Necromancia digital, também conhecida como necromancia moderna ou ressurreição digital, é o uso da tecnologia para produzir simulacros interativos de pessoas que já morreram.
Surgiu inicialmente na década de 2010, quando imagens e vozes de celebridades foram manipuladas postumamente e usadas em filmes e shows por meio de CGI e hologramas, respectivamente. Mais tarde, o termo começou a ser aplicado ao uso de deadbots, chatbots que produzem respostas imitando o comportamento de pessoas mortas.
A necromancia digital tem provocado debates sobre ética e moral, com algumas pessoas levantando preocupações sobre a falta de consentimento em relação ao uso da imagem e da voz de alguém após a morte, a visualização dos dados de uma pessoa por terceiros indesejados, a possibilidade de tais práticas alterarem a forma como os humanos percebem a morte e o risco de simulacros produzirem ideias que a pessoa morta jamais expressaria em vida. Por outro lado, há quem argumente que se trata apenas de uma forma mais recente de celebrar e lembrar pessoas mortas e que os deadbots não são muito diferentes de fotografias ou outras recordações que se guardam.
História O termo "necromancia digital" foi cunhado em 2015 por Hannah Ellis-Petersen em um artigo para o jornal britânico The Guardian onde ela discutiu a "ressurreição" de atores mortos como Bruce Lee para filmes ou campanhas promocionais então recentes. Em um artigo de 2025 para a Life Writing, Adelaide Sabre e Threasa Meads definem e distinguem dois termos relacionados: "tecnologia da morte", que é "o uso da necromancia digital para fins de legado, história, cultura ou educação" e "tecnologia do luto", que se relaciona mais aos processos de luto e celebração.
Diversas plataformas permitem a criação de chatbots projetados para se comportarem como uma pessoa morta, como o Replika. Tantoa Microsoft (em 2021) quanto a Meta (em dezembro de 2025) registraram patentes que poderiam ser usadas para necromancia digital; o produto da Microsoft permitiria a criação de chatbots que imitam pessoas reais, incluindo celebridades, e a patente da Meta permitiria que modelos de IA mantivessem um usuário de redes sociais ativo mesmo após sua morte, usando seus próprios dados para fazer o modelo projetar como essa pessoa postaria. Um porta-voz da Meta disse na época ao Business Insider que uma patente registrada normalmente não significa que a tecnologia será realmente desenvolvida.
Em novembro de 2025, o ator Calum Worthy lançou um aplicativo chamado 2wai que permitia aos usuários criar clones digitais de pessoas reais usando vídeos de três minutos como modelo para a máquina se basear.
No cinema Exemplos incluem a atriz Carrie Fisher estrelando postumamente em Star Wars: A Ascensão Skywalker, Ian Holm estrelando em Alien: Romulus e planos abortados para ter James Dean estrelando por meio de CGI em um filme então planejado e intitulado Finding Jack (Encontrando Jack, em tradução livre). Às vezes, atores vivos interpretam um papel e suas imagens são sobrepostas pelas de atores falecidos, como aconteceu com Guy Henry e Ingvild Deila em Rogue One, onde eles serviram de base para Peter Cushing e Carrie, respectivamente.
Bruce Lee também foi trazido de volta digitalmente para um comercial de uísque, embora ele tenha praticado a abstemia em vida. Audrey Hepburn apareceu em um comercial de 2013 do chocolate Galaxy da Framestore, 20 anos após sua morte.
O pesquisador Denver D'Rozario cunhou o termo "delebs" para descrever celebridades ressuscitadas digitalmente.
Na televisão Em 2025, o canal brasileiro SBT exibiu um especial de Natal com Carlos Alberto de Nóbrega ao lado de seu pai, que morreu em 1976.
Na música Vários músicos falecidos conseguiram "se apresentar ao vivo" por meio de hologramas, incluindo Tupac na edição de 2012 do Coachella e Michael Jackson no Billboard Music Awards de 2014, além de turnês inteiras do cantor Roy Orbison e da soprano Maria Callas.
No jornalismo Em agosto de 2025, o ex-jornalista da CNN, Jim Acosta, entrevistou uma recriação digital de Joaquin Oliver, vítima do tiroteio na escola secundária de Parkland em 2018, criada pelos seus próprios pais.
Na internet Uma trend de vídeos gerados por IA no Brasil retratava pessoas salvando celebridades que morreram em acidentes, como o piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna ou a cantora Marília Mendonça.
Impacto A necromancia digital levou algumas celebridades a estabelecerem regras para como suas imagens podem ser usadas após a morte, incluindo Robin Williams, por exemplo.
Em uma pesquisa da YouGov de 2023, 14% dos entrevistados disseram que "teriam conforto em interagir com uma versão digital de um ente querido que havia falecido", e a ideia ficava mais popular quanto mais jovem fosse o entrevistado.
