O mosteiro de Santa María de Carracedo é uma antiga abadia, já exclaustrada, fundada no século X e pertencente às ordens beneditina e, posteriormente, cisterciense. Situa-se em Carracedo do Mosteiro, no município de Carracedelo, na comarca de Bierzo, na província de Leão, junto ao Caminho de Santiago.Quintana Prieto, Augusto; Fernández García, Amalio: Guía del Bierzo. Leão. Imprenta Provincial, 1965.Balboa de Paz, José Antonio (2005). El Monasterio de Carracedo. 2.ª edição, Instituto Leonés de Cultura. Deputação Provincial de Leão. .
Foram realizadas diversas reformas arquitetónicas ao longo da sua história, tendo sido, em tempos modernos, vítima do abandono. Atualmente encontra-se semirruído, embora tenha sido reabilitado para visita. Nele combinam-se diversos estilos, destacando-se os elementos românicos, cistercienses e protogóticos, correspondentes aos séculos XII e XIII. O conjunto compreende as dependências monásticas propriamente ditas e o Palácio Real.
História
O cenóbio foi fundado por volta do ano 990 por Bermudo II, rei de Leão e da Galiza, com o objetivo principal de oferecer refúgio a monges que fugiam das incursões e conquistas do caudilho muçulmano Almançor nas terras leonesas e castelhanas. O monarca doou terrenos da sua vila de Carracedo, junto ao rio Cúa, aos beneditinos, para que aí edificassem um mosteiro sob a invocação de São Salvador.
esquerda|miniatura|210px|Panorâmica do Mosteiro.
Em 997, o próprio mosteiro de São Salvador, tal como outros lugares de Bierzo, foi praticamente destruído por Almançor no decurso da grande incursão que tinha como objetivo devastar Santiago de Compostela. Ao ficar arruinado, o mosteiro não pôde acolher os restos de Bermudo II após a sua morte, em 999, tal como este havia determinado no seu testamento. Apesar de tudo, o local recebeu a consideração de panteão real, de facto o primeiro de Espanha.
O primitivo cenóbio mergulhou na obscuridade durante mais de um século, entre o abandono e uma precária atividade monástica. Este período, do qual existe escassa documentação, prolongou-se até bem entrado o século XII. Em 1138, a infanta D. Sancha, irmã de Afonso VII, o Imperador, determinou a restauração de São Salvador, fazendo vir para esse fim os monges do vizinho Mosteiro de Santa Maria de Valverde, perto de Corullón, chefiados pelo abade Florêncio. Ao viver aí durante longos períodos, D. Sancha converteu o mosteiro em Palácio Real.
miniatura|200px|Pratos da baixela do Mosteiro.
O mosteiro de São Salvador prosperou graças a sucessivos privilégios e doações de concessão régia, até se tornar uma abadia com autoridade jurisdicional sobre cerca de uma dezena de mosteiros beneditinos nas terras de Leão, Galiza, Astúrias e Zamora, e com controlo económico sobre dezenas de granjas, vinhas, moinhos e outros centros de produção agropecuária em todo o Bierzo. Em 1203, a comunidade abandonou os hábitos negros beneditinos e adotou os brancos da Ordem de Cister, passando a ser, juntamente com todos os mosteiros peninsulares que administrava, uma filiação da abadia francesa de Cister, primeira casa-mãe da ordem. Mudou também de invocação, passando a chamar-se mosteiro de Santa María de Carracedo.
No século XIV, Carracedo entrou numa crise material e espiritual, à qual pôs fim, em 1505, a sua adesão à Congregação Cisterciense de Castela. Esta mudança implicou a recuperação do verdadeiro espírito monástico, perdido enquanto o mosteiro esteve administrado por abades comendatários e submetido ao arbítrio de nobres leigos em regime de comenda.
No início do século XIX, começaram obras de ampliação que foram interrompidas com o início da Guerra da Independência Espanhola, em 1808. Desamortizado em 1835, entrou numa fase de abandono, pilhagem e ruína.García González, Miguel José. La Desamortización de Mendizabal y Espartero en El Bierzo, 1994, . Embora em 1929 tenha sido declarado Monumento Histórico-Artístico Nacional, essa situação só terminou em 1988, quando a Deputação Provincial de Leão, proprietária do mosteiro juntamente com o bispado de Astorga, iniciou a restauração e consolidação das partes do edifício que permaneciam de pé, trabalho concluído em 1991.
direita|miniatura|160px|Fachada ocidental da igreja.
Descrição
Igreja
O primitivo templo românico-protogótico, de três naves e tripla cabeceira absidal, foi quase completamente demolido no final do século XVIII para permitir a construção, a partir de 1796, de uma nova igreja de estilo neoclássico e de uma só nave. Da primeira construção conservam-se elementos da nave meridional, o tramo dos pés com a fachada ocidental, que apresenta um óculo tardo-românico, e, adossados ao lado norte, os restos recolocados do antigo portal do transepto medieval, com duas estátuas-colunas tardo-românicas (presumivelmente com as imagens de Afonso VII e do abade Florêncio) que sustentam um tímpano semicircular com o Pantocrator inserido na mandorla mística e rodeado pelos símbolos do Tetramorfo. Junto a este encontra-se a capela funerária de García Rodríguez de Valcárcel, gótica dos séculos XIII e XIV, que contém os nichos que guardaram os seus sarcófagos.
esquerda|miniatura|210px|Ruína do Claustro Regular.
