thumb|254px|A Basílica de Santiago de Compostela é o ponto final dos Caminhos de Santiago

Os Caminhos de Santiago são os percursos dos peregrinos que afluem a Santiago de Compostela desde o para venerar as relíquias do apóstolo Santiago Maior, cujo suposto sepulcro se encontra na catedral de Santiago de Compostela. A peregrinação foi uma das mais concorridas da Europa medieval, cuja importância só era superada pela Via Francigena (com destino a Roma) e Jerusalém, sendo concedida indulgência plena a quem a fizesse. Depois de vários séculos relativamente esquecida, desde os anos 1980 que a popularidade da peregrinação tem crescido substancialmente, embora grande parte das pessoas que fazem o Caminho — nome pelo qual é também conhecida a peregrinação — atualmente não o façam por motivos religiosos. O Caminho tornou-se um itinerário espiritual e cultural de primeira ordem, que é percorrido por dezenas ou centenas de milhares de pessoas todos os anos. Foi declarado Primeiro Itinerário Cultural Europeu em 1987 e Património da Humanidade (na Espanha em 1993 e na França em 1998).

Os caminhos espalham-se por toda a Europa e vão entroncar nos caminhos espanhóis. Com exceção das várias vias do Caminho Português e do Caminho da Prata, do qual uma variante atravessava o nordeste de Portugal, que têm origem a sul, e do Caminho Inglês que vinha do norte, a maior parte liga-se ao Caminho Francês, cuja rota mais popular entra em Espanha na zona de Pamplona (Roncesvalles), se encontra com as restantes em Puente la Reina e segue ao longo do norte de Espanha. O Caminho é geralmente feito a pé, mas também pode ser feito de bicicleta, a cavalo, ou até de burro.

Os peregrinos (do latim per ægros, "aquele que atravessa os campos") têm como símbolo uma vieira, a venera, cujas origens se atribuem aos povos ancestrais que antes do cristianismo peregrinavam a Finisterra, durante muitos séculos considerado o local mais ocidental do mundo conhecido e, como tal, o fim do mundo. O Caminho de Santiago é popularmente associado desde séculos à Via Láctea, por supostamente indicar o caminho para Santiago de Compostela à noite. Via Láctea é um dos nomes dado ao Caminho e um dos nomes populares da galáxia em Espanha e Portugal é Caminho ou Estrada de Santiago.

História e lendas thumb|Santiago Apóstolo. Pórtico da Glória. Origem do culto a Santiago na Península Ibérica O nome ibérico de Santiago provém do latim Sanctus Iacobus (literalmente São Jacó em português). As origens do culto a Santiago na Hispânia romana são desconhecidas. Especula-se que a peregrinação cristã deu continuidade a uma peregrinação pagã anterior que terminava no cabo Finisterra (, literalmente "fim da terra"), durante muitos séculos considerado o local mais ocidental do mundo, mas não há quaisquer referências históricas que apoiem tal tese. A principal rota de peregrinação, o Caminho Francês, corresponde a uma antiga rota de comércio romana, que segue até ao cabo Finisterra. Como no passado, muitos peregrinos prosseguem até Finisterra depois de passarem por Santiago e o trecho entre Santiago e o cabo Finisterra também é considerado parte do Caminho.

Segundo a tradição, foi em Iria Flávia, a cidade mais importante da região durante o período romano, situada a cerca de 20 km a sudoeste de Compostela, que o apóstolo Santiago pregou pela primeira vez durante a sua estadia de evangelização da Hispânia. O apóstolo chegou à região em vindo da Terra Santa. Depois da sua morte por decapitação em Jafa, na Judeia, o corpo e a cabeça do apóstolo foram transportados para a Galiza pelos seus discípulos Teodoro e Atanásio numa barca de pedra, que aportou no local onde é hoje Padrón, então o porto de Iria Flávia, e que foi amarrada à antiga ara de pedra que deu o nome à atual vila. Os discípulos depositaram os restos mortais de Santiago num local do monte Libredón, onde hoje se ergue a catedral. Depois de enterrarem o corpo do apóstolo, os dois discípulos ficaram a pregar em Iria Flávia. Num monte não muito longe do centro de Padrón, do outro lado do rio Sar, encontra-se um outro lugar de culto a Santiago: a pedra em cima da qual, de acordo com a lenda, Santiago celebrou missa.

