thumb|upright=1.35|Tóquio após o ataque maciço com bombas incendiárias na noite de 9–10 de março de 1945, a incursão aérea individual mais destrutiva da história da aviação militar. O bombardeio de Tóquio reduziu a produtividade industrial da cidade pela metade e matou cerca de 100.000 civis.

O bombardeio estratégico é um ataque militar aéreo sistematicamente organizado e executado, que pode utilizar bombardeiros estratégicos, mísseis de longo ou médio alcance ou aeronaves caças-bombardeiros com capacidade nuclear para atacar alvos considerados vitais para a capacidade de combate do inimigo. É uma estratégia militar utilizada na guerra total com o objetivo de derrotar o oponente ao destruir o seu moral, a sua capacidade econômica de produzir e transportar suprimentos (material bélico) para os teatros de operações militares, ou ambos. O termo bombardeio de terror é usado para descrever o bombardeio estratégico de alvos civis desprovidos de valor militar, na expectativa de abalar o moral do adversário.

Uma das estratégias de guerra consiste em desmoralizar o inimigo para que a paz ou a rendição se tornem preferíveis à continuidade do conflito. O bombardeio estratégico tem sido empregado com esse propósito. A expressão "bombardeio de terror" entrou no léxico em direção ao final da Segunda Guerra Mundial, e muitas campanhas e incursões de bombardeio estratégico foram descritas como bombardeios de terror por analistas e historiadores. Como o termo possui conotações pejorativas, alguns — incluindo os Aliados da Segunda Guerra Mundial — preferiram utilizar eufemismos como "bombardeios de moral" (morale bombings). citando o Relatório Singleton..

A distinção teórica entre a guerra aérea tática e a estratégica foi desenvolvida no período entreguerras. Alguns dos principais teóricos da guerra aérea estratégica nesse período foram o italiano Giulio Douhet, a escola de Trenchard no Reino Unido e o general Billy Mitchell nos Estados Unidos. Esses teóricos foram influentes tanto na justificativa militar para uma força aérea independente (como a Força Aérea Real) quanto na formação do pensamento político sobre conflitos futuros, exemplificado pelo comentário de Stanley Baldwin em 1932 de que o bombardeiro sempre passará (the bomber will always get through)..

Moral do inimigo Um dos objetivos da guerra é desmoralizar o adversário; enfrentar morte e destruição contínuas pode tornar a perspectiva de paz ou rendição mais atraente. Os defensores do bombardeio estratégico no entreguerras, como o general Douhet, esperavam que ataques diretos às cidades inimigas por bombardeiros estratégicos levassem a um rápido colapso do moral civil, de modo que a pressão política para negociar a paz apressaria o fim do conflito. Quando esses ataques foram testados na década de 1930 — na Guerra Civil Espanhola e na Segunda Guerra Sino-Japonesa —, mostraram-se ineficazes. Observadores registraram tais falhas e algumas forças aéreas, como a Luftwaffe, concentraram seus esforços no apoio direto às tropas terrestres... À medida que a Segunda Guerra Mundial avançava, o foco dos Aliados no moral inimigo foi reformulado. A observação do impacto da Blitz sobre a produção de guerra britânica demonstrou que era difícil paralisar fábricas apenas com bombas, mas que a destruição das habitações dos operários provocava efeitos desestabilizadores muito maiores. Esperava-se, assim, que a quebra de moral atingisse as indústrias bélicas, em vez de gerar pressão política direta sobre os líderes para a rendição imediata, como previam as teorias de pré-guerra..

O termo "bombardeio de terror"

Bombardeio de terror é um termo utilizado para ataques aéreos planejados para enfraquecer ou quebrar o moral inimigo.. O uso do termo para se referir a bombardeios aéreos sugere que tais ataques são criminosos perante o direito internacional humanitário,. ou que, mesmo enquadrados nas leis de guerra, constituem um crime moral. De acordo com John Algeo em Fifty Years among the New Words: A Dictionary of Neologisms 1941–1991, o primeiro registro do termo "terror bombing" em uma publicação norte-americana deu-se em um artigo da revista Reader's Digest de junho de 1941, constatação corroborada pelo Oxford English Dictionary.

Os ataques aéreos classificados como bombardeios de terror são frequentemente incursões estratégicas de longo alcance, embora bombardeios que causem mortes civis ou ataques rasantes com caças (metralhamento aéreo) também recebam essa designação.

O ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, e outras altas autoridades da Alemanha Nazista. qualificavam frequentemente os ataques da Força Aérea Real (RAF) e das Forças Aéreas do Exército dos Estados Unidos (USAAF) durante suas campanhas de bombardeio estratégico como Terrorangriffe (ataques de terror). Os governos aliados costumavam descrever os bombardeios de cidades com eufemismos como bombardeio de área (utilizado pela RAF). A USAAF referia-se às suas incursões diurnas como bombardeio de precisão, embora as condições meteorológicas na Europa frequentemente inviabilizassem a acurácia, e os órgãos de imprensa aliados repetissem essa caracterização. Contudo, em uma coletiva de imprensa do SHAEF em 16 de fevereiro de 1945, dois dias após o bombardeamento de Dresden, o comodoro do ar britânico Colin McKay Grierson respondeu a um jornalista que o alvo principal do ataque haviam sido os eixos de comunicação para impedir a movimentação militar alemã, acrescentando em seguida que a incursão também auxiliava a destruir "o que resta do moral alemão". O correspondente de guerra Howard Cowan, da Associated Press, redigiu uma matéria sobre o bombardeio de Dresden que passou pela censura militar afirmando que os chefes aéreos aliados haviam adotado o bombardeio de terror deliberado contra os grandes centros populacionais alemães. A repercussão gerou editoriais na imprensa e questionamentos no parlamento britânico por parte do deputado Richard Stokes em 6 de março.

