A oliveira e o seu fruto possuem profundo significado simbólico e cultural em diversas sociedades. Historiadores e pesquisadores identificam a oliveira como um dos elementos definidores da cultura, da geografia e da culinária mediterrânea, tanto na Antiguidade quanto na contemporaneidade. O escritor Georges Duhamel assinalou que o "Mediterrâneo termina onde a oliveira deixa de crescer". O ramo de oliveira é tradicionalmente reconhecido como um símbolo universal da paz.
Grécia Antiga miniaturadaimagem|Vaso grego retratando dois homens barbudos e um jovem colhendo azeitonas de uma árvore, pelo Pintor de Antímenes (). Estima-se que as oliveiras tenham sido domesticadas o mais tardar no terceiro milênio a.C., momento em que, juntamente com os cereais e a vinha, passaram a integrar a "tríade mediterrânica" descrita por Colin Renfrew, base agrícola que impulsionou o surgimento de sociedades complexas na região. A azeitona e, em especial, o azeite aromático tornaram-se os principais produtos de exportação durante os períodos minoico e micênico. O arqueólogo holandês Jorrit Kelder propôs que os micênicos enviavam carregamentos de azeite de oliva, provavelmente acompanhados de ramos vivos de oliveira, à corte do faraó egípcio Aquenáton como presentes diplomáticos. No Antigo Egito, esses ramos de oliveira importados adquiriram significados rituais, sendo representados como oferendas nas paredes do templo de Aton e integrando as coroas fúnebres na tumba de Tutancâmon. Além do uso culinário, o azeite desempenhava múltiplas funções, servindo como base para unguentos e perfumes sagrados.World Olive Encyclopedia, International Olive Oil Council, Coordenador: José Maria Blazquez Martinez, p. 24.
Na Grécia Antiga, os cidadãos ungiam o corpo e os cabelos com azeite de oliva como hábito de higiene, cosmética e saúde. O óleo era utilizado para consagrar reis, sacerdotes e atletas. Era igualmente queimado nas lâmpadas votivas dos templos e alimentava a "chama eterna" dos Jogos Olímpicos originais, cujos vencedores eram coroados com o cotino (grinalda de folhas de oliveira-brava). A oliveira figura com destaque na literatura grega clássica: na Odisseia de Homero (século VIII a.C.), Odisseu abriga-se sob dois rebentos de oliveira que brotam de uma mesma raiz,Homero, Odisseia, livro V. e na Ilíada (XVII.53ss) há uma descrição metafórica de uma oliveira solitária vicejando junto a uma nascente nas montanhas. A mitologia grega atribuía ao herói cultural Aristeu a introdução do cultivo da oliveira e da extração do azeite, ao lado da produção de queijo e da apicultura.Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica, 4.81.1. A madeira de oliveira foi um dos primeiros materiais empregados na confecção das estátuas de culto arcaicas (chamadas xoana), preservadas com reverência ao longo dos séculos.Pausânias, Descrição da Grécia, século II d.C.
No mito de fundação de Atenas, a deusa Atena conquistou o patronato sobre a Ática em disputa com Poseidon ao presentear a cidade com a oliveira cultivada. Segundo Teofrasto, considerado o pai da botânica, as oliveiras atingiam habitualmente cerca de 200 anos de idade;Teofrasto, De causis plantarum, 4.13.5. o autor relata que a oliveira original ofertada por Atena ainda existia na Acrópole, árvore que continuava a ser exibida aos visitantes no século II d.C.Pseudo-Apolodoro, Biblioteca, 3.14.1. Quando o geógrafo Pausânias visitou o local por volta de 170 d.C., registrou a tradição de que, após o incêndio de Atenas pelos persas em 480 a.C., a árvore sagrada brotou e cresceu a altura de dois côvados no mesmo dia da destruição.Pausânias, Descrição da Grécia, 1.27.1. A oliveira figurou de maneira perene nas cunhagens monetárias atenienses. Em outro mito, Elaia — cujo nome significa "azeitona" em grego —, uma talentosa atleta assassinada por rivais invejosos, foi metamorfoseada por Atena e Gaia em uma oliveira como dádiva póstuma.
