António Rodrigues Sampaio (São Bartolomeu do Mar, Esposende, 25 de julho de 1806 – Sintra, 13 de setembro de 1882) foi um jornalista e político português que, entre outras funções, foi deputado, par do Reino, ministro e presidente do Conselho (chefe de governo). Rodrigues Sampaio foi um dos maiores vultos do liberalismo português de oitocentos, jornalista ímpar e parlamentar de excepção. Personalidade controversa, polémica, mesmo revolucionária, mas sempre coerente e fiel aos seus princípios e desígnios, foi um agitador de renome nacional, o que lhe valeria a alcunha de o Sampaio da Revolução, já que se notabilizou como redactor principal do periódico A Revolução de Setembro. Era um jornalista de causas, não de notícias, como aliás era o jornalismo do século XIX. Apesar da violência verbal e da forma assertiva que sempre utilizou nos seus ataques políticos, Rodrigues Sampaio nunca promoveu o ataque ad hominem. Mesmo quando os seus correligionários lhe pediram que pusesse em causa a dignidade e honradez de D. Maria II e da Corte, negou-se terminantemente, escrevendo que um antro de corrupção política não faria da Corte um lugar de devassidão moral. Foi esta postura de grande escrúpulo, associado a um incansável labor na defesa dos valores pelos quais pugnava, que lhe concede um lugar cimeiro no jornalismo político português.
Era membro importante da Maçonaria.
Biografia António Rodrigues Sampaio nasceu numa simples casa situada no lugar de Baixo, perto da actual Rua da Igreja Velha SOARES, Franquelim Neiva, 2007, p. 21. na freguesia de São Bartolomeu do Mar, no concelho de Esposende, a 25 de Julho de 1806, filho de António Rodrigues de Sampaio (recebidos em Anha - Viana do Castelo) e Maria de Amorim Martins,Conhecida também por Maria Martins Cepa. lavradores pobres daquela localidade.
Foi filho terceiro, tendo mais duas irmãs, Teresa e Maria Teresa.Esta faleceu ainda pequena. Depois de Rodrigues Sampaio, seus pais tiveram mais duas meninas, outra Maria TeresaTambém morreu esta de tenra idade. e Ana. Foi baptizado dois dias depois do seu nascimento, tendo como padrinhos António Alves da CostaMinorista, veio a tornar-se pároco de Belinho e Teresa Alves da Costa, dois dos filhos de uma das famílias mais distintas da terra, oriundos da Casa da Rendeira. Perdeu os avós maternos, Lucas Martins Cepa e Caetana de Amorim, brutalmente assassinados em 13–14 de abril de 1809, pelos soldados franceses de Nicolas Jean de Dieu Soult.SOARES, Franquelim Neiva, 2007, p. 22.
Casou a 27 de setembro de 1836 com Maria Barbosa Soares de Brito, viúva do capitão João de Sousa Amorim, que estivera durante o Cerco do Porto na batalha da Serra do Pilar e viera morrer a Lisboa, em resultado de ferimento grave recebido na surtida das linhas que ocorreu a 10 de Outubro de 1833, em que fora combatente voluntário. Não foi a paixão nem o interesse de granjear fortuna que levou Sampaio a este enlace, mas simplesmente a gratidão pelos serviços que ambos lhe haviam prestado, quando estivera preso no aljube prestes a sucumbir a uma persistente enfermidade. Esta senhora faleceu em 1841, na cidade de Lisboa. Neste mesmo ano, a 2 de setembro, falece o seu pai, em São Bartolomeu do Mar.
Tendo ficado viúvo com apenas 38 anos de idade, coabitou depois com uma feira egressa do convento do Corpus Christi, por quem na juventude se tinha apaixonado. Os odores a escândalo provocados por estes amores sempre o deixaram soberanamente indiferente.
