San Francisco foi um assentamento colonial castelhano de existência efémera no vale de Caracas, na actual Venezuela, durante os primeiros anos da década de 1560. A sua história integra as tentativas de ocupação do vale anteriores à consolidação de Santiago de León de Caracas por Diego de Losada. A historiografia moderna distingue geralmente um hato ou primeiro núcleo associado a Francisco Fajardo, em 1560, e uma vila de San Francisco estabelecida por Juan Rodríguez Suárez em 1561, embora as fontes quinhentistas não sejam inteiramente uniformes quanto à autoria, natureza jurídica e sequência exacta desses estabelecimentos.

A relação preparada sob o governador Juan de Pimentel, iniciada em 1578, atribui directamente a Rodríguez Suárez a entrada no vale, a designação deste como «Valle de San Francisco» e o povoamento, no mesmo assento em que se encontrava depois Santiago de León, de um povoado a que chamou «ciudad de San Francisco».Arquivo Geral das Índias (AGI), PATRONATO,294,N.12, Descripción de Santiago de León, gobernación de Venezuela, relação de Juan de Pimentel, ff. 1r–3r. Em contrapartida, depoimentos prestados em 1589 por homens ligados às primeiras entradas atribuíram a Fajardo um povoamento anterior no vale e a imposição do nome San Francisco.. Esta divergência documental está na origem de parte da discussão historiográfica sobre a relação entre o hato de Fajardo, a villa de Rodríguez Suárez e a posterior Santiago de León.

San Francisco sofreu sucessivos ataques das populações indígenas que resistiam à expansão castelhana na região. A tradição historiográfica associa particularmente o assentamento aos combates contra forças dirigidas por Paramaconi, bem como à actuação de Julián de Mendoza. A relação de Pimentel afirma que, depois da morte de Rodríguez Suárez e do fracasso da expedição de Luis de Narváez, os poucos moradores que permaneciam em San Francisco abandonaram o lugar e viram-no arder enquanto se retiravam para a serra. A mesma fonte declara que Losada, ao entrar na região em 1567, reedificou os dois antigos povoados destruídos e chamou Santiago de León ao de San Francisco.

Nome, categoria e problema documental

As próprias fontes não empregam sempre a mesma categoria para San Francisco. A documentação e a historiografia utilizam, conforme o momento e o autor, expressões como hato, pueblo, ciudad e villa. O verbete de Caracas do Diccionario de Historia de Venezuela da Fundación Empresas Polar sintetiza esta diferença distinguindo um hato criado por Fajardo em 1560 de uma villa estabelecida por Rodríguez Suárez no mesmo lugar em 1561.

Pimentel, no entanto, não descreve nesses termos uma fundação de Fajardo no interior. A sua relação afirma que Fajardo fundou na costa, em 1560, o povoado de El Collado, posteriormente Caraballeda, enquanto atribui a Rodríguez Suárez o povoamento da «ciudad de San Francisco» no vale.

Também a origem do topónimo não é transmitida de forma uniforme. Pimentel escreveu que Rodríguez Suárez, ao entrar no vale, lhe chamou «Valle de San Francisco». O verbete moderno de Francisco Fajardo no Diccionario de Historia de Venezuela, por outro lado, atribui a Fajardo a designação do vale do Guaire como San Francisco em 1560.

Contexto indígena do vale

No século XVI, o vale do Guaire e as serras próximas eram ocupados por populações indígenas que as fontes coloniais classificaram de maneiras variadas. Nectario María identificou os habitantes do vale como toromaimas, associando Paramaconi a esse conjunto.. O Diccionario de Historia de Venezuela, em algumas das suas sínteses, usa também a forma taramainas ao descrever o grupo de Paramaconi.

Para a história de San Francisco, as fontes consultadas documentam a resistência de diferentes chefias e comunidades à instalação e manutenção dos povoados castelhanos e das explorações mineiras associadas. A própria relação de Pimentel apresenta a história dos primeiros assentamentos como uma sucessão de povoamentos, levantamentos, combates, despovoamentos e novas entradas.

