Fernando I (Nápoles, – Nápoles, ), apelidado de "Rei Narigudo", foi o Rei das Duas Sicílias desde a sua unificação em 1816 até à data da sua morte. Antes fora Rei da Sicília como Fernando III de 1759 até 1816 e Rei de Nápoles como Fernando IV em três períodos diferentes, de 1759 até ser deposto em janeiro de 1799 pela República Partenopeia, de junho de 1799 até ser deposto novamente em 1806 por Napoleão Bonaparte, e por fim entre 1815 e 1816.
Era o terceiro filho do rei Carlos III da Espanha e de sua esposa, Maria Amália da Saxônia. Ascendeu aos tronos siciliano e napolitano depois da abdicação de seu pai, que havia ascendido ao trono espanhol após a morte do rei Fernando VI. Dessa forma, Fernando fundou o ramo da Casa de Bourbon-Duas Sicílias, que governou o reino até seu fim em 1861.
Primeiros anos miniatura|upright=0.8|esquerda|Fernando, qaundo bebê, por Francesco Liani Fernando nasceu em Nápoles e cresceu cercado por diversos monumentos ali erguidos por seu pai, muitos dos quais ainda podem ser admirados atualmente, como os palácios de Portici, Caserta e Capodimonte.
Fernando era o terceiro filho de seus pais, sendo esperado que o primogênito, Carlos, herdasse os tronos de Nápoles e da Sicília. Contudo, em 1759, quando seu pai ascendeu ao trono da Espanha, abdicou das coroas napolitana e siciliana em favor de Fernando, em conformidade com os tratados que proibiam a união dessas duas coroas. Deixado sozinho, Fernando teve sua educação negligenciada, o que o inclinou ao gosto pelo prazer, à ociosidade e a uma dedicação excessiva às atividades esportivas ao ar livre.
Ascensão e primeiro casamento miniatura|upright=0.8|Fernando IV aos nove anos de idadeAnton Raphael Mengs, 1780, Museu do Prado Em 1759, aos oito anos de idade, seu pai abdicou dos tronos de Nápoles e da Sicília para assumir a coroa da Espanha com o título de Carlos III. Como o herdeiro direto ao trono espanhol era o primogênito, o futuro Carlos IV, coube a Fernando a sucessão nos reinos de Nápoles e da Sicília. Ainda na infância, foi proclamado rei da Sicília com o título de Fernando III e rei de Nápoles como Fernando IV. É considerado o fundador da Casa de Bourbon-Duas Sicílias, dinastia que posteriormente governou o Reino das Duas Sicílias, do qual foi o primeiro monarca. Durante o período de sua menoridade, o governo foi exercido por um regime de regência chefiado por Bernardo Tanucci e pelo príncipe Domenico Cattaneo.
Figura-chave na reconciliação entre a Casa de Bourbon e a Casa d'Áustria, foi prometido em casamento à arquiduquesa austríaca Maria Josefa, filha da imperatriz Maria Teresa. No entanto, ela morreu de varíola aos dezesseis anos, no mesmo dia em que deveria ter deixado a Áustria para Nápoles, onde se casaria com Fernando.. Após sua morte, a irmã mais nova, a arquiduquesa Maria Carolina, foi enviada para casar com Fernando em seu lugar. O casamento realizou se no ano seguinte e não foi feliz, uma vez que Maria Carolina achou o marido muito feio. A união, contudo, provou ser frutífera.
Ocupação francesa de Nápoles e exílio na Sicília miniatura|upright=0.8|esquerda|Fernando IV, rei de Nápoles e SicíliaAngelika Kauffmann, 1782-1783, Museu Vorarlberg Com a eclosão da República Francesa em 1789, a situação política na Europa sofreu profundas transformações, e o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta, irmã da rainha Maria Carolina e cunhados de Fernando, foram executados em janeiro e outubro de 1793, respectivamente. Em agosto do mesmo ano, após o Cerco de Toulon, Nápoles uniu-se à Primeira Coligação, composta pela Grã-Bretanha, Rússia, Áustria, Prússia, Espanha, Portugal e a Sardenha dos Saboia, contra a França revolucionária.
