Alfarasdaque (), cujo nome era Humame ibne Galibe Atamimi Almujaxi (; , — Baçorá, c. ), foi um poeta árabe do período omíada, considerado, ao lado de Jarir ibne Atia e Alactal, um dos três maiores representantes da poesia árabe do e do início do VIII. Descendente dos tamimitas, destacou-se sobretudo pela poesia satírica, pelos panegíricos dedicados aos califas omíadas e pelas célebres naqāʾiḍ, disputas poéticas travadas durante cerca de quatro décadas com Jarir.

Educado em um ambiente de forte tradição beduína e literária, iniciou-se precocemente na poesia sob a influência de seu avô . Ainda jovem conheceu Ali ibne Abi Talibe, que o aconselhou a dedicar-se ao estudo do Alcorão, episódio posteriormente relacionado por seus biógrafos à simpatia que demonstraria pela Casa do Profeta. Embora mantivesse estreitas relações com a corte omíada e tivesse sido poeta oficial dos califas e Solimão ibne Abedal Maleque, jamais ocultou sua admiração por membros da família de Maomé, tornando-se célebre o panegírico dedicado a Ali Zaine Alabidine, que lhe valeu a prisão por ordem de Hixame ibne Abedal Maleque.

Sua produção poética, uma das mais extensas preservadas da literatura árabe clássica, compreende milhares de versos reunidos em um divã que constitui importante fonte para o estudo da língua, da história e da sociedade do início do período islâmico. Caracterizada pela linguagem vigorosa, pelo vocabulário beduíno, pela concisão e pelo frequente emprego de metáforas e alusões, sua obra exerceu profunda influência sobre a crítica literária e os estudos filológicos árabes. Gramáticos e lexicógrafos recorreram amplamente aos seus versos como autoridade linguística, levando o filólogo a afirmar que, sem a poesia de Alfarasdaque, perder-se-ia um terço da língua árabe.

Vida

Alfarasdaque nasceu em 641, em , nas proximidades de Baçorá, em uma família rica, influente e conhecida por sua generosidade. Seu nome era Humame, embora o pai o chamasse pelo diminutivo Humaime, em homenagem a um tio. Recebeu ainda jovem o apelido de Alfarasdaque ("o grande pedaço de massa de pão"), em alusão ao formato de seu rosto ou de seu lábio inferior, epíteto pelo qual se tornaria conhecido. Pertencia ao ramo mujaxita dos tamimitas. Seu avô, , foi companheiro de Maomé, enquanto seu pai, Galibe, é considerado um dos mucadrames, por ter vivido durante a época do profeta sem chegar a conhecê-lo pessoalmente. Galibe fixou-se em Cázima após a fundação de Baçorá e adquiriu reputação pela liberalidade com que distribuía sua riqueza. Criado em um ambiente marcado pela cultura beduína e pela tradição poética dos tamimitas, Alfarasdaque demonstrou desde cedo extraordinária memória e talento literário. Seu avô supervisionou diretamente sua educação, transmitindo-lhe conhecimentos históricos e genealógicos, enquanto a convivência com numerosos poetas da tribo favoreceu seu precoce ingresso na composição de versos laudatórios e satíricos. Quando tinha cerca de quinze anos, foi levado pelo pai à presença de Ali ibne Abi Talibe, diante de quem recitou alguns de seus poemas. Ali aconselhou que o jovem se dedicasse primeiramente ao estudo do Alcorão, recomendação que, segundo os biógrafos, exerceu influência duradoura sobre sua formação e ajuda a explicar a estima que posteriormente manifestaria pela Casa do Profeta.

