ou orgone é um conceito espiritual pseudocientífico descrito como uma energia esotérica ou como uma hipotética força vital universal. Originalmente proposto nos anos 1930 por Wilhelm Reich e desenvolvido mais tarde por seu estudante Charles Kelley depois da morte de Reich em 1957, o orgônio foi concebido como o princípio antientrópico do universo. Seria um substrato criativo subjacente a tudo na natureza, comparável ao magnetismo animal de Mesmer (1779), à força ódica de Carl Reichenbach (1845) e ao élan vital de Henri Bergson (1907). O orgônio era visto como uma substância onipresente sem massa, similar ao éter luminífero, mas mais proximamente associado à energia vivente que com a matéria inerte. Supostamente este podia se acumular para criar organização em qualquer escala: desde as mais pequenas unidades microscópicas - chamadas "bions" na teoria orgônica - até em estruturas macroscópicas como organismos viventes, nuvens ou mesmo galáxias.

Reich argumentava que as deficiências ou constrições no orgônio corporal eram a raiz de muitas doenças, da mesma forma em que os limitações na libido podiam produzir neurose na teoria freudiana. Reich fundou o "Instituto do Orgônio" em 1942 para pesquisar sobre a energia orgônica depois de emigrar para os Estados Unidos em 1939, e o utilizou para publicar literatura e distribuir material relacionado com o tema durante mais de uma década. Reich projetou "acumuladores de orgônio" especiais (dispositivos que ostensivelmente coletam e armazenam energia orgônica do ambiente) para melhorar a saúde geral ou mesmo para controlar o clima. Eventualmente, a agência americana FDA obteve uma ordem federal que proibia a distribuição interestatal de materiais relacionados com o orgônio, por considerar que Reich e seus sócios estavam fazendo afirmações enganosas, e mais tarde isto levou à prisão de Reich e à destruição de todos os materiais relacionados com o orgônio no instituto quando Reich violou a ordem judicial. Finalmente Reich rescindiu a afirmação de que os acumuladores poderiam proporcionar potência orgástica, mas isto não foi suficiente para deter a ação judicial.

Na Espanha, o Centro Nacional para a Saúde Complementar e Integral classifica o orgônio como um tipo de "energia putativa". Após a morte de Reich, a pesquisa sobre o conceito do orgônio passou às mãos de alguns de seus estudantes, como Kelley, e mais tarde a uma nova geração de cientistas na Alemanha interessados em descobrir uma base empírica para a hipótese do orgônio (os primeiros resultados positivos foram supostamente fornecidos por Stefan Muschenich em 1989).Müschenich, S. & Gebauer, R.: "Die (Psycho-)Physiologischen Wirkungen dês Reich'schen Orgonakkumulators auf dêem Menschlichen Organismus" ("The [Psycho-]Physiological Effects of the Reich Orgone Accumulator on the Human Organism,") University of Marburg (Germany), Department of Psychology, Master's Degree Dissertation, 1986. Published as: "Der Reichsche Orgonakkumulator. Naturwissenschaftliche Diskussion - Praktische Anwendung - Experimentelle Untersuchung" ("The Reichian Orgone-Accumulator. Scientific Discussion - Practical Use - Experimental Testing"), 1987, published by Nexus Verlag, Frankfurt (Also see the published work: Müschenich, Stefan: Der Gesundheitsbegriff im Werk dês Arztes Wilhelm Reich (The Concept of Health in the Works of the physician Wilhelm Reich), Doktorarbeit am Fachbereich Humanmedizin der Philipps-Universität Marburg (M.D. thesis, 1995, University of Marburg (published by Verlag Gorich & Weiershauser, Marburg) 1995. Não existe respaldo empírico para o conceito de orgônio na medicina ou nas ciências físicas, e a pesquisa sobre o conceito terminou junto com o Instituto.

