O tamanduá-bandeira (nome científico: Myrmecophaga tridactyla), também chamado bandeira, bandurra, iurumi, jurumi, jurumim, tamanduá-açu, tamanduá-cavalo, papa-formigas-gigante e urso-formigueiro-gigante,Ferreira, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.1 644 é uma espécie de mamífero xenartro da família dos mirmecofagídeos, encontrado na América Central e na América do Sul. É a maior das quatro espécies de tamanduás e, junto com as preguiças, está incluído na ordem Pilosa. Tem hábito predominantemente terrestre, diferente de seus parentes próximos, o tamanduá-mirim e o tamanduaí, que são arborícolas. O animal mede entre 1,8 e 2,1 metros de comprimento e pesa até 41 kg. É facilmente reconhecido pelo seu focinho longo e padrão característico de pelagem. Possui longas garras nos dedos das patas anteriores, o que faz com que ande com uma postura nodopedálica. O aparelho bucal é adaptado a sua dieta especializada em formigas e cupins, mas em cativeiro ele pode ser alimentado com carne moída, ovos e ração, por exemplo. A longa pelagem o predispõe a ser parasitado por ectoparasitas, como carrapatos.

Como todo mamífero, os tamanduás também adoram água.

É encontrado em diversos tipos de ambientes, desde savanas a florestas. Prefere forragear em ambientes abertos, mas utiliza florestas e áreas mais úmidas para descansar e regular a temperatura corporal. É capaz de nadar em rios amplos. Seus predadores incluem grandes felinos, como a onça-pintada e a suçuarana, e rapinantes podem predar filhotes. Apesar dos territórios individuais muitas vezes se sobreporem aos de outros, são animais primariamente solitários, sendo encontrados com outros somente em situações de cortejamento de fêmeas ou encontros agonísticos entre machos e fêmeas cuidando de filhotes. Se alimenta principalmente de formigas e cupins, utilizando suas garras para cavar e a língua para coletar os insetos.

O tamanduá-bandeira é listado como "vulnerável" pela IUCN. Foi extinto em algumas partes de sua distribuição geográfica, como no Uruguai, e corre grande risco de extinção na América Central. As principais ameaças à sobrevivência da espécie são a caça e a destruição do habitat, e é um animal susceptível a ser atingido fatalmente por incêndios e atropelamentos. Apesar do risco de extinção, pode ser encontrado em inúmeras unidades de conservação, onde muitas vezes é abundante. Sua morfologia peculiar chamou a atenção de diversos povos, como na bacia Amazônica, e até hoje é retratado por muitas culturas, seja de forma carismática ou aterrorizante.

Etimologia "Tamanduá" origina-se do termo tupi tamãdu'á. "Tamanduá-açu" significa, traduzido do tupi, "tamanduá grande". "Iurumi" e "jurumim" vêm do termo tupi yuru'mi, que significa "boca pequena". O nome popular de "tamanduá-bandeira" faz alusão à enorme cauda repleta de inúmeros pêlos compridos, associando-se portanto sua semelhança a uma "bandeira". Essa característica da cauda é uma das que mais chamam a atenção em comunidades tradicionais do Brasil. Em inglês, recebeu o nome de "giant anteater"Harris, Roger (2011). Amazon highlights: Peru, Brazil, Colombia, Ecuador. Col: Bradt highlights. Chalfont St. Peter: Bradt Travel Guides.

Taxonomia e evolução thumb|left|250px|Do livro The Cambridge Natural History, Volume X—Mammalia (1902) O tamanduá-bandeira está incluído na família dos mirmecofagídeos (Myrmecophagidae) e único representante vivente do gênero Myrmecophaga que é mais relacionado ao gênero Tamandua, como evidenciado tanto por filogenias moleculares, quanto morfológicas. Foi descrito por Carlos Lineu em 1758, e seu nome científico deriva do grego: Myrmecophaga significa "comedor de formigas" e tridactyla, "três dedos". Três subespécies foram propostas: M. t. tridactyla (que ocorre da Venezuela e Guianas até o norte da Argentina), M. t. centralis (nativo da América Central, noroeste da Colômbia e norte do Equador) e M. t. artata (nativo do nordeste da Colômbia e noroeste da Venezuela).

