Pedro Pereira dos Santos (Manaus, 28 de janeiro de 1932 – João Pessoa, 29 de agosto de 1986) foi um maestro, compositor, regente coral, professor de música e jornalista brasileiro, radicado na Paraíba a partir de 1958. Foi regente da Orquestra Sinfônica da Paraíba, fundador do Coral Universitário da Universidade Federal da Paraíba, do Madrigal Paraíba e de outros coros de João Pessoa, professor do Departamento de Música da UFPB e da Escola de Música Anthenor Navarro, e formou músicos como Pedro Osmar, Tom K, Eduardo Nóbrega e Carlos Anísio. Compôs para o teatro e para o cinema paraibanos desde o documentário Romeiros da Guia (1962), foi um dos criadores do Núcleo de Documentação Cinematográfica (NUDOC) da UFPB e é apontado como um dos compositores que influenciaram uma geração de músicos paraibanos.
Biografia
Formação e chegada à Paraíba Nascido em Manaus em 28 de janeiro de 1932, ingressou muito jovem em um seminário católico, onde teve os primeiros estudos musicais, e depois estudou no Instituto Villa-Lobos e no Conservatório Nacional, no Rio de Janeiro, onde foi aluno de Heitor Villa-Lobos. Chegou a João Pessoa em 1958, "onde se fixou por opção" ("Aqui tenho um trabalho a realizar", escreveu à família na época), e na capital paraibana viveu até a morte, em 29 de agosto de 1986. Em depoimento ao documentário Cinema Paraibano: Vinte Anos (1983), de Manfredo Caldas, contou: "Eu vim para a Paraíba em 1958 e, professor da Escola de Música, também fui contratado em 1958 para regente da orquestra que, naquela época, chamava-se Orquestra Sinfônica da Paraíba. E a orquestra ensaiava no Teatro Santa Roza. Desde esse primeiro encontro, nunca mais me desliguei do pessoal de teatro aqui da Paraíba." Integra a sucessão de regentes da Orquestra Sinfônica da Paraíba, fundada em 1945, entre Luzia Simões e Arlindo Teixeira, no período anterior à paralisação da orquestra na segunda metade da década de 1960 e à sua reativação, em 1979, e regeu também a Orquestra de Câmara do Estado. Em 1958, à frente da orquestra, inovou com o projeto Música Para o Povo, que promovia audições da Sinfônica nos bairros da capital, noticiado à época pelo jornal A União e apontado como iniciativa pioneira de democratização do acesso à música erudita na Paraíba. Nas décadas de 1960 e 1970 acompanhou ao piano o tenor Hugo Osias em formações do Conjunto de Música Sacra Giuseppe Verdi, e o casal Pedro Santos e Dôra Limeira morou na rua Santo Elias, no centro de João Pessoa, nos anos 1960.
Universidade Veio para a Paraíba como professor do Departamento de Música da Universidade Federal da Paraíba, onde trabalhou nos cursos de extensão, ensinando harmonia e regência coral, e fundou o Coral Universitário da UFPB. Na universidade, foi um dos articuladores do movimento pela criação do Departamento de Artes e Comunicação (DAC), integrou o grupo responsável pela criação do Núcleo de Documentação Cinematográfica (NUDOC), do qual foi um dos coordenadores, e foi um dos implementadores do Programa Cinema Direto, em convênio com a Universidade de Nanterre, na França; nos anos 1980 destacou-se no movimento pela redemocratização da UFPB, como um dos defensores das eleições diretas no Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Integrou também o corpo docente da antiga Universidade Regional do Nordeste (URNE), em Campina Grande, hoje Universidade Estadual da Paraíba. O maestro Luiz Carlos Durier, seu ex-aluno e posteriormente regente da Orquestra Sinfônica da Paraíba, o descreveu como "um grande professor de música, um gentil e excelente maestro", que "colaborou muito com a música coral e também de orquestra, na Paraíba" e que, "carinhoso, dedicado e muito competente", "nos deu excelentes referências". Como professor da Escola de Música Anthenor Navarro, foi, no início da década de 1970, uma das "figuras inspiradoras" com que os irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró, fundadores do grupo Jaguaribe Carne, travaram contato, ao lado da professora de piano Maria Alix e do violonista Vital Farias; Pedro Osmar recorda que foi com Pedro Santos e Maria Alix, na EMAN, "lá pelos anos 70", que ouviu falar pela primeira vez em música contemporânea, "em aulas fundamentais para a cabeça e a formação de pessoas como eu, que se ligariam na estética contemporânea da música e dali não mais sairiam".
Regência coral Fundou e dirigiu em João Pessoa o Madrigal Paraíba, além do Coral do IPE, do Coral da Telpa e do Coral da Ibrave, e por muitos anos regeu o coro da Igreja do Carmo, para o qual compôs a Missa de Nossa Senhora do Carmo; quando morreu, ainda regia o Madrigal Paraíba e o Coral da Telpa. No Madrigal Paraíba cantaram na adolescência o compositor Pedro Osmar, que ali conheceu a música contemporânea e de vanguarda e o cita como uma de suas principais referências, e os futuros maestros Tom K, Eduardo Nóbrega, coordenador do Festival Paraibano de Coros, para quem Pedro Santos foi "nosso grande incentivador", Eleonora Montenegro e Carlos Anísio, que se tornou regente ao ser convidado por ele para assistente do Coral da Telpa e o descreve como "o artista que cativou e influenciou todos que desfrutaram de sua convivência, das posturas políticas e artísticas ousadas, dos pequenos e amorosos gestos de atenção com os seus 'discípulos'". Após sua morte, o grupo passou a chamar-se Madrigal Pedro Santos e, sob a direção de Tom K, no fim da década de 1980, foi considerado "indiscutivelmente um dos melhores coros que o estado já teve". O LP Jaguaribe Carne Instrumental (1993), do Jaguaribe Carne, é dedicado a ele.
