miniaturadaimagem|alt=Delfim Martins Flores vestido com toga|Delfim Martins Flores vestido com toga Delfim Martins Flores (Póvoa de Varzim, Beiriz, Casa de Fraião, 20 de março de 1872 — Póvoa de Varzim, freguesia de Nossa Senhora da Conceição, Palacete Flores, às onze e meia da noite do dia 18 de julho de 1948)Para uma biografia mais alargada e para a sua genealogia ascendente e descendente, cf. REIS, José Manuel de Seabra da Costa — “A Casa de Fraião: estudo histórico genealógico de uma casa e prazo da freguesia de Beiriz”. In Póvoa de Varzim Boletim Cultural. Póvoa de Varzim: Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, 1994, vol. 31, números 1 e 2. (Separata); IDEM— Genealogias dos Carneiro da Grã e dos Costa Reis: memórias de morgados e de enfiteutas da freguesia de Santa Eulália de Balasar. Porto: Edição de autor (sob patrocínio da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim), 2020 (também disponível online https://genealogiafb.blogspot.com/2020/09/genealogias-dos-carneiro-da-gra-e-dos.html); IDEM— O Palacete Flores: memórias da minha família e da Póvoa de Varzim. Porto: Edição de autor (sob patrocínio da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim), 2022; SOUSA, D. Gonçalo de Vasconcelos e; REIS, José da Costa — Costados nobres de Portugal. Porto: Livraria Esquina, 1992, árvore n.º 96 foi um advogado, jurisconsulto, político, autarca, proprietário rural, 7.º senhor da referida Casa de Fraião, o primeiro juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça nascido no concelho da Póvoa de Varzim e membro da alta burguesia do norte de Portugal. Desempenhou um papel importante na consolidação do prestígio da Póvoa de Varzim entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX.

Biografia

Delfim Martins Flores era filho único do político e proprietário rural João Martins Flores, 6.º senhor da Casa de Fraião, em Beiriz, antigo presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, e de sua 2.ª mulher D. Ana Rita de Jesus Gomes, um casal da classe dominante do concelho da Póvoa de Varzim no século XIXCf. GUIMARÃES, Hélder— “As elites da Póvoa de Varzim (1865-1910)”. In Póvoa de Varzim Boletim Cultural. Póvoa de Varzim: Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, 2024, vol. 56, p. 173 a 201.. Iniciou os seus estudos primários na efémera Escola Primária MinervaCf. TORRES, Leonor Lima – Liceu da Póvoa de Varzim: da fundação à revolução. Edição no âmbito do Projecto Informatização Normalizada dos Arquivos Históricos dos Liceus (PRÁXIS XXI, nº2/2.1/CSH/765/95), p. 4., na Póvoa de Varzim, que continuou entrando nos “liceus” no Colégio de São Luís Gonzaga, no Palacete da Torre junto ao largo da Carvalheiras em BragaCf. Collegio de S. Luiz de Gonzaga no palacete da Torre largo das Carvalheiras em Braga. Braga: Typographia Lusitana, 1887, p. 12.. Matriculou-se na Universidade de Coimbra aos dezoito anos, de onde saiu em 1895Jornal Defensor do Povo de 28.07.1895. formado em Direito com “provas do seu talento e saber”Arquivo Municipal da Póvoa de Varzim, Atas da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, livro 14, folhas 31 v a 33..

miniaturadaimagem|alt=Delfim Martins Flores estudante em Coimbra|Delfim Martins Flores estudante em Coimbra Enquanto estudante em Coimbra viveu na Couraça dos Apóstolos n.º 53. Na universidade foi condiscípulo de muitos homens que alcançaram grande destaque profissional, político e social.