Rodrigues Sampaio era de uma enorme generosidade e sempre se conduziu com total desapego aos bens materiais. Mantendo uma extraordinária austeridade, continuou a jantar sopa de couves, servida por criados boçais, sem embargo de ingerir quantidades pantagruélicas de comida quando se lhe dava a oportunidade. Os anos formativos e a passagem pela prisão (1806–1831) Destinado a seguir a carreira eclesiástica, estudou primeiras letras com o padre Pedro Fernandes Pereira, pároco da freguesia de Belinho e simultaneamente professor de primeiras letras e de Gramática. A gramática latina tê-la-á aprendido com outro clérigo da freguesia de Marinhas, distinguindo-se tanto no latim, que muitas vezes substituía o próprio professor. Fez exame desta língua no convento dos religiosos carmelitas de Viana do Castelo e tomou ordens menores em 1821.
No ano imediato estudou filosofia no referido convento, concluindo em 1825, em Braga, o então denominado curso de humanidades, frequentando também as aulas de Teologia. De volta à casa paterna, por não ter ainda idade para poder tomar ordens de subdiácono, passou a ensinar gratuitamente primeiras letras e latim aos filhos dos lavradores das vizinhanças.
Como minorista obteve licença do arcebispo de Braga para pregar, e por cinco vezes subiu ao púlpito, mas quando havia chegado à idade de tomar ordens sacras, as autoridades eclesiásticas de Braga não lhas quiseram conferir, muito provavelmente por ter entretanto manifestado adesão às ideias liberais.
Quando em 1828 se desencadeou a reacção contra a Carta Constitucional de 1826, e o governo miguelista iniciou a perseguição contra os liberais, Sampaio, apesar de ter apenas 22 anos, foi uma das vítimas.
Começou por ser obrigado a fechar a sua aula gratuita, e no dia 1 de novembro desse ano, estando a ajudar à missa na igreja de São Bartolomeu do Mar, a sua terra natal, uma escolta de 21 soldados do Regimento de Infantaria n.º 22, que estava aquartelada em Braga, foi-o prender, juntamente com o abade que celebrava a missa.
O abade entregue às autoridades eclesiásticas do bispado e o minorista Rodrigues Sampaio encerrado na prisão do aljube de Braga, donde passou ao aljube do Porto, permanecendo naquela prisão até 21 de abril de 1831, sendo então solto por ter a alçada dado o crime já expiado, ficando, contudo, sujeito à vigilância da polícia. Durante o cativeiro relacionou-se com alguns presos políticos ilustres, também presos por serem constitucionais.
Entre os companheiros de cativeiro estava o padre Inácio José de Macedo, redactor do Velho Liberal do Douro, folha que se publicara no Porto entre 1826 e 1828, com o qual Rodrigues Sampaio terá discutido o jornalismo, o que poderá ter influído nos percurso futuro, já que os seus primeiros artigos foram revistos por aquele padre liberal e lidos pelos companheiros do cárcere, entre os quais se contava o dr. Manuel José Ferreira Tinoco, advogado em Barcelos, com o qual travou uma duradoura amizade.
Sem outra formação do que a que obtivera com vista ao sacerdócio, António Rodrigues Sampaio quando libertado da prisão valeu-se da amizade do dr. Manuel José Ferreira Tinoco, indo trabalhar para o seu escritório de advogado em Barcelos, onde se instruiu nas matérias de direito e fez um tirocínio jurídico que mais tarde lhe foi de grande utilidade na vida política.
O Cerco do Porto, a Guerra Civil e a iniciação ao jornalismo (1832–1836) Os mais de dois anos que passou nos aljubes de Braga e do Porto contribuíram para solidificar os seus ideais liberais. Assim, quando depois do desembarque do Mindelo, ocorrido a 8 de Julho de 1832, o exército liberal desembarcado dos Açores marchou triunfante para o Porto, ficando aí cercado pelas forças miguelistas, deparou-se a Rodrigues Sampaio o ensejo de contribuir pelas armas para o sucesso do liberalismo.
Rodrigues Sampaio, entusiasmado, alistou-se no Regimento de Voluntários da Rainha e combateu denodadamente nas hostes afectas a D. Pedro IV até ao fim das guerras liberais.
