Edivaldo Souza (Juazeiro, 10 de janeiro de 1938 – São Paulo, 24 de abril de 2025), conhecido pelos nomes artísticos de Edy, Edy Souza — no início da carreira — e Edy Star, foi um cantor, compositor, ator, dançarino, produtor teatral, apresentador de televisão e artista plástico brasileiro. Iniciou sua carreira na adolescência, participando do programa A Hora da Criança, na Rádio Sociedade da Bahia. Depois de adulto, trabalhou com circo, teatro, música, rádio e televisão, sempre mantendo um estilo debochado, próximo da chanchada, do cabaré e do teatro de revista, suas maiores influências na carreira artística. No final dos anos 60, iniciou a transição do Nordeste para o Rio de Janeiro e São Paulo, que vinham se tornando centros culturais muito importantes, em detrimento das cenas locais e regionais.
Desse modo, a partir da década seguinte, envolveu-se em diversos trabalhos de vanguarda: primeiro, participou do disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, com Raul Seixas, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada; em segundo lugar, surgiu como grande sensação nos círculos marginais pelas suas apresentações desbocadas e que desafiavam limites relativos à sexualidade, inicialmente na região então degradada da Praça Mauá, no Rio de Janeiro, e, depois, passando a apresentar-se em locais frequentados pela alta sociedade, como as boates Number One e Up's; em terceiro lugar, participou da montagem nacional de grande sucesso da peça The Rocky Horror Show, de Richard O'Brien. O sucesso abriu caminho para a gravação de um álbum autoral, Sweet Edy. Edy trabalhou com teatro e televisão no restante da década e na próxima. Na década de 1990, o artista mudou-se para a Espanha, onde continuou a trabalhar com teatro e como produtor de boates. Após quase 20 anos naquele país, Edy retorna ao Brasil e retomou sua carreira de cantor, com apresentações, relançamento do seu primeiro álbum, e o lançamento de um novo disco, Cabaré Star, em 2017.
Edy foi conhecido por ter feito parte da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, bem como pelas suas apresentações que misturavam diversos estilos debochados de teatro e que desafiavam as convenções sociais relativas à sexualidade. Por isso mesmo, ficou famoso por ter sido o primeiro artista brasileiro a revelar a sua homossexualidade.
Biografia Filho de um escriturário de família de classe média alta de Salvador com uma dona de casa de família pobre de Juazeiro. Seu pai tinha por passatempo a fotografia amadora e a atuação como árbitro de futebol e foi apitando uma partida em Juazeiro que conheceu a sua mãe. A família de seu pai não aprovava o relacionamento pela condição socioeconômica da família da sua mãe, mas seu pai insistiu na união, cansando-se e mudando-se para a cidade dela. Edivaldo nasceu em 1938 e, após completar 1 ano de idade, mudou-se com sua família para a capital do estado.
Com seus irmãos, o artista teve uma infância agradável na capital baiana, vivendo numa ampla casa com quintal repleto de bananeiras, coqueiros e mangueiras. Uma de suas paixões na infância era a leitura. Lia diversos gibis e revistas como: O Tico Tico, Capitão Marvel Edição Maravilhosa, Almanaque Vida Infantil, Revista da Semana, Revista o Cruzeiro e Revista do Globo. Aos 17 anos, já tinha lido quase toda a literatura clássica juvenil como: Alexandre Dumas, Érico Veríssimo, Monteiro Lobato, Charles Dickens, Edgar Allan Poe e Jorge Amado.
