thumb|Mapa etnográfico da Península Ibérica Os vascões (; ; ) foram um povo da Idade Antiga cujo território se estendia na época dos romanos entre o vale alto do rio Ebro e a vertente peninsular dos Pireneus ocidentais, uma região que se corresponde na época contemporânea com a prática totalidade da Navarra e áreas do noroeste de Aragão e nordeste da Rioja.
Os vascões, que atingiram um elevado grau de integração no mundo romano especialmente nas terras chãs, ribeirinhas do rio Ebro e nas áreas no contorno dos seus assentamentos de Pompelo e Oiasso, povoaram a região mais nortenha e montanhosa, conhecida como o Vasconum Saltus, durante a crise econômica e social que acompanhou à decomposição do Império Romano e a pressão causada pelas grandes migrações de povos germânicos e eslavos de princípios do , entrando posteriormente em conflito em diversas ocasiões com os reinos de visigodos e francos formados em ambas as vertentes dos Pirenéus.
Após a invasão muçulmana da Península Ibérica, a princípios do , que resultou na dissolução da Hispânia visigoda e a retirada parcial dos governadores francos a Norte da Aquitânia, os descendentes vascões, que adotaram o cristianismo durante o Baixo Império, reorganizaram-se para o entorno às entidades feudais do Ducado da Vascônia, na área da Gasconha, e a do reino de Pamplona. Esta última entidade daria origem durante a Idade Média ao reino de Navarra.
Território Época romana thumb|upright|Retrato de Tito Lívio, a quem se deve a primeira resenha historiográfica que se conserva da antiguidade sobre o povo dos vascões
A descrição do território que os vascões" Ensaio de identificação de cidades vascãs" e artigo sobre por Alicia Mª Canto e de Gregorio, inclui mapa com as cidades e restos achados ocupavam durante a época antiga nos chegou através dos textos dos autores clássicos, entre o e o , Tito Lívio, Estrabão, Plínio e Cláudio Ptolemeu que foram os nomeadamente estudados(Blázquez 1966), (Schulten 1927), (Gómez Fraile 2001), (Canto e de Gregório 1997) como fontes de referência, embora vários autores assinalassem à falta de uniformidade e mesmo contradição das suas informações ou advertido sobre a interpretação realizada, em particular para com as herdadas de Estrabão.Gómez Fraile 2001:28),(Arce,1999
A resenha historiográfica mais antigaBlázquez 1966:2; Schulten 1927:226 corresponde a Lívio ( - ) quem numa breve passagem do fragmento XCI da sua obra sobre a campanha de da guerra sertoriana, relata como após remontar o rio Ebro e a civitas de Calagurris Nasica, atravessasse o território chão dos vascões ou Vasconum agrum até os lindes dos seus vizinhos imediatos, os berões."..dimissis eis ipse profectus per Vasconum agrum ducto exercitu in confinio Beronum posuit castra,… " ("…após levar (Sertório) seu exército através do território dos vascões instalou o seu acampamento numa zona co-limitada com os berones,…"). Texto segundo P. Jal, Tite-Live. Histoire Romaine XXXIII. Livre XLV et Fragments. Paris, 1990 (1979), p. 214-218 De um estudo comparado de outras partes do mesmo fragmento, deduz-se que esse linde encontrava-se a Oeste, enquanto para o Sul os vascões eram vizinhos da cidade celtibera de Contrebia Leucada, próxima à contemporânea Daroca.Blázquez 1966:3