O fim das hostilidades franco-espanholas no verão de 1795 proporcionou a Napoleão Bonaparte, general corso do exército francês, a oportunidade de concentrar-se na campanha francesa na Itália. Quando os reinos de Nápoles e a Sicília aderiram à Segunda Coligação, Napoleão decidiu invadir Nápoles.
Em janeiro de 1799, Nápoles foi ocupada pelo Exército Napoleônico da Itália, e a República Partenopeia foi proclamada na cidade por jacobinos napolitanos que pretendiam transformá la em uma república irmã da Primeira República Francesa. Em reação, eclodiu uma revolta popular de caráter monarquista e católico, conhecida como Sanfedismo, liderada pelo cardeal Ruffo e apoiada pela Grã Bretanha, com o objetivo de restaurar a monarquia, o que ocorreu em 24 de junho. Os principais líderes da efêmera república napolitana foram executados.Croce, Benedetto (1943). "Prefazione". In: La riconquista del regno di Napoli nel 1799 . Bari: Laterza.
Em 1801, Fernando I fundou o Museu de Mineralogia de Nápoles, o primeiro de seu gênero na Itália.
miniatura|upright=1.0|Efígie de Fernando em uma piastra napolitana datada de 1805 Em 1805, José Bonaparte, irmão do imperador Napoleão, invadiu o sul da Itália com o objetivo de expulsar os Bourbons do trono. Conquistou o Reino de Nápoles e tornou se seu rei em março de 1806, cedendo o trono a Joaquim Murat em 1808. Posteriormente, a Áustria reconquistou o reino, e Fernando foi restaurado ao trono napolitano.
Em 1806, quando os exércitos napoleônicos reconquistaram Nápoles, o rei Fernando retirou se para a Sicília e instalou sua corte em Palermo. Nesse contexto, a ilha passou a ser colocada sob a proteção do Império Britânico, que buscava resguardá la da influência de Napoleão após a conquista de Nápoles, atendendo assim aos interesses da Casa de Bourbon. Apesar disso, circularam rumores sobre uma possível aproximação da esposa do rei, Maria Carolina da Áustria, com os franceses.
A família real e a corte, majoritariamente composta por napolitanos, entraram em conflito com os barões sicilianos, que se recusaram, durante a sessão do Parlamento siciliano de janeiro de 1810, a aprovar novos impostos. Uma revolta eclodiu na ilha, levando o rei Fernando a ordenar a deportação de cinco dos mais influentes aristocratas, o príncipe de Belmonte e o príncipe de Castelnuovo para Favignana, o príncipe de Villafranca para Pantelleria, o príncipe de Aci para Ustica e o duque de Angiò para Marettimo, todos privados de recursos financeiros e de comunicação com o exterior.
Fernando viu se então diante da necessidade de escolher entre uma aliança com a França ou com a Grã Bretanha, que nomeou William Cavendish Bentinck como embaixador e ministro plenipotenciário. Este desembarcou em 20 de julho de 1811 com a missão de obter o retorno dos cinco exilados, formar um governo composto por sicilianos e promulgar uma constituição inspirada no modelo da monarquia parlamentar inglesa. Diante da resistência do rei, Bentinck obteve de seus superiores autorização para destituí lo, se necessário, em favor do príncipe herdeiro. Este, o futuro rei Francisco I, foi nomeado vigário do reino e libertou os nobres que integravam o conselho de regência.
Sob a pressão de lorde Bentinck e da nobreza siciliana, o rei proclamou, em 1812, uma constituição de caráter liberal.
Segundo casamento Em 1814, a rainha Maria Carolina faleceu e, pouco depois, Fernando contraiu casamento morganático com Lucia Migliaccio, duquesa da Florídia e princesa de Castura.Genealogisches Handbuch des Adels (1956). "Bourbon". In: Fürstliche Häuser IV . C.A. Starke Verlag. pp. 8-9. O casal não teve filhos.
