Uádi Alcura (; lit. "vale das aldeias") é uma região histórica do norte do Hejaz, atualmente situada no noroeste da Arábia Saudita, entre Medina e Temá. Seu nome deriva da sucessão de aldeias agrícolas estabelecidas ao longo de um fértil vale, que durante séculos constituiu um dos principais centros de povoamento, agricultura e comércio da Arábia Setentrional. Graças à sua localização estratégica na antiga rota caravaneira que ligava o sul da Península Arábica à Síria e ao Egito, desempenhou importante papel econômico e político desde a Antiguidade. Habitada sucessivamente por povos como os dedanitas, lianitas, mineus e nabateus, a região tornou-se, às vésperas do advento do islamismo, um importante centro agrícola dominado por comunidades judaicas, que desenvolveram extensos sistemas de irrigação e cultivo de tamareiras. Após a conquista por Maomé em 7 A.H. (628), permaneceu como um dos principais polos agrícolas do Hejaz, recebendo propriedades pertencentes a Maomé, a diversos companheiros e, posteriormente, aos primeiros califas e governantes omíadas. Durante os primeiros séculos do islamismo, Uádi Alcura destacou-se igualmente por sua importância comercial, estratégica e cultural, figurando entre os principais centros urbanos do Hejaz. A partir do , entretanto, perdeu gradualmente sua relevância em consequência das transformações políticas e da deterioração das rotas caravaneiras, sendo progressivamente substituída por Alulá como principal núcleo da região. Atualmente, seus vestígios arqueológicos concentram-se sobretudo nas ruínas de , ao sul de Alulá.
Etimologia
O nome Uádi Alcura (; lit. "vale das aldeias") deriva da sucessão de povoações agrícolas que historicamente se distribuíam ao longo do vale. Os geógrafos árabes descrevem a região como formada por uma série contínua de aldeias (qurā manẓūma), cuja prosperidade decorria da fertilidade do solo e da abundância de água.
Geografia
Uádi Alcura é uma região histórica do norte do Hejaz, situada atualmente no noroeste da Arábia Saudita, entre Medina e Temá. O vale localiza-se aproximadamente a sete dias de viagem de Medina, três ou quatro dias de Temá e um dia de Hegra, correspondendo à região da moderna Alulá. Os geógrafos medievais divergem quanto aos limites exatos da região. Segundo uma tradição, Uádi Alcura estendia-se entre Hegra, ao norte, e Albadai, a sudeste de Alulá, tendo Cur como seu principal centro urbano durante os primeiros séculos do islamismo, geralmente identificado com o sítio arqueológico de . Outra interpretação atribui ao vale uma extensão consideravelmente maior, alcançando a costa do mar Vermelho ao sul de , identificando Cur com .
A região desenvolveu-se desde a Antiguidade graças às condições favoráveis para a agricultura e à sua posição numa das principais rotas comerciais que ligavam o sul da Península Arábica à Síria e ao Egito. Antes do advento do islamismo, integrou sucessivamente as esferas de influência dos reinos de Dedã, Liã, Maim e Nabateu, cuja presença é atestada pelas numerosas inscrições e vestígios arqueológicos preservados nas ruínas de Dedã, nas proximidades da atual Alulá. A fertilidade do vale favoreceu o estabelecimento de numerosas aldeias e extensos palmeirais irrigados por poços e canais subterrâneos. Além de constituir um importante centro agrícola, Uádi Alcura ocupava posição estratégica nas rotas caravaneiras do Hejaz, razão pela qual continuou desempenhando relevante papel econômico e militar ao longo dos períodos islâmico medieval e omíada.
