Achtung Baby é o sétimo álbum de estúdio da banda de rock irlandesa U2. Lançado em 18 de novembro de 1991, foi produzido por Daniel Lanois e Brian Eno através da gravadora Island Records. Após ser bastante criticado pelo álbum anterior, Rattle and Hum (1988), a banda optou mudar seu estilo musical para o rock alternativo, música industrial e EDM. Tematicamente, o álbum é mais obscuro e introspectivo, sendo mais irreverente que os trabalhos anteriores. Naquele período, caracterizou-se pela utilização da multimídia nos concertos durante a turnê Zoo TV (1992–93), sendo um marco à reinvenção da banda naquela década, substituindo a imagem de "fechados" para "descontraídos e autodepreciativos" frente ao público.
Inicialmente, buscando novas inspirações na véspera da reunificação alemã, o grupo começou a gravar Achtung Baby no Hansa Studios, localizado na cidade de Berlim, em outubro de 1990. As sessões foram repletas de tensões, com os membros questionando o novo estilo musical e a qualidade de seu material. Após semanas de conflitos, o grupo conseguiu realizar avanços na escrita das músicas. O grupo retornou para Dublin em 1991, aumentando a confiança da equipe e concluindo a maioria das canções. Para confundir as expectativas dos fãs, optaram um nome pouco convencional para o título do álbum, associado a uma capa com várias imagens.
Atualmente, ele é um dos álbuns mais reverenciados do U2, recebendo muitas críticas favoráveis e estreando na primeira posição na Billboard 200. Também esteve presente no topo de várias outras paradas musicais. O álbum gerou cinco singles: "The Fly", "Mysterious Ways", "One", "Even Better Than the Real Thing" e "Who's Gonna Ride Your Wild Horses". Vendeu mais de 18 milhões de cópias mundialmente, ganhando um Prêmio Grammy em 1993 de "Melhor Performance de Rock por um Duo ou Grupo com Vocais". Também é regularmente citado na lista dos "500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos" pela revista Rolling Stone. Em outubro de 2011, o álbum foi reeditado para comemorar o 20.º aniversário de seu lançamento; em julho de 2018, foi relançado em formato LP. Em comemoração de 30 anos, foi lançado uma caixa contendo 50 faixas e outras coleções relacionadas ao álbum. Em outubro de 2022 disponibilizou-se o álbum ao vivo Achtung Baby 30 – Live, edição limitada apenas para assinantes da banda.
Antecedentes thumb|200px|esquerda|Com a participação de B. B. King no sexto álbum de estúdio do U2, o músico serviu como precursor às futuras mudanças no estilo musical dos irlandeses O lançamento de The Joshua Tree (1987) e sua turnê de apoio trouxeram aclamação da crítica e sucesso comercial. Entretanto, tanto Rattle and Hum quanto o filme homônimo que foi produzido em conjunto com o álbum provocaram uma reação negativa por parte dos avaliadores musicais. Apesar de ter vendido 14 milhões de cópias e de ter tido um bom desempenho nas paradas musicais, os críticos desmereceram ambas realizações, rotulando a exploração dos primórdios da música americana, por parte da banda, como "pretensiosa, equivocada e extravagante." A elevada exposição do grupo e a reputação de serem "muito sérios" receberam acusações de "pretensão e soberba".
Apesar da popularidade, o grupo estava insatisfeito com sua criatividade e o vocalista Bono acreditava que eles estavam musicalmente despreparados para o sucesso, conforme Larry Mullen afirmou: "nós éramos os maiores, mas não éramos os melhores." Segundo o autor Bill Flanagan, a turnê Lovetown tinha se tornado monótona por tocarem somente os hits da banda. O U2 acreditava que o público não entendia a participação de músicos do gênero blues, como B. B. King na canção "When Love Comes to Town" (1989), descrevendo a situação como "uma turnê se deparando em um beco sem saída." Em retrospectiva, Bono disse que estava ouvindo a música negra com mais frequência, lhe permitindo criar um material com outra perspectiva musical; concomitantemente, sua experiência com a música folclórica o ajudava a desenvolver-se como compositor. A integração do gênero blues ao rock foi o pontapé inicial que motivou os irlandeses variarem em seu estilo, inserindo outros gêneros com o decorrer das gravações que estavam ganhando força no início da década de 90 — como, por exemplo, a música eletrônica. Na turnê Lovetown, Bono anunciava no final dos concertos que era "o fim de algo para o U2 [...] necessitando que fossem embora e voltar a sonhar novamente", aumentando o número de suas apresentações e lançamentos de álbuns.
