A Citânia de São Julião de Caldelas fica localizada no alto do monte de São Julião que domina a parte final do Vale do Homem, na freguesia de Ponte, e uma pequena parte na freguesia de Coucieiro, ambas no Município de Vila Verde, distrito de Braga, em Portugal.Ficha na base de dados SIPA/DGPC

Foi essa localização estratégica (controlo do vale)A Ocupação do bronze final da citânia de S. Julião, em Vila Verde, Manuela Martins, Trabalhos de Antroplologia e Etnologia Vol XXV fasc. 2-4, Porto, Sociedade portuguesa de Antropologia e Etnologia, 1985, com os recursos (termais, silvo-pastoris, cinegéticos, minerais, líticos...) presentes na região, que permitiram a edificação e o desenvolvimento duma das principais citânias do país.A citânia de São Julião, Vila Verde. Primeiras sondagens. Manuela Martins, Cadernos de Arqueologia série II, 1, 1984, pp. 11-27

História

A Citânia nasceu por volta de 900 anos a.C.datação de carbono 14 feita nas escavações da Dra. Ana Bettencourt em, «O povoado de São Julião Vila Verde, Norte de Portugal, nos finais da idade do bronze e na transição para idade do ferro», Universidade do Minho Braga 2000 no topo do monte e à volta duma gruta (Cova da Moura). Embora haja provas duma primeira ocupação no IV ou III milénio a.C. (presença de cerâmicas de tipo “Penha”), de várias outras por intermitência nos finais do II milénio a.C. (cabanas com chão em saibro, buracos de postes), a monumentalização e ocupação definitiva começou há 3000 anos no topo do monte com cerca de 9 cabanas protegidas por uma muralha (acrópole) e uma área reservada ao culto ritual com gravuras rupestres. A Dra Bettencourt estimou a população inicial em 40 pessoas. É a ocupação mais antiga da bacia do Cávado.

Depois, a Citânia, pouco a pouco foi-se alargando, ganhando em população, atingindo o seu apogeu no início da nossa era, num importante povoado protegido por 4 muralhas concêntricas, chefiado por Malceino, filho de Dovilonis (cuja estátua foi encontrada por acaso, nos anos 80 do século passado, na construção dum caminho).

Paróquia de Santo Adriano do Monte

Pelo documento conhecido como Censual de entre Lima e Ave ou censual de D. Pedro de Braga, datado de 1089, sabemos que a citânia era conhecida depois da reconquista como: Santo Adriano do Monte. Extrato do Censo de D. Pedro: 486-De Sancto Johanne de Conciliario II modios (São João de Coucieiro) 487-De Sancto Vicenti de Ripa de Homine II modios (São Vicente da Ponte) 488-De Sancto Adriano de Monte III bracales (Citânia) 489-De Sancto Micahel de Onoriz I modium (São Miguel de Oriz).Transcrição de Avelino de Jesus da Costa em "O bispo D. Pedro e a organização da diocese de Braga, Volume 2, 1959

Tudo indica que durante o período suevo, século VI, com a construção duma Igreja, a citânia transformou-se em paróquia, essa igreja primitiva, em ruína foi encontrada pelo Padre João Freitas, que a descreve assim, sem se dar conta da descoberta.

Casa redonda, as colunas, os “montões” de fragmentos, possivelmente de lamparina, as cruzes (uma com o cristograma ΙΧΘΥΣ (foto abaixo), tudo indica a presença dum templo cristão ou paleo-cristão, duma paróquia possivelmente com o nome de Senequino ou Senesquio, nome que consta no paroquial suévico do fim do século VI, do concilio de Lugo, dizendo que essa paróquia, fica a pouca distancia de Braga.De Antiquitatibus Conventus Bracaraugustani de Contador de Argote, 1738, p.326 Pelo estudo de Almeida FernandesAlmeida Fernandes em “Paróquias Suevas e Dioceses Visigóticas” sabemos que esse nome de Senequino poderá ter-se transformado em Sanguinho(a). Justamente, o Doutor Cónego Avelino de Jesus da Costa falando de São Julião cita um documento de 1078 que descreve Lanhas como sendo ao pé do Monte de Santo Adriano aonde passa o ribeiro Sanguineto (hoje, ribeira do Tojal) que deu nome a um Lugar do Pico São Cristóvão: Sanguinhedo, “ In Villa Lagenas sub monte Sancti Adriani rivulo Sanguineto território Bracarensi”.Doação de um casal de Lanhas por Cedon Nunes ao Bispo D. Pedro, Padre Avelino de Jesus da Costa em "O bispo D. Pedro e a organização da diocese de Braga, Volume 2, 1959, (forma muito próxima de Sanguinho) que poderá ser a evolução natural do nome da antiga vila.