Durante a evolução, tamanduás e preguiças se separaram há cerca de 55 milhões de anos, entre o Paleoceno e Eoceno, sendo que entre Vermilingua, o gênero Cyclopes divergiu há cerca de 30 milhões de anos (no Oligoceno) e Tamandua e Myrmecophaga divergiram entre si há cerca de 10 milhões de anos, no Mioceno tardio.

O registro fóssil dos tamanduás é esparso. O gênero do Mioceno, Neotamandua, é o mais aparentado ao tamanduá-bandeira, e é difícil diferenciar morfologicamente o crânio de Neotamandua e Myrmecophaga. Neotamandua era grande, maior que Tamandua, mas menor que Mymercophaga, e não possuía uma cauda preênsil, mas parecia ter patas intermediárias entre o tamanduá-bandeira e o tamanduá-mirim. Provavelmente, Neotamandua borealis, um fóssil encontrado na Colômbia, no sítio paleontológico de La Venta, foi o ancestral do tamanduá-bandeira.

O tamanduá-bandeira é o mais terrestre de todos os tamanduás, e seu ancestral provavelmente era arborícola, como o tamanduá-mirim: a expansão de ambientes abertos na América do Sul e consequente aumento de disponibilidade de insetos eussociais propiciaram o surgimento desta espécie já no fim do Pleistoceno e início do Holoceno.

Distribuição geográfica e habitat Habita uma grande variedades de ambientes, desde florestas tropicais chuvosas até ambientes savânicos e campos abertos, sendo mais comuns nestes últimos. Apesar disso, ainda são dependentes de ambientes florestados, pois utilizam a sombra das árvores como forma de compensar sua habilidade termorregulatória relativamente precária. É possível encontrá-los em áreas cultivadas, como em culturas de Pinus e Acacia, embora isso se dê de forma eventual.

Foi registrada sua presença desde Honduras na América Central, até o Chaco boliviano, Paraguai, Argentina e por todo o Brasil, sendo ausente na cordilheira dos Andes. A presença dessa espécie a oeste dos Andes, no Equador, é controversa e necessita confirmação. Historicamente, o limite norte de sua distribuição geográfica era Punta Gorda, na Baía de Honduras, em Belize, e o limite sul era Santiago del Estero, na Argentina. A espécie já ocorreu em latitudes mais ao norte do que registrado historicamente, como evidenciado por um fóssil no noroeste de Sonora, no México. O tamanduá-bandeira habitou essa região no início do Pleistoceno, época em que Sonora apresentava um clima mais úmido. É considerado extinto em algumas regiões da América Central (está extinto em Belize e na Guatemala, provavelmente na Costa Rica e no Panamá ocorre apenas em localidades isoladas nas terras baixas do país), do Uruguai e sul do Brasil.

Descrição |thumb|250px|Vista lateral Maior representante da família dos mirmecofagídeos com um comprimento médio de 2 metros e 33 kg de peso médio para indivíduos de vida livre e 45,9 em indivíduos em cativeiro: as fêmeas são um pouco menores, em ambos os casos. O crânio é alongado, chegando a 30 cm de comprimento. Os olhos e as orelhas são pequenos em relação ao tamanho da cabeça, e possuem a visão e a audição precárias. O olfato é desenvolvido se comparado ao dos humanos, sendo até 40 vezes mais apurado. Podem viver até 25 anos em cativeiro. thumb|240px|esquerda|Esqueleto de tamanduá-bandeira Possuem o dorso e a cauda marrons ou pretos, com membros anteriores brancos e membros posteriores pretos, com bandas pretas nos pulsos e duas bandas finas e brancas na altura dos ombros, de forma a aparecer uma outra faixa diagonal ampla, de cor preta. Essa faixa diagonal varia de conformação entre indivíduos e pode servir na sua identificação. Os pelos são longos, especialmente na cauda, o que dá a impressão dela ser muito maior do que realmente é. Possui um tipo de crina ao longo das costas. A musculatura do pescoço é desenvolvida em relação a das costas, e existe uma corcunda atrás do pescoço. O dimorfismo sexual não é evidente, o que dificulta a determinação do sexo dos indivíduos, e o pênis e testículos são retraídos na cavidade pélvica, entre o reto e a bexiga urinária (uma condição denominada criptoquirdia). O tamanduá-bandeira também possui uma temperatura corporal baixa para um mamífero, cerca de 33 °C.

