Açucari (), de nome completo Abuçaíde Haçane ibne Alhoceine ibne Ubaide Alá Alatequi Açucari (; Baçorá, –), foi um filólogo, transmissor, compilador e comentador de poesia árabe do período abássida. Pertencente aos , formou-se com alguns dos principais estudiosos de seu tempo e teve em Maomé ibne Habibe um de seus mestres mais importantes. Por intermédio dele recebeu grande quantidade de poesia, relatos históricos e material genealógico que posteriormente transmitiu, embora também tenha reunido e organizado materiais independentemente.
Sua atividade intelectual concentrou-se sobretudo na preservação e transmissão da poesia árabe antiga e de relatos históricos (akhbār), cuja quantidade lhe valeu a designação de rāwiya. Apesar de natural de Baçorá, não se restringiu aos critérios de transmissão característicos da escola filológica baçorana e mostrou-se mais receptivo a diferentes tradições, numa prática próxima à da escola de Cufa. Era conhecido por registrar sistematicamente por escrito as informações que recolhia, mantendo consigo um caderno para anotar o que ouvia. Além da poesia, dedicou-se à gramática, ao léxico e à genealogia, sendo também reputado pelo ensino do Alcorão e por sua caligrafia.
Açucari ocupou posição de destaque nas cadeias de transmissão pelas quais grande parte da antiga poesia árabe chegou às gerações posteriores. Ibne Anadim atribuiu-lhe a compilação de cerca de cinquenta divãs de poetas individuais e aproximadamente trinta coletâneas de poesia tribal, incluindo recensões e comentários de obras de Inru Alcaice ibne Hujer, Anabiga Adubiani, Zuair ibne Abi Sulma, Labide, Haçane ibne Tábite, Alactal e Abu Nuas, além de uma extensa reunião da poesia dos hudailitas. Embora as sucessivas camadas de transmissão dificultem determinar a extensão exata de sua intervenção em cada coleção, diversas recensões associadas a seu nome sobreviveram integral ou parcialmente, fazendo de sua atividade um importante meio de preservação da poesia pré-islâmica e dos primeiros séculos do Islã.
Biografia
Açucari nasceu em Baçorá em 212 A.H. (827–828). Seu nome completo era Abuçaíde Haçane ibne Alhoceine ibne Ubaide Alá Alatequi Açucari e pertencia aos , família que desempenhou papel de destaque na vida política e cultural durante os períodos omíada e abássida. Entre seus mestres são mencionados , Maomé ibne Habibe, Abu Hatime Assijistani, , , , Ibne Aciquite e . A tradição também afirma que teria conhecido Alfarrá e estudado com Abu Ubaida, e Alasmai, mas a cronologia torna essas relações improváveis. Entre seus professores, Ibne Habibe foi particularmente importante para sua atividade posterior. Açucari transmitiu grande parte do material que recebeu dele e, segundo Leder, seu trabalho consistiu sobretudo na transmissão, compilação e edição de poesia árabe antiga. Sua contribuição pessoal para a forma exata dos materiais que chegaram até a posteridade é difícil de determinar, pois as obras preservadas resultam de sucessivas camadas de transmissão por professores e informantes; ainda assim, as evidências disponíveis indicam que Açucari não se limitou a transmitir coleções já constituídas, mas também reuniu e compilou materiais poéticos por conta própria. Além da poesia, dedicou-se à genealogia, tal como Ibne Habibe, e gozou de reputação por seu ensino do Alcorão e pela qualidade de sua caligrafia.