Lugar de Crasto A citânia, deixa de ser paróquia no tempo de D. , porque o último documento conhecido que faz referência a paróquia de Santo Adriano, é a divisão dos Arcediagados bens e rendimentos da diocese, do arcebispo de Braga D. Godinho feito em 1188 e ela não consta da primeira Inquirição de 1220.Portugaliae Monumenta Historica, Inquisitiones vol. 1 fas. 2, 1888 p. 221-223 Junta-se então a paróquia de São Vicente como, lugar de Crasto entre 1188 e 1220. Nas inquirições de 1258, o nome de Pelágio Aires aparece como senhor de Crasto:

Nas inquirições gerais de D. Dinis, de 1288Torre do Tombo, Livro 3 de Inquirições de D. Dinis, consultado 20/04/2020

Já não é honrado, e tem que pagar impostos, sob coação do mordomo do rei, o que terá ditado provavelmente, o fim da occupação da citânia. Pois sabemos que a citânia foi ocupada aparentemente sem interrupção até ao tempo de Afonso V de Portugal (os vestígios mais recentes encontrados nas escavações da citânia feitas pela Dra. Bettencourt foram: uma moeda desse tempo, nomeadamente um ceitil, e cerâmicas do século XV).

Escavações thumb|500px|Escavação do Padre João Freitas em 1935 Embora já referenciada, a partir do século XIX ( ,216), Pinho Leal (1874,44), Albano Belino (1909,6) e Joaquim Fontes (1919,198)), é em 1935, pela mão do Padre João Martins de Freitas, pároco da vila de Caldelas (Amares) que serão feitas as primeiras escavações. Além da referida igreja, também descobriu uma casa comunitária, com bancos, usada pelas mulheres para tecer:

Parte do material recolhido encontra-se no Museu Pio XII do Seminário de São Tiago de Braga. Mas a primeira escavação científica, só teve início em 8 de Setembro de 1981, pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, e a Dra. Manuela Martins Maria Felismina Vilas Boas. em colaboração com o museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa Luís Fernando Fontes e António Pereira Viana de Araújo assim como Henrique Lemos Regalo, Maria de Fátima Correia Cardoso e José Pedro Ribeiro estudantes do curso de História da Faculdade de Letras do Porto. e o financiamento da Câmara de Vila Verde (liderada pelo Sr. António Cerqueira), depois da publicação em 1979 dum artigo no Jornal de Noticias, de Carlos Ribeiro alertando para o abandono desse rico património:

Os trabalhos da Dra. Manuela Martins continuaram por fases curtas até 1985, e em 1991, em conjunto com os trabalhos da Dra. Ana Bettencourt, entre 1989 e 1996, com o apoio financeiro da Associação das Terras Altas do Homem e do Cávado (ATAHCA), da Câmara, do Centro de Ciências Históricas e Sociais da UM., do IPPAR e do IPJ. Datas das escavações:Portal do Arqueólogo, Direção-Geral do Património Cultural Data de início Data de Fim Responsáveis ou co-responsáveis resumo dos trabalhos realizados 8 de setembro de 1981 21 de outubro de 1981 Manuela Martins Levantamento topográfico e primeira sondagem na vertente Leste. 1 de setembro de 1982 31 de dezembro de 1982 Manuela Martins Continuação do corte iniciado em 1981 (corte de 18x2,5m) 5 de outubro de 1983 15 de janeiro de 1984 Manuela Martins Conclusão da escavação do fosso e verificação do enchimento da muralha. 1 de setembro de 1984 15 de dezembro de 1984 Manuela Martins Estudo da 3ª linha de muralhas, com vista a determinar o seu tipo de construção e cronologia. 1 de outubro de 1985 25 de novembro de 1985 Manuela Martins Conclusão das sondagens fundamentais para a definição das diferentes etapas de ocupação do povoado 15 de julho de 1989 31 de agosto de 1989 Ana Bettencourt Foi efectuado um corte na acrópole tendo sido detectados diversos níveis de ocupação 1 de abril de 1990 31 de outubro de 1990 Ana Bettencourt Continuação da escavação do Corte 1 de Manuela Martins 1 de julho de 1991 31 de outubro de 1991 Ana Bettencourt e Manuela Martins Continuação da escavação arqueológica: escavação do Corte 3 a e do Corte 6. 1 de janeiro de 1992 31 de dezembro de 1992 Ana Bettencourt Estabelecer a relação entre os níveis mais recentes do Bronze Final e os mais antigos do Ferro Inicial, encontrados no povoado. 1 de janeiro de 1993 31 de dezembro de 1993 Ana Bettencourt Tratamento dos artefactos acumulados durante as campanhas de 1989 a 1992 1 de janeiro de 1994 31 de dezembro de 1994 Ana Bettencourt Continuação da escavação da camada 3, datada, pelo menos, desde o século XI a.C. até ao século VIII a.C. 1 de abril de 1995 30 de junho de 1995 Ana Bettencourt Escavação da acrópole que demonstrou existir um nível do ferro antigo, bem como vários níveis da Idade do bronze.

