Carlos Jorge da Costa Barral (1924–2008) foi um gestor e professor universitário português que exerceu também cargos públicos. Depois de passar pela direção e administração da Shell Portuguesa, participou na criação do primeiro programa português de MBA, na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, de que foi o primeiro diretor. Instalou mais tarde no Porto o Instituto Superior de Estudos Empresariais (ISEE), antecessor institucional da atual Porto Business School, e foi professor catedrático convidado da Faculdade de Economia da Universidade do Porto.
Entre 1995 e 1999 foi governador civil do distrito do Porto. Deixado o cargo, integrou e presidiu ao Conselho de Fiscalização dos Serviços de Informações, órgão que a Assembleia da República elege para fiscalizar os serviços de informações portugueses.
Carreira na Shell Portuguesa
Barral fez boa parte da carreira na Shell Portuguesa. Uma página da Associação dos Reformados e Pensionistas do Grupo Shell identifica-o como o primeiro diretor do Departamento de Química da empresa. Guilherme d'Oliveira Martins referiu a sua passagem pela administração da companhia e um estudo publicado em 1982 pelo International Institute for Applied Systems Analysis apresentou-o como antigo vice-presidente da Shell Oil Portugal.
A equipa que dirigia na Shell tinha usado microcomputadores em aplicações de apoio à decisão. Para Ronald M. Lee, essa experiência explicava a abertura de Barral à instalação de um laboratório de microcomputadores no MBA da Nova, numa altura em que as universidades portuguesas tinham acesso limitado a computadores de maior dimensão.
Primeiro MBA português
Criação e modelo de ensino
A Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa foi criada em 1977. A preparação do programa de gestão coube a Alfredo de Sousa, presidente da comissão instaladora da Faculdade, que queria aproximar o ensino português dos modelos universitários anglo-saxónicos. Barral veio da administração da Shell para participar na conceção do curso, que dirigiu na primeira fase. O programa contou com a colaboração da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, com professores de outras universidades norte-americanas e com financiamento da USAID.
A primeira turma começou em setembro de 1980. O Ministério da Educação não aceitou de início a designação estrangeira «MBA», pelo que o programa se chamou oficialmente pós-graduação em Gestão de Empresas. O plano de estudos ocupava três trimestres, com aulas em inglês e parte do corpo docente vinda dos Estados Unidos. Havia trabalho individual, trabalho de grupo e avaliação contínua — práticas pouco habituais no ensino superior português de então.
Segundo a reportagem do Público, cerca de 400 pessoas candidataram-se aos 40 lugares da turma inaugural e 37 concluíram o programa. A admissão exigia licenciatura, entrevista em inglês, recomendações, carta de motivação e o GMAT. Nos primeiros anos, a USAID pagou as propinas e a colaboração com a Wharton trouxe docentes norte-americanos a Lisboa.
Informática de gestão
O curso usou microcomputadores e sistemas de apoio à decisão desde os primeiros anos. Lee descreveu o laboratório como um instrumento de transferência de tecnologia de gestão, destinado a dar aos alunos prática na construção e utilização de modelos de decisão. A escolha dos microcomputadores devia-se às limitações de acesso a sistemas de maior porte, mas também à experiência que Barral trazia da Shell.
Entre os alunos da primeira turma contaram-se futuros dirigentes de empresas portuguesas e professores de várias instituições de ensino superior. José Neves Adelino, que mais tarde dirigiu o MBA e a faculdade, atribuiu ao curso um papel na renovação do ensino da gestão em Portugal.
A Associação dos Antigos Alunos do MBA da Nova (AMBA) foi criada em 28 de outubro de 1983 por 29 antigos alunos, com o apoio da escola. Em novembro de 2006, Barral interveio, na qualidade de primeiro diretor do programa, nas comemorações dos 25 anos do MBA, no Convento do Beato.
