A conscrição na União Soviética foi utilizada durante toda a existência do país para reforçar as funções e operações das Forças Armadas da União Soviética. A conscrição foi introduzida no que viria a se tornar a União Soviética em 1918, quase imediatamente após a Revolução de Outubro de 1917, com o objetivo de reforçar as forças do Exército Vermelho. Após sua introdução, a conscrição permaneceu uma presença constante no Estado soviético até sua dissolução, em 1991. Diversas alterações nas políticas modificaram o número de convocados e a duração obrigatória do serviço, com mudanças importantes ocorrendo em 1918, 1938 e 1967. A conscrição em tempo de guerra, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, registrou um aumento significativo no número de convocados, bem como uma ampliação do contingente de candidatos disponíveis para o serviço militar. Ao contrário de países sem uma tradição contínua de conscrição, como os Estados Unidos, houve relativamente pouca resistência à política de conscrição, pois o conceito estava consagrado na Constituição soviética como uma obrigação da cidadania, independentemente de identidade ou condição social, e era considerado um dever nacional de todos os homens soviéticos em idade militar.

Períodos históricos

1917–1939 Após a Revolução Bolchevique na Rússia, em 1917, o novo governo comunista experimentou brevemente um sistema voluntário de recrutamento para o exército, mas retornou quase imediatamente ao antigo sistema de conscrição, em maio de 1918.

A política sofreu poucas mudanças até 1.º de setembro de 1939, quando uma nova Lei do Serviço Militar Universal foi promulgada após o início da Segunda Guerra Mundial na Europa. Essa nova lei ampliou consideravelmente os períodos de serviço e as faixas etárias de conscrição e restringiu as possíveis isenções. O período geral de serviço foi ampliado de dois para três anos, e a idade de conscrição foi reduzida de 19 para 17 anos para os homens jovens. As antigas isenções para aqueles que cursavam o ensino superior foram abolidas, assim como as isenções por motivos familiares, como ter vários filhos pequenos. O objetivo por trás da ampliação dos períodos de conscrição era criar dois grandes grupos de reservistas treinados: um composto por homens de até 40 anos e outro por homens de até 50 anos.

Segunda Guerra Mundial thumb|Recrutas em Moscou, 1941 thumb|Despedida de recrutas em Nikolayev, na República Socialista Soviética da Ucrânia, em 1941

Em 22 de junho de 1941, a Alemanha lançou um ataque de surpresa contra a fronteira ocidental da União Soviética."Invasion of the Soviet Union, June 1941". encyclopedia.ushmm.org. Consultado em 6 de maio de 2019. Pouco depois, em outubro de 1941, o governo aprovou uma nova lei de serviço militar que estabelecia que todos os cidadãos do sexo masculino com idades entre 18 e 28 anos estavam sujeitos ao serviço militar.

Em 9 de fevereiro de 1942, Stalin emitiu uma ordem afirmando que seria conveniente "convocar para as fileiras do Exército Vermelho... cidadãos dos territórios libertados com idades entre 17 e 30 anos que não tenham sido convocados para o Exército Vermelho durante os meses anteriores da guerra", devido ao fato de estarem "ardendo de ódio pelo invasor e desejando participar, com armas nas mãos, da posterior libertação de sua Pátria Soviética". Após essa ordem, habitantes não russos dos territórios libertados começaram a ser convocados à força para as fileiras do Exército Vermelho à medida que este avançava para oeste em direção à Alemanha.

Essa ampliação do contingente sujeito à conscrição criou uma composição diversa de militares nas linhas de frente, com soldados de muitas nacionalidades, etnias e línguas.

thumb|Recrutas soviéticos entrando no Quartel Voroshilov, em Moscou, 1941

1945–1991 Em 1950, uma alteração sigilosa na lei do serviço militar aumentou em um ano a duração do serviço ativo. Especula-se que esse aumento tenha sido uma resposta ao envolvimento dos Estados Unidos na Guerra da Coreia, mas a lei foi mantida fora dos registros oficiais, como os Anais do Soviete Supremo da União Soviética, para que os Estados Unidos não tomassem conhecimento do aumento e suspeitassem que a União Soviética estivesse se preparando para uma guerra. Em 1955, o período de serviço foi reduzido de quatro para três anos na força aérea, na guarda costeira e na defesa costeira, e de cinco para quatro anos na Marinha. Essa decisão também foi mantida fora dos registros oficiais, mas presumivelmente fazia parte da redução planejada dos efetivos, anunciada em agosto de 1955 e maio de 1956.

Em 12 de outubro de 1967, uma importante alteração na lei do serviço militar reduziu os períodos de serviço de três para dois anos e também aumentou a frequência das convocações para duas vezes por ano. Acredita-se que essa alteração tenha sido causada pelo grande aumento do número de jovens que atingiam a idade militar naquele período. Para manter o conceito de "serviço universal" sem aumentar o tamanho das forças armadas além dos limites considerados necessários, elevou-se a rotatividade dos convocados, de modo que a grande maioria dos jovens que atingia a idade militar continuasse sendo chamada ao serviço.

Após a alteração de 1967, as condições dos recrutas pioraram consideravelmente, com relatos de abusos, trotes violentos e até assassinatos de soldados convocados tornando-se generalizados. Os soldados conscritos, sobretudo aqueles no primeiro ano de serviço que ainda não haviam adquirido patente ou respeito suficientes para se proteger, enfrentavam violência física e agressões sexuais por parte de superiores, além de terem regularmente seus soldos e rações de alimentos confiscados. Qualquer resistência a esses abusos era respondida com espancamentos, que por vezes resultavam em ferimentos graves, baixa por incapacidade e até morte.

