Caso Master no Supremo Tribunal Federal refere-se à tramitação, na última instância do poder judiciário brasileiro, das investigações relacionadas ao escândalo do Banco Master e às controvérsias institucionais decorrentes de sua condução. O caso chegou à Corte em novembro de 2025, após a defesa de Daniel Vorcaro alegar que a investigação alcançava pessoa com foro por prerrogativa de função, e foi inicialmente relatado pelo ministro Dias Toffoli. Em fevereiro de 2026, após questionamentos sobre sua imparcialidade, Toffoli deixou a relatoria, que foi redistribuída ao ministro André Mendonça.
Mendonça alterou procedimentos adotados na fase anterior, reduziu o grau de sigilo e ampliou a autonomia da Polícia Federal (PF) para diligências ordinárias. Em março, decretou a prisão preventiva de Vorcaro e de outros investigados, decisão posteriormente referendada pela Segunda Turma. Em setembro, a divulgação de um relatório da PF com informações relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes provocou uma nova crise institucional: a Procuradoria-Geral da República pediu a nulidade da ordem que levara à produção do documento, enquanto Moraes pediu a abertura de investigação contra Mendonça pela condução das apurações.
Contexto e antecedentes
O Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, passou a ser investigado pela Polícia Federal (PF) em 2024, a partir de apuração iniciada a pedido do Ministério Público Federal. A investigação apontava que o banco teria adquirido carteiras de crédito sem lastro e as vendido ao Banco de Brasília (BRB), substituindo-as posteriormente por outros ativos após fiscalização do Banco Central.
A PF deflagrou a Operação Compliance Zero em 18 de novembro de 2025 para apurar suspeitas de crimes contra o sistema financeiro. Vorcaro e outros investigados foram presos, e o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi afastado do cargo. No mesmo dia, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master, citando graves violações às normas do sistema financeiro e problemas de liquidez. Relatoria de Dias Toffoli
O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 28 de novembro de 2025, quando a defesa de Daniel Vorcaro pediu que as investigações fossem remetidas à Corte. O pedido se baseava na apreensão de documentos relativos a um negócio imobiliário ligado ao deputado federal João Bacelar, que tinha foro por prerrogativa de função. Em 3 de dezembro, Toffoli determinou que novas medidas judiciais e diligências relacionadas ao caso passassem a ser submetidas ao STF, por entender que a investigação alcançava pessoa com foro, e manteve o processo sob sigilo elevado.
Em 24 de dezembro, Toffoli determinou de ofício uma acareação entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa, o agora ex-presidente do BRB; o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, também deveria participar. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a suspensão da medida, por considerá-la prematura para aquela fase da investigação. Toffoli rejeitou o pedido, afirmando já haver elementos que justificavam o confronto das versões. Depois dos depoimentos individuais, em 30 de dezembro, a Polícia Federal dispensou Aquino e realizou a acareação entre Vorcaro e Costa.
Paralelamente, tornou-se público em dezembro que o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, mantinha um contrato com o Banco Master que previa 108 milhões de reais líquidos em honorários ao longo de três anos. Também surgiram relatos de que Moraes havia procurado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar da situação do Master. Moraes negou ter intercedido pelo banco e afirmou que suas reuniões com Galípolo trataram dos efeitos da Lei Magnitsky. No fim do mês, Gonet arquivou uma representação que pedia a investigação de Moraes e de sua esposa, por considerar que não havia elementos mínimos que indicassem a prática de ilícitos.
Em 12 de janeiro, Toffoli determinou que diligências da segunda fase da Operação Compliance Zero fossem cumpridas pela PF no prazo de 24 horas. As medidas haviam sido requeridas pela PGR em 6 de janeiro e autorizadas pelo ministro no dia seguinte. Após o prazo expirar sem a deflagração da operação, Toffoli afirmou que faltara empenho à PF e cobrou explicações do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues. A PF respondeu que o prazo era insuficiente para o planejamento da ação, citando a necessidade de atualizar endereços dos alvos e coordenar o cumprimento de mandados em diferentes estados. Quando a operação foi realizada, em 14 de janeiro, Toffoli determinou inicialmente que o material apreendido fosse lacrado e encaminhado ao STF. Ainda naquele dia, reconsiderou a decisão e transferiu sua guarda para a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Também em janeiro, tornou-se público que empresas ligadas a irmãos e a um primo de Toffoli haviam tido como sócio o fundo Arleen. Esse fundo estava conectado, por uma cadeia de outros fundos, a estruturas investigadas no caso Master e havia adquirido participação no empreendimento resort Tayayá, no Paraná, do qual familiares do ministro haviam sido sócios. A Polícia Federal encaminhou ao presidente do STF, Edson Fachin, um relatório com referências a Toffoli encontradas no celular de Vorcaro. A corporação não pediu formalmente a suspeição do ministro, mas apontou elementos para que a medida fosse examinada. Fachin tratou o documento como um pedido de suspeição e o encaminhou à PGR para manifestação.
Em fevereiro, o próprio ministro confirmou ser sócio da Maridt, empresa familiar que havia participado do empreendimento, mas negou ter recebido valores de Vorcaro ou manter relação de amizade com ele. Em 12 de fevereiro, após uma reunião dos dez ministros, Toffoli pediu para deixar a relatoria. Em nota conjunta, os ministros afirmaram que não havia causa de suspeição ou impedimento e, por isso, reconheceram a validade dos atos praticados pelo relator. O caso foi então redistribuído por sorteio ao ministro André Mendonça.
