Estêvão (Blois, c. 1092/1096 – Dover, ), também chamado de Estêvão de Blois, foi o Rei da Inglaterra de 1135 até sua morte e Conde de Bolonha em direito de sua esposa. Seu reinado foi marcado pela Anarquia, guerra civil que travou contra sua prima Matilde da Inglaterra. Foi sucedido pelo filho dela, Henrique II, o primeiro da dinastia Plantageneta.

Seu pai Estêvão II de Blois morreu enquanto Estêvão ainda era jovem, com ele sendo levado até sua mãe Adela da Normandia. Colocado na corte de Henrique I, seu tio e rei da Inglaterra, Estêvão ganhou proeminência e recebeu várias terras. Casou-se com Matilde de Bolonha, herdando propriedades em Bolonha e Kent que transformaram o casal em um dos mais ricos do país. Estêvão escapou de afogar-se junto com Guilherme Adelino, filho e herdeiro de Henrique I, no naufrágio do Barco Branco em 1120; a morte de Guilherme deixou em aberto a sucessão do trono inglês. Quando o rei morreu em 1135, Estêvão rapidamente cruzou o Canal da Mancha e, com a ajuda de seu irmão Henrique, um poderoso clérigo, tomou o trono afirmando que a preservação da ordem no reino era mais importante que seus juramentos prestados à imperatriz Matilde, filha de Henrique I.

Apesar de David I da Escócia, rebeldes galeses e Godofredo V de Anjou, marido de Matilde, terem repetidas vezes atacado suas terras na Inglaterra e na Normandia, os primeiros anos de seu reinado foram bem sucedidos. Roberto de Gloucester, o meio-irmão da imperatriz, rebelou-se contra Estêvão em 1138 ameaçando uma guerra civil. Junto com Valerano de Beaumont, seu conselheiro, Estêvão firmemente defendeu a Inglaterra, inclusive prendendo uma poderosa família de bispos. Quando a imperatriz e Roberto invadiram em 1139, ele não conseguiu esmagar a rebelião rapidamente, que centrou-se no sudoeste da Inglaterra. Estêvão foi abandonado por muitos de seus seguidores após ser capturado na Batalha de Lincoln em 1141, também perdendo o controle da Normandia. Ele foi libertado depois de sua esposa e Guilherme de Ypres, um de seus comandantes militares, terem capturado Roberto, porém a guerra continuou por anos com nenhum dos lados conseguindo grande vantagem.

Estêvão ficou cada vez mais preocupado em garantir que seu filho Eustácio fosse seu sucessor. Ele tentou convencer a igreja a coroar o filho para reforçar sua posição: o papa Eugênio III recusou-se e o rei começou a discutir cada vez mais com seus clérigos. O filho da imperatriz invadiu a Inglaterra em 1153 para armar uma aliança com poderosos barões a fim de conquistar o trono. Os dois exércitos confrontaram-se no Castelo de Wallingford, porém nenhum dos lados saiu vitorioso. Estêvão começou a considerar e negociar a paz, um processo que foi apressado após a morte repentina de Eustácio. Estêvão e Henrique assinaram o Tratado de Wallingford no final do ano, em que o rei reconhecia Henrique como seu herdeiro em troca da paz. Estêvão morreu no ano seguinte. Historiadores modernos já debateram como a personalidade de Estêvão, eventos externos e a fraqueza do estado normando contribuíram para o longo período de guerra civil.

Início de vida thumb|262x262px|O norte da França por volta da época do nascimento de Estêvão. Infância Estêvão nasceu em Blois, Condado de Blois, França, em 1092 ou 1096. Seu pai era Estêvão II, Conde de Blois, um nobre francês que participou pouco da infância do filho por ser um cruzado. Estêvão II adquiriu a reputação de covarde durante a Primeira Cruzada e voltou ao combate em 1101 para reconstruir seu nome, morrendo no ano seguinte na Batalha de Ramla. A mãe de Estêvão era Adela da Normandia, filha do rei Guilherme I da Inglaterra e Matilde de Flandres, famosa entre seus contemporâneos por sua piedade, riqueza e talento político. Ela teve grande influência no início da vida de Estêvão.