Francisco Fajardo e primeiro núcleo

Entrada no vale e poderes de Pablo Collado

A terceira fase das entradas de Francisco Fajardo na região ocorreu por volta de 1559–1560. Segundo J. A. de Armas Chitty, Fajardo atravessou a região de Valência e instalou-se no vale a que chamou San Francisco, levando gado e estabelecendo ali uma ranchería, enquanto na costa fundava a vila de El Collado.. O Diccionario de Historia de Venezuela descreve de forma semelhante um hato de San Francisco criado por Fajardo em 1560.

A informação compilada por María Teresa Bermejo de Capdevila acrescenta depoimentos prestados em 1589. Lázaro Vázquez declarou que, cerca de trinta anos antes, Fajardo entrara «en este valle de San Francisco», com poderes do governador Pablo Collado, o povoara e lhe dera o nome San Francisco. O testemunho calculava em cerca de vinte os homens que o acompanhavam e afirmava que, em 1589, apenas quatro daquele grupo permaneciam vivos.. Dias depois, no mesmo expediente, Garci González de Silva declarou que, segundo conseguira averiguar, o primeiro fundador da cidade fora Fajardo.. Bermejo salientou que a competência de Fajardo para povoar e repartir encomiendas encontrou apoio nos poderes recebidos de Collado e em documentação relativa ao governo deste. Estes testemunhos de 1589 são, no entanto, posteriores em quase três décadas aos acontecimentos, chegando por via de um expediente de encomienda analisado por Bermejo de Capdevila. A sua importância reside em conservarem declarações de participantes ou contemporâneos próximos, mas não eliminam a versão diferente registada por Pimentel, que atribui a Rodríguez Suárez o povoamento da «ciudad de San Francisco».

Hato, povoado e exploração mineira

A reconstrução do Diccionario de Historia de Venezuela coloca o hato de Fajardo no vale do Guaire, relacionando-o com a exploração das minas de ouro situadas em território dos teques. Depois de fundar El Collado na costa, Fajardo teria regressado a San Francisco e encontrado ou explorado jazigos auríferos; o envio de amostras ao governador Pablo Collado levou à sua substituição por Pedro de Miranda na direcção da empresa mineira.

Armas Chitty distingue igualmente a ranchería de Fajardo da vila posterior de Rodríguez Suárez. Para o autor, Fajardo instalou um primeiro casario e hato, enquanto Rodríguez, depois de encontrar destruído esse núcleo, procurou dar continuidade ao povoamento estabelecendo uma vila.

Nectario María adoptou uma leitura mais favorável à natureza urbana da instalação de Fajardo, afirmando que este fundou, junto ao hato, um povoado chamado San Francisco e que o estabelecimento constituiu o primeiro assentamento castelhano no vale dos toromaimas..

Ataque de Paramaconi A cronologia da Fundación Empresas Polar situa em 1561 um ataque de Paramaconi ao hato e povoado associado a Fajardo. Segundo essa síntese, Guaicaipuro, depois de atacar o estabelecimento mineiro dos teques, incitou Paramaconi à rebelião; este avançou sobre San Francisco, queimou casas, matou moradores e atingiu parte do gado. San Francisco seria então composto por ranchos de barro e palha, duas ermidas construídas com materiais semelhantes e currais para o gado.

Nectario María narra a chegada de Rodríguez Suárez a San Francisco depois da destruição das minas dos teques. Segundo o autor, o capitão encontrou casas ou choças queimadas, gado morto por flechas e cadáveres dispersos pelo campo, atribuindo o ataque a Paramaconi..

Juan Rodríguez Suárez e a villa de 1561

Povoamento atribuído pela relação de Pimentel

A versão de Pimentel é particularmente importante por ter sido produzida cerca de dezassete anos depois dos acontecimentos, mediante consulta aos cabildos e a moradores antigos. Segundo a relação, o governador Pablo Collado enviou Juan Rodríguez Suárez com os seus poderes; o capitão percorreu parte do território, entrou no vale em que depois se fundou Santiago de León, chamou-lhe vale de San Francisco e «pobló un pueblo que le llamó la ciudad de San Francisco». Bermejo de Capdevila observou, no entanto, que a relação de Pimentel não menciona que Rodríguez Suárez tenha celebrado cabildos ou repartido encomiendas, e que um testemunho próximo dos acontecimentos descreve os poderes recebidos de Collado como os de capitão e caudilho para enfrentar os indígenas levantados, não como autorização expressa para repartir encomiendas..

