miniaturadaimagem|Ícone de uma pessoa aos moldes do Homem Vitruviano, em dupla relação O personalismo é uma postura intelectual que geralmente enfatiza a importância das pessoas humanas. Refere-se principalmente a sistemas filosóficos europeus em que os personalistas defendem a autodeterminação e valor de cada sujeito como inalienável e supremo, não podendo ser sobrepujado por conceitos maiores, seja o de coletividade social ou de sistemas naturalistas ou metafísicos que tolham a liberdade e dignidade da pessoa. Porém o personalismo existe em muitas versões diferentes, o que torna um tanto difícil defini-lo como um movimento filosófico e/ou teológico.Williams, Thomas D. "Personalism". In Zalta, Edward N. (ed.). Stanford Encyclopedia of Philosophy.
Friedrich Schleiermacher usou pela primeira vez o termo "personalismo" (em alemão: Personalismus) impresso em 1799.F. D. E. Schleiermacher Über die Religion (1799), Hrsg. v. Andreas Arndt. Meiner, Hamburg 2004, Na língua original: der Personalismus. Pode-se rastrear o conceito até pensadores anteriores em várias partes do mundo. Além da forma teológica, há várias formas de pensamento que já foram chamadas de "personalismo": desde especulações sobre o eu na filosofia indiana; formulações em que há uma primazia de se adotar o ponto de vista da pessoa ou de sua relação com o outro para se desenvolver um sistema filosófico; afirmações metafísicas de que os únicos entes existentes no universo são pessoas; até a um humanismo político que critica tanto o individualismo, quanto o coletivismo.
Tornou-se bastante popularizado, em particular, pelo movimento associado ao humanismo e inconformismo político idealizado por Emmanuel Mounier. Ele acreditava que o problema das estruturas sociais era econômico e moral, e que a saída para isso era a teorização e a construção de uma "comunidade de pessoas". O personalismo foi posteriormente adaptado pela Democracia Cristã e pelo Papa João Paulo II e, consequentemente, seguido por muitos católicos.
Visão geral
Surgimento do conceito Inicialmente, a categoria de "personalismo" em Schleiermacher apareceu para definir a crença em um deus pessoal que, em contraste com a ideia panteísta, possui consciência. Segundo o filósofo, o personalismo atribui ao "universo... uma consciência peculiar e o outro (tipo de ideia) não".Theunissen, Michael. «Personalismus». In Ritter, Johann; Gründer, Karlfried; Gabriel, Gottfried. Historisches Wörterbuch der Philosophie online. Schwabe Online. Essa distinção terminológica fora motivada pela controvérsia do panteísmo. Imerso nela, Friedrich Heinrich Jacobi formulara antes um conceito inicial de personalismo, e posteriormente Fichte e Hegel em grande medida adotaram um personalismo que, porém, se limitava à consideração do papel social da pessoa, de uma forma panteísta.
Houve um intenso debate sobre a natureza da Persönlichkeit (personalidade) e do si mesmo, cristalizado nas décadas de 1830 e 1840, e Warren Breckman afirma que o personalismo cristão surgiu nesse período como a mais importante reação à filosofia alegadamente panteísta de Hegel, em que filósofos e teólogos protestantes e católicos deram valor à personalidade; nisso, a "filosofia positiva" tardia de Schelling lhes deu autoridade.
Esse conceito teológico foi seguido pela crítica de Ludwig Feuerbach à religião, defendendo o panteísmo impersonalista, que, segundo ele, centralizava o homem na natureza de forma absoluta, enquanto afirmava que o personalismo isolava o homem:"Deus é uma projeção do homem: 'a personalidade de Deus é a personalidade do homem livre de todas as determinações e limitações da natureza'. O personalismo é, portanto, também o fundamento teológico de uma concepção da 'natureza do homem' que destrói a sua identidade natural consigo mesmo e é, portanto, responsável pelo fato antropológico da autoalienação".Assim, o impersonalismo seria adotado pelos jovens hegelianos e foi transformado em naturalismo e materialismo ao longo do século XIX. Porém, Feuerbach se apropriou do conceito de personalidade e formulou também um personalismo naturalista baseado na dialética do Eu-Tu. Após Feuerbach, na Alemanha Ernst Troeltsch e Gerhard Gloege representaram o personalismo teológico.
