Monsenhor Sebastião Scarzello, nascido Sebastiano Giovenale Scarzello, (Fossano, – Joinville, ) foi um tenente do Exército Real Italiano, sacerdote católico, missionário religioso, ativista político e professor ítalo-brasileiro. É considerado o maior orador sacro de Joinville.

Biografia Nascido a 4 de maio de 1880 na comuna italiana de Fossano, em Piemonte, região norte da Itália, Sebastião foi filho do Conde de Salmour, Domingos Scarzello, e da Marquesa de Villamirana, Paola Bergese. Até seus 8 anos, absorveu o ginásio e liceu do Instituto Nacional de Turim, regido por padres jesuítas.

Aos 17 anos, inscreveu-se no curso de oficiais, licenciado a universitários. Em novembro de 1901, o jovem Sebastião recebeu um diploma do Régio Exército do 75.º Regimento de Infantaria, sendo promovido ao cargo de sargento. Nesse período, estudou 3 anos de medicina na tradicional Universidade de Turim, que logo abandonou para seguir sua vocação religiosa. Na mesma universidade, estudou filosofia pura e teologia, tendo se especializado em direito canônico e e sociologia. Ainda na sua juventude, apaixonado pelos esportes, foi campeão de ciclismo, hipismo e esgrima.

Segundo testemunho próprio de Scarzello, este conheceu pessoalmente São João Bosco, através de sua avó materna, Angela Cravero, que era penitente do santo. Dizia ter lembranças quando o viu pela primeira vez, em que o santo colocou as mãos sobre sua cabeça e o acariciou.

Faleceu em 28 de junho de 1974 em Joinville, Santa Catarina, com 94 anos de vida e 71 anos de sacerdócio, em decorrência de uma insuficiência cardíaca.

Início da vida religiosa (1880–1903) Foi batizado em 7 de maio de 1880 na catedral de Fossano, dois dias após o seu nascimento, pelo Cônego Giovanni Bonino, tendo recebido o nome de Sebastiano Giovenale. Preparado na catequese pelos seus avós Giuseppe Bergese e Angela Cravero, aos seus 8 anos de vida recebeu a Primeira Eucaristia. Foi crismado por Dom Emiliano Manacorda em 21 de maio de 1888, na mesma catedral em que foi batizado. O mesmo bispo também o conferiu a sua Primeira Tonsura e as Quatro Ordens Menores. Recebeu, em 1903, a Ordem do Diaconato e a Ordem do Presbiterato pelo Cardeal Augustinho Richelmy, na Igreja Arquiepiscopal de Turim. Celebrou sua primeira missa em uma capela particular de sua família. Teve como assistentes os fundadores dos Missionários da Consolata, Pe. Giuseppe Allamano e o Cônego Tiago Camisassa, este último que à altura era vice-reitor do Seminário de Turim.

Convidado pela Santa Sé "Propaganda Fide", recebeu a missão de trabalhar no Quênia, em África, por cinco anos, com objetivos de estudar a língua, religiosidade e os costumes do povo queniano para, no futuro, evangelizar aquele país. Aceitou a missão, e com mais três sacerdotes o recém ordenado padre Scarzello recebeu do então Papa Leão XIII o envio, a bênção e o crucifixo de missionário. Em 1903, partiu na sua missão rumo à África, onde embrenharia-se durante 9 anos em áreas inexploradas da Ásia e da África. De passagem por Veneza, o padre teve um encontro com o então Cardeal José Sarto que, posteriormente, viria a se tornar o papa São Pio X. Segundo as palavras de Sebastião, de Sarto os missionários receberam "a bênção e um cálice para celebrar a Missa em terras africanas".

