O massacre de Mỹ Lai (em vietnamita: thảm sát Mỹ Lai) foi um assassinato em massa de civis vietnamitas desarmados por tropas dos Estados Unidos no distrito de Sơn Tịnh, província de Quảng Ngãi, Vietnã do Sul. Considerado um crime de guerra, as vítimas incluíram homens, mulheres, idosos, crianças e bebês. O massacre ocorreu em 16 de março de 1968 e vitimou cerca de 504 civis vietnamitas, sendo 182 mulheres (17 grávidas) e 173 crianças, que foram executados por soldados do Exército dos Estados Unidos no maior massacre de civis cometido por tropas americanas durante a Guerra do Vietnã.

Na manhã do massacre, a Companhia C, comandada pelo Capitão Ernest Medina, foi enviada a um dos vilarejos da vila (marcados nos mapas americanos como My Lai 4) esperando enfrentar o 48º Batalhão da Força Local do Viet Cong, que não estava presente. A matança começou enquanto as tropas vasculhavam o vilarejo em busca de guerrilheiros e continuou depois que perceberam que nenhum guerrilheiro parecia estar presente. Os moradores foram reunidos, mantidos em campo aberto e assassinados com armas automáticas, baionetas e granadas de mão; um grande grupo de moradores foi baleado em uma vala de irrigação. Os soldados também incendiaram casas e mataram o gado. O suboficial Hugh Thompson Jr. e sua equipe de helicóptero são creditados por tentar impedir o massacre. Perto dali, a Companhia B também matou de 60 a 155 vítimas do massacre no vilarejo de My Khe 4.

O massacre foi originalmente relatado como uma "batalha contra as tropas do Viet Cong" e foi encoberto nas investigações iniciais do Exército dos Estados Unidos. Os esforços do veterano Ronald Ridenhour e do jornalista Seymour Hersh deram a notícia do massacre ao público americano em novembro de 1969, provocando indignação global e contribuindo para a oposição doméstica ao envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Vinte e seis soldados foram acusados ​​de crimes, mas apenas o tenente William Calley Jr., líder do 1º Pelotão da Companhia C, foi condenado. Ele foi considerado culpado pelo assassinato de 22 moradores e originalmente recebeu uma sentença de prisão perpétua, mas cumpriu três anos e meio em prisão domiciliar depois que sua sentença foi comutada.

Operação

Na véspera da operação, integrantes da Companhia Charlie, da 11ª Brigada da 23ª Divisão de Infantaria (Americal) foram mandados à região por denúncias de que a área estaria servindo de refúgio para guerrilheiros vietcongs da FNL (Frente Nacional para a Libertação do Vietnã) que após o início da Ofensiva do Tet, em janeiro de 1968, estariam se retirando e se refugiando nestas áreas. Foram informados pelo comando norte-americano que os habitantes de My Lai e das aldeias vizinhas saíam para o mercado da região as sete da manhã para compra de comida e que, consequentemente, aqueles que ficassem na área seriam guerrilheiros vietcongs ou simpatizantes. A área das aldeias em torno de My Lai era inicialmente chamada de Pinkville pelas tropas americanas.

A Companhia Charlie, 1º Batalhão, 20º Regimento de Infantaria, 11ª Brigada da 23ª Divisão de Infantaria chegou ao Vietnã do Sul em dezembro de 1967. Embora seus três primeiros meses no Vietnã tenham passado sem nenhum contato direto com as forças do Exército Popular do Vietnã (NVA) ou do Vietcong (VC), em meados de março, a companhia havia sofrido 28 baixas envolvendo minas ou armadilhas. Dois dias antes do massacre de My Lai, a companhia havia perdido um sargento popular para uma mina terrestre. Como consequência, integrantes de um dos pelotões da companhia, comandados pelo tenente William Calley, rumaram para o local.

