O Parque Henrique Lage (ou simplesmente Parque Lage) é um parque público da cidade do Rio de Janeiro, localizado aos pés do morro do Corcovado, na rua Jardim Botânico. Possui uma área com mais de 52 hectares e foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 14 de junho de 1957, como patrimônio histórico e cultural da cidade do Rio de Janeiro. O palacete abriga, desde 1966, o Instituto de Belas Artes que deu origem em 1975 à Escola de Artes Visuais. Desde 2004, o Parque Lage é parte do Parque Nacional da Tijuca, sob a administração do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, estando o palácio sob tutela da dita escola.
História thumb|Cavalariça do Parque Lage thumb|Vista aérea do parque thumb|Vista lateral do palácio no Parque Lage thumb|Palacete do parque thumb|Pátio do palácio, com a floresta da Tijuca e o morro do Corcovado ao fundo A história da chácara dos Lage, no Jardim Botânico, ainda é cheia de controvérsias e mal contada. A falta de historiografia a respeito das propriedades da família fez com que a história da chácara anterior a década de 1920 fosse contada de forma errada.
A última proprietária das terras do antigo engenho de cana de açúcar foi Dona Maria Eleonora, filha de João de Freitas e Castro, único filho de Rodrigo de Freitas. Em 1808, pelo decreto real de 13 de junho, todas as terras da lagoa passaram a pertencer a Nação.Restier Gonçalves, Aureliano. Cidade de São Sebastião do rio de Janeiro – Terras e Fatos. Edição de comemoração dos 110 anos do Arquivo Geral da Cidade do rio de janeiro. 2005. Capitulo V, páginas 71 e 73. No mapa da lagoa de 1809 se conta mais de 60 chácaras, que passaram a pagar foro para o uso das terras, em cumprimento ao decreto de 1808. No trecho da praia do padeiro, existia uma grande chácara, que pertencia a José Pereira de Almeida.Plano da Lagoa Rodrigo de Freitas - Elevado pelo Tenente Coronel Carlos José do Reis e Senna e pelo Capitão Jaques Augusto Soni e Sendo Desenhada pelo mesmo Tenente Coronel em Fevereiro de 1809. Memória SPU. Chácara de número 60 no plano da Lagoa Rodrigo de Freitas. Posteriormente essa chácara foi dividida em duas, a chácara do padeiro e a chácara da Bica.
https://memoria-spu.gestao.gov.br/acervo-historico/plano-da-lagoa-rodrigo-de-freitas-elevado-pelo-tenente-coronel-carlos-jose-do-reis-e-senna-e-pelo-capitao-jaques-augusto-soni-e-sendo-desenhada-pelo-mesmo-tenente-coronel-em-fevereiro-de-1809/ No mapa da lagoa de 1844 estão demarcadas duas chácaras na altura da praia do padeiro, a chácara da Bica ( a partir de 1850 pertenceu ao comendador Antonio de Carvalho Ribeiro) Pessoa, Ana. Vestígios de Cá e de Lá: traços de emigração e retorno Rio de Janeiro e Fafe. Fundação Casa Rui Barbosa. Página 10. e a chácara do Padeiro (chácara dos Martins Lage).Heizer, Alda. Sola da Imperatriz. 2011. Páginas 14, 15, 16 e 17.