Missão na África (1903–1910) miniaturadaimagem|Mons. Sebastião Scarzello, missionário no Quênia, África Recém chegado na África, encontrou-se em muitas dificuldades e resistências criadas pelos religiosos anglicanos da Inglaterra, estes que eram proprietários de grande parte da África Oriental, mas que nunca haviam enviado ninguém à região. Colocaram-se contra a missão de Scarzello, que recebia apoio dos militares ingleses, que por sua vez vivam em atrito com o anglicanismo. O padre comprou um cavalo para deslocar-se até as regiões mais distantes onde se encontrava mas tribos, o auxílio do animal durou apenas 40 dias, após este morrer em decorrência à mordida de uma mosca. Para sua missão, recebeu do Instituto da Consolata para Missões Estrangeiras as normas acerca da Celebração da Missa, da administração dos Sacramentos, múnus do Ministério, a respeito das Indulgências, sobre a recitação do Ofício Divino e dos privilégios.

A pé e desmembrado do grupo de sacerdotes original, seguiu só. Atravessou grandes áreas de densa vegetação, deserto, rios, regiões completamente selvagens habitadas por leões e muitas outras feras. Sua alimentação acabou, e apenas três dias depois sem ter o que comer, teve contato com o primeiro negro africano. Os primeiros dias de contato com os africanos foram de desconfiança por parte daqueles. Scarzello tentava se infiltrar na tribo através de trocas, em que os indígenas lhe arremessavam batatas e ele os restituía com espelhos, colares e outros diversos objetos, até que conseguisse de fato entrar na tribo. A explicação de sua recepção na tribo por parte de um chefes desta foi que o padre era um daqueles "garotos roubados", e que os maus lhe haviam tirado a pele, por isso tinha ficado branco. A isto, o chefe se referia a um ataque sofrido pela tribo, quando foram levadas todas as crianças.

Aceito pela tribo, começou a ensinar sua língua às crianças com quem também aprendia. Terminou sua missão falando quatro línguas bantas e conseguiu transmitir cultura àquele povo. Nesse período, escreveu monografias, gramáticas e dicionários, sendo ele o primeiro autor a escrever um dicionário e uma gramática bantu. De suas missões em África, o Monsenhor sempre recordava emocionado de duas crianças que encontrou em uma tribo banto: um rapaz chamado Kirogo e uma menina de nome Vangiro. Sua vila foi saqueada, seus pais mortos, e eles encontravam-se sós, chorando nas cinzas. Scarzello levou-as consigo e deixou-as aos cuidados de gente de confiança. esquerda|miniaturadaimagem|Scarzello em Matozinhos (MG) Com obrigação de permanecer cinco anos em África, Sebastião passou dois a mais. Sete anos após sua chegada, em 1910 retorna à Roma com a gramática bantu, levando à conhecimento da Sé os costumes, ritos e língua daquele povo. No seu relatório, o padre apresentou também doenças desconhecidas pelo continente europeu. Reassumiu o trabalho na Propaganda Fide até 1911. Nesse período, chegou a visitar o Himalaia para um possível trabalho, o que acabou não sucedendo devido a um convite de D. Silvério Gomes Pimenta para trabalhar no Brasil.

Entre Roma e o Minas Gerais (1910–1933) Quando esteve em Roma, encontrou-se com o Arcebispo de Mariana, D. Silvério Gomes Pimenta. Ouvindo as dificuldades expostas pelo bispo, aceitou seu convite de vir para o Brasil. Chegou em Mariana, no Estado de Minas Gerais, em 1912. Auxiliou o bispo no trabalho pastoral, percorrendo com ele inúmeras cidades. Relata-se que seu único meio de transporte era um cavalo, com quem ele visitava cidade por cidade, fazenda por fazenda e por toda a região da administração da arquidiocese.