A França do século XII era um conjunto de condados, ducados e organizações políticas menores sob o controle mínimo de um rei. O poder do monarca estava ligado ao seu controle da rica província de Ilha de França, leste de Blois. ; No oeste jazia os condados de Maine, Anjou e Touraine, e ao norte estava o Ducado da Normandia, de onde Guilherme I havia conquistado a Inglaterra em 1066. O controle da herança anglo-normanda ainda estava sendo disputado pelos filhos de Guilherme. Apesar de dialetos regionais, os governantes da região falavam uma língua similar, seguiam a mesma religião e eram relacionados; também eram muito competitivos e frequentemente entravam em conflito por territórios valiosos e castelos. ; ;

Estêvão tinha pelo menos quatro irmãos e uma irmã, além de provavelmente duas meias-irmãs. Guilherme era seu irmão mais velho, e sob circunstâncias normais teria herdado o título de conde. Guilherme provavelmente sofria de retardo mental e Adela passou o título para Teobaldo, seu segundo filho, que posteriormente adquiriria o Condado de Champagne além de Blois e Chartres. O outro irmão mais velho de Estêvão, Eudes, morreu jovem ainda na adolescência. Seu irmão mais novo Henrique nasceu provavelmente quatro anos depois de Estêvão. Os irmãos formavam uma família muito unida, com Adela encorajando Estêvão a tornar-se um cavaleiro feudal e Henrique a virar clérigo possivelmente para que seus objetivos pessoais não entrassem em conflito. ; Estêvão foi criado na casa da mãe em vez de com um parente, algo fora do comum; ele aprendeu latim e cavalgada, estudando história e histórias bíblicas com Guilherme, o Normando. ;

Relação com Henrique I thumb|left|220px|Árvore genealógica da família de Estêvão, com sua mãe Adela no topo e em baixo, da esquerda para a direita, Guilherme, Teobaldo e Estêvão. O rei Henrique I da Inglaterra também era seu tio e foi uma grande influência no início da vida de Estêvão. Henrique chegou ao poder após a morte de seu irmão mais velho, o rei Guilherme II. Ele invadiu e capturou o Ducado da Normandia em 1106, que era controlado por seu irmão mais velho Roberto II, derrotando o exército normando na Batalha de Tinchebray. Henrique então entrou em conflito com o rei Luís VI da França, que aproveitou a oportunidade para declarar que Guilherme Clito, filho de Roberto, era o legítimo Duque da Normandia. A resposta do rei inglês foi formar uma rede de alianças com os condados ocidentais da França contra Luís, criando um conflito regional que duraria por toda a infância de Estêvão. Adela e Teobaldo aliaram-se com Henrique, com a mãe de Estêvão decidindo colocá-lo na corte. A próxima campanha de Henrique na Normandia começou em 1111, lutando contra rebeldes que se opunham ao seu domínio. Estêvão provavelmente acompanhou o rei durante a campanha militar de 1112, onde foi feito cavaleiro, definitivamente estando presente na corte durante a visita de Henrique à Abadia de Saint-Evroul em 1113. Estêvão foi a Inglaterra pela primeira vez em 1113 ou 1115, quase certamente como parte da corte real.

Henrique tornou-se um poderoso patrono de Estêvão; o rei provavelmente escolheu apoiá-lo porque era parte de sua família e um aliado regional, mas sem riqueza ou poder suficiente para ser uma ameaça contra ele ou seu herdeiro, Guilherme Adelino. Mesmo em uma família com grande influência regional, Estêvão era o terceiro filho e precisava do apoio de um patrono poderoso para progredir. Ele rapidamente começou a acumular terras e possessões com o auxílio de Henrique. O rei confiscou o Condado de Mortain de Guilherme de Mortain e o Honour de Eye, um grande senhorio pertencente a Roberto Malet, logo depois da Batalha de Tinchebray. Estêvão recebeu em 1113 os títulos e as honras junto com outras terras que eram propriedades reais. ; A entrega da Honour de Lencastre seguiu-se depois de ter sido confiscada das mãos de Rogério, o Poitevino. Estêvão também recebeu Alençon no sul da Normandia, porém os locais se rebelaram e procuraram a ajuda do Conde de Anjou. Ele e Teobaldo foram derrotados na campanha subsequente, que culminou na Batalha de Alençon, e os territórios não foram recuperados. ;