No Brasil, o Conselho Nacional de Autorregulamentação da Publicidade (Conar) arquivou uma denúncia apresentada contra a Volkswagen Brasil após a veiculação de um comercial com a cantora Maria Rita em dueto com uma versão digitalmente recriada de sua mãe, Elis Regina, que morreu em 1982. No entanto, o órgão propôs o monitoramento desse tipo de imagem. Naquele mesmo ano, o Senado brasileiro apresentou uma lei que exigiria autorização explícita da pessoa para que sua imagem fosse usada após a morte, mas o projeto também foi arquivado. Em 2025, a Câmara dos Deputados também propôs uma lei para regulamentar o uso de IA na dublagem no Brasil.
Crítica Conversando com o Business Insider, o professor de sociologia Joseph Davis (da Universidade da Virgínia) expressou preocupação com o fato de que ferramentas como os deadbots poderiam perturbar o luto das pessoas, o que incluiria enfrentar a perda real da pessoa amada. Ele também disse que essas ferramentas podem parecer que estão trazendo as pessoas de volta, mas não estão, e algumas pessoas podem se confundir com isso. O psicólogo argentino Gabriel Roóln endossou essas opiniões em uma entrevista para o canal de TV mexicano TV Azteca.
Citando vários exemplos na cultura popular e o episódio de Black Mirror "Be Right Back", Oliver Jia, do The Dispatch no The Washington Post, refletiu que "até recentemente, a morte de alguém marcava o fim. O legado de um parente falecido ou de uma celebridade pode continuar vivo através das memórias que eles deixam para trás, mas ninguém esperaria material novo e novas conversas depois da morte. Hoje, por meio da inteligência artificial, todos, desde empresas de tecnologia a conglomerados de mídia, estão tentando inverter a forma como os humanos percebem a vida e a morte desde sempre." Ele também previu que "as empresas de tecnologia, sem dúvida, explorarão o luto das pessoas com promessas fraudulentas de que suas recriações por IA são idênticas àqueles que morreram", mas ressaltou que "nem mesmo o sistema de inteligência artificial mais avançado pode ser 100% idêntico a um ser humano. [...] A IA precisa recorrer a dados existentes para tentar a recriação, mas os resultados finais nunca serão capazes de corresponder a um conjunto de experiências humanas reais. [...] Inúmeros estudos mostraram como o luto não tratado impacta significativamente a saúde física e mental. A IA não resolverá esses problemas; ela apenas os agravará, adiando o enfrentamento das pessoas com a realidade."
Pesquisadores argumentaram em um artigo publicado pela Humanities and Social Sciences Communications que embora humanos sempre tenham tentado manter contato com os mortos por meio de memórias ou práticas religiosas/espirituais, agora tal contato pode acontecer de uma forma mais "via de mão dupla", pois elas interagiriam com um simulacro, e se tal simulacro puder operar de forma convincente, ele pode muito bem produzir "presença social percebida". Os autores também comentaram que a possibilidade da morte não mais encerrar as interações com os vivos pode produzir cenários hipotéticos de como a pessoa morta "responderia" certas perguntas, o que para eles é "uma extensão fenomenológica e algorítmica de possíveis futuros que a pessoa morta não mais pode realmente ter". Conquanto os autores apontem alguns possíveis benefícios em deadbots, como permitir aos vivos dizerem coisas que ficaram sem serem ditas com a morte da pessoa, eles acreditam que tais modelos podem se tornar prejudiciais "se eles encorajarem apego excessivo, fuga da realidade, retração social ou dependência compulsiva". Fazendo uma comparação com o texto O Imortal, de Jorge Luis Borges, eles projetam que o fim da morte como os humanos a conhecem pode esvaziar o significado da existência. Louise Richardson, da Universidade de York, também questionou se as pessoas que criam deadbots para entes queridos mortos podem omitir defeitos deliberadamente, o que poderia criar uma reprodução falsamente "salubre" daquela pessoa.
Num artigo para o site da Universidade de Helsinque, o filósofo Patrick Stokes listou a redução dos mortos a meros recursos e o fim da sua celebração em favor da sua substituição como dois riscos associados aos deadbots, embora tenha reconhecido o ceticismo com que tais projeções tendem a ser recebidas.
Escrevendo para o El Heraldo de México, o historiador Ignacio Anaya viu os deadbots como luto sendo oferecido como serviço por empresas que exploram a perda.
Por outro lado, um artigo de 2023 daUniversidade de Liverpool para o The Conversation argumentou que a necromancia digital é apenas uma evolução natural das práticas comuns de luto e que ter simulações dizendo coisas que os mortos supostamente diriam se ainda estivessem vivos é semelhante à forma como as pessoas normalmente imaginam as conversas e reações que esses entes queridos falecidos teriam. Eles também propõem que as pessoas não considerariam as simulações como ressurreições dos mortos, assim como não o fazem com imagens ou gravações de áudio.
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