Em finais do difunde-se no noroeste da Península Ibérica a lenda de que Santiago Maior tinha sido enterrado nessas terras. Em 812 ou 813, um eremita chamado Pelágio avistou uma estrela pousada no bosque Libredón (local onde se situa atualmente a Igreja de São Félix de Solovio (San Fiz), sobre uma urna de mármore. Isso mesmo comunicou ao bispo Teodomiro de Iria Flávia, que se deslocou ao local e ali identificou o achado como sendo o o sepulcro de Santiago com o corpo decapitado do apóstolo, nos restos de uma antiga capela e de um antigo cemitério romano. Esta suposta descoberta coincide com a chegada ao reino asturiano de moçárabes fugidos das zonas dominadas pelos muçulmanos, que procuravam um local onde pudessem praticar as suas crenças religiosas cristãs.

A figura de Santiago está intimamente ligada à Reconquista, da qual foi de certa forma padroeiro, como ainda é de Espanha. Uma das representações mais comuns em Espanha do apóstolo é a de Santiago Mata-mouros (Matamoros), que representa a sua aparição milagrosa como combatente montado num corcel branco na batalha de Clavijo, supostamente travada em 844, na qual , que tinha sido cercado por um grande exército muçulmano na sequência de se ter recusado a pagar tributo, conseguiu vencer os infiéis com a ajuda milagrosa de Santiago. A batalha de Clavijo, por muitos considerada uma lenda, é frequentemente apontada como uma das batalhas decisivas do início da reconquista cristã da Península Ibérica.

Os estudos histórico-arqueológicos levados a cabo no na catedral de Santiago revelaram que desde as épocas galaico-romana e sueva Compostela era um lugar importante, onde eram sepultados altos dignitários civis ou religiosos, muito antes de 813. Isto pode corroborar a opinião de diversos estudiosos de que foi Prisciliano, patriarca da igreja galega no , e não Santiago, que foi enterrado no local. Prisciliano foi decapitado em Tréveris, Alemanha, em 385, mas o seu corpo teria sido trazido para o norte da Península. Outros estudiosos propõem que Prisciliano teria sido enterrado perto de Astorga, outros no lugar de Os Martores ("Os Mártires" em ), em San Miguel de Valga, na .

Segundo outra tradição, os restos mortais de Santiago Maior estão na Basílica Saint-Sernin (São Saturnino), em Toulouse, para onde teriam sido levadas por Carlos Magno, vindas da Galiza durante uma campanha contra os Sarracenos.

O rei das Astúrias teria também sido o primeiro peregrino de Santiago da história quando se deslocou ao local com a sua corte. Afonso II, o Casto mandou também construir uma igreja no local onde, segundo a lenda, repousam os restos do apóstolo Santiago, onde estabeleceu uma comunidade religiosa permanente. Com o passar dos anos, essa igreja converteu-se num dos principais centros de peregrinação da cristandade e deu origem ao Caminho de Santiago, uma via pela qual se expandiram na Península Ibérica os novos estilos arquitetónicos que triunfaram na Europa. O Caminho estendeu-se por toda a Europa cristã e o número de peregrinos aumentou consideravelmente graças aos contactos culturais entre as nações europeias. Início da peregrinação A promoção de Compostela como centro de peregrinação teve o beneplácito de Carlos Magno, que nela via mais uma forma de defender as suas fronteiras de invasões árabes. A notícia espalhou-se por toda a Europa cristã e os peregrinos começaram a acorrer ao lugar do sepulcro, o chamado Campus Stellae ("Campo da Estrela"), que degenerou no termo Compostela.

esquerda|upright|thumb|Ilustração do "Codex Calixtinus", cujo Livro V é um roteiro do Caminho para o peregrino

O culto a Santiago estendeu-se por toda a Galiza e Astúrias no . peregrinou em 872 e voltou em 874 com a rainha Jimena, ordenando a edificação de uma nova basílica, que foi consagrada no ano 889. É durante o reinado de Afonso III que a peregrinação a Compostela chega aos Pirenéus. A Diocese de Iria e o seu titular tornaram-se a mais poderosa administração eclesiástica não só da Galécia medieval, como de toda a Península Ibérica, cujo poder e riqueza foi crescendo com as constantes doações por parte de monarcas.