Jan Olof Bengtsson considera que os personalistas constituíram naquela época uma terceira alternativa, entre o teísmo e o idealismo absoluto. Politicamente, na aplicação da filosofia social, o personalismo tentava balancear elementos liberais, conservadores e até socialistas. Representava, assim, uma forma de distinta de liberalismo que não se resumia apenas a um meio-termo ou débil conciliação. Frequentemente os pensadores revolucionários, tais como os hegelianos de esquerda, e até mesmo os reacionários, eram "impersonalistas". Os jovens hegelianos não negavam a pessoa e o self, porém afirmavam que o personalismo religioso era antissocial e antipolítico, o que impedia, segundo eles, a realização plena da pessoa. Porém o humanismo voltado a conceitos como "espécie" ou "essência humana" de Feuerbach foi criticado por alguns dos próprios jovens hegelianos, como por Max Stirner, que em O Ego e o seu próprio (1844) focava apenas na "pessoa de verdade"; outro crítico foi Arnold Ruge, que se afastou do comunismo e temia que a realidade social pudesse se sobrepor às liberdades e direitos das próprias pessoas que a compõe.
Precursores e delimitação Pensamentos precursores se encontram em Leibniz, Berkeley, Kant e Rudolf Hermann Lotze, esse último tendo dado à personalidade um valor central.
No começo do século XIX, o personalismo inicial era distinto do "personalismo cristão" e oposto aos sistemas monistas do idealismo alemão e a tendências materialistas e positivistas. Uma primeira divisão, feita por Michael Theunissen, pode ser entre o "personalismo substancialístico" e o "personalismo relacionístico". Raramente ambas as ênfases se encontravam separadas. Estavam unidas em personalistas como Jacobi, Schelling e teístas especulativos, que davam atenção tanto à relação do ser humano para com outras pessoas, quanto para com Deus. Em grande parte a filosofia desses pensadores era voltada aos dons do indivíduo, o que constitui o aspecto do "personalismo substancialístico", que fora iniciado por pensadores cristãos medievais, como Boécio e Tomás de Aquino, influenciando definitivamente Lotze e, a partir deste, os personalistas americanos como George Trumbull Ladd, Josiah Royce, Borden Parker Bowne e Edgar S. Brightman; também foi definido paradigmaticamente pelo psicólogo Wilhelm Stern.
Já na outra vertente mais relacional, derivando da face externa do conceito de persona, a ênfase filosófica recai sobre a interação social da pessoa com as outras, o que pode ser traçado desde Agostinho de Hipona, Ricardo de São Vítor e Duns Escoto; o "personalismo relacionístico" formou-se pelo personalismo dialógico dos hegelianos de esquerda na Alemanha; na França, a partir de Charles Renouvier; e teve um paradigma relacional antecipado pelo teólogo David Friedrich Strauss.
Em geral, desde os pensadores iniciais do personalismo no começo do século XIX, a ênfase principal era sobre os valores do sujeito e seu cultivo, em conexão com a autorrealização e desenvolvimento da personalidade. Escrevendo na Stanford Encyclopedia of Philosophy, Thomas D. Williams, LC e Jan Olof Bengtssonhttps://philpeople.org/profiles/jan-bengtsson citam uma pluralidade de "escolas" que defendem uma ética "personalista" e uma "Weltanschauung", argumentando:
Assim, de acordo com Williams, deve-se ter em mente que embora possa haver dezenas de teóricos e ativistas sociais no Ocidente aderindo à rubrica "personalismo", os seus focos particulares podem, de fato, ser assintóticos, e até divergir em termos de conjunturas materiais.