História O conceito do orgônio pertence ao trabalho tardio de Reich, depois que ele emigrou para os Estados Unidos. O trabalho inicial de Reich baseou-se no conceito freudiano da libido, ainda que influenciado por conceitos sociológicos com os quais Freud não concordava, mas que eram seguidos em certa medida por outros teóricos prominentes como Herbert Marcuse e Carl Jung. Enquanto Freud tinha-se concentrado numa concepção solipsista da mente na qual impulsos primários inconscientes e inerentemente egoístas (principalmente o impulso sexual ou a libido) são suprimidos ou sublimados por representações internas (catexia) de figuras paternais (o superego), para Reich a libido era uma força "afirmadora de vida" diretamente reprimida pela sociedade. Foi expulso do Instituto de Psicoanálise devido a estes desacordos sobre a natureza da libido e sua postura cada vez mais politizada. Pouco depois de que Hitler chegou ao poder, se viu obrigado a abandonar a Alemanha.

Reich adotou uma visão crescentemente bioenergética da libido, talvez influenciado por seu tutor Paul Kammerer e outro biólogo, Otto Heinrich Warburg. No início do século XX, quando a biologia molecular estava em sua infância, a biologia do desenvolvimento em particular ainda apresentava mistérios que faziam que a ideia de uma energia vital específica fosse respeitável, tal como foi apresentada por teóricos como Hans Driesch. Como psicanalista, Reich alinhou essas teorias com a libido freudiana, enquanto como materialista achava que tal força vital devia ser suscetível de experimentação física.

Em seu livro mais conhecido, A função do orgasmo, escreveu: "Entre 1919 e 1921, familiarizei-me com a 'Philosophie des Organischen' de Driesch e sua 'Ordnungslehre'... A asserção de Driesch pareceu-me indiscutível. Ele argumenta que, na esfera da função da vida, o todo pode se desenvolver a partir de uma parte, enquanto uma máquina não pode se fazer a partir de um parafuso... No entanto, não pude realmente aceitar o trascendentalismo do princípio da vida. Dezessete anos depois, pude resolver a contradição com base numa fórmula relativa à função da energia. A teoria de Driesch sempre esteve presente em minha mente quando pensava no vitalismo. O vago sentimento que tinha sobre a natureza irracional de sua suposição resultou ser justificado ao final. Ele acabou entre os espiritualistas".

O conceito do orgônio foi o resultado deste trabalho sobre a psicofisiologia da libido. Após migrar para os Estados Unidos, Reich começou a especular sobre o desenvolvimento biológico e a evolução, e depois diversificou-se para especulações bem mais amplas sobre a natureza do universo. Isto lhe levou à concepção dos "bions": vesículas subcelulares autoluminiscentes que acreditava serem observáveis nos materiais em descomposição, e provavelmente estariam universalmente presentes. Inicialmente considerou os bions como entidades eletrodinâmicas ou radioativas, como tinha feito o biólogo ucraniano Alexander Gurwitsch, mas mais tarde chegou à conclusão de que tinha descoberto uma força totalmente desconhecida, mas mensurável, que depois chamou de "orgônio", uma formação pseudo-grega provavelmente proveniente de org- "impulso, excitação" (como em org-asmo) , mais -ônio como em ozônio (o particípio neutro grego, virtualmente , gene : ).

Reich alegava ter visto o orgônio quando injetava bions em seus ratos e no céu noturno por meio de um "organoscópio", um tipo especial de telescópio. Argumentava que o orgônio está presente no ar e no solo (e de fato era "onipresente"), tem uma cor azul ou "azul-acinzentada e que a humanidade tem dividido seu conhecimento dele em dois: éter para o aspecto físico e Deus para o espiritual. Escreveu que a cor do céu, as auroras boreais, os fogos de santelmo, e a cor azul das rãs sexualmente excitadas eram manifestações do orgônio. Também argumentava que os protozoários, os glóbulos vermelhos, as células cancerosas e a clorofila das plantas estavam carregados de orgônio.

Avaliação e críticas miniaturadaimagem|Wilhelm Reich em demonstração

Problemas experimentais Ao menos em alguns casos, as técnicas experimentais de Reich parecem não ter sido adequadamente cuidadosas nem ter tomado precauções suficientes para eliminar a distorção experimental. Reich estava preocupado com a verificação experimental por outros cientistas e expôs seu trabalho a escrutínio repetidas vezes, ainda que com resultados geralmente negativos.

