A imigração polonesa no Brasil foi o movimento migratório ocorrido principalmente nos séculos XIX e XX de poloneses (polacos) para várias regiões do Brasil. A maioria dos imigrantes estabeleceu-se no Paraná e em São Paulo.

Atualmente, estima-se que haja entre 1,5 e 1,8 milhão de descendentes de poloneses no país. É a terceira maior população de ascendência polonesa no mundo, depois dos Estados Unidos e da Alemanha.J. Łapaj, Poles in Brazil – the historical aspects and the present days, [in:] M. Kucharski, J. Łapaj, T. Okraska, Brazil, Humanistic Scripts, Vol. X, Katowice 2013, pp. 27 Na América Latina, o Brasil é o país com mais imigrantes dessa etnia.

Antecedentes thumb|esquerda|200px|Colônia Morska Wola, no interior do Paraná. A vinda de europeus era um objetivo do governo brasileiro. Atrair imigrantes europeus visava ao "branqueamento" da população brasileira, a ocupação de regiões despovoadas do território, o surgimento de uma classe média vinculada à produção de alimentos e ao abastecimento do mercado interno e a substituição da mão de obra escrava.

Muitos colonos vieram de vários países da Europa para trabalhar nas plantações de senhores brasileiros na década de 1820, mesmo antes da proibição da escravidão. No entanto, as precárias condições de vida e trabalho nas fazendas geraram reclamações por parte dos colonos. Repetidas denúncias contra a exploração do trabalho pelos senhores, que haviam optado pelo sistema de parcerias em substituição à escravidão, materializaram-se na Revolta de Ibicaba em 1847. As repercussões fizeram com que, em 1859, o governo da Prússia promulgasse o Rescrito de Heydt (von der Heydtsche Reskript), que dificultou muito a emigração de cidadãos alemães para o Brasil. O decreto proibia a propaganda (brochuras, informação e guias) e a ação de agentes recrutadores de emigrantes para o Brasil. Com a Unificação da Alemanha em 1871, a proibição foi estendida para vários outros estados alemães, só sendo completamente revogada em 1896. (embora a imigração para os três estados sulinos tenha sido permitida antes)Lesser, Jeff. Immigration, Ethnicity, and National Identity in Brazil, 1808 to the Present, Editora Cambridge, 2013 thumb|direita|200px|Casa do Colono Polonês (Bosque do Papa, Curitiba, Paraná). Em decorrência da proibição alemã, o Brasil viu-se obrigado a procurar novas fontes de imigrantes e passou a promover o recrutamento com a promessa de concessão de terras e o custeio da maioria das despesas da viagem e adaptação ao país. Foi nessa esteira que começou a imigração polonesa ao Brasil, motivada principalmente pelo desejo de possuir sua própria terra, de encontrar um trabalho digno e de realizar seus sonhos em liberdade. thumb|200px|esquerda|Povoado de Alto Paraguaçu, fundado por poloneses, no município de Itaiópolis (SC), década de 1930. Arquivo Nacional. Nesta época a Polônia não existia como Estado. Apesar de ter sido independente e soberana e uma das maiores nações europeias nos séculos XVI e XVII, teve seu território dividido no século XVIII entre a Rússia, Áustria e Prússia. A instabilidade territorial e política que correspondeu ao seu desaparecimento do mapa político durante todo o século XIX fez com que milhões de poloneses partissem para o exterior. Apesar dos números expressivos, esta foi chamada de "imigração oculta", dado a dificuldade de identificar os imigrantes por meio da nacionalidade e de estabelecer com propriedade o número de poloneses que vieram para o Brasil, já que as estatísticas da imigração listavam-os como alemães, austríacos ou russos.