Atividade no Porto
ISEE e projeto da Maia
No final da década de 1980, Barral mudou-se para o Porto para instalar uma escola de gestão ligada à Universidade do Porto. O Instituto Superior de Estudos Empresariais (ISEE) juntava a participação universitária ao apoio de grandes empresas, fórmula que se manteve nas fases seguintes da instituição. A Porto Business School apresenta o ISEE como a sua primeira antecessora, antes da Escola de Gestão do Porto, da EGP–UPBS e da adoção do nome atual em 2012.
Uma reportagem do Expresso de 2001 atribuiu a Barral a instalação da escola no Porto e descreveu o projeto de um campus na Maia, apoiado por uma associação de empresas presidida por Belmiro de Azevedo, que previa, entre outras instalações, uma residência para alunos. A obra parou depois de os moradores terem obtido um embargo judicial, por o uso previsto ser incompatível com o plano de urbanização. O edifício ficou por acabar, a associação empresarial foi extinta e a escola continuou em instalações provisórias. A mesma reportagem referia que Barral integrou o Conselho Consultivo da Sonae.
Em 1998, Barral representava o ISEE na Assembleia da Universidade do Porto.
Faculdade de Economia da Universidade do Porto
Na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, Barral foi professor catedrático convidado. O registo arquivado do sistema Sigarra associa-o ao Grupo de Gestão e ao Conselho Científico da Faculdade.
Cargos públicos
Governo Civil do Porto
Barral foi nomeado governador civil do distrito do Porto pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 52/95, com efeitos a partir de 18 de novembro de 1995. Manteve-se no cargo cerca de quatro anos, até ser substituído por Joaquim Barbosa Ferreira Couto em novembro de 1999.
Fiscalização dos serviços de informações
Em 25 de novembro de 1999, a Assembleia da República elegeu Barral, Maria João Antunes e Margarida Blasco para o Conselho de Fiscalização dos Serviços de Informações. O nome de Barral para a presidência do órgão teve o apoio do Partido Socialista e do Partido Social Democrata.
O conselho era composto por três cidadãos eleitos por voto secreto e maioria parlamentar qualificada. Cabia-lhe acompanhar a atividade do Serviço de Informações de Segurança e do então Serviço de Informações Estratégicas de Defesa e Militares, apreciar relatórios, realizar inspeções, verificar o respeito pelos direitos fundamentais e apresentar pareceres à Assembleia da República.
No parecer relativo a 2002, assinado por Barral e pelos restantes membros, o conselho deu conta da análise de relatórios e processos em curso, de reuniões com os diretores dos serviços e de várias visitas de fiscalização, e declarou não ter detetado violações da Constituição, da lei ou do regime de direitos, liberdades e garantias no período apreciado. O mandato terminou em dezembro de 2003.
Legado
Na evocação que publicou após a morte de Barral, Guilherme d'Oliveira Martins ligou-o à modernização do ensino da gestão em Portugal e sublinhou a sua experiência na articulação entre universidade, empresa e administração pública. Atribuiu-lhe ainda uma conceção da gestão assente na coordenação de pessoas, na mobilização de vontades e na relação entre meios e objetivos.
O percurso institucional iniciado no ISEE continuou na Escola de Gestão do Porto e na EGP–UPBS, hoje Porto Business School. Em 2010, a então EGP–UPBS criou o Prémio Professor Carlos Barral, atribuído no MBA Executivo. A primeira edição distinguiu um aluno pela relação que desenvolveu ao longo do curso com colegas e professores; o texto de apresentação recordava Barral como primeiro diretor da escola e figura ligada à criação dos primeiros programas de MBA em Portugal.
Em descrições posteriores, o prémio continuou a ser apresentado como uma distinção anual, atribuída segundo requisitos definidos pela escola e a apreciação dos colegas sobre qualidades não académicas, como o empenhamento, a participação no grupo, a generosidade e a empatia.
Ligações externas «Carlos Barral (1924–2008)», de Guilherme d'Oliveira Martins, no Jornal de Negócios
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