Vida pessoal Casou-se em 1964 com a professora de História da Universidade Federal da Paraíba e escritora Dôra Limeira (1938–2015), com quem teve cinco filhos. Dôra, fundadora do Clube do Conto da Paraíba, era irmã da jornalista Maria José Limeira, pioneira da presença feminina nas redações pessoenses. Segundo Dôra Limeira, foi militante clandestino do Partido Comunista Brasileiro durante a ditadura militar e, questionado pelos amigos depois da abertura política, respondia: "É minha forma de ficar ao lado dos pobres". Ela relata ainda que ele nunca teve piano em casa, compondo apenas com um diapasão, uma flauta e a própria voz, e recorrendo ao piano do Teatro Santa Roza ou da Escola de Música Anthenor Navarro. Morreu em João Pessoa em 29 de agosto de 1986, aos 54 anos.
Obra Pedro Santos escreveu obras vocais e instrumentais, com destaque para a produção destinada ao teatro e ao cinema. Segundo o musicólogo Vladimir Silva, suas composições abrangem "um grande leque de tendências, indo do ortodoxo ao experimental": Tema para assovio (1962), peça curta e simples para coro de vozes afins (soprano e contralto) e solista, que integra a trilha sonora do filme Romeiros da Guia, exemplifica a vertente tradicional, enquanto Ave verum (1975), que trabalha com a indeterminação e a aleatoriedade, revela a faceta experimentalista do compositor. Compôs também missas, sambas de enredo e um prelúdio para violão, além de música de vanguarda, parte dela ainda inédita.
Cinema Sua primeira música para cinema foi a do documentário Romeiros da Guia (1962), de Vladimir Carvalho e João Ramiro Mello, para o qual escreveu, além do Tema para assovio, o Fugato sobre um tema folclórico; conheceu Vladimir Carvalho no meio teatral e com ele começou a trabalhar no cinema. Compôs em seguida a música de Menino de Engenho (1965), de Walter Lima Júnior, que assina as letras das canções "Zé Cotia" e "Zefa Cajá", ao lado de peças instrumentais para conjunto de sopros (Dobrado, Primeira Valsa, Juraci, Segunda Valsa, Maxixe); a de O Salário da Morte (1970), único longa-metragem de ficção de Linduarte Noronha, com a "Canção de Serviço", em parceria com Marcus Vinicius; e a de A Volta pela Estrada da Violência (1971), de Aécio de Andrade (Desfile, Adágio e Marcha). Foi ainda criador de vários cineclubes em João Pessoa. Para o cineasta João de Lima, Pedro Santos "internacionalizou o cinema paraibano": como produtor cinematográfico, por meio do NUDOC, ensejou na UFPB "o maior movimento de formação de realizadores na história da Paraíba", que chegou às páginas do Le Monde e contou com a solidariedade de documentaristas franceses como Jean Rouch e Philippe Costantini. Segundo Carlos Anísio, sua importância para a música de cinema no Brasil, em Romeiros da Guia e Menino de Engenho, "merece muito mais estudo e pesquisa". O Fest Aruanda de 2026 o homenageia como "maestro e trilheiro" de O Salário da Morte.
Em Campina Grande, a convite de José Umbelino, então diretor do Museu de Arte da cidade, transcreveu em partitura melodias da tradição oral cantadas pelo poeta Bandeira Sobrinho, episódio narrado pelo escritor Bráulio Tavares na crônica "O sinônimo da nota musical", publicada em seu site Mundo Fantasmo e transcrita pela crítica Maria do Rosário Caetano, em que descreve o maestro como "o rei da paciência e da diplomacia".
Composições As obras mais antigas registradas na antologia de 2000 são anteriores à chegada à Paraíba: a Cantiga (1956), sobre poema de Manuel Bandeira, e o arranjo coral Canaro Cantadô (1958), sobre tema do folclore cearense. Do primeiro ano em João Pessoa é o Hino da Escola de Serviço Social (1958); compôs também o Hino do Centenário da Cidade de Cajazeiras, com letra de Cristiano Cartaxo, a canção A Criação, com letra do padre Luís Ruas, a Suíte para Banda (abertura, valsa e choro), a Suíte Lapinha, sobre temas do folclore nordestino, e Feliz Natal (1984), para o Coral da Telpa. Sua Missa de Nossa Senhora do Carmo (1966), escrita sobre um hino a Nossa Senhora, compreende Senhor, Glória, Credo, Santo e Bendito e Cordeiro de Deus. Para o teatro de Altimar Pimentel escreveu as canções de O Auto de Maria Mestra (1967: "É Paz na Terra", "No Mundo Há Promessas", "Velho Lucas", "Vamos, Companheiras!"), Viva a Nau Catarineta e O Auto da Cobiça (1970: "Bela Infanta", "Saudades", "A Mulher do Mestre", "Trabalha Marujo", "Homens do Mar"; "Ao Senhor Dono da Casa", "Baiano", "Aboio", "Na Testa do Meu Garrote", "Despedida") e Coiteiros (1983: "A Princesa", "A Fome", "A Estrela").
Teatro