Ao contrário do que sugere o nome científico, possuem cinco dedos, entretanto, quatro dedos nas patas anteriores possuem garras, que são particularmente alongadas em três dedos. Os tamanduás tendem a andar sobre os nós dos dedos (nodopedalia), especialmente como observado em gorilas e chimpanzés, devido ao longo comprimento de suas garras: apoiam-se principalmente nos três dedos do meio, e as articulações metacarpofalangeanas são estendidas e as interfalangeanas são dobradas. Ao contrário dos membros anteriores, os membros posteriores possuem garras curtas, de forma que o movimento é típico de um animal plantígrado.

O tamanduá-bandeira possui 60 cromossomos, e seu genoma tem cerca de 4391 Mbp ou 4.49 pg de tamanho. O cromossomo X é grande e metacêntrico, enquanto o cromossomo Y é o menor de todos os cromossomos e é acrocêntrico. Comparado ao tamanduá-mirim e o tamanduaí, o tamanduá-bandeira possui um "grupo extra" de cromossomos acrocêntricos (Grupo V). Garcia et al (2005) identificaram seis marcadores de microssatélites para a espécie. Em 2007, descobriu-se elementos transponíveis no genoma, retrotransposóns pertencentes à família MyrSINE, sendo que MyrSINE-c é exclusivo do tamanduá-bandeira.

Anatomia da alimentação

O tamanduá se alimenta exclusivamente de formigas e cupins, o que acaba conferindo uma anatomia bastante peculiar e especializada na exploração desse recurso alimentar, que apesar de abundante, é muito pouco explorado por outras espécies de mamíferos. O tamanduá não possui dentes e sua mandíbula possui pouca mobilidade. Isto se deve à rotação das duas metades de sua mandíbula, unidas por um ligamento na ponta e estabilizadas pelos músculos da mastigação. A depressão da mandíbula acaba por criar uma abertura grande o suficiente para a protrusão da língua, que possui até 60 cm de comprimento e a ponta arredondada. É coberta por papilas curvadas para trás e uma saliva viscosa, produzida pelas glândulas salivares, o que permite a coleta de insetos.

A forma tubular de seu crânio limita também os movimentos de protrusão da língua, que durante a alimentação, pode ocorrer até 160 vezes por minuto, proeza possível graças à musculatura associada ao hióide: este osso também possui uma conformação diferente dos outros xenartros, pois possui articulações sinoviais, permitindo certa liberdade de movimento. O músculo bucinador permite a retração da língua sem que sejam perdidos os insetos coletados. Os músculos do hióide e o palato secundário mantêm a língua na orofaringe, de forma a evitar que ela bloqueie a respiração. Essa retração é auxiliada pelo músculo esternoglosso, que é formado pela fusão do músculo esterno-hióideo e hioglosso e não ligado ao hióide. Dessa forma, a língua é ligada ao esterno.

Antes dos insetos serem engolidos, eles são esmagados no palato, e seu estômago, como a moela nas aves, possui paredes duras e realiza contrações vigorosas, de forma a moer os insetos ingeridos. A digestão é auxiliada pela ingestão de porções de terra e areia. O próprio ácido das presas ingeridas é utilizado para fazer a digestão, já que o tamanduá não é capaz de produzir o seu próprio.

Comportamento e ecologia thumb|240px|esquerda|O tamanduá-bandeira é capaz de nadar grandes distâncias São geralmente solitários, ocupando áreas de até 32,5 km² mas, geralmente, seus territórios são menores do que isso. Indivíduos são tolerantes a sobreposição de área de vida até certo nível, aumentando a densidade por km². Apesar de serem mais ativos no fim da tarde, podem iniciar suas atividades mais cedo, e serem totalmente diurnos em dias mais frios. Podem se tornar noturnos em ambientes mais perturbados pelo homem.