O vodu haitiano é uma religião que se desenvolveu na ilha da Hispaniola a partir do século XV com base na interação de diversas tradições religiosas da África Ocidental e Central, trazidas pelos africanos escravizados, e a perspectiva do catolicismo oriunda dos colonizadores europeus sendo um modo de resistência à escravidão.

A história do vodu no Haiti está intimamente ligada à história da formação da sociedade haitiana. O vodu desempenhou um papel importante na criação e preservação de vínculos comunitários, na resistência à ordem escravista e colonial e na construção da identidade nacional haitiana. Sua relação com a Revolução Haitiana é particularmente significativa, embora o grau de influência efetivamente exercido pelo vodu sobre o processo revolucionário seja objeto de debate entre a comunidade historiadora.

Após a independência do Haiti, em 1804, o vodu continuou a ocupar um lugar importante na sociedade haitiana, apesar de períodos de perseguição, estigmatização e tentativas de repressão. Durante os séculos XIX e XX, sua história esteve ligada às transformações políticas, sociais e religiosas do país, até o reconhecimento oficial da religião pelo Estado haitiano em 2003.

Antes da Revolução Haitiana direita|miniaturadaimagem| Área de prática da religião Vodun na África Ocidental, a religião com maior influência no vodu haitiano. Em 1492, a expedição de Cristóvão Colombo estabeleceu uma colônia espanhola na ilha de Hispaniola. A crescente presença europeia dizimou a população indígena taíno da ilha, tanto por conta das doenças introduzidas como pela exploração dos indígenas em trabalhos forçados e massacres promovidos pelos colonizadores. Os europeus então recorreram aos escravos importados da África Ocidental como fonte de mão de obra; os africanos chegaram pela primeira vez à Hispaniola por volta de 1512. A maioria dos escravizados eram prisioneiros de guerra. Alguns provavelmente eram sacerdotes de religiões tradicionais, ajudando a transportar seus ritos para as Américas. Outros eram provavelmente muçulmanos, embora o islã tenha exercido pouca influência sobre o vodu, enquanto alguns provavelmente praticavam religiões tradicionais que já haviam absorvido influências iconográficas católico-romanas.

No final do século XVI, colonos franceses começaram a se estabeler no oeste de Hispaniola. A Espanha reconheceu a soberania francesa sobre aquela parte da ilha, que se tornou a colônia de São Domingos, em uma série de tratados assinados em 1697. Afastando-se do modelo de economia de subsistência, no século XVIII os administradores franceses reorientaram a economia de São Domingos em torno da exportação em massa de índigo, café, açúcar e cacau para a Europa. Para trabalhar nas plantações, os colonos franceses importaram cada vez mais africanos escravizados; em 1681, havia o dobro de africanos em relação aos europeus na colônia, ao passo que em 1790 havia onze vezes mais africanos do que europeus. Por fim, São Domingos tornou-se a colônia com o maior número de escravos no Caribe.

O catolicismo romano era a religião oficial de São Domingos. O Code Noir emitido pelo rei Luís XIV em 1685 proibia a prática aberta de religiões africanas na colônia. Este código obrigava os proprietários de escravos a batizar e instruir os seus escravos como católicos romanos. Alguns proprietários de escravos procuraram legitimar moralmente a escravidão com o faco de o processo de escravatura ter levado estes africanos a tornarem-se cristãos. No entanto, muitos proprietários de escravos tinham pouco interesse na catequização dos escravos, desagradando-se do tempo gasto pelos escravos em aulas religiosas e preocupando-se com a possibilidade de que congregações negras pudessem fornecer espaço para fomentar revoltas.

A escravidão destruiu o tecido social das religiões tradicionais africanas, que tinham como base a identidade étnica e os vínculos familiares. Embora certas suposições culturais sobre a natureza do universo fossem amplamente compartilhadas entre os africanos escravizados, eles vinham de origens linguísticas e etnoculturais diversas e tiveram que forjar práticas culturais comuns em Hispaniola. Segundo Desmangles, ao longo do século XVIII o vodu emergiu gradualmente como "uma combinação de várias tradições étnicas africanas", fundindo práticas diversas em uma forma mais coesa.

