Os juainaítas (), também chamados Banu Juaina (), são uma tribo árabe pertencente à confederação dos cudaaítas. Originalmente estabelecidos no Négede, migraram antes do advento do islã para o noroeste do Hejaz, ocupando a região compreendida entre o mar Vermelho e Uádi Alcura, especialmente os arredores de Iambo. Após a Hégira, os juainaítas figuraram entre as primeiras tribos árabes a estabelecer relações diplomáticas com Maomé, celebrando um tratado de auxílio mútuo que precedeu sua conversão gradual ao islã. Seus membros colaboraram com os muçulmanos nas primeiras expedições contra os coraixitas, participaram da Batalha de Badre, da conquista de Meca e da Batalha de Hunaine e permaneceram fiéis ao Estado islâmico durante as Guerras da Apostasia. Durante o Califado Ortodoxo, contingentes juainaítas participaram das conquistas da Síria, do Iraque e do Egito, onde muitos de seus membros se estabeleceram. Nos séculos seguintes, a tribo expandiu-se para o Alto Egito, Núbia, Sudão e Abissínia, enquanto um de seus ramos migrou para o Alandalus. Descendentes dos juainaítas continuam presentes na Península Arábica e em outras regiões do mundo árabe.
História
Os juainaítas eram um dos principais ramos da confederação dos cudaaítas. Segundo a genealogia tradicional, descendiam de Juaina ibne Zaíde ibne Laice ibne Sude ibne Aslame ibne Alhafe ibne Cudaa e eram, portanto, aparentados aos balitas, maraítas, baraítas, udraítas, calbitas e tanuquitas. Dividiam-se internamente em numerosos clãs e linhagens, constituindo uma tribo extensa e bem individualizada dentro do conjunto cudaaíta. No período pré-islâmico, os juainaítas teriam habitado inicialmente o Négede, de onde migraram para o noroeste do Hejaz. Seu território passou a abranger a rota costeira percorrida pelas caravanas entre a Síria e Meca, estendendo-se pela região situada entre o mar Vermelho e Uádi Alcura, com especial concentração em Iambo. Entre as localidades associadas à tribo figuravam , , , e Iambo, além das montanhas de , e e dos vales de e Alis. A poesia tribal e as narrativas sobre os chamados Dias dos Árabes indicam que os juainaítas já possuíam uma identidade coletiva definida antes do islã. Uma tradição atribuída a Hixame ibne Alcalbi relata que Abede Adar ibne Hudaibe — ou Hudail —, membro da tribo, tentou construir em , um dos principais centros dos juainaítas, um santuário destinado a rivalizar com a Caaba. O projeto, porém, encontrou resistência entre seus próprios seguidores, que se mostraram relutantes em ajudá-lo a transportar as pedras necessárias à construção. Outra tradição menciona Algaute, dos juainaítas, entre os responsáveis por determinados ritos da peregrinação pré-islâmica realizados em Meca. Os juainaítas mantinham relações estreitas com os aucitas e cazerajitas de Iatrebe, estabelecidas por alianças, convivência e vínculos matrimoniais. Um grupo dos ançares que prestou o juramento de fidelidade a Maomé em Ácaba era aliado dos salimaítas, de origem calbita, que haviam se unido aos juainaítas e vivido entre eles. Entre os exemplos da complexidade dessas filiações tribais figura , a quem as fontes atribuem sucessivamente os gentílicos de muajirita, ançar, salimaíta, juainaíta e calbita, refletindo sua integração simultânea em diferentes redes de parentesco e aliança.