O sistema oficial de promover alguns soldados aptos recém-recrutados a sargento, colocando-os em posições de comando pouco depois do alistamento, foi enfraquecido por um sistema informal estruturado em torno do tempo de serviço cumprido por cada recruta. Os recrutas mais novos tornavam-se subordinados aos mais experientes, que já haviam cumprido um ou dois anos de serviço. Esse sistema não era oficialmente reconhecido, mas tornou-se profundamente arraigado na cultura dos recrutas durante as décadas de 1970 e 1980.

thumb|left|Documento que confirma a condição de licença de um estudante convocado para as Forças Armadas soviéticas|293x293px Tradicionalmente, todos os estudantes soviéticos em período integral tinham direito ao adiamento da conscrição até a conclusão do curso. Caso a faculdade ou universidade possuísse uma cátedra militar, que oferecia treinamento em determinada especialidade militar, seus estudantes tornavam-se oficiais da reserva e ficavam isentos do serviço como soldados rasos. Sem uma cátedra militar, os graduados eram convocados por um período reduzido. Para muitas pessoas, a intenção de evitar ou ao menos adiar o serviço militar era uma das principais razões para estudar. (também republicado nas revistas científicas Znanie-Sila (2008, nº 9) e Vospitanie Shkolnikov (2013, nº 2)) Entretanto, entre o fim do outono de 1982 e 1988, a União Soviética manteve a conscrição obrigatória para estudantes da maioria das universidades, atingindo a maior proporção de convocados em 1987. Os estudantes eram convocados para dois anos de serviço militar — ou três, no caso da Marinha —, normalmente após o término do primeiro ou do segundo ano acadêmico.

Conscrição de mulheres

A União Soviética convocou mais mulheres para funções de combate do que outras forças armadas nacionais em tempo de guerra, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial. É difícil saber o número exato de mulheres convocadas durante a guerra e as funções que exerceram, pois as informações sobre mulheres militares eram geralmente omitidas dos relatórios oficiais e documentos governamentais daquele período. Mais recentemente, porém, foram realizados esforços para descobrir e corrigir os registros das militares que serviram na União Soviética.

Na alteração de 1938 da lei do serviço militar, foi estabelecido que qualquer mulher com treinamento e formação pertinentes, como nas áreas médica ou mecânica, estaria sujeita à conscrição em tempo de guerra. Três unidades de aviação compostas exclusivamente por mulheres foram formadas no fim de 1941, após um decreto oficial de Stalin, de 8 de outubro de 1941. Isso ocorreu apenas quatro meses após a entrada oficial da União Soviética na Segunda Guerra Mundial e, no fim de março de 1942, mais de 100.000 mulheres já haviam sido convocadas para unidades de defesa antiaérea. Ao fim da guerra, mais de um quarto do efetivo da defesa antiaérea era composto por mulheres, com 300.000 voluntárias e convocadas servindo como especialistas em comunicações, atiradoras de metralhadora, pilotos e profissionais de saúde. A maioria das mulheres convocadas serviu atrás das linhas de frente, em posições e funções secundárias, numa tentativa de liberar mais homens para o serviço na linha de frente. Acredita-se, contudo, que muitas mulheres também tenham servido em posições de combate, como em regimentos de tanques ou diretamente na linha de frente.

O aumento da presença feminina nas forças armadas durante a Segunda Guerra Mundial também levou a uma melhoria das condições sanitárias. Em 11 de abril de 1943, determinou-se que as rações de sabão para o pessoal feminino fossem aumentadas para 100 gramas por mês, 50% a mais do que as destinadas aos homens.

Resistência à conscrição

A primeira resistência ampla e organizada à política de conscrição começou na década de 1980, em razão da crescente conscientização pública sobre as duras condições enfrentadas pelos recrutas, bem como do relaxamento das restrições governamentais sobre organizações públicas e liberdade de expressão durante as reformas da Perestroika e da Glasnost. Dentro das forças armadas, a resistência cresceu sob a forma de grupos organizados de caráter étnico e nacional, criados para que seus membros se protegessem mutuamente contra abusos e chamassem atenção para o tratamento sofrido pelos recrutas. Em outubro de 1989, um grupo de oficiais subalternos formou a União para a Proteção Social dos Militares e de suas Famílias, que divulgava relatos de recrutas e organizava protestos contra a condução da política de conscrição pelo governo.

Fora das forças armadas, o grupo público mais atuante contra a conscrição foi o Comitê de Mães de Soldados, posteriormente renomeado, em 1998, para União dos Comitês de Mães de Soldados da Rússia. O grupo foi fundado em 1989 e tinha como objetivo registrar e divulgar o tratamento dispensado aos recrutas nos centros de treinamento e quartéis. Também organizava protestos públicos e exigia medidas governamentais para proteger os direitos dos soldados e recrutas durante o período de serviço.

Métodos de conscrição Em tempos de paz, o método geral de conscrição consistia em convocar jovens de 18 ou 19 anos que haviam acabado de concluir o ensino secundário ou completado a formação em um ofício. Segundo a lei de 1938, uma convocação era realizada anualmente, em outubro ou novembro, para incorporar recrutas por três anos de serviço, exceto na Marinha, onde o período era de quatro anos. Esses períodos de serviço mudaram ao longo da história da União Soviética conforme novas versões da lei do serviço militar eram promulgadas para refletir o crescimento ou a redução da população e os níveis de ameaça externa. Programas conduzidos pelo governo nas escolas primárias e secundárias geralmente faziam com que os soldados rasos recém-convocados já tivessem recebido algum grau de treinamento militar e pudessem dispensar o treinamento básico habitual.