A ocupação do território português durante o período islâmico caracteriza-se pela reutilização das cidades já estabelecidas localmente, adequando seus espaços conforme as necessidades da população local e do novo poder instalado. As cidades de maior destaque comumente encontravam-se em importantes cursos d’água, como por exemplo Lisboa (Al-Ushbuna); Santarém (Santarim), Coimbra (Qulumriyya), Silves (Xelb) e Mértola (Martulah). O acesso à água é um fator essencial desta ocupação, uma vez que a subsistência das urbes pautava-se em grande parte na sua produção agrícola, com as novas técnicas de irrigação instauradas pelos muçulmanos. Grandes áreas de pleno cultivo e jardins eram parte da típica paisagem andaluza.
A arqueologia tem sido a grande propulsora dos estudos do período islâmico na Península Ibérica, visto que a história tem poucas fontes escritas sobre este tema, sendo muitas delas recortes bastante específicos, consequentemente não representativos da maior parte dos contextos dos domínios muçulmanos medievaisNAVARRO PALAZÓN, J.; JIMÉNEZ CASTILLO, P. (2007) - Las ciudades de Alandalús: nuevas perspectivas. Instituto de Estudios Islámicos y del Oriente Próximo: Zaragoza..
História
Romanização miniaturadaimagem|363x363px|Mapa das divisões administrativas do Império Romano na Península Ibérica, circa 400 EC. Dentre as urbes portuguesas, já estavam presentes e influentes no período romano Lisboa (Olissipo), Santarém (Scalabis), Évora (Ebora), Beja (Pax Julia), Braga (Bracara Augusta), Condeixa-a-Velha (Conímbriga), Faro (Ossonoba), entre outras. Algumas delas remontam sua fundação à proto-história, de origem lusitana, outras fundadas pelos fenícios durante sua colonização no sul da Península Ibérica (que por sua vez, comumente formaram-se sob assentamentos pré-históricos). Os romanos, em muitos dos casos, utilizaram-se de comunidades já estabelecidas anteriormente para dar continuidade à ocupação, instalando suas instituições administrativas e adaptando as cidades aos moldes latinos. Durante este período, a Península Ibérica era dividida em províncias, divisões tais que sofreram alterações conforme os diferentes governos vigentes. A última divisão estabeleceu-se por volta do ano 400 EC como Baetica, Lusitânia, Galécia, Tarraconense, Cartaginense, Tingitana e ilhas Baleares.
Vestígios arqueológicos atestam para um grande desenvolvimento económico alcançado sob o domínio romano, o que resultou em algumas mudanças nas urbes, como a utilização de telhas nas casas e pavimentos de ladrilhos; consumo ostensivo de cerâmicas sejam mais rudimentares, sejam mais elaboradas (indicando fabricações em olarias locais e comércio com as demais províncias); aumento da produção têxtil local; e principalmente o fabrico de preparados de peixe, atividade económica predominante no território português. Também foram introduzidas diversas vias, pontes, estradas militares e aquedutos.
Estruturas que permitiram tantas movimentações pelo território aumentaram a intensidade do comércio, a presença de materiais provenientes de outros sítios e a quantidade de assentamentos. As casas eram normalmente pintadas com uma fina camada de cal, tendo algumas das residências de famílias mais abastadas pinturas a fresco. Com relação ao campo, a agricultura também foi amplamente desenvolvida neste período. Nas grandes urbes romanas, comumente incorporavam-se estruturas como muralhas, termas, teatro, templos, casas de cunhagem, praças e circos.
Cristianização miniaturadaimagem|343x343px|Mapa da ocupação cristã na Península Ibérica, circa 500 EC. Aos alvores do , as migrações dos povos germânicos e orientais conferiram novos aspetos às cidades da Península Ibérica. Ao contrário do que comumente se propaga, durante a ocupação destes migrantes e ao longo da monarquia visigótica e sueva, as urbes herdadas dos romanos não foram desmanteladas ou extensivamente destruídas, mas continuadas e remodeladas pela nova administração. Estes povos já encontravam-se presentes no território, convivendo com o poder latino e seus modos, ocorrendo uma adaptação mútua em diferentes aspectosAREZES, Andreia Catarina Magalhães (2014) - Ocupação “Germânica” na Alta Idade Média em Portugal: as necrópoles dos séculos V e VIII. Porto, p. 82..