As religiões africanas tinham de ser praticadas secretamente, provavelmente usando ícones e rituais católicos para ocultar a identidade das divindades veneradas. Isso resultou em um sistema de correspondências entre espíritos africanos e santos católicos. Os afro-haitianos adotaram outros aspectos da cultura colonial francesa; o vodu sofreu influência de grimórios europeus, performances de commedia, e da maçonaria, com lojas maçônicas estabelecidas em todas as cidades principais de São Domingos no século XVIII. Um ritual vodu foi descrito na década de 1790 por um homem branco, Médéric Louis Élie Moreau de Saint-Méry. Alguns afro-haitianos escravizados escaparam para formar grupos de fugitivos, semelhantes aos quilombos brasileiros, que muitas vezes praticavam o vodu.

A Revolução Haitiana e o século XIX direita|miniaturadaimagem| O Caso de Bizoton de 1864. O assassinato e alegado canibalismo de uma criança por oito devotos do vodu causou um escândalo mundial e foi considerado prova da natureza maligna do vodu. Na tradição haitiana, o vodu é frequentemente apresentado como tendo desempenhado um papel vital na Revolução Haitiana, embora pesquisadores debatam o verdadeiro impacto do vodu na revolução. Segundo a tradição, um ritual vodu ocorreu em Bois-Caïman em 14 de agosto de 1791, no qual os participantes juraram destruir o sistema escravocrata, e deram o pontapé inicial na revolução. Além disso, dois dos primeiros líderes da revolução, Dutty Boukman e François Mackandal, tinham a reputação de serem sacerdotes voduístas. Em meio à crescente rebelião, o imperador francês Napoleão Bonaparte ordenou o envio de tropas à colônia em 1801. Em 1803 os franceses admitiram a derrota e o líder rebelde Jean-Jacques Dessalines proclamou a república do Haiti.

A revolução desmantelou o sistema de grandes propriedades rurais, criando em seu lugar uma sociedade de pequenos agricultores de subsistência. A maioria dos haitianos passou a viver em lakous (lit. "pátios"), ou complexos familiares extensos, que possibilitaram a preservação das religiões crioulas de origem africana. Esses lakous muitas vezes tinham seu próprio lwa rasin (loá de raíz). Muitos missionários católicos foram mortos durante a revolução, e após a sua vitória, Dessalines declarou-se chefe da igreja católica no Haiti. Protestando contra essa atitude, a Igreja Católica Romana cortou relações com o Haiti em 1805; isso permitiu que o vodu predominasse no país. Muitas igrejas abandonadas foram adotadas para ritos voduístas, contribuindo para o sincretismo entre os dois sistemas. Neste ponto, sem novas chegadas da África, o vodu começou a estabilizar-se, passando de "uma série de cultos locais amplamente dispersos" para "uma religião". A Igreja Católica Romana restabeleceu a sua presença formal no Haiti em 1860. A essa altura, o cenário religioso haitiano era uma peculiar mescla de costumes católicos e voduístas.

Os primeiros três presidentes de Haiti, que governaram entre 1804 e 1844, fizeram esforços para suprimir a prática do vodu. O sistema agrícola dos primeiros anos da República exigia trabalho pesado dos camponeses haitianos, e os governantes do país temiam o potencial revolucionário do vodu. Em 1847, Faustin Soulouque assumiu a presidência; sob seu governo, foram permitidas cerimônias vodu onde animais eram sacrificados nas ruas e, pela primeira vez na história haitiana, oficiais do estado passaram a admitir publicamente sua aderência ao vodu.

No Caso Bizoton de 1863, quatro homens e quatro mulheres foram acusados de matar e comer uma criança em um ritual vodu. O caso recebeu ampla atenção da mídia popular. Fontes históricas sugerem que os indivíduos foram torturados antes de confessarem o crime, sendo posteriormente executados.