Plínio pela sua parte na sua Naturalis Historia reproduziu um texto anterior a no qual emprazava os vascões no extremo ocidental dos Pirenéus, vizinhos dos Várdulos, e estendidos para os montes de Oiarso e o Cantábrico em uma área que denominou Vasconum saltus.Naturalis Historia, 4,110-111: Proxima ora citerioris est eiusdemque Tarraconensis situus a Pyrenaeo per oceanum Vasconum saltus, Oiarso, Vardulorum oppida, Morogi, Menosca, Vesperies, Amanum portus, ubi nunc Flauiobrica colonia 8. Ciuitatium VIIII regio Cantabrorum, flumen Sauga, portus Victoriae Iuliobricensium. ac eo loco fontes Hiberi XM passuum portus Blendium, Orgonomesci e Cantabri. portus eorum Vereasueca, regio Asturum, Noega oppidum, in poeninsula Paesici, et deinde conuentus Lucensis, a flumine Nauialbione Gibarci, Egiuarri cognomine Namarini, Iadoui, Arroni, Arrotrebae, pronunturium Celticum, amnes Florius Nelo. Celtici cognomine Neri et super Tamarici 9 quorum in paeninsula tres arae Sestianae [-182→183-] Augusto dicatae, Copori, oppidum Noeta… O geógrafo grego Estrabão, à época de Augusto ( - ), ao referir-se aos vascões (em grego clássico, Ούασκώνων) situa a sua principal Polis na cidade de PompeloEstrabão III, 4, 10:…Ύπέρκειται δε τής Ίακκητανιίας πρός άρκτον τό τών Ούασκώνων έθνος, έν ώ πόλις Πομπέλων, ώς άν Πομπηιόπολις. (… depois, acima da Lacetânia, em direção Norte, está a nação dos vascões, que tem por cidade principal a Pompelon, como quem diz "a cidade de Pompeus".). Texto segundo F. Lasserre, Strabon, Géographie II. Livres III et IV. Les Belles Lettres. Paris 1966. junto também a cidade de Calagurris.
thumb|upright|Cláudio Ptolemeu, segundo uma gravura alemã do , quem enumerou as principais populações vascãs
Estes dados encontram-se na obra de Ptolomeu, que viveu durante o na época imperial, Geographikè Úphégesis,em cujo capítulo 6, 66 do seu livro II detalha o nome de 15 cidades ao interior do território dos vascões, além da costeira Oiasso:Schulten 1927: 230-232)(Canto e de Gregório 1997) Iturissa, Pompelo, Bíturis, Andelos, Nemantúrissa, , Iaca, Gracorres, Calagurris, Cascanto, Ercávica, Tarraga, Muscária, Ségia e Alavona.
O território dos vascões na época romana republicana e alto-imperial correspondia então com as contemporâneas províncias de Navarra, o extremo Nordeste de Guipúscoa e parte de A Rioja, Saragoça e Huesca,Blázquez 1966:11 incluindo a cidade e contorno de Calagurris.Gómez Fraile 2001:58
Século II-VI Com posterioridade à época de Ptolomeu e após o período das invasões, o relato do autor João de Biclaro (540?-621?), quem cita os vascões na tomada pelos visigodos da cidade de VictoriacoJoão de Biclaro (Chron. Min. II, 216): Leovigildus rex partem Vasconiae occupat et civitatem quae Victoriacum… , de acordo com (Schulten 1927:234 e Gregório de Tours (538-594) sobre as incursões dos vascões na Aquitânia por volta de 587Grégoire de Tours, Histoire des Francs: Les Gascons descendirent de leurs montagnes dans la plaine, dévastèrent les villes, les champs…le duc Austrovald marcha souvent contre eux, mais ne parvint guères à en tirer vengeance, edición J.-L.-L. Brière, Paris 1823. Tomo II, Livro IX, De l'année 587 à l'année 589. Gontran, Childebert II et Clotaire II, Rois pag. 8. Disponível o 16/11/2006 em bnf.fr levou a autores como Adolf Schulten (1870-1960) propor que em algum momento entre meados do e finais do teve lugar uma ampliação progressiva do território dos vascões primeiro para Oeste, ocupando as terras dos seus antigos vizinhos Várdulos, Autrigones e Carístios,Schulten 1927:234 e para Norte, em AquitâniaSchulten 1927:235 que por isso adotou o nome de Gasconha, origem do País Basco francês.
