Alaçuade ibne Cabe Alanci (; ), nascido Abala () ou Aiala (), foi um líder tribal, adivinha e pretendente à profecia pertencente aos da confederação dos madijitas, que liderou a primeira grande revolta contra a autoridade de Maomé no Iêmem. Explorando rivalidades tribais e a oposição ao sistema político estabelecido pelos muçulmanos na região, conquistou Saná e, em poucos meses, estendeu seu domínio sobre grande parte do Iêmen. Seu governo, porém, durou apenas algumas semanas, sendo encerrado por uma conspiração organizada por antigos aliados com o apoio de autoridades locais ligadas a Medina.
Embora a tradição islâmica frequentemente o apresente como um apóstata e um dos chamados "falsos profetas", não há evidências seguras de que Alaçuade tenha adotado o islão antes de iniciar seu movimento. A historiografia moderna interpreta sua revolta principalmente como uma reação contra a organização política implantada por Maomé no Iêmen, enquanto sua pretensão profética parece ter servido para reforçar sua autoridade pessoal. Como outros adivinhos da Arábia pré-islâmica, afirmava receber revelações divinas, recorria a demonstrações de prestidigitação e empregava técnicas de hipnotismo para impressionar seus seguidores, mas não estabeleceu uma nova religião nem formulou uma legislação própria.
Nome
O verdadeiro nome de Alaçuade era Abala ou Aiala. O epíteto "Alaçuade" (), que significa "o negro", fazia referência à sua pele escura. Pertencia aos , um ramo da confederação tribal dos madijitas. As fontes também o identificam pelos epítetos Zulquimar (), "o homem do véu", porque costumava cobrir o rosto à semelhança dos adivinhos árabes pré-islâmicos — ou, segundo outra tradição, devido ao hábito de embriagar-se com frequência —, e Zulimar (), "o homem do jumento", em alusão a um jumento adestrado que executava movimentos sob suas ordens durante suas demonstrações públicas. Em razão de sua reivindicação profética, os cronistas muçulmanos também lhe atribuíram o qualificativo de Alcadabe (), "mentiroso". À semelhança de Muçailima, que adotou o título de "Arramane de Iamama", Alaçuade intitulava-se Arramane do Iêmen (), apresentando-se como porta-voz da divindade invisível que afirmava representar.
Vida
Alaçuade nasceu em , nas proximidades de Najrã, no sul da Arábia. Pouco se conhece sobre sua juventude antes de sua ascensão política. Pertencia aos ancitas, um ramo da confederação tribal dos madijitas, e exercia a atividade de adivinha, profissão amplamente respeitada entre os árabes da Arábia pré-islâmica. Sua reputação foi favorecida pela aparência imponente, pela eloquência e por demonstrações que as fontes descrevem como atos de magia, prestidigitação e hipnotismo, sobretudo envolvendo animais, recursos que ampliaram sua influência entre as tribos da região. Ao contrário de outros líderes religiosos da Arábia central, Alaçuade não procurou restaurar o politeísmo tradicional. Vivendo numa região em que judaísmo, cristianismo e islão coexistiam havia décadas, afirmava agir em nome de um Deus invisível e declarava receber revelações transmitidas por anjos. A historiografia considera provável que seu monoteísmo estivesse mais próximo do ambiente religioso iemenita, fortemente influenciado pelas tradições judaica e cristã, do que propriamente do islão, não havendo registros seguros de que tivesse abraçado a nova religião antes de iniciar sua revolta.
Alaçuade proclamou-se profeta durante a enfermidade final de Maomé, pouco depois da Peregrinação de Despedida. Aproveitando a notícia de que o profeta adoecera, reuniu o apoio dos ancitas e de outros grupos da confederação dos madijitas e passou a apresentar-se como destinatário de revelações divinas. Embora alguns membros dos ancitas já houvessem aceitado o islão, a nova religião ainda não estava solidamente estabelecida entre eles, circunstância que favoreceu o surgimento de seu movimento. Com uma força de aproximadamente seiscentos a setecentos cavaleiros recrutados na região de Najrã, marchou contra Saná. Durante a campanha derrotou e matou , filho do governador persa , que permanecera à frente de uma das divisões administrativas do Iêmen após a morte do pai. A conquista de Saná foi seguida pela rápida submissão de grande parte do país, permitindo que Alaçuade consolidasse sua autoridade sobre quase todo o Iêmen em apenas alguns meses. Embora mais tarde a tradição islâmica tenha classificado esses acontecimentos como parte das Guerras da Apostasia, estudos modernos observam que o movimento de Alaçuade foi dirigido sobretudo contra a ordem política estabelecida por Maomé no Iêmen. Seu objetivo imediato consistia em substituir os representantes nomeados por Medina e assumir o controle da região, e não expulsar indiscriminadamente os persas ali estabelecidos. De fato, vários membros dos — descendentes dos soldados persas instalados no Iêmen desde o período sassânida — conservaram seus cargos desde que aceitassem sua autoridade.
