Maomé ibne Habibe (; m. ), também conhecido pela cúnia Abu Jafar e pela nisba Alhaximi, foi um filólogo, genealogista e erudito árabe da escola de Baguedade. Destacou-se nos estudos de genealogia (ansāb), poesia, língua e literatura árabes, nos Dias Árabes (ayyām) e nas tradições históricas (akhbār), adquirindo reputação de erudito e transmissor confiável. Embora atuasse em diferentes campos, tornou-se conhecido sobretudo por seus conhecimentos genealógicos.
Pouco se conhece sobre suas origens. Segundo a tradição predominante, Habibe era o nome de sua mãe e a identidade de seu pai era desconhecida, embora outra tradição registre seu nome como Maomé ibne Habibe ibne Omaia ibne Anre. Sua nisba Alhaximi decorria de sua condição de maula da família haxemita de Alabás ibne Maomé, irmão do califa Açafá . Seu local de nascimento também é incerto: embora algumas fontes modernas indiquem Baguedade, foi proposta a possibilidade de que tenha nascido em Cufa, transferindo-se ainda jovem para Baguedade, onde completou sua formação. Entre seus mestres estiveram Abu Ubaida, , Abu Abedalá ibne Alarabi, e, sobretudo, Ibne Alcalbi, que exerceu importante influência sobre sua produção genealógica.
Maomé produziu numerosas obras sobre genealogia, história dos árabes, poesia e língua árabe, das quais se destacam o Al-Muhabbar e o Al-Munammaq fi akhbar Quraysh. Esses trabalhos constituem importantes repositórios de tradições sobre a Jailia e os primeiros tempos do Islã, incluindo genealogias, relatos históricos, costumes, anedotas e poesia; o Al-Muhabbar distingue-se particularmente pela atenção às genealogias maternas, enquanto o Al-Munammaq apresenta tratamento mais narrativo dos personagens e acontecimentos. Maomé também transmitiu e comentou divãs de numerosos poetas antigos e foi a principal autoridade para as Naqa'id de Jarir e Alfarasdaque. Morreu em Samarra em 23 de Dulrija de 245 AH, em 860.
Vida
Pouco se conhece sobre suas origens e a identidade do pai de Maomé é incerta. Era conhecido como Ibne Habibe em referência à sua mãe Habibe, segundo a tradição predominante, e a maioria das fontes afirma que seu pai era desconhecido. Outra tradição, seguida pelo Fihrist e posteriormente por Iacute Alhamaui e Açuiuti, apresenta Habibe como seu pai e registra seu nome como Maomé ibne Habibe ibne Omaia ibne Anre. Sua nisba Alhaximi não indicava ascendência haxemita, mas decorria de sua condição de maula da família de Alabás ibne Maomé Alhaximi, irmão do califa Açafá . Também aparece com as nisbas Almuabari, explicada em diferentes tradições pelo nome de um suposto avô chamado Muabar ou pelo título de sua obra mais conhecida, o Al-Muhabbar, e Alaquebari, relacionada a seus escritos sobre história e genealogia. A data e o local de seu nascimento são desconhecidos. Algumas obras modernas afirmam que nasceu em Baguedade, informação considerada incerta por Mehmet Sami Benli. Alabás ibne Maomé e seus irmãos estabeleceram-se em Cufa em 132 AH (749), e Baguedade somente seria fundada posteriormente, durante o califado de Almançor . Como a mãe de Maomé estava entre os escravos de Alabás, Benli considera possível que tenha nascido em Cufa e, com base em seus mestres, conclui que chegou ainda jovem a Baguedade, onde completou sua formação. Estudou com eruditos como Abu Ubaida, , Abu Abedalá ibne Alarabi, e Ibne Alcalbi. Este último exerceu influência particularmente importante sobre sua obra: Maomé transmitiu sua Jamharat al-ansab, utilizou-a abundantemente em seus próprios escritos e o menciona repetidamente como sua principal autoridade.
Maomé tinha reputação de erudito confiável, especialmente em poesia, genealogia e história. Embora se destacasse também em diferentes campos da língua e literatura árabes, no léxico, na poesia, nos Dias Árabes (ayyām) e nas tradições históricas (akhbār), foi sobretudo como genealogista que se tornou conhecido. Levou aparentemente uma vida tranquila e reclusa, procurando sustentar-se por seus próprios meios e sem buscar cargos públicos. Evitava ministrar aulas em mesquitas e outros espaços públicos e transformou parte de sua casa numa escola, onde se dedicou à educação dos filhos de Maomé ibne Alabás Alhaximi e de outros membros das elites. Por essa atividade recebeu os qualificativos de muadibe (muʾaddib) e mualim (muʿallim). Apesar disso, um verso atribuído a ele indica que enfrentou dificuldades financeiras. Entre seus alunos destacou-se Açucari, que transmitiu suas obras Al-Muhabbar e Al-Munammaq. Também são mencionados entre seus discípulos Maomé ibne Amade ibne Araba Alcufi, (Ibne) Abi Ruba e o poeta Ibne Arrumi, cujo pai mantinha relações próximas com Maomé. Como transmissor de poesia, Maomé transmitiu e, em alguns casos, comentou os divãs de numerosos poetas, entre eles Alfarasdaque, Jarir, Labide, , , Cutair, Alactal e . Foi também a principal autoridade para as Naqa'id de Jarir e Alfarasdaque.