Em 1937 Reich permitiu que o patólogo noruego Leiv Kreyberg examinasse uma das preparações de bions com um microscópio. Kreyberg escreveu que o caldo que Reich tinha usado como seu meio de cultivo era efetivamente estéril, mas que as bactérias eram estafilococos comuns. Concluiu que as medidas de controle de Reich para prevenir a contaminação por bactérias no ar não eram tão efetivas como Reich pensava. Kreyberg acusou Reich de ser ignorante em relação a fatos bacteriológicos e anatômicos básicos. Por sua vez, Reich acusou Kreyberg de não ser capaz de reconhecer células cancerosas vivas sob ampliação.

Reich enviou então uma amostra das bactérias ao biólogo noruego Theodor Thjøtta, do Instituto Bacteriológico de Oslo, que também concluiu que se deviam à contaminação por bactérias no ar. Kreyberg declarou mais tarde que "o senhor Reich" sabia menos sobre bactérias e anatomia que um estudante de medicina de primeiro ano.

Em 1941, Albert Einstein aceitou realizar experimentos com um acumulador de orgônio que Reich lhe forneceu depois que se reuniram para falar das ideias de Reich na casa de Einstein em Princeton. Entretanto, após realizar experimentos durante dez dias em seu sótão com o acumulador, durante os quais se media a temperatura sobre, dentro e perto do aparelho, chegou à conclusão de que o efeito observado se devia simplesmente ao gradiente de temperatura dentro da habitação, enquanto Reich argumentou que era causado pelo orgônio. Einstein escreveu a Reich: "Através destes experimentos, considero que o assunto está completamente resolvido", em 7 de fevereiro de 1941. Em sua correspondência subsequente com Reich, Einstein respondeu que não podia dedicar mais tempo ao assunto e solicitou que seu nome não fosse mau usado com fins publicitários.

Recepção da ideia nos EUA O orgônio estava estreitamente associado com a sexualidade: Reich, seguindo Freud, via a sexualidade nascente como a força energética primária da vida. O termo em si foi eleito para compartilhar uma raiz com a palavra orgasmo, o qual tanto Reich como Freud consideraram uma expressão fundamental da saúde psicológica. Este foco na sexualidade, ainda que aceitável na perspectiva clínica dos círculos psicanalíticos vienenses, escandalizou o público conservador americano, ainda que tivesse apelo junto a figuras da contracultura como William S. Burroughs e Jack Kerouac .

O orgônio e conceitos relacionados foram denunciados rapidamente na imprensa americana no período pós-guerra. Reich e seus estudantes foram vistos como um "culto ao sexo e à anarquia", em parte, ao menos, porque o orgônio estava ligado ao título de seu livro A função do orgasmo. Isto levou a várias investigações acusando-o de comunista e a denúncias sob diversos outros pretextos. Ele foi, como disse mais tarde o New York Times, "muito difamado". A comunidade psicanalítica da época viu seu enfoque à cura de doenças como charlatanismo da pior espécie, em parte devido a seus comentários sobre os OVNIs.

Conflitos legais Em 1954, a agência americana FDA solicitou e obteve uma ordem judicial que impedia que Reich atribuísse propriedades médicas ao orgônio e produtos relacionados, impedindo, entre outras coisas, o comércio de "dispositivos de orgônio" através de linhas estatais. Reich desafiou a ordem e foi preso, e a FDA aproveitou a oportunidade para destruir todos os livros de Reich que mencionavam o orgônio, junto com os materiais e equipamentos de pesquisa.

Orgônio na cultura popular O orgônio foi usado nos escritos de vários autores prominentes da geração beat, quem estavam fascinados por seus supostos aspectos curativos e sexuais. Nesse aspecto, está fortemente associado com o movimento de contracultura dos anos 1950, ainda que não tenha se estendido aos movimentos da década seguinte.

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