Data de 1 de Agosto e organização municipal

O Diccionario de Historia de Venezuela e a cronologia da Fundación Empresas Polar situam em 1 de Agosto de 1561 o estabelecimento da villa de San Francisco por Rodríguez Suárez, no mesmo lugar do hato de Fajardo. A cronologia afirma que Rodríguez Suárez tomou posse, designou alcaldes e regidores, repartiu terras e fez registar os actos pelo escrivão Alonso Ortiz. Armas Chitty transmitiu a mesma tradição de que Rodríguez, ao procurar dar continuidade ao povoamento, erigiu uma vila chamada San Francisco, repartiu terras e nomeou alcaldes e regidores..

Nectario María, na sua reconstrução, afirma que Rodríguez Suárez elevou o anterior povoado de Fajardo à categoria de vila depois de regressar de um dos ataques de Paramaconi, apresentando Antón Salvador e Julián de Mendoza como os dois primeiros alcaldes da nova povoação..

Segundo ataque de Paramaconi

Pouco depois, segundo a cronologia da Fundación Empresas Polar, Rodríguez Suárez saiu de San Francisco em direcção a El Collado, deixando parte dos homens sob o comando de Julián de Mendoza. Cerca de meia hora depois, Paramaconi teria descido pela abra de Catia com aproximadamente seiscentos guerreiros e atacado novamente o assentamento. A fuga súbita do gado dos currais teria, no entanto, causado a ruptura da formação atacante. Depois da confusão, os defensores obrigaram os homens de Paramaconi a recuar em direcção a Catia. Mendoza decidiu retirar-se durante a noite com os feridos, mas encontrou Rodríguez Suárez, que regressava em socorro do grupo; ambos voltaram então a San Francisco.

José de Oviedo y Baños, cuja obra foi publicada em 1723, oferece uma versão muito mais pormenorizada. Segundo o cronista, Julián de Mendoza, Antón de Albornoz, Fraga, Pallares e Castillo avançaram a cavalo contra os atacantes; Albornoz ficou ferido nas mãos, o cavalo de Fraga morreu e Mendoza caiu sem sentidos depois de receber um golpe de macana. Oviedo atribui a Alonso Fajardo, Juan Ramírez e aos restantes espanhóis o avanço que impediu que Mendoza fosse morto ou levado pelos indígenas. Na continuação da narrativa, a pressão sobre os currais fez o gado romper as cercas, atravessar a formação indígena e provocar a desordem que permitiu o contra-ataque castelhano..

Encontro de Rodríguez Suárez com Paramaconi e Toconai

A cronologia da Fundación Empresas Polar situa ainda em Agosto de 1561 outro confronto nas proximidades de San Francisco. Segundo essa reconstrução, Paramaconi e Toconai cercaram a vila e saíram ao encontro de Rodríguez Suárez quando este atravessou o rio Caroata acompanhado por outro cavaleiro e oito infantes. A fonte afirma que Toconai morreu no combate, Rodríguez Suárez ficou ferido e os combatentes indígenas se dispersaram, descrevendo também os dois líderes com arcos, aljavas e lanças cujas pontas teriam sido reforçadas com fragmentos de espadas obtidas nas minas dos teques.

Morte de Rodríguez Suárez

A chegada de Lope de Aguirre a Borburata alterou a situação militar da região. Segundo o Diccionario de Historia de Venezuela, Rodríguez Suárez deixou San Francisco com seis soldados para colaborar na resistência ao rebelde, vindo a morrer em 1561 nas montanhas de Las Lagunetas, depois de ser atacado por forças indígenas.