Sua atividade concentrou-se particularmente na reunião, transmissão e comentário de divãs. Entre os poetas cujas obras compilou ou comentou figuram Inru Alcaice ibne Hujer, Anabiga Adubiani, , Alaxa, Zuair ibne Abi Sulma, Labide, Haçane ibne Tábite, Alhutaia, , , Alactal, Jarir ibne Atia e Abu Nuas. Também reuniu poesia de autores pertencentes a diferentes tribos, produzindo coleções dedicadas, entre outras, aos hudailitas, xaibanitas, rebiaítas e quinanaítas. Ibne Anadim atribui-lhe a compilação de cerca de cinquenta divãs de poetas individuais e de aproximadamente trinta coleções de poesia tribal. Entre seus discípulos são mencionados , e . Açucari morreu em 275 A.H. (888), data transmitida pela maioria das fontes; a data alternativa de 290 A.H. (903), encontrada em parte da tradição biográfica, é considerada incorreta.
Obras
A maior parte da atividade literária conhecida de Açucari esteve ligada à recolha, transmissão, organização e comentário da poesia árabe antiga. A extensão dessa atividade era considerável: Ibne Anadim atribuiu-lhe a compilação de cerca de cinquenta divãs de poetas individuais e de aproximadamente trinta coletâneas de poesia tribal. Embora Açucari tenha transmitido grande parte desse material de seu mestre Ibne Habibe, as coleções que chegaram à posteridade não devem ser entendidas como simples reproduções do que recebeu. As diferentes camadas de transmissão tornam difícil determinar precisamente sua contribuição para a forma final de cada texto, mas há indícios de que também reuniu e organizou material poético independentemente. Diversas recensões associadas a ele sobreviveram integral ou parcialmente e algumas constituem testemunhos importantes para a preservação da poesia pré-islâmica e dos primeiros séculos do Islã. A mais extensa dessas compilações preservadas é o Diwan al-Hudhaliyyin, também denominado Sharḥ Ashʿār al-Hudhaliyyīn, reunião da poesia dos hudailitas. Partes da obra começaram a ser publicadas no : John Godfrey Ludwig Kosegarten editou, com tradução inglesa, uma seção contendo poemas de cerca de trinta poetas sob o título The Poems of the Huzailis (Londres, 1854), enquanto Julius Wellhausen publicou outra parte como Lieder der Hudhailiten (Berlim, 1884). Outras seções foram posteriormente editadas por Josef Hell, e uma edição em três volumes foi publicada no Cairo entre 1945 e 1950. Uma nova edição crítica, preparada por ʿAbd al-Sattār Aḥmad Farrāj e revista por Maḥmūd Muḥammad Shākir, apareceu em três volumes entre 1963 e 1965. Leder considera o Diwan al-Hudhaliyyin uma das principais recensões de Açucari transmitidas por Ibne Habibe.
Outra coletânea, Ashʿār al-Luṣūṣ, reunia poemas de autores conhecidos por suas atividades de pilhagem e incursões. Apenas a parte dedicada à poesia de chegou aos tempos modernos. Essa seção foi publicada por William Wright em Leida, em 1859, e recebeu edições posteriores em Baguedade, em 1968, e Beirute, em 2002. Também sobreviveu sua recensão da poesia de Alactal, transmitida por Abu Abedalá Maomé ibne Abas Aliazidi a partir de Açucari, que por sua vez a recebera de Ibne Habibe; a obra foi publicada inicialmente por Antūn Ṣāliḥānī em Beirute, em 1891, e posteriormente por Fakhr al-Dīn Qabāwa. Entre outras recensões conservadas ou posteriormente editadas encontram-se o divã de , publicado no Cairo em 1931 e novamente em Baguedade em 1982; o comentário ao divã de Cabe ibne Zuair, editado por Tadeusz Kowalski em 1950; o comentário ao divã de Alhutaia, publicado em diferentes recensões durante os séculos XX; e o divã de , cuja transmissão passou de Açucari a e deste a . Também lhe é atribuído um comentário ao divã de , preparado para edição no , e a recensão do divã de , publicada em Baguedade em 1965.