Terminada a guerra civil, pôde então obter um lugar de guarda da Alfândega do Porto, mas, como então era hábito, fez-se substituir naquele emprego por um serventuário, a quem pagava, para o que alcançou a devida autorização. Ficou assim livre para se dedicar aos trabalhos jornalísticos, pois havia entrado para a redacção da Vedeta da Liberdade, folha saída no Porto em 1835, propriedade de José de Azevedo Gouveia Mendanha, tendo como redactor principal José António do Carmo Velho de Barbosa, o abade de Valbom, também conhecido pela alcunha de Padre Vedeta.
Rodrigues Sampaio entrara para a redacção como tradutor das notícias estrangeiras, mas, após a saída do abade de Valbom, foi escolhido para o substituir no lugar de redactor principal, assumindo um papel dominante na condução política do periódico.
Por esta altura iniciou-se na Maçonaria, tendo feito parte de uma loja intitulada Oriente de Passos Manuel.
O ingresso na política activa e as funções nos governos civis (1836–1840) António Rodrigues Sampaio alistara-se desde logo no Partido Progressista, o qual já então aspirava a uma constituição política mais avançada que a Carta Constitucional em vigor e que contava Manuel da Silva Passos, o famoso Passos Manuel, entre os seus dirigentes mais ilustres.
Quando vingou a Revolução de Setembro de 1836 e o Partido Cartista foi derrubado, o jovem redactor da Vedeta da Liberdade não foi esquecido, sendo nomeado, por decreto de 19 de setembro de 1836, secretário-geral do governo civil do distrito de Bragança. Estava assim consumada a sua entrada para a política activa.
Rodrigues Sampaio manteve-se como secretário-geral do governo civil de Bragança até 1839, ano em que o Ministro do Reino, Júlio Gomes da Silva Sanches, o transferiu para o cargo de administrador geral do distrito de Castelo Branco, cargo que com a reforma administrativa depois se passou a designar por governador civil. Rodrigues Sampaio exerceu aquela função com competência e notável energia, até ter ocorrido um grave conflito que levou à sua demissão.
O conflito teve a sua origem num processo por desobediência instaurado por Rodrigues Sampaio à Câmara Municipal de Castelo Branco, que se recusara a cumprir uma resolução do conselho de distrito. Perante o extremar de posições, o governo de Lisboa, pelo punho de Rodrigo da Fonseca Magalhães, então Ministro do Reino, cedeu às pressões políticas dos correligionários locais do partido no poder, deu razão à Câmara e demitiu o administrador geral. Para aumentar a injúria a Rodrigues Sampaio, foi nomeando para o substituir o próprio presidente do município considerado faltoso, João José Vaz Preto Geraldes.
Esta desforra partidária, que foi considerada uma grave ofensa, é afirmado que aniquilando o funcionário, criou o jornalista enérgico e destemido, jornalista que depois tanto se notabilizaria nas lides políticas.
A colaboração em A Revolução de Setembro (1840–1846) Tendo sido demitido das funções de administrador geral do distrito de Castelo Branco em franca ruptura com o poder instituído, Rodrigues Sampaio chegou a Lisboa em circunstâncias bem difíceis, sem emprego nem habilitações que lhe permitissem singrar facilmente na vida. Valeu-lhe o facto de já serem conhecidos os seus dotes jornalísticos e de José Estêvão Coelho de Magalhães e Manuel José Mendes Leite terem, por essa altura, fundado o periódico A Revolução de Setembro e precisarem de colaboradores.
Tendo o primeiro número do novo periódico saído a 23 de junho de 1840 e estando a equipa redactorial incompleta, José Estêvão Coelho de Magalhães, que conhecia Rodrigues Sampaio do tempo em que colaborara no Vedeta da Liberdade, convidou-o para integrar a redacção do jornal. Rodrigues Sampaio aceitou o convite, ficando encarregado do noticiário e da tradução das notícias estrangeiras, matérias então pouco relevantes na imprensa.
Cedo, porém, os seus colegas de redacção reconheceram no novel jornalista um talento vigoroso e enérgico para o debate político, pelo que lhe foram aumentando as responsabilidades ao ponto de em 1842 lhe entregaram quase completamente o jornal. A sua visibilidade foi tanta que ficaria conhecido, para o resto da sua carreira, pelo sobriquete de Sampaio da Revolução, cognome decerto honroso para os seus dotes de jornalista.