As fontes preservam avaliações divergentes acerca de sua erudição. Uma tradição transmitida pelo Kitab al-Aghani e por Iacute afirma que Maomé se considerava superior até mesmo a seu mestre Ibne Alarabi e relata que este foi incapaz de explicar dezoito expressões incomuns da poesia de que lhe foram apresentadas pelo discípulo. Outra narrativa, transmitida por , apresenta situação inversa. Segundo ela, Talabe compareceu a uma aula em que Maomé apresentaria a poesia de Haçane ibne Tábite, mas este interrompeu a exposição ao perceber sua presença. Depois de muita insistência, Talabe convenceu-o a continuar a aula na mesquita, onde Maomé, ao comentar um poema, passou sem explicação por uma passagem difícil. Questionado a respeito, declarou-se incapaz de esclarecê-la, e Talabe explicou a passagem em seu lugar. Segundo a tradição, Maomé não voltou a ensinar na mesquita depois do episódio. Lichtenstädter considera que esse relato parece ter se originado de um viés contra o erudito e observa que ele é transmitido por Almarzubani, que também acusou Maomé de apresentar como próprias obras de outros autores. Almarzubani acusou-o ainda de apropriar-se de obras de seus mestres e afirmou que o verdadeiro autor do Kitab man luqqiba min al-shu'ara' bi-baytin qalahu era Ismail ibne Abi Ubaide Alá. Benli considera, contudo, que essas acusações parecem ter resultado de inveja, apontando a ampla utilização das tradições de Maomé no Kitab al-Aghani e a aceitação alcançada pelas recensões de divãs de numerosos poetas transmitidas por ele.
Benli observa que a ampla utilização das tradições de Maomé por Abu Alfaraje de Ispaã no Kitab al-Aghani e o prestígio das recensões de numerosos divãs transmitidas por ele são incompatíveis com a imagem sugerida por Almarzubani, considerando provável que as acusações decorressem de rivalidade. Lichtenstädter igualmente relaciona as acusações de Almarzubani à tradição desfavorável sobre a erudição de Maomé. Um aspecto particular de seu método de transmissão foi o tratamento das cadeias de autoridades. Embora vivesse numa época em que os eruditos dedicavam crescente atenção à correção dos isnades, Maomé alternava cadeias formadas por autoridades reconhecidas com atribuições imprecisas, recorrendo a expressões como "alguém", "um dos Povos do Livro", "alguns judeus" ou "alguém que encontrei". Lichtenstädter considera que essa prática o coloca numa posição intermediária no desenvolvimento histórico do isnade, sem invalidar a confiabilidade geral de suas obras; sua principal autoridade identificável permanece Ibne Alcalbi. Maomé morreu em Samarra em 23 de Dulrija de 245 A.H. (ano de 860).
Obras
Maomé ibne Habibe foi autor de numerosas obras sobre genealogia, história dos árabes, poesia e língua árabe, embora apenas parte de sua produção tenha sobrevivido. Os catálogos de Ibne Anadim e Iacute Alhamaui registram grande número de títulos, muitos deles relacionados à história da Jailia e dos primeiros tempos do Islã e às genealogias de seus chefes e personagens. Lichtenstädter observa que muitos desses "livros" parecem corresponder a capítulos algo ampliados das duas principais obras de Maomé, o Al-Muhabbar e o Al-Munammaq. O Al-Muhabbar, caracterizado por Benli como uma espécie de história dos profetas e califas, apresenta acontecimentos e personagens sem entrar em pormenores, organizando grande parte de seu material na forma de listas. Entre suas características distintivas estão a ampla atenção concedida às genealogias maternas e a preservação de tradições e anedotas relativas à Jailia e ao primeiro período islâmico. As genealogias maternas podem acompanhar sucessivamente a mãe, a avó e outras ascendentes, por vezes remontando à Antiguidade, e a obra preserva ainda abundante material sobre os costumes e a história da Jailia e dos primeiros tempos do Islã. O Al-Muhabbar sobreviveu em um único manuscrito, conservado no Museu Britânico, e foi publicado por Ilse Lichtenstädter em Haiderabade, em 1942.
Sua outra grande obra conservada, o Al-Munammaq fi akhbar Quraysh, tratava dos profetas desde Adão até Maomé, bem como das genealogias e tradições históricas dos coraixitas. Seu editor considerou que teria sido composto antes do Al-Muhabbar. Embora as duas obras cubram em grande medida matérias semelhantes, o Al-Munammaq apresenta caráter mais narrativo: em vez de se limitar predominantemente à enumeração dos homens e mulheres reunidos em seus capítulos, oferece relatos mais extensos sobre esses personagens e informações pormenorizadas sobre os acontecimentos de seu tempo. As duas obras preservam ainda grande quantidade de poemas e versos, muitos dos quais não são conhecidos por outras fontes. O Al-Munammaq também sobreviveu em um único manuscrito, então pertencente a uma coleção particular de Lucknow, e foi publicado por Khurshid Ahmad Fariq em 1964. Outras obras atribuídas a Maomé incluem o Mukhtalif al-qaba'il wa-mu'talifuha, a Risalat Asma' al-qaba'il, o Asma' al-mughtalin min al-ashraf fi al-Jahiliyya wa-l-Islam wa-asma' man qutila min al-shu'ara, o Alqab al-shu'ara' wa-man yu'raf minhum bi-ummihi, o Kuna al-shu'ara' wa-man ghalabat kunyatuhu ala ismihi e o Kitab man nusiba ila ummihi min al-shu'ara'''. Entre suas demais obras conservadas ou conhecidas estão o Kitab Ummahat al-nabi, trabalhos sobre provérbios, o Khalq al-insan fi al-lugha'' e obras dedicadas às tradições, classes e genealogias dos poetas. As fontes atribuem-lhe ainda outros trabalhos que não se conservaram ou permanecem conhecidos apenas por referências bibliográficas.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Árabes do século IX Categoria:Pessoas do Califado Abássida