Violência Epistêmica é o processo pelo qual o conhecimento, a cultura e as formas de pensar de grupos dominantes são impostos como universais, silenciando, desvalorizando ou invalidando os saberes e as perspectivas de grupos marginalizados. O conceito foi cunhado pela intelectual, professora, filósofa, escritora e crítica literária indiana, Gayatri Chakravorty Spivak, e publicado, na década de 1980, na obra Pode o subalterno falar? Essa violência manifesta-se, principalmente, de duas formas: 1) pelo apagamento de saberes, que ocorre quando os tipos de conhecimento tradicionais, de povos originários, indígenas, locais ou populares são considerados inferiores, inválidos, informais ou "não científicos" e, por isso, são descartados ou excluídos; e 2) pela imposição de narrativas, que consiste em usar a visão de mundo dos imperialistas, dos colonizadores ou grupos hegemônicos para interpretar, julgar e definir a realidade de outros povos. Este tipo de imposição parece sutil, pois, em vez de violência física, utiliza estruturas intelectuais e acadêmicas para justificar a dominação, fazendo com que o conhecimento eurocêntrico e androcêntrico pareça a única verdade do mundo.

Violência epistêmica no contexto brasileiro Segundo Sueli Carneiro (2023), a violência epistêmica opera pela deslegitimação e repressão de saberes subalternizados, impondo narrativas eurocentradas como universais. No contexto brasileiro, Carneiro define esse mecanismo como epistemicídio, um processo racista que nega a racionalidade e o potencial produtor de conhecimento da população negra, consolidando a morte cultural do "outro". Ela classifica o epistemicídio como um processo de desvalorização e negação da racionalidade, da cultura e dos saberes de povos subjugados (especialmente os negros). Não se trata apenas de exclusão social, mas da morte do sujeito enquanto produtor de conhecimento e da imposição da cultura ocidental como a única válida.

Lélia Gonzalez (2020), por sua vez, ao abordar a violência epistêmica denuncia como a academia e as instituições brasileiras silenciaram a produção intelectual negra e indígena. Ela critica o eurocentrismo ao demonstrar que a formação histórica e cultural da América Latina, especialmente do Brasil, resulta da experiência compartilhada de resistência de povos negros e indígenas frente ao colonialismo. Nesse contexto, a autora formula o conceito de amefricanidade, que evidencia a construção de identidades marcadas pela diáspora africana, pelas heranças indígenas e pelas lutas contra o racismo e a dominação colonial. Complementarmente, por meio da noção de pretuguês, Gonzalez revela como a língua portuguesa falada no Brasil foi profundamente transformada pelas matrizes linguísticas africanas, questionando a ideia de uma norma linguística neutra e evidenciando que a desvalorização dessas formas de expressão constitui uma manifestação do racismo estrutural. Ao longo de sua obra ela reafirma a centralidade dos saberes e das experiências afro-indígenas na constituição da identidade brasileira e latino-americana, propondo uma perspectiva decolonial que confronta a hegemonia epistemológica eurocêntrica.

Violência epistêmica, colonialidade e modernidade Aníbal Quijano (2000) afirma que a independência política das colônias não eliminou as estruturas de dominação herdadas do colonialismo, que permanecem por meio da colonialidade do poder. Esse sistema organiza as relações sociais a partir da ideia de raça, legitimando desigualdades econômicas, políticas e culturais. Associada a esse processo, a colonialidade do saber estabelece o eurocentrismo como referência universal de ciência e racionalidade, desqualificando outras formas de conhecimento. Dessa forma, os saberes produzidos por povos indígenas, africanos e demais populações do Sul Global foram historicamente inferiorizados e excluídos dos espaços legítimos de produção do conhecimento.

Ainda segundo Quijano (2005), modernidade e colonialidade são processos indissociáveis, pois a expansão da modernidade europeia dependeu da exploração colonial e da imposição de uma hierarquia epistêmica que privilegiou o conhecimento ocidental. Nesse contexto, o apagamento dos saberes do Sul Global não constitui um efeito secundário, mas um mecanismo central de manutenção da colonialidade. Ao monopolizar os critérios de validade do conhecimento, o eurocentrismo reforça desigualdades históricas e limita o reconhecimento da pluralidade epistemológica. Assim, a decolonialidade proposta por Quijano pressupõe a valorização dos saberes historicamente marginalizados como condição para superar as hierarquias que sustentam o capitalismo global (Quijano, 2005).

Santiago Castro-Gómez critica a pretensão de universalidade da ciência moderna por meio do conceito de hybris do ponto zero, que designa a crença de que o conhecimento científico ocidental pode ocupar uma posição neutra, objetiva e desprovida de condicionamentos históricos ou geopolíticos. Segundo o autor, essa suposta neutralidade permitiu que o pensamento europeu fosse instituído como parâmetro universal de verdade, relegando os saberes produzidos por povos indígenas, africanos e outras tradições não europeias à condição de mitos, superstições ou conhecimentos inferiores. Dessa forma, a ciência moderna e as instituições que a legitimam, como a universidade, atuam na reprodução da colonialidade do saber ao ocultarem seu próprio lugar de enunciação e ao naturalizarem hierarquias epistemológicas que sustentam a dominação colonial. Para Castro-Gómez, a descolonização do conhecimento exige o reconhecimento de que todo saber é situado e atravessado por relações históricas e políticas de poder.

A violência epistêmica em seus níveis micro, meso e macro Para Claudia Brunner (2015), a violência epistêmica não deve ser compreendida apenas como um problema relacionado à linguagem, à representação ou aos preconceitos presentes na produção acadêmica. Em sua perspectiva, ela constitui um princípio estruturante da própria modernidade colonial, operando de maneira articulada em diferentes níveis. No nível micro, manifesta-se na constituição de sujeitos e corpos racializados e sexualizados por meio da colonialidade do ser. No nível meso, atua nas instituições responsáveis pela produção do conhecimento, como universidades, disciplinas acadêmicas e métodos científicos, por intermédio da colonialidade do saber. Já no nível macro, integra a organização histórica do sistema-mundo moderno, configurando-se como uma dimensão indissociável da colonialidade do poder. Dessa forma, Brunner demonstra que guerra, paz, violência e conhecimento não correspondem a esferas autônomas, mas fazem parte de uma mesma matriz histórica de dominação produzida pela modernidade colonial. Ainda de acordo ela, o próprio conhecimento e os métodos científicos não são neutros, agindo frequentemente como ferramentas que estruturam e perpetuam a violência nas relações sociais.BRUNNER, Claudia. Das Konzept epistemische Gewalt als Element einer transdisziplinären Friedens- und Konfliktforschung. In: WINTERSTEINER, Werner; WOLF, Lisa (Hg.). Friedensforschung in Österreich: Bilanz und Perspektiven. Klagenfurt: Drava, 2015. p. 38-53.

Referências

Categoria:Epistemologia Categoria:Violência Categoria:Eurocentrismo Categoria:Colonialismo