Claustros e dependências anexas
A sul do templo situa-se o Claustro Regular, reconstruído no século XVI com abóbadas de terceletes em tijolo, em torno do qual se distribuem as diversas dependências monásticas: a sacristia (também do século XVI), a sala capitular, o locutório e a passagem para a horta (estes dois últimos com abóbada do século XIII). A sala capitular apresenta uma cobertura abobadada tardo-gótica do século XVI, embora o seu portal de entrada seja românico. É um espaço quadrangular dividido por quatro colunas, com capitéis decorados com motivos vegetais e animais. Nas paredes existem nichos com sepulcros abaciais. A sua semelhança com a sala capitular do Mosteiro de Sobrado dos Monxes permite supor que a cobertura original tenha sido realizada por volta da década de 1230.
O claustro da Hospedaria e o chamado Terceiro Pátio foram edificados entre os séculos XVII e XVIII, nas épocas barroca e neoclássica. O conjunto claustral foi particularmente maltratado pelo tempo, não chegando até à atualidade senão escassas ruínas. Do Terceiro Pátio permanecem de pé apenas os muros da ala dos noviços e um cubo-contraforte, construído em 1634, bem como os alicerces da antiga sala dos monges, muito reformada no século XVIII. O Claustro Regular encontra-se também em grande parte destruído, conservando-se apenas os restos de duas crujias, com as molduras dos arcos de volta perfeita sobre as paredes interiores, além do perímetro do parapeito de descarga interior. Completamente arruinado encontra-se o claustro da Portaria, que possuía dois pisos de arcadas.
direita|miniatura|160px|Refeitório.
Refeitório
O refeitório situa-se também no lado meridional. Datado do final do século XII, trata-se de uma das partes do primitivo cenóbio medieval que chegou aos nossos dias sem alterações drásticas. Posterior, do século XVI, é a cobertura de abóbada de cruzaria tardo-gótica com terceletes, realizada no século XVI, quando no piso superior foi construída uma biblioteca abacial. Este espaço desempenha atualmente funções de exposição museográfica, como sala de interpretação do mosteiro, e de ponto de partida do percurso de visita pelas diferentes partes do mesmo, que incluem, além das referidas dependências claustrais, a capela da Portaria (século XVI), os restos da escadaria principal de época moderna, a adega, a cozinha (século XVII), a despensa, os aposentos do monge celeireiro e a biblioteca do século XVIII, que conserva parte do entablamento original e onde foi instalada uma coleção de livros recentemente recuperada. É constituída por obras impressas dos séculos XVI, XVII e XVIII, com títulos de filosofia, dicionários, traduções de obras clássicas, histórias da Ordem de Cister, tratados de geometria e obras literárias. É também apresentada uma coleção fotográfica de Juan Crisóstomo Torbado que regista o estado do mosteiro em 1926.
Palácio Real e Miradouro da Rainha
Sobre a Sala Capitular e o locutório encontra-se um conjunto de aposentos do século XIII conhecido como Palácio Real, por aparentemente ter sido residência da infanta D. Sancha.
esquerda|miniatura|160px|Interior da Cozinha da Rainha.
A dependência exterior, chamada Miradouro da Rainha, é um terraço coberto que constitui um dos pontos mais atrativos e a imagem mais conhecida do cenóbio, pela sua artística galeria de três arcos, apontado e mais estreito o central, e de volta perfeita os laterais, que sustentam duas delicadas colunas de fuste liso com capitéis vegetais e que decoram duas arquivoltas molduradas. Atualmente, este terraço é acedido pelo exterior através de uma escadaria funcional.
O terraço-miradouro dá acesso à Cozinha da Rainha, uma sala quadrangular iluminada por janelas e óculos de fina traceria, com quatro colunas sobre altos plintos e arcos apontados que suportaram uma estrutura de madeira com abóbada central oitavada, decorada com escudos e dragões. Completa-se com uma grande chaminé e uma saída para a horta através de uma elegante arcada. O caráter nobre desta sala, com uma execução que parece mais própria do século XIV, a constatação de duas fases construtivas diferentes e a presença da chaminé afastam-na da sua possível função original como dormitório de monges, aproximando-a de um uso como sala de audiência do abade ou mesmo como aposento nobre. No século XVIII foi destinada a celeiroArtigo Balboa de Paz, J. A.: Monasterio de Santa María de Carracedo. Deputação de Leão. Instituto Leonês de Cultura..
Da Cozinha da Rainha acede-se, através de uma porta com tímpano que representa a Virgem morta rodeada pelos apóstolos, enquadrado por uma arquivolta com cinco anjos músicos, a outra dependência que foi posteriormente arquivo, mas que originalmente poderá ter sido o oratório do abade. O espaço é iluminado por um grande óculo e apresenta uma abóbada nervurada rematada por uma chave com uma figura em mandorla, que parece ser a Virgem rodeada pelo Tetramorfo.
Galeria de imagens
Bibliografia Iglesias Arias, J. A.: El Monasterio de Carracedo. Editorial Lancia, Leão, 1991. ISBN 84-86205-62-X. Bernard Peugniez: Le Guide Routier de l’Europe Cistercienne. Éditions du Signe, Estrasburgo, 2012, p. 817 e seguintes.
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Santa Maria de Carracedo Categoria:Leão (província) Categoria:Edifícios monásticos beneditinos Categoria:Edifícios monásticos cistercienses