A outra paixão de Edivaldo durante a infância era a música. Em sua casa, ouvia principalmente as rádios Nacional e Mayrink Veiga, além dos programas locais da Rádio Sociedade da Bahia — principalmente A Hora da Criança. Seu pai, inclusive, costumava levá-lo aos estúdios do programa, que era comandado pelo professor e jornalista Adroaldo Ribeiro Costa. Quando chegava em casa, improvisava microfone e palco no quintal e cantava com seus irmãos. Sua primeira experiência no palco aconteceu quando ele tinha 13 anos. Seu pai o observava nas sessões improvisadas de cantoria e o inscreveu para participar do programa A Hora da Criança. Durante os ensaios realizados no Passeio Público de Salvador teve aulas de teatro e participou da montagem de operetas baseadas na obra de Monteiro Lobato.
Além de suas duas paixões, Edivaldo sempre gostou muito de desenhar, o que o levaria a seguir uma carreira paralela como artista plástico.
Aos vinte anos, fez um curso na Petrobras e tornou-se especialista em petróleo, trabalhando na empresa como auxiliar e técnico de produção até 1961.Moreira, 2003, pp. 44-56.
No início da década de 1960, Edy recebeu o apelido de Bofélia em homenagem à personagem Ofélia, interpretada pela atriz Sônia Mamede no programa Balança Mas Não Cai, transmitido pela Rádio Nacional na época.
Carreira O início: circo, pintura, música, rádio, teatro e televisão Antes de trabalhar na Petrobrás, Edy já participava de apresentações em um circo, contrariando a vontade de seu pai que não queria que o filho seguisse carreira artística. Após demitir-se da estatal, em 1961, passou a fazer exposições de suas pinturas na capital baiana, utilizando como nome artístico Edy Souza. Morava no bairro de Boa Viagem quando conheceu Waldir Serrão e entrou para o seu clube de apreciadores de rock and roll, o Elvis Club Rock, chegando a conhecer superficialmente um jovem Raul Seixas, então com apenas 15 anos de idade. Chegou a ensaiar rock com Waldir Serrão e com o tecladista Thildo Gama, participando de diversas apresentações com a "turma do rock" em Salvador. Na mesma época, conheceu Caetano Veloso e Maria Bethânia, passando a frequentar festas com os dois irmãos. Em 1964, trava contato com Gilberto Gil, já conhecido como cantor de apresentações na TV Itapoan. Os dois chegariam a compor uma canção juntos, "Procissão", que seria o primeiro single lançado por Gil e figuraria no seu primeiro álbum, Louvação, lançado em 1967 — embora a coautoria só fosse ser reconhecida por Gil décadas depois. Não demorou para Edy passar a fazer apresentações com Caetano, Maria Bethânia, Gil e a juventude que gostava de bossa nova na Bahia — que incluía, também, Gal Costa e Tom Zé. Entretanto, quando os baianos apresentaram o espetáculo Nós, Por Exemplo..., que inaugurou o Teatro Vila Velha — que viria a se tornar o grande palco desta juventude intelectualizada baiana —, Edy não fez parte, apresentando um show de folclore na Galeria Bazarte, a apenas algumas quadras dali. Embora Augusto Boal tenha visto ambas as apresentações, Edy não foi chamado quando o dramaturgo levou os baianos para São Paulo a fim de estrelarem o espetáculo Arena Canta Bahia, no Teatro de Arena. Portanto, Edy manteve-se, desde o início, transversal aos movimentos culturais baianos, participando tanto da "turma do rock", de Waldir Serrão e Raulzito; quanto da "turma do Vila Velha", de Gil e Caetano.