Antônio Martins Lage, casado com Felicité Clarisse de Labourdonay, filha do conde de Labourdonnay, comprou a propriedade no início dos anos de 1830.Mantuano da Fonseca, Thiago Vinicius. Martins Lage e Mattos Costa: a formação de um negociante na praça do Rio de janeiro e em suas conexões atlânticas (1842-1857). Dossiê, Universidade Estadual de Solobrinho – Bahia. 2024, páginas 344 Em 25 de abril de 1838 faleceu Antônio Martins Lage. Seu filho mais velho, também chamado de Antônio Martins Lage, tinha 11 anos. No inventário, entre outras propriedades, constavam a ilha da Enxada, a ilha dos Vianna e a chácara da lagoa com casa de sobrado. Esta chácara foi posta a venda no Jornal do Comércio de 18 de outubro de 1839, como consta: “Quem quiser arrendar a bela casa e chácara sita na Lagoa Rodrigo de Freitas, junto ao jardim botânico, hoje pertencente a um dos herdeiros de Antônio Martins Lage, pode ir vê-la. Para tratar do arrendamento, na rua do Valongo n. 43”. Mantuano da Fonseca, Thiago Vinicius. Martins Lage e Mattos Costa: a formação de um negociante na praça do Rio de janeiro e em suas conexões atlânticas (1842-1857). Dossiê, Universidade Estadual de Solobrinho – Bahia. 2024, páginas 344,345 e 346. Apesar do anúncio de arrendamento no Jornal do Comércio a chácara não foi vendida e Dona Felicité Clarisse seguiu firme da administração dos negócios da família sendo a casa ampliada por seu filho, O comendador Antônio Martins Lage, durante os anos de 1850. Bulcão, Clóvis. Henrique Lage. 2021. Página 9. Na fotografia de George Leuzinguer, de 1866 pode ser observar uma casa em estilo neoclasico, com grandes janelas, o piso principal era sobre cômodos inferiores e com um sobrado na parte frontal. Ao redor da casa existia um ensolarado pátio sem jardins. https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/8487
A chácara foi propriedade dos Martins Lage até o ultimo quartel do século XIX. A familia se mudou para ilha dos Vianna, comprada pelo pai do comendador Antônio Martins Lage. Antônio Martiins Lage Filho (o Tonico Lage), filho do comendador, cria em 1895 a Companhia de Navegação Costeira, com sede na ilha dos Vianna. Em 1902, Tonico Lage compra a ilha de Santa Cruz. próximo a Niterói, onde também fixa residência. A ilha dos Viannas seguia em expanção industrial e a de Santa Cruz era de tranquila natureza..Bulcão, Clóvis. Henrique Lage: o grande empresário brasileiro que, por amor, criou um parque. 2021. Páginas15 e 16. Tonico Lage faleceu na ilha dos Vianna em 8 de agosto de 1913 , deixando cinco filhos, Antônio, Jorge , Renaud, Frederico e Henrique Lage.Bulcão, Clóvis. Henrique Lage. O grande empresário Brasileiro que, por amor, criou um parque. 2021. Páginas 16,17 e 18. A chácara da lagoa passou a pertencer ao engenheiro formado pela Escola Politécnica do Rio de janeirio, César de Sá Rabello (1876-1960), filho do comendador Antônio José da Silva Rabello e de Maria de Oliveira Jacobina de Sá (Maroquinha).https://ancestors.familysearch.org/en/L234-N7N/dr.-cesar-de-s%C3%A1-rabello-1876-1960
Ainda verificando as fontes que dizem sobre a venda da chácara para César de Sá Rabello. Diversas fontes na internet citam o ano de 1913 como o ano de compra. No final do século XIX os Lages já não moravam mais na Lagoa. No mapa da Lagoa Rodrigo de Freitas de 1880 não consta mais a chácara dos Lage. Nesse mapa consta apenas a chácara da Bica, que ficava ao lado da Chácara dos Lage e que mudou para um terreno a frente. Rabello pertenceu a diretoria do clube de engenharia e teve estreitas relações com a família Guinle e com a família Gaffrée na sociedade da Companhia Brasileira de Energia Elétrica (CBEE).Salgado de Oliveira Hansen. A Eletricidade Brasileira na Primeira República. A CBEE e os GUinle no Distrito Federal (1904-1923). Programa de pós graduação da Universidade Federal Fluminense. Institud=to de Ciências Humanas e Filosóficas. 2012. Esse trabalho cita Cesar de Sá Rabello 28 vezes.
O jardim da chácara Com a vinda da corte portuguesa para o Brasil em 1808 e a abertura dos portos, o Rio de Janeiro se impregnou de influências europeias. Essas influências modifiicaram não só os habitos dos moradores da nova capital régia, mas também e principalmente o urbanismo da cidade. A partir do segundo quartel do século XIX chegaram os primeiros paisagistas no Brasil. O que antes era feito por mestres de obra, o urbanismo passou a ser feito por profissionais. No que concerne ao paisagismo a grande tendência era os jardins em estilo romantico, também chamados de pictorescos. Eram jardins com características de bosque, com muitas árvores, lagos, fontes, pequenas cascátas, pontes e grutas. A técnica utilizada era chamada de rocallier, um estilo francês do seculo XVIII. Essa técnica conciste em imitar elementos da natureza com concreto armado como rochas, grutas e troncos de árvore.