O estabelecimento do califado omíada definiu os rumos de sua carreira. Ainda jovem, buscou patronos entre os chefes de Iamama e, posteriormente, de Baçorá, aproximando-se de grupos ligados ao governo omíada, embora mantivesse relações com tribos simpáticas aos álidas. Em razão de uma sátira dirigida contra o califa , atraiu a hostilidade de Ziade ibne Abii. Quando este assumiu o governo do Iraque, Alfarasdaque foi obrigado a fugir para o Hejaz, estabelecendo-se em Medina sob a proteção do governador Saíde ibne Alás. Permaneceu ali até ser expulso por Maruane ibne Aláqueme, regressando a Baçorá após a morte de Ziade e colocando-se então sob o patrocínio de . Nas décadas seguintes consolidou sua posição como um dos principais poetas da corte omíada. Celebrou em versos diversos membros da dinastia, entre eles , Abedalazize ibne Maruane, e Solimão ibne Abedal Maleque, tornando-se poeta oficial dos dois últimos califas. Embora tenha procurado conquistar igualmente a proteção de Alhajaje ibne Iúçufe, sua relação com o governador do Iraque foi frequentemente dificultada pelas intrigas de seu rival Jarir ibne Atia, circunstância que lhe valeu períodos de desfavor político. Sob perdeu parte do prestígio de que desfrutara anteriormente, mas voltou a receber a atenção da corte durante o reinado de , quando compôs panegíricos em honra do califa e de Maslama ibne Abedal Maleque.

Apesar da estreita ligação com os omíadas, Alfarasdaque jamais ocultou sua admiração pela Casa do Profeta. Seu mais célebre poema foi composto em louvor de Ali Açajade, quarto imame para os xiitas, durante uma peregrinação a Meca. A composição provocou a ira de Hixame ibne Abedal Maleque, que ordenou sua prisão entre Meca e Medina. Segundo a tradição, o príncipe acabou determinando sua libertação ao tomar conhecimento de que o poeta preparava uma violenta sátira contra ele. Alfarasdaque viveu cerca de nove décadas. As fontes descrevem-no como homem de religiosidade irregular, pouco assíduo às obrigações religiosas e inclinado ao vinho e aos divertimentos, embora também ressaltem sua generosidade, herdada do pai, e períodos ocasionais de maior devoção. Seus últimos anos transcorreram principalmente em Baçorá, onde continuou compondo poesia e participando da vida literária. A data de sua morte é objeto de divergência nas fontes, que registram os anos de 110, 112 e 114 da Hégira; com base em evidências internas de seus poemas e em testemunhos antigos, a historiografia moderna tende a considerar 732 (114 A.H.) a cronologia mais provável.

Obra

A produção de Alfarasdaque ocupa lugar central na poesia árabe do início do período omíada e representa uma das maiores coleções de versos preservadas da literatura árabe clássica. Seu divã, transmitido inicialmente por via oral e posteriormente compilado por filólogos de Baçorá e Cufa, reúne cerca de versos na edição tradicional de ʿAbd Allāh Ismāʿīl al-Ṣāwī, constituindo o maior conjunto poético atribuído a um único autor na literatura árabe medieval. A preservação de sua obra deveu-se tanto ao orgulho tribal dos tamimitas quanto ao prestígio que seus poemas alcançaram entre gramáticos, lexicógrafos e estudiosos da língua, que deles extraíram numerosos exemplos de uso do árabe clássico. Embora tenha cultivado praticamente todos os gêneros poéticos de sua época, Alfarasdaque destacou-se sobretudo pela sátira (hijāʾ), pelo orgulho tribal e pessoal (fakhr) e pelos panegíricos (madīḥ). Sua poesia satírica é considerada uma das mais vigorosas da tradição árabe, caracterizando-se pela linguagem agressiva, pelo emprego de insultos contundentes e, por vezes, de expressões obscenas. Nem mesmo integrantes de sua própria tribo escaparam de suas críticas. Em contrapartida, suas fakhriyyāt exaltam reiteradamente sua linhagem, sua coragem e a antiguidade dos tamimitas, enquanto seus panegíricos celebram principalmente membros da dinastia omíada, aos quais esteve ligado durante grande parte da vida. Apesar dessa proximidade política, jamais deixou de expressar publicamente sua admiração pela Casa do Profeta, alcançando especial notoriedade a cássida composta em louvor de Ali Açajade, considerada uma das obras-primas da poesia panegírica árabe.