A controvérsia atingiu a cúpula do governo britânico quando, em 28 de março de 1945, o primeiro-ministro Winston Churchill enviou um memorando confidencial ao general Ismay afirmando: "Parece-me chegado o momento em que a questão do bombardeio de cidades alemãs simplesmente para aumentar o terror, ainda que sob outros pretextos, deve ser revista...". Sob forte pressão da chefia do Estado-Maior da Aeronáutica, incluindo Sir Charles Portal e o comandante do Comando de Bombardeiros, Arthur Harris, Churchill retirou a mensagem e emitiu uma versão revisada em 1.º de abril de 1945, que iniciava com a fórmula tradicional: "Parece-me chegado o momento em que a questão do chamado 'bombardeio de área' de cidades alemãs deve ser revista do ponto de vista de nossos próprios interesses...".

Muitas campanhas e ataques individuais de bombardeio estratégico da guerra aérea foram descritos como "bombardeios de terror" por comentaristas e historiadores após a Segunda Guerra Mundial, embora outros rejeitem essa qualificação para as operações militares regulares.

Medidas defensivas As medidas defensivas contra incursões aéreas incluem:. Interceptação e abate de aeronaves atacantes por meio de caças, artilharia antiaérea e mísseis terra-ar; Utilização de abrigos antiaéreos para proteção da população civil; Acionamento de sirenes de alerta aéreo; Organização de serviços de defesa civil com equipes de vigilância contra incêndios, busca e salvamento e brigadas de reparos de infraestrutura; Blecaute — extinção de toda a iluminação pública e residencial noturna para dificultar a localização visual dos alvos; Dispersão de fábricas e instalações militares estratégicas para áreas de difícil alcance; Duplicação da capacidade produtiva estratégica em "fábricas-sombra" (shadow factories); Construção de instalações fabris e depósitos subterrâneos ou em túneis fortificados; Criação de alvos falsos com iluminação simulada e fogueiras em áreas desabitadas para desviar as bombas dos centros urbanos.

História e origens

Primeira Guerra Mundial

O bombardeio estratégico foi empregado na Primeira Guerra Mundial, embora ainda não conceituado em sua forma moderna. O primeiro bombardeio aéreo contra uma cidade ocorreu em 6 de agosto de 1914, quando o dirigível alemão Zeppelin Z VI lançou projéteis de artilharia sobre a cidade belga de Liège, matando nove civis. O segundo ataque ocorreu na noite de 24 para 25 de agosto de 1914, com o lançamento de oito bombas a partir de um dirigível alemão sobre Antuérpia.

thumb|Treinamento de evacuação infantil durante exercício de ataque aéreo em 1918

As primeiras operações sistemáticas de bombardeio estratégico foram conduzidas pelo Royal Naval Air Service (RNAS) britânico no final de 1914. Liderada pelo comandante Charles Rumney Samson, uma formação de quatro aeronaves atacou as fábricas de zepelins e seus hangares em Colônia e Düsseldorf. Ao longo do conflito, aeronaves especializadas e esquadrões de bombardeio dedicados entraram em serviço em ambos os lados. Inicialmente voltados para o bombardeio tático de apoio às linhas de frente, os planejadores passaram gradualmente a visar recursos vitais na retaguarda do adversário.

Os ataques de dirigíveis Zeppelin sobre a Inglaterra tornaram-se emblemáticos. O primeiro bombardeio contra civis ingleses ocorreu em 19 de janeiro de 1915, quando dois zepelins lançaram bombas explosivas e incendiárias sobre Great Yarmouth, Sheringham e King's Lynn, causando quatro mortes e dezesseis feridos. Em 1915 ocorreram mais 19 incursões, com 37 toneladas de bombas lançadas, resultando em 181 mortes. Em 1916, registraram-se 23 ataques de dirigíveis (125 toneladas de bombas e 293 mortos). Com o aprimoramento das defesas antiaéreas e dos caças britânicos, as incursões de zepelins declinaram em 1917 e 1918.

thumb|upright|left|Dirigível alemão bombardeando Calais na noite de 21–22 de fevereiro de 1915

Ao término da guerra, os zepelins haviam realizado 51 incursões contra a Grã-Bretanha, com 5.806 bombas lançadas, matando 557 pessoas e ferindo 1.358. Embora os danos materiais tenham sido reduzidos em comparação aos padrões posteriores, os ataques obrigaram o desvio de doze esquadrões de caça e mais de 10.000 soldados para tarefas de defesa interna. Nas fases finais da guerra, os dirigíveis foram complementados pelos bombardeiros biplanos Gotha G.IV, os primeiros aviões pesados bimotores utilizados em bombardeios estratégicos contra centros urbanos.

Em 15 de junho de 1915, a aviação francesa atacou a cidade alemã de Karlsruhe, matando 29 civis. Em outro ataque, na tarde de 22 de junho de 1916, pilotos franceses utilizaram mapas desatualizados e bombardearam o local de uma antiga estação ferroviária onde estava instalada uma lona de circo, matando 120 pessoas, a maioria crianças.

Os britânicos estruturaram a Força Independente da RAF (Independent Force) em abril de 1918, a primeira unidade aérea militar com a função exclusiva de conduzir bombardeios estratégicos contínuos contra alvos industriais na Alemanha, operando bombardeiros pesados Handley Page O/400.

Período entreguerras Após o armistício de 1918, a teoria do poder aéreo desenvolveu-se em torno das estimativas de baixas civis e danos materiais causados por bombardeios. O temor de que futuros conflitos começassem com ataques aéreos devastadores contra grandes metrópoles exerceu papel central na política de apaziguamento adotada por governos ocidentais em relação à Alemanha Nazista na década de 1930.