Assassinatos Na manhã de 16 de março de 1968, às 7h30, cerca de 100 soldados da companhia Charlie, liderados pelo capitão Ernest Medina, após uma pequena barragem de artilharia, aterrissaram em helicópteros na área de Sơn Mỹ, um amontoado de retalhos de assentamentos, arrozais, valas de irrigação, diques e estradas de terra, conectando uma variedade de aldeias e sub-aldeias. As maiores dentre elas eram as aldeias Mỹ Lai, Cổ Lũy, Mỹ Khê e Tu Cung. Quando as tropas penetraram nas aldeias, o tenente Calley, lhes disse: "É o que vocês estavam esperando: uma missão de procurar e destruir". Calley diria mais tarde ter recebido ordens para "limpar My Lai", considerada um feudo dos combatentes da FNL. "As ordens eram para matar tudo o que se mexesse", diria mais tarde um dos militares americanos ao jornalista Seymour Hersh, que daria a conhecer ao mundo o horror praticado pelo exército dos Estados Unidos naquela aldeia.Le Monde Diplomatique Os aldeões, que estavam se preparando para um dia de compra de comida, a princípio não entraram em pânico ou fugiram, pois foram levados para as áreas comuns da aldeia.

Harry Stanley, um artilheiro da companhia Charlie, disse durante o inquérito da Divisão de Investigação Criminal do Exército dos Estados Unidos que os assassinatos começaram sem aviso prévio. Ele primeiro observou um membro do 1º Pelotão atacar um homem vietnamita com uma baioneta. Então, o mesmo soldado empurrou outro aldeão para um poço e jogou uma granada no poço. Em seguida, viu quinze ou vinte pessoas, principalmente mulheres e crianças, ajoelhadas em torno de um templo com incenso em chamas. Elas estavam orando e chorando. Todas foram mortas por tiros na cabeça. "The Milwaukee Journal" Hersh, Seymour. My Lai: Soldiers' Bullets Silenced Pleas, Prayers of Victims, The Milwaukee Journal, 27 May 1970. Um grande grupo de aproximadamente 70 a 80 aldeões foi reunido pelo 1º Pelotão e levados a uma vala de irrigação a leste do assentamento. Eles foram empurrados para a vala e mortos a tiros por soldados após ordens repetidas de Calley, que também estava atirando. PFC Paul Meadlo testemunhou que gastou vários cartuchos do seu fuzil M16. Ele lembrou que as mulheres estavam constantemente dizendo "No VC!" e estavam tentando proteger seus filhos. name="The Milwaukee Journal" Ele lembrou que estava atirando em mulheres com bebês nas mãos, pois estava convencido de que todas elas estavam presas com granadas e estavam prontas para atacar. Sob o comando de Calley, o pelotão não poupou ninguém. Em apenas quatro horas, mataram os animais, queimaram as choupanas, violaram, mutilaram e fuzilaram as mulheres e trucidaram homens e crianças. Para sobreviver, alguns habitantes tiveram que fingir-se de mortos, passando horas no meio dos cadáveres. No final do derramamento de sangue, havia 504 cadáveres dos aldeões, em sua grande maioria idosos, mulheres e crianças (cerca de 170), todos desarmados e assassinados a sangue frio. Ron Haeberle, fotógrafo militar que acompanhava o pelotão, encarregou-se de imortalizar a chacina.Ao sair do exército, 14 meses depois, o fotógrafo vendeu as imagens do horror à revista "Life", por 25 mil dólares, sendo que, em 1971, o governo da República Socialista do Vietnã pagou 11 mil dólares à Life pelas fotos.

258x258px|thumb|right|Homem e criança assassinados. (Foto de Ronald L. Haeberle) No Ocidente, o episódio é conhecido como o massacre de Mỹ Lai, e no Vietnã, como massacre de Sơn Mỹ, o nome do povoado a que pertenciam as quatro aldeias, entre elas My Lai, que serviram de cenário para a orgia matinal de atrocidades, celebrada pelos homens da Companhia Charlie, dirigida pelo capitão Ernest Medina.