Particular importância teve sua recensão do divã de Inru Alcaice. Açucari reuniu numa única obra tradições e comentários transmitidos por autoridades anteriores, entre elas Abu Anre Axaibani, Alasmai, e Ibne Habibe, produzindo o que foi considerado uma das mais importantes recensões comentadas da poesia de Inru Alcaice. O texto foi posteriormente publicado em três volumes sob o título Dīwān Imriʾ al-Qays wa-mulḥaqātuhu bi-sharḥ Abī Saʿīd al-Sukkarī. Açucari também desempenhou papel na transmissão de obras em prosa. De Ibne Habibe transmitiu a Jamharat al-Nasab de Ibne Alcalbi, bem como Kitab al-Muhabbar e al-Munammaḳ fī Akhbār Quraysh, do próprio Ibne Habibe. As fontes atribuem-lhe ainda obras intituladas Kitāb al-Wuḥūsh, Kitāb al-Nabāt, al-Manāhil wa-l-Qurā, al-Abyāt al-Sāʾira, Man Qāla Baytan wa-Luqqiba bihi e um comentário aos Nawādir de Abu Zaíde Alançari. Do Kitāb al-Nabāt, Ibne Anadim afirmou ter visto uma parte, e preservou excertos da obra em seu al-Muḫaṣṣaṣ.
Atividade intelectual
Açucari tornou-se conhecido sobretudo como transmissor, compilador e comentador da poesia árabe antiga e de relatos históricos (akhbār). A quantidade de poesia e tradições que transmitiu valeu-lhe a designação de rāwiya, aplicada aos grandes transmissores desse material. Embora fosse natural de Baçorá, sua prática de transmissão distinguia-se do rigor característico da escola filológica local. Em vez de limitar-se aos critérios adotados pelos estudiosos baçoranos para a aceitação de tradições, mostrou-se mais aberto à incorporação de diferentes transmissões, numa atitude próxima à da escola de Cufa. Essa orientação pode ter sido influenciada por Ibne Habibe e outros de seus mestres ligados à tradição cufana. Outro aspecto de seu método era o registro sistemático das informações que recolhia. Segundo uma notícia transmitida por , Açucari mantinha consigo um caderno no qual anotava as informações e tradições que ouvia. Seu procedimento era contrastado com o de seu contemporâneo , que confiava na memória e não costumava registrar por escrito o conhecimento que adquiria. Esse hábito ajuda a explicar a amplitude do material posteriormente associado a Açucari, embora a natureza cumulativa da transmissão da poesia antiga dificulte estabelecer com precisão sua contribuição individual para cada uma das coleções preservadas. Grande parte do material foi recebida de seus mestres, sobretudo Ibne Habibe, mas as evidências disponíveis indicam que Açucari também reuniu e compilou poesia independentemente, em vez de atuar apenas como transmissor de recensões anteriores.
Sua atividade não se restringiu à transmissão poética. As fontes o caracterizam também como estudioso da gramática e do léxico, competências evidenciadas pelas explicações vocabulares incorporadas aos seus comentários de poesia. Dedicou-se ainda à genealogia, campo igualmente cultivado por Ibne Habibe, e desfrutou de reputação por seu ensino do Alcorão e pela qualidade de sua caligrafia. As fontes biográficas o descrevem como transmissor confiável, religioso e competente. A importância de Açucari para a preservação da poesia árabe decorre sobretudo de sua posição nas cadeias pelas quais o material antigo foi recolhido, comentado e transmitido às gerações posteriores. As recensões associadas a seu nome incorporam materiais provenientes de diferentes autoridades e, em numerosos casos, foram novamente transmitidas e reelaboradas por seus próprios discípulos. Por isso, Leder observa que nem sempre é possível distinguir, nas coleções conservadas, aquilo que Açucari recebeu de professores e informantes daquilo que resulta de sua própria intervenção editorial. Ainda assim, sua atuação como compilador independente, além de transmissor e editor de divãs, é demonstrada pelo material que chegou à posteridade.
Bibliografia
Categoria:Naturais de Baçorá Categoria:Árabes do século IX Categoria:Pessoas do Califado Abássida