíbas Em Porto Rico, as águas em redor da ilha de Mona são fundamentais para alimentação. Embora uma espécie tropical, a tartaruga-de-pente tem sido encontrada em áreas dos Estados Unidos da América dentro de latitudes mais elevadas, tais como Massachussetes e o estuário de Long Island. Também foi avistada em águas ao largo da Virgínia.
Subpopulação Indo-Pacífica
Os espécimes da população indo-pacífica estão espalhados por toda a região. No oceano Índico, são uma visão comum ao longo de toda a costa leste do continente africano, incluindo os mares em torno de Madagascar e os grupos de ilhas vizinhas. A gama do Índico se estende ao longo da costa da Ásia, incluindo o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho, ao longo de todo o litoral do subcontinente indiano, em todo o arquipélago indonésio e da costa noroeste da Austrália. A área de ocorrência no oceano Pacífico é algo limitado às regiões tropicais e subtropicais. O alcance mais ao norte da região são as águas ao longo do sudoeste da península coreana e do arquipélago japonês. A ocorrência envolve também toda a região do sudeste da Ásia, toda a costa norte e sul da Austrália até a parte norte da Nova Zelândia. Do outro lado do Pacífico, tartarugas-de-pente são vistas no extremo norte até a Península da Baixa Califórnia, no México, nas águas ao largo das costas da América Central e da América do Sul até o extremo norte do Chile.
Nas Filipinas, há vários lugares conhecidos à nidificação. Tartarugas-de-pente foram encontradas na ilha de Boracay. Um pequeno grupo de ilhas no sudoeste do arquipélago foi chamado de "Ilhas das Tartarugas" precisamente porque são conhecidas como lugares de nidificação para duas espécies de tartarugas marinhas, ou seja, a tartaruga-de-pente e a tartaruga-verde. Na Austrália, a tartaruga-de-pente nidifica na ilha Milman na Grande Barreira de Coral. No Índico, o lugar mais ao oeste que nidifica é na ilha Cousine nas Seicheles, onde a espécie está protegida legalmente desde 1994. As ilhas e ilhotas vizinhas das Seicheles, tais como a ilha de Aldabra, são bons lugares de alimentação para juvenis.
Ecologia Habitat
As tartarugas-de-pente adultas são encontradas principalmente nos recifes de coral tropicais. São vistas geralmente descansando em grutas e saliências no interior e em torno destes recifes, durante o dia. Como uma espécie altamente migratória, também têm sido encontradas em uma ampla gama de habitats, desde o mar aberto até às lagoas e manguezais nos estuários. Embora não se saiba muito sobre as preferências de habitat nos seus primeiros estágios de vida, à semelhança de outras tartarugas marinhas jovens, sabe-se que são completamente pelágicas e, assim, fazem do mar aberto sua casa até a fase adulta.
Alimentação miniaturadaimagem|esquerda|200px|Tartaruga-de-pente em um recife de coral em Tortuga
Embora sejam conhecidas por serem onívoras, o principal alimento das tartarugas-de-pente são as esponjas. Esponjas constituem entre 70% e 95% da dieta das populações nas regiões das Caraíbas. Entretanto, como acontece com muitos espongívoros, se alimenta apenas de algumas espécies selecionadas, ignorando muitas outras. As populações das Caraíbas se alimentam principalmente de esponjas da classe das demospôngias (Demospongiae), especificamente aquelas que pertencem às ordens dos astroforídeos (Astrophorida), espiroforídeos (Spirophorida) e hadromerídeos (Hadromerida). As espécies selecionadas de esponja que alimentam estas tartarugas incluem a Geodia gibberosa. As tartarugas-de-pente também se alimentam de algas e cnidários, como água-vivas (entre as quais está a perigosa caravela-portuguesa, Physalia physalis) e anémonas-do-mar. A tartaruga-de-pente fecha os seus desprotegidos olhos quando se alimentam desses cnidários, para que os cnidoblastos não penetrem em sua cabeça.
As tartarugas-de-pente mostraram-se altamente flexíveis e resistentes com as suas presas. Algumas das esponjas que lhe servem de alimento, tais como Aaptos aaptos, Chondrilla nucula, Tethya actinia, Spheciospongia vesparium e Suberites domuncula, são altamente tóxicas (muitas vezes letais) para outros organismos. Além disso, sabe-se que a tartaruga-de-pente escolhe espécies de esponja que possuem uma quantidade significativa de dióxido de silício nas espículas, tais como Ancorina, Geodia, Ecionemia e Placospongia.
Ciclo de vida miniaturadaimagem|220px|Juvenil na ilha da Reunião miniaturadaimagem|220px|Filhote em Granada miniaturadaimagem|220px|Filhote em Paulista, Pernambuco, Brasil
Não se sabe muito sobre o ciclo de vida das tartarugas-de-pente. É sabido que acasalam a cada dois anos, em lagoas isoladas em ilhas remotas ao longo de sua distribuição. A época de acasalamento no Atlântico ocorre normalmente entre abril e novembro. Às populações do Índico, como as das Seicheles, o acasalamento é de setembro a fevereiro. Tal como acontece com outras tartarugas marinhas, acasalam em lagoas rasas perto das praias onde provavelmente irão nidificar. Após o acasalamento, as fêmeas sobem seus corpos pesados à praia durante a noite. Terão então que desocupar uma área e cavar um buraco onde irão nidificar, usando sua barbatana traseira. A fêmea então põe os ovos no ninho e, em seguida, cobre-os com areia. Os ninhos das Caraíbas e da Flórida geralmente contêm cerca de 140 ovos. Após várias horas do longo processo as fêmeas retornam ao mar. Este é o único momento em que as tartarugas-de-pente deixam o oceano.