Scarzello atuou brevemente como vigário na Igreja de Santa Isabel do Prata e como pároco na Paróquia Santa Anna do Alfié, em São Domingos do Prata, entre 1918 e 1921. Em setembro de 1921, é nomeado vigário na Paróquia da Freguesia do Bom Jesus, em Matozinhos, por portaria do Mons. José Silvério Horta. Em Santa Luzia do Rio das Velhas, recebeu do governador do Estado a nomeação de Inspetor Escolar de Matozinhos, em 23 de outubro de 1923. Nessa época, também ministrou catecismo no grupo escolar local naquela cidade. Continuou em ambos os cargos até 1927, quando foi transferido para a capital, Belo Horizonte. Por dois anos, foi também administrador do Santuário de Congonhas do Campo. Fundou o Ginásio de Cachoeira do Campo e o dirigiu por certo tempo, edificou o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, no município de Pedro Leopoldo. Scarzello trabalhou de 1921 até 1929 na Paróquia de Matozinhos, tendo empreendido e levado a termo a construção da Igreja matriz naquela localidade, segundo o arcebispo de Belo Horizonte, D. Antônio Cabral.

No Município de Joinville (1933–1974) Pelas Constituições Apostólicas Inter Praecipuas, do Papa Pio XI, é criada a Diocese de Joinville, como sufragaria da Sé Arquiepiscopal de Florianópolis. No dia 25 de janeiro de 1929, Pio XI nomeia o padre Pio de Freitas Silveira, então reitor do Seminário de Diamantina, como primeiro bispo da Diocese então fundada. Conhecidos há algum tempo, D. Pio, em carta, convida Sebastião Scarzello para sua nova administração em Joinville, orienta-lhe a vinda para Joinville e lhe deseja ardentes votos a Deus.

Chega no município em fevereiro de 1933. onde foi encarregado da Obra de Propagação da Fé e de recolher fundos para a construção da Catedral da Diocese. Em seguida, foi nomeado coadjutor em Mafra, depois em Guaramirim (então Bananal), onde terminou a Igreja começada pelo padre Füechter. Em 1933, só existiam em Joinville a catedral e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Mesmo sem a existência de outras capelas, celebrou diversas missas nos bairros Iririú, Boa Vista e inúmeros outros, improvisando o altar sob árvores.

Foi nomeado, em 22 de março de 1942, como vigário da Catedral São Francisco Xavier, em Joinville. Por circunstâncias da época, o dia da tomada de posse não se revestiu de notáveis solenidades como geralmente acontecia nas de tomadas de posse de novo vigários. Na Europa, batalhas fervorosas contra os italianos pelas potências Aliadas eram travadas. Por tais conjecturas, o mais então recém Vigário, de nacionalidade italiana, achou a medida acertada. Escreveu, na sua posse, dizendo que "a glória de Deus e a salvação das almas" era o único ideal que lhe animava e que, para tanto, oferecia todas as suas energias, seu coração e sua vida.

Alguns anos após, com a morte do padre Alberto Kolb, conhecido na região por seu implacável anticomunismo e por ministrar o Círculo Operário de Joinville (COJ), D. Pio de Freitas nomeia Scarzello para dirigir a Creche Conde Modesto Leal, cuja Kolb era idealizador e fundador. Assumiu em 25 de julho de 1948. Dias depois, em 15 de agosto, assume também a diretoria da Pia União das Filhas de Maria da Catedral. No ano seguinte, D. Pio de Freitas envia um pedido à Santa Sé para o conceder o título de prelado doméstico ao padre Sebastião. Nota-se que, no pedido, é frisado sua assiduidade ao confessionário e sua extremo zelo no sacerdócio. O Papa Pio XII, quatro meses depois, aceita o pedido, que é assinado por João Batista Montini, posteriormente Papa Paulo VI. Seu título de Monsenhor é anunciado em 1 de janeiro de 1950, e ele vai à Roma. Durante sua viagem, visita sua família em Turim, após longos anos de separação.

Foi naturalizado brasileiro em 8 de março de 1954, após 42 anos no Brasil. Em 14 de junho de 1963 é agraciado com o título de Cidadão Honorário de Joinville pelo prefeito Caetano Évora da Silveira Júnior. Depois, é agraciado como Cidadão Honorário de Matozinhos, em 6 de dezembro de 1971. Monsenhor Scarzello também foi membro-fundador da Academia Joinvilense de Letras.

O professor Scarzello (1933–1970)