Quando do estabelecimento destas novas monarquias, algumas alterações foram executadas, como novas funções aos locais cuja atividade económica não era mais realizada, utilização de estruturas domésticas em negativo, construção de templos cristãos sob templos pagãos e a transformação de estruturas como os teatros romanos em necrópolesAREZES, Andreia Catarina Magalhães (2014) - Ocupação “Germânica” na Alta Idade Média em Portugal: as necrópoles dos séculos V e VIII. Porto, p. 203-206.
O desmantelamento do império teve um grande impacto na economia e padrão de consumo do mediterrâneo, uma vez que os acordos e estruturas administrativas que mantinham esta rede foram desmanchados. Isto é observável no abandono de muitas fábricas de preparados de peixe e na mudança do padrão de cerâmicas e vidros produzidos e utilizados.
Arabização Como parte da expansão territorial muçulmana, em 711 dá-se o início do adentramento na Península Ibérica através do cruzamento do estreito de Gibraltar pelas tropas lideradas pelo berbere Tárique. Ali instalou-se uma província do Califado Omíada de Damasco (séculos VII e VIII) estendendo-se até o norte da península, o Alandalus, tendo Córdova como capital, sob o rio Guadalquivir. O território a ocidente tinha o nome de Gharb al-Andalus (região que engloba o atual Algarve, mas que não se restringia a esse território) o qual se dividia em pequenas cidades e fortalezas.
No o governante intitula-se Califa e o Alandalus passa a ser o Califado de Córdova. Contudo, em meados da centúria seguinte, o reino sofre turbulências que resultam numa fragmentação do território, surgindo as taifas. No caso do Gharb foram oito: Badajoz, Sevilha, Niebla, Huelva e Saltes, Faro, Lisboa, Mértola e Silves. Pouco tempo depois, as taifas caem sob o domínio dos Abádidas de Sevilha. Com a ameaça da conquista dos cristãos ao norte, fortalecida por Afonso VI ao final do com a tomada de Toledo, os líderes das principais taifas pedem auxílio ao Emirado Almorávida do Marrocos, o qual termina por englobar o Alandalus nas dependências do seu império. No século seguinte, a região assiste a queda dos Almorávidas e a ascensão dos Almóadas, com um novo período de taifas entre estes. Os Almóadas também integraram Alandalus no seu domínio e transformaram Sevilha em sua capital. Novamente, turbulências culminam no terceiro período de taifas seguido da expansão dos cristãos do território portuguêsLEITÃO, A. O. (2008). Do Garb Al-Ândalus ao “segundo reino” da “Coroa de Portugal”: território, política e identidade. Lisboa, p. 69-104..
miniaturadaimagem|351x351px|Mapa da Península Ibérica sob a administração do Califado de Córdova no início do .
Chegados os primeiros muçulmanos na Península Ibérica no , manteve-se a estrutura administrativa de tradição romana, materializada pelos visigodos. Estes, teriam negociado a nova ocupação estrangeira com o benefício da sua manutenção em cargos de poder regionaisGONÇALVES, M. J. S.; PIRES, A. (2008). Silves Islâmica - a muralha do arrabalde e a dinâmica da ocupação do espaço adjacente. Faro, p. 37-38.. O poder central em Córdova seguia as tradições Omíadas e Sírias num esforço constante de arabização local, todavia mesclando os moldes do governo de Baguedade com os já existentes na Península Ibérica (ou seja, a administração romana já alterada e transformada pelos germânicos). Em consonância com as demais regiões dominadas pelo islão, conviviam em Alandalus muçulmanos, cristãos e judeus, e uma população etnicamente variada, contudo, rapidamente arabizados. Portanto, apesar da diferença de credos e origens, a língua e cultura vigentes eram a árabe.