No começou a desenvolver-se o Caminho Francês, passando a haver peregrinos vindos de Tours, Limoges e de Le Puy. Em meados do século anterior, o bispo Godescalco de Le Puy, é um dos primeiros peregrinos estrangeiros de renome. No início do , Sancho III, o Grande fixou o traçado definitivo do Caminho de Santiago a norte, ao livrar de incursões muçulmanas a zona compreendida entre os Pirenéus e Nájera, aproveitando uma antiga estrada romana e substituindo o percurso anterior que atravessava Álava. A ele deve-se também a influência dos beneditinos da Abadia de Cluny ao longo de todo o Caminho.

Na opinião do historiador espanhol Menéndez Pidal, em certo sentido pode considerar-se o caudilho muçulmano Almançor como o grande revitalizador do Caminho de Santiago, que a ele deve a sua fama internacional. Com efeito, os repetidos ataques de Almançor aos reinos cristãos hispânicos chegaram a preocupar os monges de Cluny, então o centro mais importante do cristianismo europeu. Um dos grandes impulsionadores da peregrinação no foi o , que instituiu os Anos Santos (ou jubilares) Compostelanos. Tudo isto acontece em pleno período das cruzadas (a primeira iniciada em 1095) e da fundação da Ordem dos Templários em 1118 para proteger a peregrinação a Jerusalém.

Religiosos vinculados a Cluny elaboraram a Historia Compostellana e o Codex Calixtinus. Este último foi publicado e o seu Livro V, atribuído ao monge do Poitou Aimery Picaud, é ainda hoje considerado a fonte de muitos guias publicados atualmente. Esse livro descreve quatro rotas em França, uma a partir de Paris, e as restantes a partir de Vézelay, Puy e Arles, que se juntam em Ostabat-Asme, nos Pirenéus Atlânticos; o caminho seguia depois para Navarra convergindo com outras rotas em Puente la Reina, de onde sai uma rota bem definida que liga Burgos, Carrión de los Condes, Sahagún, Leão, Astorga e Compostela. Os reis ibéricos favoreceram muito a constituição e proteção de uma rede de mosteiros cluniacenses no norte da Península Ibérica, particularmente em redor do Caminho. Essa política está intimamente ligada ao desejo dos monarcas de romper o seu isolamento em relação ao resto da Cristandade mediante laços dinásticos, culturais e religiosos.

Muitos dos primeiros peregrinos provinham de regiões da Europa pioneiras em novidades musicais. Partindo do norte e de zonas mais centrais de França, tinham passado por locais de culto como Chartres e Tours. Ali puderam escutar as melodias que todo o ocidente cristão considerava o verdadeiro legado do papa Gregório. Pouco importava aqueles que vinham do norte de Itália, atravessando os Alpes e Pirenéus, que lhes dissessem que nas suas terras de origem o rito litúrgico era mais antigo e venerável do que aquele a que eles chamavam romano. Tão pouco importava muito que, uma vez entrados em território hispânico, estando reunidos peregrinos de distintas procedências num mesmo Caminho, parassem em algum mosteiro riojano e ali se lhes falasse com alguma nostalgia de uma liturgia que até há pouco tempo era o elemento unificador frente às hostes de Alá que desde há séculos ocupava grande parte do território hispânico.

Nesses mosteiros riojanos e castelhanos ainda se encarariam com algum receio aqueles caminhantes que se dirigiam a Campus Stellae seguindo precisamente a rota pela qual tinha entrado o principal inimigo do rito hispânico. Pela rota jacobeia as antigas cerimónias e costumes foram sendo modificados para que aqueles que vinham de regiões remotas pudessem entender algo do culto que escutavam. Tanto é assim que, ante os desejos unificadores de , o rito autóctone foi abolido e substituído pela liturgia dita romana.

Consolidação da rota jacobeia