Intervenção da tripulação de helicóptero O massacre só foi interrompido graças à iniciativa do piloto de helicóptero, Hugh Thompson, Jr., que vendo do alto a matança, marcou a área com fumaça verde e pousou sua aeronave Hiller OH-23 Raven no campo e ordenou que sua tripulação retornasse fogo com suas metralhadoras laterais contra qualquer soldado americano da companhia Charlie em terra que se recusasse a obedecer a ordem de cessar-fogo contra um grupo de civis e crianças que ele estava tentando persuadir a segui-lo. Thompson então deu ordens a outros dois helicópteros UH-1 Huey que o acompanhavam naquele momento e sobrevoavam a área, que pousassem no campo e fizessem a evacuação de onze civis feridos que ele havia persuadido e retirado de um assentamento. Após levantarem voo para fora da aldeia, um dos tripulantes da aeronave de Thompson, Glenn Andreotta, viu movimentos numa vala de irrigação entre os corpos no solo e Thompson desceu novamente, Andreotta teve que andar sobre vários corpos gravemente mutilados para chegar aonde estava indo. Ele levantou um cadáver ensanguentado com vários buracos de bala no tronco e ali, deitada embaixo dos corpos, havia uma criança de cinco ou seis anos, coberta de sangue e obviamente em estado de choque. A criança foi retirada da vala de irrigação por Andreotta, Lawrence Colburn, o segundo tripulante da aeronave de Thompson recorda que Andreotta voltou com a criança em seu colo andando na vala de irrigação sobre uma pilha de cadáveres que chegavam à altura de sua cintura, Colburn estendeu o seu rifle para ajudar Andreotta a voltar para a aeronave com a criança. Depois de não encontrar mais sobreviventes e vendo que estavam ficando sem combustível, a equipe de Thompson transportou a criança para um hospital mais próximo em Quảng Ngãi.

Rescaldo Relatórios, encobrimento e investigação O crime só veio a público um mês depois, devido a denúncias saídas de dentro do exército, por soldados que testemunharam ou ouviram os detalhes do caso – e um deles, Ronald Ridenhour, escreveu a diversos integrantes do governo estadunidense, inclusive ao presidente Richard Nixon – e chegaram a órgãos de imprensa e às televisões. Mesmo assim, o crime permaneceu encoberto por orgãos internos, e o evento foi tratado como uma escaramuça dos soldados com guerrilheiros vietcongues. Em 1969, jornalistas independentes conseguiram as fotos coloridas de Haeberle dos assassinatos e as estamparam na mídia mundial. A foto dos civis, crianças e bebês mortos na estrada ficou famosa pelo poster anti-guerra "and babies", uma frase retirada de uma entrevista feita com um dos participantes do massacre, Paul Meadlo. O poster ajudou a aumentar o horror do público para com a guerra e os esforços dos pacifistas a pressionar o governo Nixon a se retirar do Vietnã.

Em março de 1970, 25 soldados foram indiciados pelo exército dos Estados Unidos por crime de guerra e ocultação de fatos e provas no caso de My Lai. Comparado pela mídia aos genocídios de Oradour-sur-Glane e Lídice durante a Segunda Guerra Mundial, que causou a condenação e execução de diversos oficiais nazistas. Apenas o tenente William Calley, comandante do pelotão responsável pelas mortes foi indiciado e julgado. O capitão Ernest Medina também foi inicialmente indiciado, mas posteriormente foi absolvido das acusações.

Condenado à prisão perpétua, Calley foi perdoado dois dias depois da divulgação da sentença pelo presidente Nixon, cumprindo uma pena alternativa de três anos e meio em prisão domiciliar na base militar de Fort Benning, na Geórgia.

Implicados no massacre Oficiais

William L. Calley. 2º Tenente. Líder do 1º Pelotão da Companhia Charlie. Foi o único a ser condenado pelo massacre. Frank A. Barker. Tenente-Coronel, comandante da Força-Tarefa Barker. Ordenou a destruição da aldeia e de seus habitantes. Foi morto em combate no dia 13 de junho de 1968. Stephen Brooks. Tenente. Líder do 2º Pelotão da Companhia de Charlie. Oran K. Henderson. Coronel. Sobrevoou a aldeia em seu helicóptero e ordenou o ataque. Samuel W. Koster. General, comandante da Divisão Americal. Cuidou de encobrir o que acontecera em My Lai. Eugene Kotouc. Capitão da inteligência militar. Forneceu as informações sobre a aldeia atacada. Suspeito de ter participado de torturas e execuções sumárias, após o episódio de My Lai. Ernest Medina. Capitão, comandante da Companhia Charlie. Planejou, autorizou e supervisionou as operações em My Lai.

Membros da Companhia Charlie