Assim como com os visigodos, durante o domínio muçulmano muitas das estruturas já existentes foram mantidas ou reaproveitadas. Também foram erigidas bibliotecas e livrarias; as termas romanas foram reutilizadas ou novos banhos foram construídos e mesquitas foram feitas muitas vezes sob templos anteriores. As cidades do Alandalus tiveram diferentes etapas de desenvolvimento de acordo com as diferentes administrações, como também apresentou-se de maneira distinta quando comparada aos outros domínios árabe-muçulmanos.
Retomada cristã Após a expansão cristã nos domínios islâmicos ibéricos, as cidades conquistadas mais uma vez tiveram suas estruturas reaproveitadas, um exemplo que a arqueologia tem mostrado ser um padrão, é a construção de igrejas sob as antigas mesquitas. Alguns exemplos disto seriam a Sé de Évora, a Sé de Faro, a Igreja de Santa Maria do Castelo de Tavira, a Igreja Matriz de São Clemente de Loulé, a Sé de Lisboa – questão ainda em debate, mas com fortes argumentos corroborando para o seu soerguimento sob a antiga mesquita aljama de Al-Ushbuna – e a Igreja de Nossa Senhora da Anunciação de Mértola, neste último caso a mesquita foi reutilizada sem a destruição da maior parte da estrutura, preservando visivelmente muitas das características do templo islâmico.
Outros reaproveitamentos realizados pelos cristãos foram os banhos e as estruturas dos castelos e das muralhas, que permanecem até os dias de hoje, apesar das inúmeras intervenções e modificações desde então.
A organização do espaço no período islâmico miniaturadaimagem|297x297px|Um souq atual em Damasco, Síria. Existem falsas concepções de que a urbe islâmica era desordenada e mal planeada. Trata-se, porém, de ideias colonialistas herdadas de estudos generalistas realizados sobretudo na década de 1970. As medinas andaluzes foram erigidas sob traçados romanos contando com novas concepções arabizadas que cumpriam com as necessidades da população e cultura ocupante no período. As cidades foram herdadas já alteradas pelas ocupações a meio dos romanos e islâmicos, portanto não houve uma destruição vigorosa e abrupta das urbes construídas pelos latinos, as quais já eram adaptadas de assentamentos anteriores. Também é importante ressaltar que diferentes localidades do domínio islâmico apresentam diferentes formas de organização territorial e que a população local era arabizada, mas não necessariamente etnicamente árabe, como também islamizada, mas não necessariamente professante desta fé.
Medinas As cidades islâmicas no Alandalus contaram com algumas modificações sob as urbes preexistentes das quais as principais podemos listar como :
Estreitamento das ruas Apropriação privativa de algumas ruas, becos e adarves Curvaturas e quebras arbitrárias das ruas Cobertura e ocupação das ruas pelos espaços privados Cegamento de muros e fachadas Corredores de quebras sinuosas a partir das entradas das casas, que abrem para pátios internos Oclusão de vias e áreas urbanas anteriores ou seu completo desaparecimento Abertura de novas vias cortando edifícios preexistentes Mesquitas Banhos Souqs Segregação dos bairros com base em critérios funcionais ou étnico-religiosos
A urbe era organizada a partir de uma subdivisão em duas partes: a cidade alta (alcáçova) e a cidade baixa (medina). A alcáçova situava-se dentro da medina, cercada por muralhas, cujas portas de acesso eram encerradas à noite, assim como as portas das muralhas da medina. Dentro da alcáçova encontra-se alcácer, que abrigava uma praça-forte de carácter palatino, podendo contar também com habitações das elites e um rawda (cemitério das elites). Por vezes, a alcáçova encontra-se sob antigas estruturas administrativas romanas, como é o caso de Mértola, cujo bairro da alcáçova foi erigido sobre o foro romanoNAVARRO PALAZÓN, J.; JIMÉNEZ CASTILLO, P. (2020) - El urbanismo islámico y sus procesos evolutivos. Mazarrón, p. 129..