Na Batalha de Buate, travada antes da Hégira, os juainaítas combateram ao lado dos cazerajitas. Entretanto, pouco antes da Batalha de Badre, parte deles já se havia estabelecido em Medina (antiga Iatrebe), juntamente com os balitas, na condição de aliados dos aucitas. Quando Maomé se fixou na cidade, procurou estabelecer relações pacíficas com as tribos vizinhas, e os juainaítas perceberam rapidamente a mudança política provocada por sua chegada. Segundo uma tradição, uma delegação tribal apresentou-se a Maomé, observou que ele se instalara em território controlado por eles e propôs a celebração de um acordo de segurança mútua. O tratado vinculava Maomé e os juainaítas a obrigações recíprocas de proteção. O relato preserva expressamente a fórmula segundo a qual os membros da tribo concluíram o pacto sem naquele momento se converterem ao islã, circunstância que demonstra que a aliança política não foi condicionada à adoção imediata da nova religião. A conversão dos juainaítas ocorreu gradualmente depois da celebração do acordo. Pouco após sua conclusão, Maomé enviou uma pequena força, composta por menos de cem homens, para atacar um grupo de quinanaítas que habitava nas proximidades do território juainaíta. Quando os muçulmanos perceberam que seus adversários eram mais numerosos, refugiaram-se entre os juainaítas. Os quinanaítas censuraram os anfitriões por acolherem combatentes que haviam realizado uma incursão durante o mês sagrado de Rajabe, mas os juainaítas justificaram sua conduta afirmando que os muçulmanos haviam sido expulsos do recinto sagrado de Meca também durante um período de inviolabilidade. Em outra ocasião, dois grupos muçulmanos encontraram-se em território juainaíta e entraram em desacordo sobre qual deles deveria permanecer no local onde estavam, enquanto o outro prosseguiria em busca do inimigo. Como não chegaram a uma decisão, apresentaram a questão a Maomé. Irritado com a divisão surgida no interior da expedição, Maomé reuniu os dois grupos numa única força e nomeou Abedalá ibne Jaxe comandante do contingente. Segundo a tradição citada pela Encyclopaedia of Islam, ele teria sido o primeiro comandante formalmente designado por Maomé para chefiar uma unidade militar. À medida que diferentes clãs da tribo abraçavam o islã, os juainaítas passaram a integrar regularmente as campanhas muçulmanas, participando da Batalha de Badre, da conquista de Meca e da Batalha de Hunaine.
A cooperação entre os juainaítas e a comunidade muçulmana de Medina intensificou-se nos anos que antecederam a Batalha de Badre. As primeiras expedições enviadas por Maomé para interceptar as caravanas dos coraixitas atravessavam regularmente o território da tribo e eram deliberadamente organizadas em pequenos destacamentos de reconhecimento. Caso encontrassem forças superiores, esses grupos poderiam retirar-se para as terras dos juainaítas, onde contavam com apoio local e encontravam um refúgio seguro. Segundo M. J. Kister, o tratado celebrado com a tribo foi decisivo para o êxito dessas primeiras operações, permitindo que Maomé lançasse seus ataques contra os aliados quinanitas dos coraixitas a partir de uma região politicamente favorável aos muçulmanos. Diversos juainaítas desempenharam funções de reconhecimento e espionagem em favor das forças muçulmanas. Entre eles destacam-se e , que atuaram como espiões de Maomé, além de , que deu abrigo a Talha ibne Ubaide Alá e Saíde ibne Zaíde. Outro juainaíta de destaque foi , que participou da missão enviada para interceptar a caravana coraixita comandada por Abu Sufiane. Durante a operação, atuou como guia tanto dos muçulmanos quanto dos coraixitas. As fontes afirmam que desempenhou essa função com imparcialidade, mantendo boas relações com ambas as partes, circunstância que levou Kister a observar que dificilmente já teria abraçado o islã naquele momento, apesar de algumas tradições posteriores sustentarem o contrário.
