Joan Crawford (nascida Lucille Fay LeSueur; San Antonio, 23 de março de 1906 – Nova Iorque, 10 de maio de 1977) foi uma atriz estadunidense. Começando como dançarina em companhias teatrais itinerantes antes de estrear na Broadway, Crawford assinou um contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) em 1925. Inicialmente frustrada com o tamanho e a qualidade de seus papéis, Crawford começou uma campanha de auto-publicidade e tornou-se nacionalmente conhecida como melindrosa no final da década de 1920. Na década de 1930, a fama de Crawford rivalizava com suas colegas da MGM, Greta Garbo e Norma Shearer, com quem estrelou nos filmes "Grande Hotel" e "Mulheres", respectivamente. Crawford costumava interpretar jovens trabalhadoras que encontram romance e sucesso financeiro. Essas histórias "da pobreza à riqueza" foram bem recebidas pelo público na era da Grande Depressão, populares principalmente entre as mulheres. Crawford tornou-se uma das estrelas de cinema mais proeminentes de Hollywood e uma das mulheres mais bem pagas dos Estados Unidos, mas seus filmes começaram a perder dinheiro e, no final da década de 1930, foi rotulada como "veneno da bilheteria".

Sua carreira melhorou gradativamente no início da década de 1940, culminando em um grande retorno ao centro das atenções em 1945, quando estrelou o drama "Alma em Suplício", filme pelo qual recebeu o Oscar de melhor atriz. Ela ainda seria indicada ao prêmio mais duas vezes, por "Possessed" (1947) e "Sudden Fear" (1952). Crawford continuou a atuar nas décadas seguintes, conseguindo um ótimo desempenho nas bilheterias com o filme de suspense "What Ever Happened to Baby Jane?" (1962), no qual estrelou ao lado de sua rival Bette Davis. Apesar do sucesso do filme, seus papéis seguintes se limitaram a filmes B de suspense e episódios em programas de televisão.

Em 1955, ela se envolveu com a Pepsi-Cola Company através de seu casamento com o então presidente da companhia, Alfred Steele. Após a morte dele em 1959, Crawford foi eleita para preencher sua vaga no conselho de administração da empresa, sendo uma das primeiras mulheres a exercer o cargo de diretor executivo nos Estados Unidos. Ela se viu forçada a se aposentar em 1973, após a eleição de Don Kendall para o cargo de presidente da empresa. Durante essa época, Crawford se tornou uma espécie de garota propaganda informal da empresa, viajando o mundo inteiro para inaugurar fábricas de refrigerante, aparecendo em comerciais de televisão da marca e insistindo com os diretores de seus filmes para que o produto fosse inserido neles.

Após o lançamento do filme de terror britânico, "Trog", em 1970, Crawford decidiu se aposentar das telas, embora ainda tenha participado de um episódio na série de televisão "The Sixth Sense", em 1972. Após uma aparição pública em 1974, na qual fotos que desagradaram a atriz foram publicadas em jornais, Crawford decidiu se retirar da vida pública de uma vez por todas, e tornou-se cada vez mais reclusa. À época, ela somava quase cinco décadas de vida pública, num período que ia do cinema mudo ao advento da televisão. Ela faleceria quase três anos após esse incidente, de infarto, e foi enterrada no cemitério de Ferncliff.

Crawford se casou quatro vezes. Seus três primeiros casamentos terminaram em divórcio; o último terminou com a morte do seu marido, Alfred Steele. Ela adotou cinco filhos, um deles acabou sendo devolvido à mãe biológica, após ser reivindicado por ela. A relação de Crawford com seus dois filhos mais velhos, Christina e Christopher, era difícil. Crawford deserdou-os e, após a sua morte, Christina escreveu um livro de memórias, "Dearest Mommie", no qual relata supostos abusos nos quais ela e o irmão teriam sido vítimas. As filhas mais novas da atriz, Cathy e Cindy, negam os relatos. O livro de Christina reacendeu o interesse por Crawford, dando origem a um novo filme sobre a atriz, transformando-a num ícone da cultura pop camp, reivindicado por novas gerações.