Além, como é óbvio, de permitir um melhor conhecimento da Citânia e da vida dos seus ocupantes, alimentação, conhecimentos técnicos, cultura e interligação cultural, etc. Uma das principais lições destas escavações, foi o estudo aprofundado da transição entre a idade do bronze e do ferro, que ocorreu suavemente, com grande continuidade nas técnicas construtivas, na persistência das formas das cerâmicas e dos objetos em pedra. Todavia, as escavações que foram feitas, foram muito parciais, ainda ficou por descobrir o balneário, por exemplo.

Em 2004, a Citânia de São Julião fiz parte dum projeto de candidatura Luso-galega da cultura Castreja a Património da Humanidade.com os seguintes sítios: Norte de Portugal: Citânia de Briteiros (Guimarães), Citânia de Sanfins (Paços de Ferreira), Citânia de Santa Luzia (Viana do castelo), Citânia do Monte Mozinho (Penafiel), Cividade de Terroso (Póvoa do Varzim ), Cividade de Bragunte (Vila do Conde), Cividade de Âncora (Caminha / Viana do Castelo), Castro de São Lourenço (Esposende), Castro de Alvarelhos (Trofa), Castro de Carmona (Barcelos), Castro de Eiras (Vila Nova de Famalicão), Castro de São Julião (Vila Verde), Outeiro Lesenho (Boticas), Outeiro Carvalhelhos (Boticas), Outeiro do Pópulo (Alijó), Outeiro de Romariz (Santa Maria da Feira), Outeiro de Baiões (São Pedro do Sul) , Outeiro de Cárcoda (São Pedro do Sul), Cabeço do Vouga (Águeda). Galiza: Santa Tecla (Foz do Minho), San Cibrán de Lás (Ourense), Castromao (Ourense), Vilalonga (Lugo) Borneiro (Coruña). -Citânia de Sanfins candidata a património da humanidade PÚBLICO 13/09/2004 Em 2005, a Dra. Manuela Martins apresentou em nome da Universidade do Minho, ao Eng. Manuel Fernandes, Presidente da Câmara Municipal de Vila Verde e ao Sr. Prof. António Vilela, Vereador da Cultura, um projeto de classificação das Citânia de São Julião, de Sanfins e Briteiros em Património da Humanidade (UNESCO). Em 2010 é votado, na Assembleia Municipal, uma proposta para a construção dum centro de interpretação da Citânia de São Julião, até hoje sem efeito.

Mas hoje, infelizmente, a situação é pior que em 1979, a citânia está num completo abandono, esquecida do poder central, da Universidade do Minho e da Câmara de Vila Verde, apesar de inúmeros alertas da junta e dos cidadãos. Parte das casas, do torreão, e de murros caíram, enquanto um forno, e outras casas estão definitivamente destruídos. Demais, uma plantação de eucaliptos ameaça a muralha exterior da citânia. Em 2021, num esforço conjunto da junta da freguesia e de voluntários da mesma freguesia as ruinas da citânia estão em grande parte visíveis e visitáveis.

Encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto nº 28/82, DR, 1ª Série, nº 47, de 26 fevereiro 1982).

Espólio

24711 fragmentos cerâmicos (cerâmica caseira e importada), 352 líticos, 21 artefactos metálicos, 3 de vidro (conta de vidro), 3 de matérias vegetais. Foram também encontrados pesos de tear, pesos de rede de pesca, provas de fundição do cobre e do bronze (moldes, escória), ouro, trabalho do ferro (escória), mós, punhais.

Amostra do espólio do Museu Pio XII

thumb|direita|150px|I (Iota) + Χ (Chi ou Khi), Jesus Cristo.