Entre suas composições mais célebres figuram também as naqāʾiḍ, poemas de réplica escritos na mesma métrica e rima do adversário, gênero em que travou durante cerca de quarenta anos uma célebre disputa literária com Jarir ibne Atia. Originadas na rivalidade entre os dois poetas e em antigas tensões entre seus respectivos ramos tribais, essas composições ultrapassaram a dimensão de simples ataques pessoais e passaram a refletir disputas históricas, sociais e políticas entre diferentes segmentos da sociedade árabe. A crítica considera esse ciclo de poemas a expressão mais acabada do gênero náquida (naqīḍa), influenciando profundamente a poesia satírica posterior. Grande parte de suas cássidas conserva a estrutura herdada da poesia pré-islâmica, frequentemente iniciando-se com um breve nácibe (nasīb), seguido por descrições de ruínas abandonadas, da montaria ou das dificuldades da viagem até chegar ao elogio do destinatário. Em numerosas ocasiões, contudo, Alfarasdaque suprimiu esse prelúdio e concentrou-se diretamente na matéria encomiástica, tendência que se tornaria cada vez mais frequente na poesia árabe do período omíada. Também compôs elegias, epigramas e poemas ocasionais, embora a elegia ocupe posição relativamente modesta em sua produção. Em contraste com outros poetas de sua geração, quase não cultivou a poesia báquica nem a amorosa, e mesmo seus raros poemas de temática sentimental são considerados pouco expressivos quando comparados à força de sua sátira e de seus panegíricos.

Seu Divã foi preservado por meio de diversas recensões manuscritas e tornou-se objeto de sucessivas edições críticas a partir do . A primeira publicação parcial foi realizada por René Boucher, entre 1870 e 1875, com tradução francesa baseada no manuscrito da Biblioteca de Santa Sofia, em Istambul. A parte restante foi editada por Joseph Hell entre 1900 e 1901, em uma edição que incluiu a reprodução fac-similar do manuscrito, índices de nomes e rimas, numeração das cássidas e uma extensa introdução sobre a tradição manuscrita. Posteriormente, o Divã recebeu novas edições preparadas por ʿAbd Allāh Ismāʿīl al-Ṣāwī, Karam al-Bustānī, Shākir al-Faḥḥām e Majīd Ṭarrād, entre outros estudiosos. As Naqāʾiḍ compostas em resposta a Jarir ibne Atia, reunidas inicialmente por Abu Ubaida e transmitidas por , também foram editadas diversas vezes na época moderna, destacando-se a edição crítica de Anthony Ashley Bevan, publicada em três volumes entre 1905 e 1912, além da edição de ʿAbd Allāh Ismāʿīl al-Ṣāwī e dos estudos posteriores de al-Zuhayrī. O panegírico dedicado a Ali Açajade circulou igualmente de forma independente, sendo publicado com comentário de Muḥammad al-Samāwī sob o título Al-Kawākib al-Samāwiyya. Além do Divã, o panegírico dedicado a Ali Açajade circulou de forma independente, sendo publicado com comentário de Muḥammad al-Samāwī sob o título Al-Kawākib al-Samāwiyya. A notoriedade de Alfarasdaque também motivou a produção de numerosas obras biográficas e críticas desde o período medieval, embora muitas delas tenham se perdido. Entre as conhecidas figuram Aḫbār al-Farazdaq e Manāqiḥ al-Farazdaq, de , além de obras homônimas de e . Nos séculos XIX e XX, sua produção voltou a receber ampla atenção editorial e acadêmica, com novas edições críticas do Divã e estudos monográficos dedicados à sua vida e à sua obra.

Estilo e recepção