Relatoria de André Mendonça Em 19 de fevereiro, o novo relator reduziu o grau de sigilo do inquérito e restabeleceu o fluxo regular de perícias da PF, ampliando o acesso ao material apreendido. A PF também passou a poder realizar diligências ordinárias sem consulta prévia, mas a instauração de novas investigações permaneceu sujeita à autorização do relator. Em 3 de março, Mendonça tornou facultativo o comparecimento de Vorcaro à CPI do Crime Organizado, com fundamento na garantia contra a autoincriminação conforme uma jurisprudência consolidada do STF.
Em 4 de março, a pedido da PF, Mendonça decretou a prisão preventiva de Vorcaro, e de seu cunhado, o pastor da Igreja Batista da Lagoinha, Fabiano Zettel, além da prisão de outros dois investigados na terceira fase da Compliance Zero. Segundo a PF, integrantes do grupo ligado ao banqueiro teriam obtido informações sigilosas sobre apurações em curso. A polícia também apontou a existência de uma estrutura destinada ao monitoramento e à intimidação de desafetos, entre eles jornalistas. Mendonça considerou que esses elementos indicavam risco concreto de interferência nas investigações e justificavam a prisão preventiva.
Depois, no dia 6 de março, vieram a público mensagens que Vorcaro teria enviado a Alexandre de Moraes no dia de sua primeira prisão; o ministro negou tê-las recebido. Segundo análise da Corte, as mensagens estavam na verdade vinculadas a outros contatos encontrados no aparelho. O presidente do STF passou a conversar com os demais ministros sobre a repercussão do caso e ofereceu apoio ao gabinete de Mendonça para a condução dos trabalhos. Fachin também voltou a defender a adoção de um código de conduta para o tribunal, como resposta ao desgaste institucional.
Em 11 de março, Dias Toffoli declarou-se suspeito, por motivo de foro íntimo, para participar do julgamento sobre a prisão de Vorcaro. A Segunda Turma analisou a decisão de Mendonça em sessão virtual iniciada dois dias depois. Em 20 de março, os quatro ministros participantes referendaram a prisão por unanimidade.
Em junho, divergências sobre a condução do inquérito passaram a aparecer publicamente nos julgamentos da Segunda Turma. O ministro Gilmar Mendes criticou a possível interferência judicial nas tratativas de colaboração premiada de Vorcaro e comparou a condução do caso a práticas da Lava Jato. Mendonça rejeitou a comparação e afirmou que não admitiria uma delação que selecionasse previamente as autoridades a serem implicadas.
Em 24 de agosto, Mendonça determinou à Polícia Federal que, no prazo de 72 horas, analisasse determinadas mensagens apreendidas no celular de Vorcaro e identificasse as pessoas nelas mencionadas, inclusive possíveis autoridades com foro no STF. O relatório resultante foi posteriormente encaminhado por Mendonça à PGR. Em 1.º de setembro, o ministro retirou o sigilo do material. Entre os dados analisados estavam mensagens enviadas por Vorcaro a um contato salvo com o nome de Alexandre de Moraes. Em parte delas, Vorcaro pedia auxílio relacionado às investigações e mencionava o próprio procurador-geral Gonet e também o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. As respostas do interlocutor não foram recuperadas.
Crise institucional de 2026 Divulgação de informações sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro Em setembro de 2026, foram divulgadas informações sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. As informações resultaram principalmente da análise, pela Polícia Federal (PF), de dados extraídos de aparelhos celulares apreendidos de Vorcaro no âmbito da Operação Compliance Zero, que investigava suspeitas de fraudes envolvendo o banco. Em 1.º de setembro, o ministro André Mendonça determinou o levantamento do sigilo de relatório policial que reunia mensagens, registros de encontros, metadados de documentos e outros elementos relativos às relações de Vorcaro com autoridades públicas. Segundo o relatório, o contato entre Vorcaro e Moraes teria começado no final de 2023, após o ex-ministro das Comunicações do Governo Bolsonaro, Fábio Faria, fornecer o número do ministro ao banqueiro. A PF identificou ao menos seis encontros entre o magistrado e o ex-banqueiro entre 2024 e 2025.
Parte das mensagens recuperadas registra contatos de Vorcaro com o interlocutor, identificado como Moraes, durante o período que antecedeu sua prisão, em novembro de 2025. Em 30 de outubro, Vorcaro teria pedido que fossem procurados o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em razão das investigações sobre o Banco Master; em 15 de novembro, dois dias antes da prisão, teria perguntado se deveria deixar o país. A PF informou, contudo, que conseguiu recuperar as mensagens enviadas por Vorcaro, mas não as eventuais respostas de Moraes, porque as comunicações eram encaminhadas como capturas de tela de anotações por meio do WhatsApp com recurso de visualização única, o que dificultou a recuperação do conteúdo no aparelho de Vorcaro.
O relatório também registrou mensagens relacionadas à organização de eventos jurídicos em Londres patrocinados ou organizados por Vorcaro. Em uma delas, o banqueiro afirmou que a lista de convidados deveria ser aprovada previamente por Moraes e, em outra, mencionou a participação da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, em alterações da programação. As informações também envolveram a contratação do escritório Barci de Moraes pelo Banco Master. O contrato, firmado em 2024, previa pagamentos mensais de R$ 3,5 milhões, totalizando aproximadamente R$ 129 milhões em três anos; segundo o escritório, os serviços foram prestados entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, período em que foram realizadas 94 reuniões de trabalho e elaborados pareceres jurídicos.