Biografia Crawford nasceu como Lucille Fay LeSueur em San Antonio, Texas, em 23 de março; o ano de seu nascimento é alvo de divergências. 1905 e 1906 são as estimativas mais prováveis. Era a terceira filha de Thomas E. LeSueur (1867–1938), um lavador de roupas, e Anna Bell Johnson (1884–1958). Johnson possuía ascendência inglesa, francesa–huguenote, sueca e irlandesa. Seus irmãos mais velhos eram Daisy LeSueur, nascida em 1902 e morta antes do nascimento de Lucille, e o também ator Hal LeSueur (falecido em 3 de maio de 1963).

O pai de Crawford abandonou a família alguns meses antes do nascimento dela, ressurgindo mais tarde em Abilene em 1930, época em que trabalhava na construção de prédios. Após LeSueur abandonar a família, a mãe de Crawford casou-se com Henry J. Cassin (morto em 25 de outubro de 1922). Este casamento está listado nos registros censitários como o primeiro da mãe de Crawford, o que coloca em dúvida se Thomas LeSueur e Anna Bell Johnson eram legalmente casados. Crawford morou com seu padrasto, sua mãe e irmãos em Lawton, Oklahoma. Cassin era um pequeno empresário da indústria de entretenimento e gerenciava a Casa de Ópera Ramsey, que conseguiu trazer para a cidade artistas diversos e notáveis como a bailarina Anna Pavlova e a cantora de vaudeville Eva Tanguay. A jovem Lucille não sabia que Cassin, a quem ela chamava de "papai", não era seu pai biológico até que seu irmão Hal contou a verdade a ela. Lucille preferia o apelido de "Billie" como criança e adorava assistir às apresentações de vaudeville e se apresentar no palco do teatro de seu padrasto. A instabilidade de sua vida familiar afetou sua educação e sua escolaridade, sendo que ela nunca progrediu formalmente para além do ensino fundamental.Denby, David, "Escape Artist, The Case for Joan Crawford", The New Yorker, January 3, 2011.

Desde a infância, a ambição de Crawford era tornar-se uma dançarina. Certo dia, no entanto, enquanto tentava escapar da aula de piano para brincar com amigos, ela saltou da varanda de frente da casa e cortou o pé profundamente num frasco de leite quebrado. Como resultado, ela passou por três cirurgias reparatórias e não pôde dançar ou comparecer à escola durante 18 meses. Ela finalmente recuperou-se totalmente e voltou para dançar.

Enquanto a família ainda morava em Lawson, Cassin foi acusado de peculato e, embora ele tenha sido absolvido no tribunal, se tornou persona non grata em Lawton, e a família se mudou para Kansas City, Missouri, por volta do ano de 1916. Católico, Cassin matriculou Crawford na Academia Santa Agnes em Kansas City. Após a separação de sua mãe e de seu padrasto, ela permaneceu no internato como estudante–trabalhadora; no entanto, ela passava muito mais tempo trabalhando, em especial cozinhando para os demais alunos e limpando os aposentos do colégio, do que de fato estudando.

Mais tarde, ela frequentou a Academia Rockingham, também como estudante–trabalhadora. Enquanto frequentava este internato, começou a namorar e teve seu primeiro relacionamento sério, com um trompetista chamado Ray Sterling, que supostamente teria inspirado-a a desafiar a si mesma academicamente.Thomas, pgs. 23–24

Em 1922, Lucille matriculou-se na Faculdade Stephens, em Columbia, Missouri, informando seu ano de nascimento como sendo 1906. Ela frequentou aquela instituição de ensino por apenas alguns meses, antes de desistir da vida acadêmica após perceber que não estava preparada para a faculdade. Por causa da instabilidade de sua família, a escolaridade de Crawford nunca ultrapassou o nível primário.

Carreira Início da carreira alt=Foto de estúdio da parte superior do corpo de uma jovem Crawford em um vestido sem mangas, com maquiagem acentuada nos olhos, cabelo penteado. Ela está olhando para a câmera.|upright=1.0|thumb|Crawford em 1928.