Finalmente, o rei arranjou em 1125 seu casamento com Matilde, filha e única herdeira de Eustácio III, Conde de Bolonha, que dominava tanto o importante porto de Bolonha quanto grandes propriedades no noroeste e sudeste da Inglaterra. Guilherme Clito, um potencial pretendente ao trono inglês, parecia em 1127 que iria tornar-se o Conde da Flandres; Henrique enviou Estêvão em missão para impedir isso e, após sua eleição, Clito atacou as terras de Estêvão em Bolonha como retaliação. Posteriormente foi declarada uma trégua e Guilherme Clito morreu no ano seguinte.

Barco Branco e sucessão thumb|right|220px|Uma representação do século XIV do naufrágio do Barco Branco. A situação política da Inglaterra mudou drasticamente em 1120. Trezentas pessoas embarcaram no Barco Branco em Barfleur para chegarem na Inglaterra. Dentre essas pessoas estava Guilherme Adelino, herdeiro do trono, e outros nobres. Estêvão deveria ter viajado no mesmo navio, porém mudou de ideia no último momento e decidiu esperar outra embarcação, ou por medo da superlotação ou por estar sofrendo de diarreia. O navio naufragou no caminho e Adelino morreu junto com os passageiros.

A herança do trono inglês foi posta em dúvida com a morte de Adelino. As regras de sucessão no oeste da Europa eram incertas na época; a primogenitura masculina, em que o filho mais velho herdava o título, estava ficando cada vez mais popular em algumas partes da França. Também era uma tradição para o rei francês coroar seu sucessor enquanto ainda estava vivo, deixando bem claro a linha de sucessão. Entretanto, o caso era diferente na Inglaterra. Em outras partes da Europa, como na Normandia e na Inglaterra, a tradição mandava as terras serem divididas, com o mais velho recebendo as terras maiores e mais valiosas e o mais jovem ficando com as menores ou recentemente adquiridas. O problema complicava-se ainda mais pela sequência de instáveis sucessões anglo-normandas – Guilherme I tomou a Inglaterra pela força; Guilherme II e Roberto II, Duque da Normandia, lutaram entre si para estabelecer a herança; e Henrique I adquiriu a Normandia também pela força. Não houve sucessões pacíficas e incontestadas. ;

Henrique tinha apenas outra filha legítima, Matilde, porém como mulher ela tinha uma grande desvantagem política. Mesmo casando-se com Adeliza de Lovaina, ficou cada vez mais improvável que o rei tivesse outro filho legítimo, assim ele colocou Matilde como seu herdeira. Ela havia se casado com o imperador Henrique V do Sacro Império Romano-Germânico, dando-lhe o título de "imperatriz", porém ele morreu em 1125. Três anos depois ela casou-se com Godofredo V, Conde de Anjou, cujas terras faziam fronteira com o Ducado da Normandia. Godofredo não era popular entre a elite anglo-normanda: por pertencer à Casa de Plantageneta, era um inimigo tradicional dos normandos. As tensões continuaram a crescer como resultado das políticas internas de Henrique, particularmente sua renda para pagar várias guerras. O conflito foi diminuído pela personalidade e reputação do rei. ;

Henrique tentou construir uma base política para apoiar Matilde, exigindo em 1127, 1128 e 1131 que toda a corte prestasse juramentos para reconhecê-la como sucessora e seus descendentes como seus sucessores depois dela. ; Estêvão prestou o juramento em 1127. ; Mesmo assim, as relações entre Henrique, Matilde e Godofredo ficaram cada vez mais tensas ao final da vida do rei. Matilde e Godofredo sentiam que não tinham apoio genuíno na Inglaterra. Eles propuseram a Henrique em 1135 que o rei entregasse os castelos reais da Normandia enquanto ainda vivo para insistir que a nobreza normanda apoiasse Matilde, dando ao casal uma posição muito mais forte após a morte dele. O rei recusou-se, provavelmente com medo que Godofredo tentasse tomar o controle da região antes do esperado. ; Uma rebelião então começou no sul da Normandia no mesmo ano e Godofredo e Matilde intervieram pelo lado dos rebeldes. Durante os confrontos, Henrique adoeceu e morreu perto de Lyons-la-Forêt.