As propriedades botânicas e agronômicas da oliveira foram objeto de estudos empíricos na Antiguidade. Teofrasto observou em suas obras que as sementes da oliveira produzem zambujeiros bravos e espinhosos (chamados pelos gregos de kotinos), sendo necessária a propagação vegetativa ou a enxertia para a obtenção de variedades produtivas.Signe Isager e Jens Erik Skydsgaard (1992). Ancient Greek Agriculture: An Introduction. Routledge, p. 35. Em História das Plantas, ele detalhou que a árvore pode ser reproduzida a partir de estacas de tronco, raízes ou galhos. Homero celebrizou o azeite de oliva como "ouro líquido", e Hipócrates (c. 460 a.C. – c. 375 a.C.) considerava-o "o grande curador" na terapêutica médica.
Antigo Egito Na mitologia egípcia, acreditava-se que a deusa Ísis, consorte de Osíris, ensinara à humanidade a arte de extrair o azeite das azeitonas. Vasos contendo resíduos de azeite de oliva foram desenterrados em câmaras funerárias de personalidades do período pré-dinástico e dinástico, onde o óleo servia como oferenda votiva aos deuses e elemento de preservação de cosméticos.
Roma Antiga miniaturadaimagem|Afresco romano de mulher de cabelos ruivos usando uma grinalda de ramos de oliveira, descoberto na cidade de Herculano, anterior à erupção de 79d.C. A exemplo dos gregos, os romanos atribuíam grande valor simbólico e econômico à oliveira. A tradição mítica romana afirmava que Hércules trouxera a oliveira do norte da África para a península Itálica, enquanto a deusa da sabedoria, Minerva, instruíra os homens nas técnicas de poda, enxertia e prensagem. Evidências arqueológicas confirmam a presença da olivicultura no Lácio desde pelo menos o século VII a.C., havendo registros de exploração rudimentar anterior por populações etruscas e sabinas.
Agrônomos e naturalistas romanos dedicaram tratados ao manejo dos olivais. Plínio, o Velho, em sua enciclopédia Naturalis Historia (século I d.C.), catalogou ao menos 22 cultivares e detalhou métodos de plantio, poda e conservação. Plínio assinalou que uma oliveira crescia no centro do Fórum Romano, ao lado de uma videira e de uma figueira, servindo para proporcionar sombra ao coração cívico da cidade (jardim reconstituído no século XX). O autor enfatizou as qualidades medicinais do azeite, definindo-o como um elemento de "absoluta necessidade para o corpo humano".
O poeta romano Horácio fez referência à oliveira ao descrever a sobriedade de sua dieta pessoal: "A mim sustentam as azeitonas, as chicórias e as tenras malvas"."Me pascunt olivae, me cichorea levesque malvae." Horácio, Odes 1.31.15, c. 30 a.C. O arquiteto e engenheiro Vitrúvio prescreveu o emprego de vigas de madeira de oliveira carbonizada para amarrar e consolidar alicerces e muralhas de fortificação em seu tratado De architectura.Vitrúvio, De Architectura, Livro I, Cap. V, Sec. 3. Na administração doméstica romana, Catão, o Jovem, afirmava que cabia ao pater familias a gestão contábil rigorosa dos estoques de azeite. Na cidade de Roma, foi estabelecida uma área comercial dedicada às transações oleícolas, operada pelos negotiatores olearii, corretores que negociavam contratos de fornecimento do produto em escala imperial.
Judaísmo miniaturadaimagem|Réplica da menorá do Templo que, de acordo com a Bíblia hebraica, era confeccionada em ouro puro e abastecida unicamente com azeite de oliva consagrado. A azeitona e o azeite constituíam pilares fundamentais da alimentação no antigo Israel. O azeite de oliva era empregado tanto na culinária quanto na iluminação doméstica, em oferendas sacrificiais no Templo, como unguento cosmético e na unção de sacerdotes, profetas e monarcas.Nathan Macdonald (2008). What Did the Ancient Israelites Eat?. William B. Eerdmans, pp. 23–24. O termo hebraico Mashiach (Messias) traduz-se literalmente como "o ungido", indicando o soberano da linhagem de Davi consagrado com o óleo sagrado. A oliveira é uma das primeiras espécies vegetais mencionadas na Bíblia hebraica: no Livro do Gênesis, uma pomba traz no bico uma folha fresca de oliveira a Noé, comprovando o recuo das águas do Dilúvio (Gênesis 8:11).