Reagindo ao próprio senso de estagnação e de seus críticos, a banda procurou um novo terreno musical. Ao compor a canção "God Part II", perceberam que eles tinham perseguido exageradamente a nostalgia em suas composições. A música tinha um toque mais contemporâneo, com Bono alegando que estavam se "aproximando de uma musicalidade inovadora." Outras indicações de mudanças foram as gravações que fizeram no ano de 1990: a primeira foi uma versão cover de "Night and Day" (1932) para o primeiro lançamento do álbum Red Hot + Blue — pela primeira vez utilizaram batidas derivadas da música eletrônica e elementos do hip hop. A segunda foram as contribuições de Bono e The Edge na trilha sonora da adaptação teatral de A Clockwork Orange. Boa parte do material que escreveram foi experimental.
Desenvolvimento e gravação
Em meados de 1990, o vocalista buscou os demos que tinham sido escritos e gravados no STS Studios, Dublin, durante a turnê Lovetown. Após sua permanência no estúdio, Bono e The Edge receberam a tarefa de continuarem trabalhando nas letras e melodias até que o grupo se reunisse novamente. Iniciando as sessões do álbum, a banda queria mudar completamente o estilo do trabalho anterior. Entretanto, ficaram inseguros sobre como obter sucesso com um gênero musical com o qual não estavam acostumados. O surgimento do movimento madchester, no Reino Unido, deixou-os confusos sobre como poderiam se encaixar em algum cenário musical.
O grupo contratou os produtores Daniel Lanois e Brian Eno para produzir o álbum com base nos trabalhos anteriores da dupla com a banda — como em The Unforgettable Fire e The Joshua Tree. Lanois foi o principal participante, juntamente com Mark "Flood" Ellis, atuando como engenheiro de áudio. Eno assumiu um papel auxiliar, trabalhando com o grupo nos estúdios por uma semana e revendo as canções antes de viajar por aproximadamente dois meses. O produtor afirmou que seu papel seria de "entrar e apagar qualquer coisa que soasse como a musicalidade tradicional da banda." Quando Eno não estava presente no estúdio, passava a estar junto com os músicos, notando que os membros estavam mais animados com as novas perspectivas sobre o material em gravação. O produtor explicou: "Eu deliberadamente, não escutei o material entre as sessões para que eu pudesse ser imparcial." Uma vez que eles buscassem um álbum com batidas mais fortes durante um show ao vivo, Lanois "muitas vezes, cobrava um árduo desempenho ao ponto de ser imprudente." A equipe Lanois-Eno usava o método do pensamento lateral e uma abordagem filosófica popularizada por Eno de estratégias oblíquas, contrastando com o estilo retrô de Jimmy Iovine.
Sessões em Berlim thumb|200px|esquerda|Inicialmente a banda gravou o álbum em um antigo salão ligado ao Partido Nazista, no final de 1990 em Berlim A banda acreditava que a domesticidade era uma "inimiga do rock", precisando desvincular-se da velha imagem do grupo perante o público. Na época, com a "Nova Europa" emergindo no final da Guerra Fria, decidiram gravar na cidade de Berlim, servindo como fonte de inspiração para se adquirir uma influência musical ao estilo europeu. As gravações iniciaram-se no Hansa Studios, um ano após a queda do Muro de Berlim. No passado, vários outros álbuns musicais foram gravadas neste estúdio, incluindo os dois primeiros discos da Trilogia Eletrônica: Low e Heroes [ambos de 1977]. Em outubro de 1990, o U2 chegou às vésperas da reunificação alemã na antiga Berlim Oriental, no dia 3 de outubro. Com a expectativa de alcançarem novas composições, acabaram presenciando uma cidade deprimente e sombria. A queda do Muro de Berlim resultou em um sentimento de desolação na Alemanha. Enquanto isso, em termos musicais, os membros encontravam-se estagnados durante o início das gravações, somado ao fato de estarem gravando em um antigo salão da organização Schutzstaffel (SS), ainda "soando as vibrações ruins" da Segunda Guerra Mundial.