Segundo Zdzisław Malczewski SChr, redator-geral da revista de reflexão Brasil-Polônia “Polonicus”, é difícil estimar os números atuais da diáspora polonesa no Brasil, pois faltam dados estatísticos exatos. Alguns autores mencionam aproximadamente 800.000 poloneses e descendentes, enquanto outros se aventuram a dizer que este grupo étnico representa 1% da população brasileira. Estudiosos e líderes da diáspora mostram números mais altos, que chegam a 2 ou 3 milhões de pessoas.

Fases de imigração thumb|direita|200px|Pôster comemorativo de 1991 celebrando os 120 anos da imigração polonesa em Curitiba. Embora alguns poloneses já tivessem vindo pontualmente ao Brasil nos séculos XVII e XVIII, a maioria começou a chegar ao Brasil no século XIX, principalmente na segunda metade, quando famílias de colonos se estabeleceram e buscavam começar uma nova vida. Na primeira metade do século XIX, alguns poloneses se destacaram na sociedade brasileira, como por exemplo, o médico Pedro Luís Napoleão Chernoviz (Piotr Czerniewicz), um dos fundadores e membro titular da Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, os engenheiros Bronislau Rymkiewicz, Alexandre Brodowski e Luís Malajski que colaboraram na construção das ferrovias em São Paulo, Paulo Edmundo Strzelecki (1835) e Inácio Domeyko (1838), que realizaram pesquisas científicas.

Embora alguns grupos de imigrantes poloneses tenham se fixado no Espírito Santo, Santa Catarina e no Rio Grande do Sul entre 1869 e 1889, números mais expressivos só são detectados principalmente a partir da Proclamação da República. Entre 1870 e 1914 somente o Paraná recebeu 40 mil imigrantes poloneses. O Paraná é o estado com maiores influências da cultura polonesa no Brasil e cuja imigração foi mais documentada não somente por historiadores, mas também graças ao clero polonês, que não se limitou aos fins pastorais mas colaborou decisivamente em muitos aspectos na sustentabilidade da cultura polonesa entre os imigrantes. A pesquisa sobre esses grupos é, no entanto, local e escassa. Há poucos documentos ou crônicas registrando o início exato dessa imigração. Edmundo Gardolinski, em seu livro Imigração e Colonização Polonesa, aponta as principais causas desta diferença.GARDOLINSKI, E. 1956. Imigração e colonização polonesa. In: K. BECKER (org.), Enciclopédia Rio-grandense. Canoas, Regional, vol. 5, p. 1-104

A primeira fase da imigração (1869-1889) thumb|200px|esquerda|Interior da Catedral Ortodoxa da Santíssima Virgem Maria, no Rio de Janeiro, sede da Diocese do Rio de Janeiro e Olinda-Recife, representante da Igreja Ortodoxa Polonesa no Brasil.

Em agosto de 1869, registra-se a entrada das primeiras 16 famílias polonesas com o objetivo de se estabelecerem definitivamente no Brasil. Originárias da localidade de Siolkowice, região de Opole, província da Silésia, na época sob ocupação prussiana, foram encorajadas por Sebastião Edmundo Wos-Saporski, já residente no Brasil e posteriormente considerado o pioneiro da imigração polonesa no Brasil. Esse grupo veio a bordo do vapor Vitória, desembarcou em Itajaí(SC) e foi encaminhado para a linha de Sixteen Lots (abandonada pelos irlandeses) na Colônia Príncipe Dom Pedro, próxima à Colônia Itajaí, atualmente no município de Brusque em Santa Catarina. A região era então povoada sobretudo por imigrantes alemães. Os poloneses, no entanto, não se adaptaram ao clima e a relação com os alemães era tensa.

Até o ano 1889, chegaram no Brasil 8080 pessoas, das quais 6530 se fixaram no Paraná, 750 em Santa Catarina, 300 no Rio Grande do Sul, e 500 em outros estados.

