Murra ibne Dul ibne Xaibane (; ) foi um chefe árabe dos xaibanitas, ramo dos becritas, durante a Jailia. Filho de Dul ibne Xaibane, é apresentado pelas fontes como uma das principais figuras da aristocracia xaibanita de seu tempo. Ibne Cutaiba afirma que nele se concentravam a força numérica e a casa dirigente de sua linhagem, enquanto Ibne Caldune o apresenta como senhor dos xaibanitas. Foi ancestral dos murraítas, uma das principais linhagens da tribo, e pai de numerosos filhos, entre os quais Hamame, Jassas e Alharite, que exerceram posições de liderança entre os xaibanitas.

Murra é particularmente conhecido por seu papel nos acontecimentos que desencadearam a Guerra de Albaçus, prolongado conflito entre becritas e taglibitas. Sua filha Jalila era esposa do chefe taglibita Culaibe ibne Rebia, morto por Jassas, filho de Murra. Segundo as tradições sobre o início da guerra, Murra censurou Jassas pelo assassinato e participou das tentativas de impedir que a vingança pela morte de Culaibe se transformasse numa guerra entre as duas tribos. Durante as negociações subsequentes, recusou entregar Jassas, Hamame ou a si próprio aos taglibitas e propôs como alternativas a entrega de outro de seus filhos ou o pagamento de mil camelas. As propostas foram recusadas e as negociações terminaram sem acordo. Murra desaparece das fontes depois desses acontecimentos e as circunstâncias de sua morte são incertas; nas narrativas dos primeiros combates, a chefia militar dos xaibanitas já é atribuída a seu filho Alharite.

A descendência de Murra permaneceu proeminente entre os xaibanitas por várias gerações. Os murraítas são descritos por Abu Ubaida como a casa dirigente da tribo, e, às vésperas do surgimento do Islã, o ramo de Hamame constituía seu principal grupo dirigente, embora disputasse influência com outras linhagens aristocráticas. Entre os descendentes de Murra figuraram numerosos chefes e guerreiros dos Dias Árabes, enquanto de seu filho Sade descendia Almutana ibne Harita, comandante que participou das primeiras campanhas muçulmanas no Iraque contra o Império Sassânida.

Vida

Murra nasceu em data incerta ao longo do . Era filho de Dul ibne Xaibane e pertencia aos xaibanitas, ramo dos becritas. Sabe-se que ocupou posição de destaque entre seu povo. Ibne Cutaiba afirma que nele se concentravam a força numérica e a casa dirigente da linhagem, enquanto Ibne Caldune apresenta-o como senhor dos xaibanitas durante a Jailia e afirma que, depois dele, seus filhos Hamame e Jassas também alcançaram posição de chefia. Segundo Ibne Hasme, teve dez filhos: Hamame, Jassas, Nadla, , , , , , e Alharite. Murra teve também uma filha, Jalila, que se casou com Culaibe ibne Rebia, de modo que o chefe taglibita posteriormente morto por Jassas era genro de Murra. Uma de suas esposas foi Haila binte Munquide, dos tamimitas, apresentada no Kitab al-Aghani de Abu Alfaraje Alisfaani como mãe de Jassas. Segundo a mesma tradição, Jassas era o mais novo dos dez filhos homens de Murra. Após a morte deste, Haila casou-se com Sade ibne Dabia, dos caicitas, de quem teve Maleque, Aufe e Talaba. A mesma tradição apresenta Albaçus como irmã de Haila e, portanto, tia materna de Jassas.

Uma tradição preservada por Almufadal Adabi relata que Murra sofreu uma afecção numa das pernas e ordenou que ela fosse amputada na altura do joelho. Seus filhos teriam se recusado a realizar o procedimento, até que Naquide, posteriormente conhecido como Hamame, aceitou fazê-lo. Outra tradição, preservada por Alboácem Alaxari, afirma que Murra costumava fornecer aos peregrinos água, leite, mel e , atividade recordada em versos relativos à sua morte. Murra aparece com destaque nas narrativas sobre o início da Guerra de Albaçus, desencadeada quando seu filho Jassas matou Culaibe. Ao tomar conhecimento do assassinato, teria censurado Jassas, advertindo-o de que sua ação provocaria uma guerra entre becritas e taglibitas. Segundo uma das tradições, Jassas foi então acorrentado e mantido numa tenda enquanto os chefes das famílias becritas discutiam como responder à exigência taglibita de vingança. Quando os becritas decidiram não entregar Jassas, comprometeram-se coletivamente a defendê-lo contra os taglibitas, e o conflito se ampliou.