Sob o nome de Lucille LeSueur, Crawford começou a dançar nos coros de vários espetáculos viajantes e foi descoberta em Detroit, Michigan, pelo famoso produtor Jacob J. Shubert.Thomas, pg. 30 Shubert colocou-a no coro de seu espetáculo "Innocent Eyes", de 1924, apresentado no Teatro Winter Garden na Broadway, em Nova Iorque. Numa de suas apresentações na peça, Crawford conheceu um saxofonista chamado James Welton. Os dois supostamente se casaram em 1924 e viveram juntos por vários meses, embora essa suposta união nunca tenha sido mencionada por Crawford após a fama.Considine, pg. 12

Crawford queria trabalho adicional e se aproximou do publicitário do Teatro Loews, Nils Granlund. Granlund assegurou-lhe um papel nas apresentações do cantor Harry Richmond e arranjou um teste de cinema para ela com o produtor Harry Rapf em Hollywood.Granlund, pg. 147 Ainda hoje persistem os rumores de que Crawford teria complementado sua renda durante esse período aparecendo em um ou mais filmes pornô, embora a veracidade disso seja fortemente contestada.Thomas, pg. 106

Rapf informou Granlund em 24 de dezembro de 1924 que a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) ofereceu a Crawford um contrato de US$ 75 por semana. Granlund imediatamente mandou um telegrama para ela – que havia retornado para a casa de sua mãe em Kansas City – com a notícia; ela tomou emprestado US$ 400 para fazer a viagem.Granlund, pg. 135 Ela partiu de Kansas City em 26 de dezembro e chegou em Culver City, Califórnia em 1° de janeiro de 1925.

Creditada como Lucille LeSueur, seu primeiro filme foi "Lady of the Night" (1925), onde atuou como dublê de corpo da estrela feminina mais popular da MGM, Norma Shearer. Ela também apareceu em "The Circle" e "A Mosca Negra", ambos também de 1925. Isto foi seguido por papéis igualmente pequenos e não-creditados em dois outros sucessos de 1925: "A Viúva Alegre" e "The Only Thing".Donald Spoto (3 de fevereiro de 2011). Possessed: The Life of Joan Crawford. Random House. p. 22. ISBN 978-1-4070-8811-2.

O chefe de publicidade da MGM, Pete Smith, reconheceu sua habilidade para se tornar uma grande estrela, mas sentiu que seu nome soava falso; ele disse ao chefe do estúdio, Louis B. Mayer que o sobrenome LeSueur soava como "sewer" ("esgoto" em inglês). Smith organizou um concurso chamado "Nomeie uma Estrela" na revista Movie Weekly para permitir que o público selecionasse o novo nome artístico de Lucille. O nome mais votado foi "Joan Arden", mas após a descoberta de que já havia uma atriz com esse nome, o sobrenome alternativo "Crawford" foi escolhido. Crawford declarou mais tarde que queria que seu primeiro nome fosse pronunciado como "Jo-Anne" e que odiava o sobrenome Crawford, porque ele soava como "crawfish" (lagostim), mas também admitiu que "gostava da segurança" que o nome passava.Crawford, citada em Newquist, pg. 31

Ascensão ao estrelato Cada vez mais frustrada com o tamanho e a qualidade dos papéis que lhe eram oferecidos, Crawford embarcou numa campanha de auto-promoção. Conforme a roteirista da MGM, Frederica Sagor Maas, lembrou: "Ninguém decidiu transformar Joan Crawford numa estrela. Joan Crawford se tornou uma estrela porque Joan Crawford decidiu se transformar numa estrela".Maas, quoted in LaSalle, pg. 123 Ela começou a frequentar bailes nas tardes e noites nos hotéis de Hollywood, onde ela muitas vezes venceu concursos de dança com seus passos de charleston e black bottom.Thompson, pg. 47

miniaturadaimagem|320x320px|Com John Gilbert no filme mudo "Four Walls" (1928).

Sua estratégia funcionou e a MGM elencou-a no primeiro filme onde chamou a atenção do público: "Sally, Irene and Mary" (1925), escrito e dirigido por Edmund Goulding. Desde o início de sua carreira, Crawford considerava Norma Shearer – a atriz mais popular do estúdio – sua inimiga profissional. Shearer era casada com o chefe de produção da MGM, Irving Thalberg, e, assim sendo, podia escolher roteiros e tinha mais controle sobre os filmes que faria ou não. Crawford teria dito certa vez: "Como posso competir com Norma? Ela dorme com o chefe!".