As fontes divergem quanto ao momento exato da conversão dos juainaítas. Um relato preservado por Ibne Sade afirma que uma delegação da tribo abraçou o islã logo após a chegada de Maomé a Medina. Kister considera, contudo, que essa tradição deve referir-se apenas a um dos numerosos grupos que compunham a tribo, e não ao conjunto dos juainaítas. Outros relatos demonstram que a islamização ocorreu de maneira progressiva, à medida que diferentes clãs estabeleciam relações cada vez mais estreitas com a comunidade muçulmana. Mesmo antes da conversão geral, os juainaítas já desfrutavam de elevado prestígio entre os muçulmanos. Algumas tradições atribuem a Maomé a afirmação de que eles superavam em virtudes tribos como açaditas, gatafanitas, tamimitas e amiritas. Outra notícia relata que foi nomeado por Maomé para arrecadar os tributos da tribo. Além disso, vários juainaítas emigraram para Medina, onde construíram uma mesquita destinada aos membros da tribo. A fidelidade demonstrada pelos juainaítas após a morte de Maomé contribuiu para consolidar sua reputação na tradição islâmica. A tribo não aderiu às Guerras da Apostasia, permanecendo leal ao novo Estado muçulmano. Diversos hádicees preservados nas coleções canônicas exaltam suas virtudes. Num deles, Maomé afirma que os juainaítas, juntamente com outras tribos por ele nomeadas, constituíam seus auxiliares, tendo apenas Deus e seu mensageiro como protetores. Outra tradição recomenda tratar com benevolência os montanheses da tribo durante os períodos de escassez, enquanto uma terceira proíbe causar qualquer dano aos juainaítas, advertindo que quem os prejudicasse seria prontamente castigado por Deus.
As fontes preservam ainda diversas notícias sobre os privilégios concedidos por Maomé aos juainaítas. Um documento atribuído a Maomé, relacionado aos , isentava seus destinatários da obrigação de comparecer mais de uma vez por ano aos centros administrativos para a entrega dos tributos. A interpretação desse documento, entretanto, é discutida. Segundo Kister, os termos empregados podem referir-se não apenas à isenção tributária, mas também à nomeação de membros da tribo como responsáveis pela arrecadação de impostos de outros grupos. Em qualquer caso, o episódio demonstra a posição privilegiada alcançada pelos juainaítas em suas relações com a comunidade islâmica nascente. A política adotada por Maomé em relação aos juainaítas e aos balitas tinha também importante dimensão estratégica. Ambas as tribos ocupavam o setor noroeste da Arábia, dominando as principais rotas entre Medina, Meca e a Síria, além de manterem contato com populações árabes sob influência bizantina. O estabelecimento de alianças com esses grupos permitiu aos muçulmanos assegurar o controle das vias de comunicação para o norte e reduzir a capacidade de reação das tribos aliadas do Império Bizantino. Embora diferentes ramos tenham adquirido crescente autonomia e extensas propriedades rurais, conservaram durante séculos a consciência de sua origem comum. Ainda hoje, autores modernos registram a existência de tribos árabes que preservam o nome e a tradição genealógica dos juainaítas.
Durante o Califado Ortodoxo, grande número de juainaítas participou das campanhas das conquistas da Síria, do Iraque e do Egito. Segundo as fontes, cerca de oitocentos guerreiros da tribo — ou quatrocentos, conforme outra tradição — integraram a expedição enviada ao Egito sob o comando de Anre ibne Alas, sendo inferior apenas ao de tribos como os modaritas, calbitas e taiítas. Após a conquista, parte dos juainaítas estabeleceu-se em Fostate, enquanto outros permaneceram no Hejaz ou se fixaram na Síria e no Iraque. Nos séculos seguintes, os juainaítas expandiram-se progressivamente pelo vale do Nilo. Durante o período fatímida, migraram do Baixo Egito para o Alto Egito, estabelecendo-se especialmente nas regiões de , Assiute e Acmim, onde passaram a figurar entre as mais influentes tribos árabes. A partir do , participaram das campanhas dirigidas contra a Núbia cristã, ampliando gradualmente sua presença para o Sudão, onde se miscigenaram com populações locais. A tradição preservada pela TDV acrescenta que realizaram também expedições à Abissínia, enquanto um de seus ramos migrou para o Alandalus, onde se estabeleceu permanentemente. Apesar da ampla dispersão geográfica, os diferentes ramos da tribo conservaram sua identidade durante séculos. Fontes modernas registram que descendentes dos juainaítas continuam presentes no Hejaz, no Egito e em outras regiões do mundo árabe.
Bibliografia
Categoria:Juainaítas