A Batalha de Gidá foi um confronto travado em 1541 entre uma força do Império Português e as forças do Emirado de Meca e do Império Otomano nas proximidades de Gidá, no Mar Vermelho. Integrando a expedição comandada por Estêvão da Gama que pretendia alcançar Suez e atacar a frota otomana, os portugueses desembarcaram em , ao sul de Gidá, depois de não conseguirem desembarcar diretamente na cidade fortificada. O xarife Abu Numai Maomé II, emir de Meca, mobilizou forças locais e, juntamente com o bei de Gidá, repeliu os portugueses. A vitória levou o sultão a conceder a Abu Numai metade das receitas alfandegárias de Gidá.

Antecedentes

Desde o início do , a expansão do Império Português pelo oceano Índico e pelo Mar Vermelho representava uma ameaça às rotas marítimas que ligavam o Egito e o Hejaz à Índia. Gidá, principal porto de Meca, adquiriu particular importância nesse contexto. Ainda durante o domínio do Sultanato Mameluco do Cairo, o emir e naibe da cidade Mirocém promoveu a construção de uma muralha e de outras fortificações destinadas a protegê-la contra um possível ataque português. As obras foram concluídas com o auxílio do xarife de Meca e continuaram a desempenhar função defensiva depois da incorporação do Hejaz ao Império Otomano. Segundo Taufik, as fortificações foram concluídas em menos de um ano e transformaram Gidá numa posição fortemente defendida. A eficácia dessas defesas já havia sido demonstrada em 923 A.H. (1517), quando Lopo Soares de Albergaria, perseguindo a frota mameluca comandada por Salmane Reis, alcançou o porto de Gidá, mas desistiu de atacar a cidade devido à força de suas fortificações.

Depois da conquista otomana do Egito e da submissão do Hejaz ao sultão , Gidá tornou-se sede de um sanjaco administrado separadamente do Emirado de Meca, embora os xarifes continuassem a desempenhar papel importante nos assuntos do porto. O confronto luso-otomano no Mar Vermelho intensificou-se na década de 1530. Em 1538, uma grande frota comandada por partiu de Suez para a Índia, utilizando Gidá como seu último porto dentro do Império Otomano antes de prosseguir para o sul. Durante a expedição, os otomanos reforçaram suas posições no Iêmem e na ilha do Camarão, ocuparam Adem e posteriormente atacaram Diu, embora sem conseguir conquistá-la. Em 1541, os portugueses organizaram uma nova expedição ao Mar Vermelho sob o comando de Estêvão da Gama. A frota partiu de Goa e, depois de penetrar no Mar Vermelho e desembarcar tropas em Maçuá, avançou para o norte. Seu objetivo mais amplo era alcançar Suez e atacar a frota otomana ali estacionada, mas, durante a operação, os portugueses dirigiram-se também contra Gidá.

Batalha

Ao aproximar-se de Gidá, a força portuguesa encontrou a cidade protegida por suas fortificações e por numerosos defensores. Estêvão da Gama não conseguiu realizar um desembarque diretamente no porto e, em vez disso, suas tropas desembarcaram em , um pequeno porto situado nas proximidades, ao sul de Gidá. A notícia do desembarque chegou ao xarife Abu Numai Maomé II, emir de Meca, que naquele momento participava dos preparativos relacionados à haje. Abu Numai interrompeu sua participação na peregrinação e convocou a população para uma jiade contra os invasores. Numerosos homens responderam ao chamado, foram armados e reunidos numa força que o próprio xarife conduziu em direção a Abu Adauair. O bei de Gidá também participou da resistência aos portugueses. As forças reunidas por Abu Numai enfrentaram os portugueses em Abu Adauair e conseguiram expulsá-los da região. A resistência impediu que Estêvão da Gama estabelecesse uma posição nas proximidades de Gidá ou empreendesse um ataque efetivo contra a cidade, que permaneceu em poder otomano. A frota portuguesa prosseguiu então para o norte em direção a Tor, no golfo de Suez. Ao chegar à região, Estêvão da Gama não encontrou a frota otomana que pretendia atacar e acabou regressando à Índia.

Consequências

A participação pessoal de Abu Numai na defesa de Gidá fortaleceu sua posição perante o governo otomano. Como recompensa por sua atuação contra os portugueses, o sultão aumentou a parcela das receitas alfandegárias do porto destinada ao xarife, concedendo-lhe metade da arrecadação de Gidá. Taufik igualmente relaciona diretamente a concessão da metade das receitas alfandegárias à participação de Abu Numai na expulsão dos portugueses. A divisão das receitas de Gidá posteriormente se consolidou como parte da organização administrativa da região: uma metade passou a caber ao sanjaco-bei da cidade e a outra ao xarife de Meca. O fracasso português em 1541 também preservou Gidá como principal porto otomano do Hejaz e como importante posição defensiva no Mar Vermelho. O avanço posterior dos otomanos no Iêmem e a conquista de Adem em 1558 reforçaram ainda mais a segurança das comunicações marítimas da cidade.

Bibliografia

Categoria:Batalhas de Gidá Categoria:Batalhas do século XVI Categoria:Xarifado de Meca Categoria:1541 Categoria:Batalhas envolvendo Portugal Categoria:Batalhas envolvendo o Império Otomano