A rápida expansão do movimento de Alaçuade resultou tanto de suas vitórias militares quanto de sua habilidade em explorar rivalidades políticas e tribais já existentes no Iêmen. Entre seus principais colaboradores estavam Caice ibne Maquexu e Anre ibne Madicaribe, que aderiram à revolta menos por afinidade religiosa do que por ambições pessoais. Caice disputava a liderança dos muraditas com Farua ibne Muçaique, reconhecido por Maomé como chefe tribal, enquanto Anre buscava recuperar a influência perdida para o mesmo líder, então governador muçulmano de parte da região. Alaçuade também procurou explorar o ressentimento existente entre parte da população árabe e os abnas, descendentes dos soldados persas estabelecidos no Iêmen desde o domínio sassânida. Apresentando-se como libertador da região da influência desses grupos, conseguiu atrair novos adeptos entre as tribos locais. Entretanto, suas próprias ações demonstram que não pretendia expulsar os persas do país. Nas correspondências enviadas aos governadores nomeados por Medina, exigia que abandonassem seus cargos e deixassem as receitas tributárias, mas permitiu que figuras como e , ambos pertencentes aos abnas, permanecessem em suas funções desde que reconhecessem sua autoridade. Esses fatos indicam que seu objetivo consistia em incorporar essas lideranças ao seu governo, e não eliminá-las.
Ao mesmo tempo, Alaçuade procurou conferir legitimidade religiosa ao movimento. Alegava receber revelações por intermédio de anjos e atribuía seus feitos extraordinários à inspiração divina. Suas demonstrações de magia, prestidigitação e hipnotismo reforçavam sua reputação entre os seguidores, embora não tenham sido acompanhadas da criação de uma nova religião ou de um corpo próprio de leis. Segundo a historiografia moderna, a dimensão religiosa de seu movimento servia sobretudo para fortalecer uma liderança fundada em circunstâncias essencialmente políticas e tribais. Durante seu breve governo, Alaçuade iniciou perseguições contra parte da comunidade muçulmana do Iêmen. Enquanto diversos governadores enviados por Maomé se retiravam para territórios ainda fiéis a Medina ou regressavam à cidade, outros permaneceram na região organizando discretamente uma resistência. Paralelamente, Maomé enviou cartas aos seus representantes locais e a chefes tribais conclamando-os a eliminar Alaçuade por qualquer meio possível, ao mesmo tempo em que buscavam ampliar o apoio entre a população iemenita.
A instabilidade de sua coalizão logo favoreceu a formação de uma conspiração. Caice ibne Maquexu, Firuz Adailami, e Dadauai combinaram assassinar Alaçuade enquanto continuavam aparentando fidelidade ao seu governo. Contaram ainda com a colaboração de Azade, viúva de Xar ibne Badane, que Alaçuade obrigara a desposá-lo após conquistar Saná e que, segundo as fontes, passou a odiá-lo por esse motivo. Numa incursão noturna ao palácio, os conspiradores conseguiram matar Alaçuade em seus aposentos. Ao tomar conhecimento do ocorrido, seus partidários tentaram fugir ou resistir, provocando confrontos armados com as forças favoráveis a Medina. A resistência foi rapidamente vencida, permitindo o restabelecimento da autoridade islâmica e o retorno dos antigos governadores às suas funções. As fontes situam sua morte em 8 de Rabi Alual de 11 A.H. (3 de junho de 632), cinco dias antes da morte de Maomé. Algumas tradições afirmam que o próprio profeta anunciou a morte de Alaçuade antes que a notícia oficial chegasse a Medina, atribuindo o feito a Firuz Adailami. A historiografia considera, porém, que parte dos relatos posteriores confundiu a revolta de Alaçuade com a subsequente rebelião de Caice ibne Maquexu, o que levou alguns cronistas a situarem erroneamente sua derrota já durante o califado de Abu Becre . Na realidade, a revolta de Alaçuade foi sufocada ainda em vida de Maomé, prolongando-se por cerca de três ou quatro meses, enquanto a tentativa de Caice de reavivá-la fracassou por falta de apoio.
Legado
A tradição islâmica passou a considerar Alaçuade um dos principais pretendentes à profecia surgidos durante os últimos anos da vida de Maomé, ao lado de Muçailima, Sajá e Tulaia ibne Cuailide. Em razão de sua reivindicação profética, as fontes muçulmanas frequentemente lhe atribuem o qualificativo de Alcazabe (), "mentiroso", designação aplicada aos indivíduos considerados falsos profetas. Diversas coleções de hádices relatam que Maomé teria visto em sonho dois braceletes de ouro colocados em seus braços, os quais simbolizariam o aparecimento de dois falsos profetas. Segundo esses relatos, os braceletes representavam Alaçuade Alanci e Muçailima, cuja derrota teria sido anunciada antecipadamente ao profeta. Essa tradição foi preservada em coleções como as de Albucari, Muslim ibne Alhajaje, Atirmidi e Ibne Maja. A historiografia contemporânea, contudo, tende a interpretar o movimento de Alaçuade sob uma perspectiva predominantemente política. Embora reconheça que sua pretensão profética desempenhou papel importante na legitimação de sua autoridade, os estudos modernos enfatizam que sua revolta teve como principal objetivo substituir a estrutura de poder estabelecida por Maomé no Iêmen. Nesse contexto, a utilização da linguagem religiosa, as alegações de receber revelações divinas e as demonstrações de prestidigitação constituíram instrumentos para consolidar uma liderança apoiada sobretudo em alianças tribais e disputas pelo controle regional.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século VII Categoria:Madijitas Categoria:Mádis autodeclarados Categoria:Pessoas envolvidas nas Guerras da Apostasia