Do século XX até o presente direita|miniaturadaimagem|O presidente haitiano François Duvalier chamou o vodu de "fator supremo da unidade haitiana". Os Estados Unidos ocuparam o Haiti entre 1915 e 1934, tendo enfrentado resistência armada dos camponeses haitianos, muitos deles praticantes do vodu. A ocupação americana incentivou o interesse internacional no vodu, o que pode ser percebido nos escritos sensacionalistas de Faustin Wirkus, William Seabrook e John Craige, bem como em espetáculos com temática de vodu para turistas.

Durante o século XX, ocorreu uma ampliação da influência católica no Haiti. De modo geral, a posição da Igreja em relação ao vodu foi de tolerância e compreensão, porém, em determinados momentos, a Igreja Católica pressionou o governo com o objetivo de banir ou suprimir as práticas voduístas. Foi esse o caso em 1896, em 1913 e mais tarde em 1941, quando a Igreja conduziu Campanhas Anti-superstição, queimando e destruindo templos vodu e objetos ritualísticos pelo país. Em 1941, a Operação Limpeza, instigada por autoridades católicas, visou eliminar as "tradições ancestrais" do país. As reações violentas dos praticantes do vodu levaram o presidente Élie Lescot a suspender a operação no ano seguinte.

Durante a ocupação, o movimento indigenista desenvolveu-se entre as classes médias do Haiti, aglutinando-se posteriormente ao movimento internacional da Negritude. Esse movimento contribuiu para uma percepção mais positiva do vodu e da cultura camponesa, uma tendência apoiada pelo surgimento de pesquisas etnológicas profissionais sobre o tema a partir da década de 1930. A influência da Igreja no Haiti foi reduzida por François Duvalier, presidente ditatorial do país de 1957 a 1971. Embora tenha restaurado o catolicismo como religião oficial, Duvalier foi amplamente visto como um defensor do vodu, chamando-o de "o fator supremo da unidade haitiana". Ele utilizou isso para seus próprios fins, incentivando rumores sobre seus próprios poderes sobrenaturais, e selecionando hungãs como seus chefes de seção rural.esquerda|miniaturadaimagem| Uma cerimônia de vodu no National Black Theatre na cidade de Nova York em 2017.Após a queda do filho e sucessor de Duvalier, Jean-Claude, em 1986, houve ataques contra praticantes do vodu que eram considerados apoiadores dos Duvaliers, em parte motivados por campanhas protestantes anti-vodu; os praticantes chamavam essa violência de dechoukaj ('desenraizamento'). Dois grupos, o Zantray e o Bode Nasyonal, foram formados para realizar comícios em defesa dos direitos dos voduístas. A constituição haitiana de 1987 consagrou a liberdade religiosa, e em 2003 o presidente Jean-Bertrand Aristide, um ex-padre católico, concedeu reconhecimento oficial ao vodu, permitindo que sacerdotes voduístas oficiassem cerimônias civis como casamentos e funerais. A segunda metade do século XX viu o crescimento substancial do protestantismo evangélico no Haiti, gerando tensões com os praticantes do vodu. Muitos protestantes consideram o vodu como satânico e, ao contrário das autoridades católicas romanas, geralmente não permitem que membros de suas congregações participem de ritos vodu. Depois do terremoto de 2010 no Haiti muitos protestantes passaram a afirmar que o terremoto havia sido um castigo divino pelos pecados da população haitiana, incluindo a prática do vodu. Após o terremoto, foram relatados ataques de multidões contra praticantes de vodu. Ataques similares ocorreram após o surto de cólera de 2010.

A partir de 1957, muitos haitianos emigraram para escapar de Duvalier, levando consigo o vodu. As três primeiras décadas do século XX viram um aumento da migração haitiana para o leste de Cuba, introduzindo o vodu na ilha. Nos EUA, o vodu atraiu não-haitianos, especialmente afro-americanos e migrantes caribenhos, sincretizando-se com outras religiões como a santería e o espiritismo.