A importância da oliveira é ilustrada na parábola de Jotão no Livro dos Juízes (9:8–9): "Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei, e disseram à oliveira: Reina tu sobre nós. Mas a oliveira lhes disse: Deixaria eu a minha gordura, que Deus e os homens em mim prezam, para ir pairar sobre as árvores?". A oliveira é analogamente comparada ao homem justo (Salmo 52:8; Oseias 14:6), cujos "filhos serão como rebentos de oliveira ao redor da tua mesa" (Salmo 128:3).
O Deuteronômio descreve a Terra Prometida como uma terra de olivais (6:11) e inclui a azeitona entre as Sete espécies de frutos abençoados da Terra de Israel (8:8). Pela Halacá (lei religiosa judaica), a azeitona exige a recitação da bênção de agradecimento Me'ein Shalosh após o consumo. O azeite de oliva é considerado o combustível preferencial para o acendimento das velas do Shabat.Mishná, Tratado Shabat, Capítulo 2.
O azeite de oliva desempenha papel central na celebração do Chanucá, festa judaica que comemora a libertação de Jerusalém e a rededicação do Segundo Templo durante a Revolta dos Macabeus contra o Império Selêucida no século II a.C. Segundo o relato talmúdico, ao recuperarem o Templo, os macabeus encontraram apenas um único cântaro de azeite puro selado pelo Kohen Gadol (Sumo Sacerdote), suficiente para manter acesa a menorá por apenas um dia. O azeite ardeu milagrosamente durante oito dias ininterruptos, tempo necessário para a prensagem e purificação ritual de um novo lote de óleo. Por esse motivo, a oliveira e seu azeite tornaram-se símbolos da perseverança e renovação do povo judeu.
Cristianismo miniaturadaimagem|Oliveiras centenárias no Jardim do Getsêmani, em Jerusalém. A oliveira, seus ramos e o azeite ocupam papel expressivo na liturgia e na teologia cristãs.Balfour, John Hutton (1885). "Plants of the Bible". T. Nelson and sons. Além das citações no Antigo Testamento, a árvore e seus frutos são mencionados recorrentemente no Novo Testamento. O Monte das Oliveiras, a leste de Jerusalém, constitui o cenário de episódios centrais dos Evangelhos: era a rota de passagem para Betânia, o local onde Jesus chorou sobre Jerusalém e o ponto onde ocorreu a sua Ascensão aos céus (Atos 1:9–12). Os Evangelhos registram que Jesus costumava pregar e ensinar seus discípulos no monte (Mateus 24–25, o "Sermão do Monte das Oliveiras"), recolhendo-se ao local ao final do dia (Lucas 21:37; João 8:1).
O Getsêmani, olival situado no sopé do Monte das Oliveiras — cujo topônimo deriva do hebraico e aramaico para "lagar de azeite" —, foi o jardim onde Jesus realizou a sua oração angustiada, sendo posteriormente traído e preso antes de sua crucificação. Na tradição da Igreja Ortodoxa, o local abriga o túmulo da Virgem Maria após a sua dormição no Monte Sião. O Getsêmani converteu-se em um dos principais centros de peregrinação cristã desde a Idade Média; suas oliveiras, preservadas por ordens religiosas, figuram entre as mais antigas do mundo com datação botânica documentada.
O apóstolo Paulo de Tarso empregou a oliveira como alegoria teológica na Epístola aos Romanos, comparando a nação de Israel a uma oliveira boa cultivada e os povos gentios a ramos de uma oliveira-brava (zambujeiro) enxertados no tronco original para partilharem da seiva e da promessa divina (Romanos 11:17–24).
Islão