Século VII até 810 A partir do , os cronistas já diferençam a Spanoguasconia na vertente peninsular dos Pireneus, da Aquitânia ou Gascônia, seguindo a descripção do Cosmógrafo de Ravena a partir da qual Schulten interpreta que os vascões ter-se-iam retirado parcialmente dos seus territórios da época romana com anterioridade ao , para ocupar as terras mais a Norte, no qual seria a comunidade autônoma do País Basco e a parte setentrional de Navarra.Schulten 1927:240 Schulten também achega o dado da crônica de Eginhardo Vita Karoli Magni datada em 810 onde se faz uso pela primeira vez o do término navarros para designar o povo que ocupava o território ribeirinho do Ebro.Schulten 1927:238
História Do a : contato e integração no mundo romano Após o desembarco em Empório da forças da República romana em durante a Segunda Guerra Púnica, o interesse romano orientou-se para a anexação e conquista do vale do Ebro, que se desenvolveria entre e Por volta de -, o general Tibério Semprônio Graco fundou a proximidade do território dos vascões a cidade com o seu nome batizada de Gracurris, a moderna Alfaro, circunstância e período assinalados como antecedentes imediatos ao acréscimo das relações de colaboração entre vascões e romanos.Gil Zubillaga 2006:89); Schulten 1927:227 O testemunho mais antigo desta relação encontra-se no chamado Bronze de Ascoli de , durante a Guerra Social (91–88 a.C.) desenvolvida na península italiana, na qual Cneu Pompeu Estrabão, pai de Cneu Pompeu Magno, fundador de Pompelo, outorgou a cidadania romana em "virtute causa" como reconhecimento a 9 ginetes vascões sossetanos da cidade de Ségia, moderna Ejea de los Caballeros. De data posterior a , é conservado o "bronze de Contrébia", que detalha um litígio patrimonial resolvido pelo procônsul da província da Hispânia Citerior em favor da cidade vascã de Alauona, Alagón.Gil Zubillaga 2006:92,93
Entre e têm palco no vale alto do Ebro as chamadas Guerras Sertorianas, uma guerra civil romana que enfrentou vitoriosamente a Pompeu e Metelo, partidários de Sula, com o partido democrático de Sertório e durante as quais ambos os bandos apoiaram-se na população vascã, especialmente Cneu Pompeu Magno quem durante o inverno de - fundaria sobre um ópido indígena, no coração do território vascão e sobre a rota do trigo de Aquitânia, a cidade de Pompelo, Pamplona. Em as forças de Pompeu e Metelo assediaram a cidade de Calagurris forçando sua resistência, segundo o relato de Caio Salústio até provocar práticas de canibalismo nos seus defensores.Salustio citado em (Schulten 1927:227
Em o tenente de Júlio César, Marco Licínio Crasso atacou os aquitanos, vizinhos dos vascões, durante a Guerra das Gálias, na qual estes últimos solicitaram o apoio militar de os outros habitantes do outro lado dos PireneusGil Zubillaga 2006:97 a quem César identificou como cântabros.
Mais tarde, o território vascão ficou à margem do palco das operações militares das Bellum cantabricum que tiveram lugar entre e reclamando a presença de imperador AugustoEitegarai 1999 que em criou a província de Hispânia Citerior Tarraconense com capital em Tarraco à que ficou adscrito o território vascão.
Os vascões durante o Imperium: amizade e colaboração com Roma No reinado de Cláudio (41-54) compartimentaram-se os territórios de Hispânia em diferentes conventos aos que ficam adscritos os diferentes povos, sendo vascões e berones incluídos na circunscrição de César Augusta, que por volta de 74-75, com Vespasiano, adotou o Ius latii ou direito latino para cada magistratura municipal e em 212, durante o reinado de Caracala, a Constituição Antonina ou cidadania romana para todos os homens livres do Império.Gil Zubillaga 2006:104
Durante o Alto Império, produziu-se a consolidação das cidades e a formação da rede de comunicações e comércio, destacando-se a cidade portuária comercial de Oiasso que testifica restos de atividade comercial com a cidade bética de Itálica datados de a encontrados em Santa María del Juncal em Irún.Gil Zubillaga 2006:108 Da rede de pistas que sucavam o território dos vascões destacam-se a via principal de Astúrica Augusta (Astorga) a Burdígala (Bordéus), citada com o número 34 na fonte do Itinerário de Antonino, escrito aproximadamente por volta de 280 e a via citada por Estrabão, de Easso a Tarraco, confluindo ambas as rotas em Pompelo e que permitiam o transporte de cereais hispânicos da Meseta à Fronteira da Germânia durante o baixo-império.Gil Zubillaga 2006:117