As expressões de jardim romãntico oitocentista mais significativas no Rio de Janeiro são a reforma do Passeio Público de 1864, de autoria do francês Auguste Fronçois Marie Glaziou, a reforma dos jardins da Quinta da Boa Vista de 1869,Magalhães, Cristina Maria. Jardins Históricos do Brasil. Arte, História e Patrimônio. Estágio Doutoral no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Página 5. os jardins do Campo de Santana (atual Praça da República) de 1880, ambos também de Glaziou e os jardins do Palácio do Catete. O projeto dos jardins do Palácio do Catete é datado de 1860, também de autoria de Glaziou, mas teve intervenções feitas por Paul Vilon em 1896.https://museudarepublica.museus.gov.br/o-museu/
Das propriedades privadas ainda encontramos os jardins da chácara dos Martins Lage de 1840, e da casa do comendador Albino de Oliveira Guimarães (atual casa Rui Barbosa) de 1859. O comendador Guimarães foi o segundo proprietário do solar da rua São Clemente, no Bairro de Botafogo, e foi ele que encomendou o projeto do jardim social da casa. Infelizmente o autor desse projeto é desconhecido. O projeto do jardim da chácara dos Martins Lage foi de autoria do paisagista e arquiteto John Tyndale, realizado em 1840.Correia, Maria Rosa. Oficina de Estudos da Preservação. IPHAN. 2014. Página 21. Não se sabe nada mais sobre Tyndale além desse projeto.
Valeria a pena uma pesquisa mais profunda sobre john Tyndale pela importância que o jardim da chácara dos Lage tem na história do paisagismo brasileiro. Quase nada se sabe sobre o projeto original do jadim de Tyndale. Na foto de 1866, de George Leuzinger, pode se observar ao longe o terreno da chácara. Era um terreno ensolarado, sem árvores, onde é possivel reparar com certa dificuldade uma alameda com palmeiras imperiais ainda pequenas. A floresta, pouco observável na fotografia, começava na parte superior do terreno.https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/8487
A lavanderia No fundo do terreno, na parte direita do atual palecete, encontra-se um muro que esconde a lavanderia. Esse muro é notadamente em estilo neoclassico, certamente acompanhava o estilo da casa que existiu antes da atual edificação. O neoclassicismo chega no Brasil em 1816 e é a marca arquitetônica do período imperial, sendo substituida pelo ecletismo francês durante a primeira república.Pinto Santiago, Zilsa Maria. As Influências do Neoclassicismo na Arquitetura Brasileira a partir da Missão Francesa. Universidade Federal do Ceará. Páginas 5 e 6. Atrás do muro descem duas escadas de cada lado até a lavanderia enfurnada. Existem dois tanques de da cada lado, de mais ou menos três metros, esculpidos em pedra. O fluxo de aguá é aproveitado do córrego, que originalmente descia perpendicular ao terreno. Ao fundo e a esuqerda ainda se encontra um fogão a lenha para escaldar roupas,“As lavadeiras brasileiras, aliás muito mais cuidadosas do que as nossas, têm a vaidade de entregar a roupa não somente bem-passada e arranjada em ordem, dentro de uma cesta, mas ainda perfumada com flores odoríficas”. Asseio não era se lavar, mas vestir roupa limpa." Citação de Jean Daptiste Debret,1816. DEl Priore, Mary. Comer com as mãos, arrotar e defecar publicamente: a chocante falta de higiene do Brasil no século XIX. Aventuras na História. 2020. também esculpido em predra, com uma grande boca e uma chaminé. O teto é revestido de tijolos estreitos e porosos, possivelmente de adobe,O adobe foi um tipo de tijolo feito com barro e fibras vegetais, como esterco ou bagaço de cana, utilizado no Brasil até a primeira metade do século XIX. diferente dos tijolos da chaminé do fogão, que são tijolos maiores Tambêm no funda a esquerda, ao lado do fogão a lenha, encontra-se um cômodo cuja função não se sabe.