Ibne Abede Rabi preserva um relato desenvolvido das negociações conduzidas com Murra após a morte de Culaibe. Representantes taglibitas foram procurá-lo e lhe apresentaram diferentes alternativas para satisfazer a vingança pelo sangue de seu chefe: restaurar Culaibe à vida, entregar Jassas para ser morto, entregar Hamame, considerado equivalente ao morto, ou oferecer a própria vida. Murra rejeitou sucessivamente essas possibilidades. Afirmou não poder ressuscitar Culaibe; declarou que Jassas havia fugido e que desconhecia seu paradeiro; recusou entregar Hamame, que descreveu como pai de dez, irmão de dez e tio de dez, todos cavaleiros de seu povo, cujos parentes não consentiriam em que fosse morto pelo crime de outro; quanto à própria vida, respondeu que não se entregaria voluntariamente, acrescentando que poderia ser uma das primeiras vítimas caso a guerra começasse. Como alternativas, Murra teria oferecido aos taglibitas um dos filhos que ainda estavam consigo, permitindo-lhes escolher qual deles matar em compensação, ou o pagamento de mil camelas, pelo qual se dispunha a apresentar um fiador entre os descendentes de Uail. Os taglibitas recusaram ambas as propostas, e as negociações terminaram sem acordo. Murra desaparece depois desse ponto das fontes e sua morte é incerta. Nas narrativas dos combates a chefia militar inicial dos xaibanitas é atribuída a um de seus filhos, Alharite.

Descendência

A tradição genealógica apresenta Murra como progenitor de numerosos ramos dos xaibanitas. Sua linhagem ocupou posição particularmente elevada entre os xaibanitas, sendo os murraítas (Banu Murra ibne Dul) descritos por Abu Ubaida como a casa dirigente de Xaibane. Ibne Hasme apresenta Hamame como filho de uma mulher dos açaditas e Jassas como filho de uma mulher dos tamimitas pertencente aos anritas (Banu Anre ibne Sade ibne Zaíde Manate). Essa genealogia diverge da tradição narrativa segundo a qual Hamame e Jassas eram irmãos germanos; se esta última for seguida, Haila binte Munquide, identificada em outras fontes como mãe de Jassas, seria também mãe de Hamame. Dos outros filhos, sabe-se que Nadla nasceu de uma mulher dos abumalequitas (Banu Abu Maleque ibne Icrima), dos caicitas; e Sade, Dabe, Cacir, Bujair, Jundube, Saiar e Alharite eram conhecidos coletivamente como Banu Hinde, em referência à mãe Hinde, uma mulher dos taglibitas. Os descendentes de Murra formaram linhagens reconhecidas como subdivisões próprias dos xaibanitas. Ibne Hasme distingue expressamente os descendentes de Jassas e de Hamame e afirma que neste último ramo se concentravam a casa dirigente e a força numérica da linhagem. Entre essas linhagens, os descendentes de Hamame adquiriram especial proeminência. No período imediatamente anterior ao surgimento do Islã, os hamamitas constituíam o principal grupo dirigente dos xaibanitas, embora disputassem influência com outras linhagens aristocráticas, sobretudo os aburrebiaítas e mualimitas. Seus membros aparecem comandando xaibanitas ou contingentes becritas em numerosos Dias Árabes, e a chefia becrita é atribuída em diferentes tradições a descendentes de Hamame, como Alharite e Murra. Ainda assim, outros ramos da descendência de Murra também conservaram projeção nos séculos seguintes. De seu filho Sade descendia Almutana ibne Harita, comandante xaibanita que teve destaque nas primeiras campanhas muçulmanas contra o Império Sassânida no Iraque.

Bibliografia

Categoria:Árabes do século V Categoria:Murraítas (xaibanitas) Categoria:Pessoas envolvidas na Guerra de Albaçus