Outra forma em que se pode categorizar o personalismo, porém mais posterior cronologicamente em relação ao início do século XIX, é também em três principais escolas personalistas que surgiram em reação a Hegel: a de Paris (sob influência do existencialismo, com Mounier, Marcel, Ricoeur e Maritain, cada um com um tipo distinto de sistema); a de Gottingen/Freiburg (baseando-se na fenomenologia, com Husserl, Max Scheler, Dietrich von Hildebrand, Edith Stein e Roman Ingarden; também se desenvolvendo em Praga por Jan Patočka); e a de Lublin (cujo representante principal foi Karol Wojtyla). Eles consideravam que o monismo absoluto hegeliano, bem como o reducionismo determinístico a leis impessoais, tal como o do positivismo e naturalismo, ameaçavam a liberdade e valor da pessoa, e em proposta alternativa os personalistas enfatizavam a autodeterminação.
Também se pode dividir por país. Por exemplo, o personalismo americano e britânico no geral, descrito por Keith Yandell, afirma que as únicas coisas existentes são a consciência das pessoas e suas qualidades, e que o todo da realidade é formado apenas pela interação social e conjunto mental de todas as pessoas. Esses personalistas afirmavam que as pessoas são livres, agentes morais conscientes, e que cada uma possui um valor intrínseco supremo em relação a seres impessoais, além de que para eles, na epistemologia, os conceitos mais básicos do pensamento surgem a partir da realidade imediata do sujeito e são entendidos em relação às pessoas e suas experiências. Tipicamente, esses personalistas posteriores são idealistas e afirmam a existência de Deus como uma Pessoa Suprema, base da continuidade das pessoas, acreditando na sobrevivência pessoal após a morte. Porém nem todos eram necessariamente teístas: Yandell divide um grupo de personalismo ateu, representado principalmente por J. M. E. McTaggart; James Ward e William Ritchie Sorley também faziam parte dessa categoria. Na França, por exemplo, houve Charles Renouvier, que era contra um monismo e adotou um pluralismo em que assumia existir apenas os fenômenos dos sujeitos; inicialmente, esse seu idealismo elogiava o ateísmo, por se colocar contra o teísmo que defendia uma unidade e perfeição; depois, em um relativismo, afirmava que o homem apenas tem ideias de sua relação com o mundo, e que não poderíamos conhecer e definir o Todo e Deus. Renouvier afirmava, então, um Deus finito e não onisciente, que não pode ser provado mas que é construído pessoalmente, como uma personalidade permanente do mundo, e essa sua visão influenciou o filósofo americano William James.
Os principais que se incluem no grupo dos personalistas teístas americanos eram Bowne, Brightman e Peter Anthony Bertocci. Uma outra categoria, segundo Yandell, seria a do "personalismo idealista absoluto", formado por Hegel, Royce e Mary Whiton Calkins, que baseavam o fundamento idealista no Absoluto.
Após a Segunda Guerra Mundial, Ferdinand Ebner e Franz Rosenzweig elaboraram um personalismo dialógico, e esse pensamento tem seu mais conhecido representante em Martin Buber, que elaborou sobre a dialética de Eu-Tu. O personalismo do russo Semyon Frank também absorveu essas ideias, e ele citou Ebner, Ronsenzweig e Scheler.
Pode se chamar ainda de "personalismo" a filosofia do Átmã (Eu) pessoal e de seu atingimento para libertação entre as escolas filosóficas indianas, particularmente desde os primeiros sistemas do hinduísmo; nesse contexto, esse tema gerou grande discussão, como na rejeição budista geral de se definir uma essência imutável para a pessoa (anatta); porém, mesmo no budismo houve o sistema do Pudgalavada, que adotava um conceito personalista.
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