A segunda fase da imigração (1890 - 1914) thumb|200px|Vista interna da igreja católica polonesa, comunidade Água Branca, de São Mateus do Sul, no Paraná. Após a proclamação da República do Brasil (1889), houve um grande fluxo de imigrantes poloneses para o Brasil. Entre 1890 e 1914, 96.116 poloneses aportaram na cidade do Rio de Janeiro, permanecendo na Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores. Embora algumas famílias tenham permanecido na cidade, a maioria se dirigiu para outros estados. Nesse período pouco mais que 35.100 poloneses se dirigiram para o Paraná e 32 mil para o Rio Grande do Sul.

A leva migratória que corresponde ao período entre 1890 e 1891, ficou conhecida na Polônia como "febre imigratória brasileira" (gorączka brazylijska). Houve uma imigração maciça de poloneses para o Brasil, resultado do agravamento dos problemas sociais e econômicos na região. Na Polônia, dominada na época pelos impérios Austro-Húngaro, da Prússia e da Rússia, assistiu-se à queda do preço do cereal, o endividamento dos agricultores e a consequente venda de suas terras. O governo brasileiro com sua propaganda de imigração, disseminada principalmente pelas agências de navegação, descrevia o país como uma terra de oportunidades. Mais de trinta mil imigrantes poloneses optaram por emigrar para o Brasil. Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, foram os maiores núcleos poloneses formados nesta época.Kula, M. (1977). Cartas dos Emigrantes do Brasil. Anais Da Comunidade Brasileiro-Polonesa, VIII, 112. https://www.ufrgs.br/biblioestudosetnicos/wp-content/uploads/2015/08/Anais-da-Comunidade-Brasileiro-Polonesa-Vol-VIII.pdfWeber, Regina; Wenczenovicz, Thaís J. (Janeiro-Abril 2012). «Historiografia da imigração polonesa: avaliação em perspectiva dos estudos sobre o Rio Grande do Sul». História Unisinos [S.l.: s.n.] 16 (1): 159–170. http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/htu.2012.161.14 .Consultado em 12 de junho de 2016 Numerosas colônias foram formadas como: Cruz Machado com 5000 poloneses, Rio Claro com 3425 poloneses, d'Eufrosina com 1475 poloneses, São Mateus do Sul com 1225 poloneses, Apucarana com 1000 poloneses, Nova Galícia com 650 poloneses. As famílias polacas enfrentaram diversas dificuldades, entre elas, péssimas condições sanitárias, doenças como cólera e mortalidade infantil.

A campanha de nacionalização Durante o Estado Novo (1937-1945), o governo nacionalista do presidente Getúlio Vargas lançou uma campanha de nacionalização que pretendia "assimilar" os imigrantes e seus descendentes na cultura brasileira. Em 1924, em seu relatório sobre a situação do ensino no Paraná, o inspetor-geral César Prieto Martínez constatou que muitos poloneses no estado não sabiam falar o português. Ele creditou esse fato ao "isolamento de algumas colônias", somado à inexistência de escolas brasileiras ("estado lamentável do nosso aparelho escolar"). Em 1938 o governo brasileiro, entre outras medidas, proibiu o uso de línguas estrangeiras em espaço público, vedou aos estrangeiros o exercício de qualquer atividade política e proibiu a circulação de jornais, revistas ou outras publicações na imprensa. Essas ações afetaram diretamente as comunidades polonesas no Brasil, que mantinham diversas escolas, sociedades e associações, que se viram obrigadas a encerrar suas atividades.

O jovem oficial do Exército, Hugo Bethlem, após visita a comunidades polacas do Paraná e Santa Catarina, afirmou ter encontrado "um número imenso de escolas, clubes e associações, cujo objetivo principal era a manutenção irrestrita, nos brasileiros de origem polaca, do mais arraigado espírito patriótico polonês". Mesmo após a invasão da Polônia impetrada pela Alemanha em 1939, as restrições se mantiveram. Inclusive, alguns polacos, por serem confundidos com alemães, foram objeto de atos hostis no Brasil.

Imigração de judeus poloneses