Rei das Duas Sicílias miniatura|esquerda|upright=0.8|Fernando, 1815, por Giacomo Berger Em 1815, Joaquim Murat foi deposto do trono pelo Império Austríaco, e Fernando reassumiu o governo do Reino de Nápoles. Ele manteve grande parte das reformas implementadas pelos franceses, com algumas exceções, como a proibição do divórcio, e, após pequenas alterações, transformou o Código Napoleônico em vigor no reino no Código do Reino das Duas Sicílias. A diferença mais significativa em relação ao período napoleônico foi a relação com a Igreja, que recuperou papel de destaque na política. Esse processo de preservação das instituições francesas foi conduzido pelo primeiro-ministro Luigi de' Medici, que procurou integrar a elite napoleônica à nobreza Bourbon.
Quando Fernando voltou a ocupar o trono de Nápoles, os britânicos inicialmente se opuseram à unificação definitiva dos dois reinos, pois haviam estabelecido uma espécie de protetorado na Sicília, que perderiam caso a unificação ocorresse. No Congresso de Viena, realizado entre 1814 e 1815 para reorganizar a Europa após a derrota de Napoleão, as demais potências europeias viam com desconfiança a influência britânica sobre a maior ilha do Mediterrâneo. O governo britânico, não querendo prejudicar as relações com o Império Austríaco, renunciou às suas reivindicações sobre a Sicília.Misuraca, Fara; Grasso, Alfonso (2007). "1806, l'esilio siciliano di Ferdinando III" . Brigantino-Il Portale del Sud. Arquivado do original. Consultado em 29 de janeiro de 2016.
Dessa forma, o Congresso de Viena concedeu a Fernando a totalidade do Reino da Sicília e do Reino de Nápoles. Seguiu-se um período de dezoito meses de estagnação política até o final de 1816. Em 8 de dezembro daquele ano, o rei promulgou em Caserta um decreto, posteriormente chamado Lei Fundamental do Reino, que unificou os Reinos de Nápoles e da Sicília, abolindo as duas entidades anteriores e criando o Reino das Duas Sicílias, o maior estado da península italiana. Ao mesmo tempo, abandonou os títulos de Fernando IV de Nápoles e Fernando III da Sicília, adotando o de Fernando I das Duas Sicílias, bem como o título honorífico de "Sua Majestade Siciliana". A Sicília perdeu, assim, a constituição liberal concedida em 1812 e passou a ser uma província do novo reino.Misuraca, Fara (2007). "L'origine del nome Regno delle Due Sicilie" . Brigantino-Il Portale del Sud. Arquivado do original. Consultado em 29 de janeiro de 2016.
Revolução de 1820 miniatura|upright=0.8|Fernando A restauração da dinastia Bourbon-Siciliana e a criação do Reino das Duas Sicílias não lograram extinguir os ideais progressistas e liberais que começavam a difundir-se. Nesse contexto, surgiu gradualmente uma sociedade secreta conhecida como Carbonária, cujo objetivo inicial consistia na obtenção da ratificação de uma constituição pelo monarca, passando posteriormente a defender também a unificação da Itália. A ela aderiram numerosos nobres e burgueses que haviam apoiado o domínio francês durante o Reino Napoleônico de Nápoles, bem como diversas personalidades napolitanas e sicilianas pertencentes a diferentes estratos sociais. As políticas conciliatórias do primeiro-ministro Luigi de' Medici contribuíram para o fortalecimento desse movimento, ao nomear membros dos Carbonários para cargos relevantes na administração pública e nas forças armadas.Rosa, Gabriele De (1978). Storia Contemporanea . Milão: Minerva Italica.
miniatura|esquerda|upright=0.8|Estátua de Fernando representado como a deusa grega da guerra Atena, por Antonio Canova