Em seguida, entrou para a Companhia Baiana de Comédias, apresentando peças teatrais pelo interior de vários estados nordestinos, o que o levou para Pernambuco onde, a partir de 1966, estabeleceu-se gradualmente na cidade de Olinda. Paralelamente, tentava a carreira de produtor artístico na TV Jornal do Commercio, de Recife. A carreira deu uma guinada quando protagonizou — junto com Teca Calazans — o badalado musical Memórias de Dois Cantadores, encenado no Recife, em agosto de 1967, e acompanhados pelos músicos Marcelo Melo e Geraldo Azevedo (nos violões), Generino (na flauta) e Naná Vasconcelos (na percussão). A peça ganhou diversos prêmios no Festival de Teatro de Pernambuco de 1968, como Melhor Musical, Melhor Figurino e Melhor Conjunto. O sucesso do musical que protagonizou em Recife abriu as portas para que Edy fosse convidado para, juntamente com Naná Vasconcelos, ir ao Rio de Janeiro defender a canção "Dia Cheio De Ogum", do compositor Capiba, no festival O Brasil Canta no Rio, em dezembro de 1968. Embora a canção não tenha faturado o festival, chegou na final. E houve o lançamento de um álbum com as 12 finalistas pela gravadora CID (selo Itamaraty), a estreia discográfica de Edy.
No final de 1967, Edy voltou para a Bahia e passou a ser produtor artístico e apresentador na TV Itapoan, de Salvador. Ali, produzindo e apresentando o programa Poder Jovem, viu surgirem alguns novos nomes, como Pepeu Gomes e Moraes Moreira — que ainda não haviam fundado os Novos Baianos, Rosa Passos, Maria Creuza e Antônio Carlos e Jocáfi. Além disso, passou a aparecer cantando no programa de Waldir Serrão, na Rádio Cultura. Foi neste programa que conheceu melhor Raul Seixas, que liderava o conjunto Raulzito e os Panteras, banda de rock muito requisitada na Bahia, tanto para apresentações como para acompanhar outros artistas, especialmente aqueles ligados à Jovem Guarda em turnê pelo estado. Edy passou a fazer sucesso na rádio com um repertório a base de Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, José Feliciano e Trini Lopez, tendo como carro-chefe uma versão afeminada da canção La Bamba, tudo acompanhado pelos panteras, que não gostavam muito dos maneirismos gays de Edy. Entretanto, após um começo difícil, logo Raul e Edy se tornaram bons amigos. Em 1968, Raul Seixas vai para o Rio, a convite de Jerry Adriani para gravar um disco com o seu grupo, não conseguindo emplacar nenhum sucesso. Entretanto, após breve período de volta à Bahia, volta ao Rio trabalhando como produtor da Discos CBS, novamente por obra de Jerry Adriani. Edy continuou dividindo o seu tempo entre rádio e TV na Bahia e, nesse período, participou de diversas festas com os mais variados artistas tendo encontrado pessoalmente Ravi Shankar, Janis Joplin, Mick Jagger e Marianne Faithfull.
Kavernista Em 1970, Edy resolveu cobrar salários atrasados da TV Itapoan enquanto apresentava-se em um programa, ao vivo, resultando em demissão sumária. Indo para um bar próximo a fim de esfriar a cabeça, Edy encontrou-se com Raul Seixas que convidou-o a ir para o Rio trabalhar como contratado da Discos CBS, a gravadora da qual Raul era produtor. Este providenciava para que Edy tivesse o necessário a sua subsistência com pagamentos periódicos sob as rubricas "direitos de pesquisa" e "direitos conexos". Raul logo botou o amigo para gravar um compacto produzido por ele, com "Aqui É Quente, Bicho", do próprio Raul Seixas, e "Matilda", uma versão de Leno para o sucesso de Harry Belafonte. Leno e Raul eram inseparáveis no ano de 1970, quando Raul estava produzindo Vida e Obra de Johnny McCartney para o amigo, que acabaria não sendo lançado naquela época por problemas com a censura, vindo à luz apenas em 1995 — somente um compacto duplo seria lançado em 1971. Entretanto, em janeiro de 1971 Raul conheceu Sérgio Sampaio quando ele veio acompanhando o compositor Odibar em uma audição na gravadora. Apesar de Odibar ter sido recusado, Raul contratou Sérgio quando este tocou uma composição sua chamada "Chorinho Inconsequente". Assim, Sérgio se converteria em amigo inseparável de Raul no ano de 1971.Moreira, 2003, pp. 33-35.