Além de sua importância agrícola, Uádi Alcura destacou-se como centro comercial, artístico e cultural. As fontes a incluem entre os seis principais centros responsáveis pelo desenvolvimento da música árabe, ao lado de Medina, Taife, Caibar, Dumate Aljandal e Iamama. O engenheiro e músico Omar ibne Daúde ibne Zadane Aluádi, escravo liberto de Otomão ibne Afane, tornou-se mestre do célebre músico . Também se registra que Salmane, o Persa foi adquirido como escravo de um judeu de Uádi Alcura. Nos primeiros séculos islâmicos, diversos companheiros de Maomé mantiveram propriedades agrícolas na região, entre eles Otomão, Ali, Uçama ibne Zaíde e Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe. A manutenção dessas grandes propriedades exigiu a construção e conservação de sofisticados sistemas de irrigação, provavelmente executados por especialistas trazidos à região ainda nos primórdios do islamismo.
História
As tradições árabes atribuem Uádi Alcura aos antigos povos de Ade e Tamude, considerados os primeiros habitantes da região. Segundo a tradição islâmica, os judeus estabeleceram-se posteriormente no vale, provavelmente após a conquista de Jerusalém por , restaurando antigos poços e canais subterrâneos e transformando a região num importante centro agrícola baseado principalmente no cultivo de tamareiras e cereais. A fertilidade do vale e sua posição nas rotas caravaneiras favoreceram seu desenvolvimento contínuo desde pelo menos o , quando passou sucessivamente à esfera de influência dos reinos de Dedã, Liã, Maim e dos nabateus. Sob o ponto de vista tribal, Uádi Alcura situava-se no território tradicional de grupos pertencentes aos cudaaítas, convivendo também com tribos dos gatafanitas e seus ramos, especialmente os fazaraítas. Os judeus da região estabeleceram alianças com algumas dessas tribos. Entre elas destacava-se um tratado celebrado com os udraítas, pelo qual estes recebiam parte da produção agrícola em troca da defesa das aldeias contra outras tribos cudaaítas. Segundo as fontes, os udraítas ficavam com um terço da colheita, permanecendo os dois terços restantes com os agricultores judeus. Os udraítas não apenas asseguravam a defesa das aldeias, como também impediram que o rei gassânida ocupasse a região. Esse sistema de alianças contribuiu para a estabilidade e prosperidade de Uádi Alcura durante o período imediatamente anterior ao advento do islamismo.
Quando surgiu o islamismo, os judeus constituíam os principais habitantes de Uádi Alcura. Após a expulsão dos cainucaítas de Medina, em 2 A.H. (624), parte deles permaneceu durante cerca de um mês na região antes de migrar para Adriate, na Síria. Em 6 A.H. (627), uma caravana comercial comandada por Zaíde ibne Harita foi atacada nas proximidades de Uádi Alcura pelos fazaraítas, ramo dos gatafanitas. Depois de regressar a Medina, Zaíde recebeu de Maomé o comando de uma expedição punitiva contra os atacantes. A campanha terminou com a derrota dos fazaraítas e a morte de vários de seus chefes, entre eles , conhecida por sua oposição aos muçulmanos. Algumas tradições atribuem o comando dessa expedição a Abu Becre. Logo após a conquista de Caibar, em 7 A.H. (628), Maomé dirigiu-se contra Uádi Alcura, conquistando a região após breve campanha. Durante sua permanência no vale, concluiu também um tratado com os judeus de . As terras e palmeirais de Uádi Alcura foram distribuídos segundo as normas do espólio de guerra, mas sua exploração permaneceu a cargo da população judaica local, obrigada a entregar parte da produção aos muçulmanos. Maomé nomeou governador da região. Entre os beneficiários das concessões de terras realizadas por Maomé encontrava-se , chefe dos udraítas, lembrado pelas fontes como o primeiro habitante do Hejaz a entregar a Maomé o zacate arrecadado de sua tribo. Ainda em , uma força de trezentos homens comandada por enfrentou contingentes gatafanitas nas proximidades de , perto de Uádi Alcura, frustrando os preparativos de um ataque contra Medina.