Atividade profissional e cívica

Começou a sua carreira de magistratura como subdelegado judicial em Amares, mas em breve regressou à Póvoa de Varzim como advogado e para ocupar o cargo de administrador do concelho da Póvoa de Varzim, no qual permaneceu até fevereiro de 1897. O seu escritório de advocacia ficava situado no largo de São Sebastião, números 6, 7 e 9, morada do seu amigo o padre José de Almeida da Costa Amorim (1861–1934), que foi presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim. No final de outubro de 1898 foi eleito com “245 votos de maioria”, pelo Partido Regenerador (o mesmo que o levara para a administração do concelho), presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim no triénio de 1899–1901, com os pelouros das obras, instrução, polícia e cemitérioJornal Estrela Povoense de 30.10.1898.. miniaturadaimagem|alt=Delfim Martins Flores no jornal A Propaganda|Delfim Martins Flores no jornal A Propaganda No fim do mandato na presidência da câmara, a 02.02.1902, afastou-se voluntariamente da política ativa e da advocacia exercida localmente para se dedicar à sua carreira de magistrado que retomou em 1904 como delegado das Execuções Fiscais. Nesse mesmo ano, a 23 de maio, é alvo de uma homenagem publicada no jornal A Propaganda, na qual Cândido Augusto Landolt o descreve da seguinte forma: “A bondade de sua alma de eleição e aquelle riso tão franco e jovial que lhe assoma aos lábios de momento a momento, é o iman que atrahe a admiração que todos lhe tributam, é a agulha magnetica que indica os nobres sentimentos do seu coração, os seus modos encantadores, os seus conselhos proveitosos. Todos o respeitam, todos o cortejam, todos o admiram, principalmente aquelles a quem honra com a sua amizade e avaliam a linha aprumada d’aquella integridade de caracter, d’aquella consciencia recta, d’aquella grande honestidade, onde vamos tirar lições que muito nos instruem, onde aprendemos a ser honestos e sensatos. Escrevemos isto para justiciar que s. ex.a o sr. dr. Delphim Martins Flores é um excelente amigo e um perola dos homens d’esta terra”. Seguiu-se o desempenho do lugar de delegado do procurador régio na comarca de Vila do Conde e em 1906 subiu a procurador régio no Porto. Em 1914 foi juiz pela primeira vez, de 3.ª classe, em São Vicente, na Ilha da Madeira. Exerceu depois em Cinfães, Ilha das Flores, Paredes de Coura“Dr. Delfim Martins Flores. Foi transferido da comarca da Ilha das Flores para a de Coura aquelle nosso prezado amigo e integérrimo magistrado. Felicitamos o povo de Coura pelo Juiz de Direito, recto e bondoso, que vae brevemente possuir”. Vide o jornal Estrela Povoense de 14.03.1915., Esposende, Estremoz, Faro e Vila do Conde. Em Paredes de Coura, Delfim Martins Flores foi alvejado com uma bala perdida, restabelecendo a sua saúde rapidamente. O jornal Ecos do Coura relata o curioso acontecimento a 25.12.1919. Em 1924 foi finalmente elevado a juiz de 1.ª classe na comarca de Angra do Heroísmo a que se seguiram os cargos de juiz desembargador das relações de Lisboa e Porto, e, noutra esfera, de professor de medicina legal na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e aí membro do Conselho Médico Legal. Por fim, em 1939, foi promovido a juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, cargo no qual se manteve até à reforma em 1942. “Foi sempre um magistrado integro, de subida competência, que lhe foi justamente reconhecida em todos os relatórios de inspecção, nos quais, depois de classificado como um dos melhores juízes de 1.ª instância, chegou a ser apontado como um dos exemplos da Magistratura. Pessoa do maior prestígio moral e intelectual, nesta localidade (Póvoa de Varzim), nas terras por onde passou, e de uma maneira geral em todo o Norte. Na sua carreira de magistrado, o facto mais assinalável foi o de ter sido relator do processo dramático instaurado em Braga, por falência na década de 1930, contra os diretores do Banco do Minhohttps://bloguedominho.blogs.sapo.pt/o-que-foi-o-banco-do-minho-16841461, escândalo de dimensão nacional e que arruinou muitas empresas e particularesJornal O Comércio do Porto de 20.07.1948.. Considerado “chefe de família exemplar e catolico praticante, defendeu sempre, com intransigência, os elevados princípios da sua religião, que conhecia profundamente. A todos que com ele privaram, deixa a recordação saudosa da firmeza do seu carácter impoluto e da integridade de todos os seus actos, temperados e fortalecidos nos mais altos conceitos da moral cristã”Jornal Ideia Nova de 24.07.1948.. Ao longo da sua vida foi alvo de manifestações de respeito que corroboravam a fama inquestionada de ser uma “perola forense”, “um magistrado digno, recto, imparcial, pedindo justiça e fazendo justiça, sem paixão unicamente norteado pelos ditames de sua consciencia”Jornal A Propaganda de 28.03.1915..

Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim

As relações de Delfim Martins Flores com a Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim remontam a 1899, porém só veio a ser nomeado provedor muitos anos mais tarde, a 1 de janeiro de 1932. Ocupou este cargo até ao final de dezembro de 1946 quando já se encontrava bastante adoentado. Prestou “dedicados e relevantes serviços, avultando, entre outros, a construcção da sala operatória e o recebimento integral de alguns valiosos legados”Jornal Ideia Nova de 24.07.1948.. No âmbito destas funções, promoveu em 1940 a organização do “Dia das Oferendas” que consistia num cortejo com carros oriundos de todas as freguesias do concelho com donativos para o hospital da instituição e que terminava num leilão. Foi uma forma inteligente de angariar fundos e de criar um sentido de comundiade numa época de grande caristia provocada pela 2.ª Guerra Mundial. Os cortejos das oferendas continuaram a ser realizados nas décadas de 1950 e de 1960, existindo numerosas fotografias a documentar estes eventos. A angariação de fundos para evitar a ruína deste hospital prolongou-se durante alguns anos. Em 1944 decorria uma campanha para a obtenção de apoios financeiros junto da comunidade de poveiros residente no Rio de JaneiroO Jornal [Rio de Janeiro] de 19.11.1944.. No ano seguinte, uma comissão da Casa dos Poveiros do Rio de Janeiro organizou a festa de Nossa Senhora da Assunção e fez reverter o dinheiro arrecadado para o hospital povoenseO Jornal [Rio de Janeiro] de 15.08.1945.. O seu genro Joaquim Torres da Costa Reis (1899–1962) tinha relações de proximidade com esta associação desde a sua fundação, é provável que tenha sido o intermediário neste oportuno contacto.

Valores católicos e monárquicos

Delfim Martins Flores foi um monárquico convicto e tolerante. Na monarquia, militou no Partido Regenerador e foi chefe do Partido Católico já na república portuguesa, tendo recebido uma autorização especial para ler qualquer livro incluído no Index Librorum Prohibitorum. À data da sua morte, era presidente da Comissão das Obras da Basílica do Sagrado Coração de Jesus na Póvoa de Varzim que ficou concluída a 31 de outubro desse ano. Sendo grande devoto do Sagrado Coração de Jesus mandou edificar no início da década de 1920 uma capela com esta invocação junto à sua Casa de Fraião, na qual casaram as suas filhas. miniaturadaimagem|alt=Delfim Martins Flores|Delfim Martins Flores As visitas régias à Póvoa de Varzim no final da monarquia foram estudadas por Cândido Landolt e por Jorge BarbosaA Voz da Póvoa de 06.05.1999., que nelas incluiu a visita do príncipe real D. Luís Filipe, filho dos reis D. Carlos e D. Amélia, barbaramente assassinado em Lisboa a 1 de fevereiro de 1908 (Regicídio de 1908). Familiares mais velhos de Delfim Martins Flores, os Almeida Brandão, tinham participado nas receções régias na Póvoa de Varzim (e em Vila do Conde), a 28 de junho de 1872 e a 3 de outubro de 1887, esta famosa pelo serviço de um “lunch para 55 talheres” organizado pelo célebre abade de Priscosjornais Diário Ilustrado de 04.10.1887, e Actualidade de 08.10.1998. Manuel Joaquim Machado Rebelo (1834–1930), conhecido por abade de Priscos, um dos mais famosos cozinheiros portugueses, autor do pudim abade de Priscos.. Na última visita de membros da família real portuguesa a esta vila, a 6 de ourubro de 1901, Delfim Martins Flores desempenhou um papel de destaque na receção por ser presidente da Câmara Municipal.

“O PRINCIPE REAL D. LUIZ FILIPPE