Com o tempo a situação foi se deteriorando, pois a banda estava trabalhando a longos dias e não conseguia entrar em um consenso a respeito do novo estilo musical. The Edge ouvia algumas bandas de música eletrônica e industrial, como Einstürzende Neubauten, Nine Inch Nails, The Young Gods e KMFDM. Tanto Edge quanto Bono defendiam novas edições musicais ao longo dessa linha de raciocínio. Em contrapartida, Mullen queria um rock clássico, como Blind Faith, Cream e Jimmy Hendrix, onde ele dizia que "estava aprendendo a 'brincar de batidas'"; assim como Adam Clayton, que estava mais confortável ao som tradicional do álbum anterior, resistindo às inovações propostas. O interesse do guitarrista na mixagem e bateria eletrônica fez com que Mullen se sentisse deixado de lado como baterista. Lanois estava esperando algo mais "textural, emocionante e cinematográfico" do que os materiais anteriores, não conseguindo compreender as citações de Eno: "inutilidade e irrelevância." Agravando mais a interação, houve uma mudança no comportamento da banda com os compositores de longa data: durante aquele período, Bono e The Edge começaram a compor de forma mais estreita, sem a presença de Larry Mullen e Clayton.
thumb|220px|direita|Durante as gravações do álbum, The Edge (esquerda) e Bono (direita) começaram a trabalhar mais juntos nas composições Ao perceberem que ainda não estavam preparados ou bem ensaiados, suas ideias não criavam nenhum progresso para concluir as canções. Pela primeira vez, o grupo não conseguia encontrar um consenso, percebendo que não seguiam em frente. Particularmente, Bono e Lanois discutiram ao ponto de causar agressões físicas durante a escrita da canção "Mysterious Ways". Embora a equipe estivesse dividida, com a sensação de estarem "andando sem rumo", Eno interveio afim de evitar uma possível tentativa do fim da banda. O produtor acrescentou que o grupo fez "mais progressos do que eles imaginavam." Ao adicionar efeitos sonoros incomuns, Eno mostrou que a busca do guitarrista por um novo território sonoro não era compatível com o estilo de Mullen e do "desejo de persistir com as sólidas estruturas musicais" de Lanois. Em dezembro de 1990, um avanço foi conquistado durante a escrita da canção "One", com Edge combinando duas progressões de acordes, encontrando uma inspiração. Com isso, rapidamente improvisaram a maioria das outras canções, retomando a confiança e reavaliando suas posições habituais como "uma folha em branco", escrevendo e gravando juntos novamente.
Sessões em Dublin thumb|160px|esquerda|Bono representando o personagem The Fly, em 1992. Criou este papel durante as sessões de gravação em Dublin. Naquele mês voltaram a Dublin, no intuito de analisar os ensaios realizados e visando unificar o profissionalismo do grupo. Revendo as fitas ensaiadas, concordaram que as gravações soaram melhor do que pensavam inicialmente. Em janeiro de 1991, o grupo retornou para Berlim, concluindo o restante do material no estúdio Hansa. Apesar de apenas duas canções terem sido finalizadas durante dois meses na Alemanha, The Edge alegou que "o trabalho não poderia ser mais produtivo e inspirador do que o final." A banda mudou seu habitat musical, proporcionando nova textura e direção de arte, revisando as ideias incompletas ao longo das sessões.