As fontes islâmicas divergem quanto ao destino da comunidade judaica de Uádi Alcura durante o califado de Omar ibne Alcatabe . Alguns relatos afirmam que, diferentemente do ocorrido em Caibar e Fadaque, o califa permitiu que os judeus permanecessem na região por considerá-la parte da Síria e não do Hejaz. Outros sustentam que parte deles foi efetivamente expulsa. A documentação indica que, independentemente da extensão dessas expulsões, Omar distribuiu numerosas propriedades em Uádi Alcura entre destacados companheiros de Maomé, entre os quais Otomão ibne Afane, Ali ibne Abi Talibe, Abederramão ibne Aufe, , , e . Ao mesmo tempo, diversos indícios demonstram que ao menos parte da população judaica permaneceu na região. O geógrafo Mocadaci, escrevendo no , ainda descrevia os judeus como os principais habitantes de Cura, enquanto Albacri menciona uma família judaica que afirmava residir continuamente na região desde a época de Maomé. Esses testemunhos levaram estudiosos modernos a rejeitar a hipótese de uma expulsão completa da comunidade judaica. A Encyclopaedia of Islam registra ainda que uma das famílias judaicas preservadas pelas tradições era a dos descendentes de Aride (ou Uraide), que teriam oferecido hospitalidade a Maomé durante sua permanência em Uádi Alcura. Em reconhecimento, Maomé lhes teria concedido participação permanente na produção agrícola da região.
Durante o início do Califado Omíada, dedicou especial atenção ao desenvolvimento agrícola de Uádi Alcura. Segundo as fontes, promoveu a recuperação de antigos poços e ampliou os recursos hídricos da região, aumentando a produtividade de seus palmeirais e terras cultivadas. Parte de suas propriedades foi adquirida de proprietários judeus, enquanto outras foram tornadas produtivas mediante novos projetos de irrigação. A posição estratégica de Uádi Alcura, situada entre Meca e Damasco e controlando uma das principais vias de acesso ao Hejaz, conferiu-lhe grande importância militar durante o período omíada. A região foi cenário dos confrontos entre Abedalá ibne Azobair e o califa Abedal Maleque ibne Maruane , bem como, em 130 A.H. (748), da batalha entre os carijitas liderados por e o exército omíada comandado por . No , os cudaaítas continuavam predominando em Uádi Alcura. Segundo as fontes, a região era ocupada principalmente por ramos dos udraítas, balitas, juainaítas e , todos pertencentes à confederação cudaaíta.
A prosperidade de Uádi Alcura prolongou-se durante vários séculos. No , Mocadaci descreveu Cur como a segunda cidade mais importante do Hejaz, atrás apenas de Meca, elogiando sua riqueza, população, atividade comercial e extensos palmeirais. Outros geógrafos também destacam a abundância de seus poços, suas terras férteis e a exploração de minas de ouro e prata pelos habitantes da região. A partir da segunda metade do , entretanto, a crescente influência fatímida no Hejaz e a deterioração da segurança das rotas de peregrinação e comércio provocaram o declínio gradual da região. O antigo centro de Cura perdeu importância para Alulá, cuja posição naturalmente protegida favoreceu sua ascensão como principal núcleo urbano local e importante parada dos peregrinos provenientes da Síria. Quando Iacute Alhamaui visitou a região no , registrou que Uádi Alcura já havia perdido seu antigo esplendor: as aldeias encontravam-se em ruínas, os sistemas de irrigação estavam abandonados e grande parte das águas corria sem aproveitamento. No período otomano, a Ferrovia do Hejaz estabeleceu importantes estações em Alulá e Hegra, mas o antigo nome Uádi Alcura caiu gradualmente em desuso. No fim do , o explorador Charles Doughty observou que nem mesmo os habitantes locais conservavam memória dessa antiga denominação, hoje preservada sobretudo pelas fontes históricas. Os vestígios da antiga Cura correspondem atualmente ao sítio arqueológico de Almabiate, ao sul de Alulá.
Bibliografia
Categoria:Uádis da Arábia Saudita