miniatura|Gado nos Lhanos venezuelanos. A criação extensiva de bovinos em savanas abertas caracterizou historicamente muitos hatos da região

O hato era, em diferentes regiões da América espanhola, uma unidade de criação de gado, podendo designar tanto o próprio rebanho como o estabelecimento rural onde este era mantido. Conforme o contexto documental, o termo podia referir-se aos animais pertencentes a um criador, ao local com casa e instalações pecuárias ou ao conjunto formado pelos rebanhos, trabalhadores e estruturas necessárias à exploração.

Nos Lhanos da Venezuela e da Colômbia, o hato desenvolveu-se sobretudo como uma unidade de pecuária extensiva, adaptada às savanas, aos pastos naturais e à circulação de rebanhos em espaços pouco delimitados por cercas. Em muitos casos, a riqueza do criador dependia principalmente do número de animais, das marcas de propriedade e dos direitos associados ao seu aproveitamento, mais do que da posse de uma extensão contínua de terra..

A expansão dos hatos contribuiu para o abastecimento de carne, a produção de couros e sebo, o fornecimento de animais de transporte e a ocupação colonial de regiões de fronteira. Este processo esteve também ligado à apropriação de terras, aos conflitos pelo uso das savanas, ao trabalho de indígenas, trabalhadores livres e escravos e à formação de elites pecuárias regionais..

Terminologia e definição

Na América espanhola, o termo hato adquiriu o sentido de exploração pecuária. O Diccionario de la lengua española regista essa acepção para a Colômbia, Honduras, República Dominicana e Venezuela, enquanto o Diccionario de americanismos amplia o uso regional para outros territórios americanos.

Historicamente, o termo podia referir-se a realidades relacionadas mas distintas: o rebanho pertencente a um criador; o sítio onde se instalavam a casa, os currais e outras estruturas necessárias à criação; ou a unidade económica formada pelos animais, instalações, trabalhadores e direitos de utilização dos espaços de pastagem..

Os hatos podiam criar diferentes espécies. A distinção entre gado maior e gado menor, comum na literatura jurídica e pecuária colonial, correspondia respectivamente aos animais de maior porte, como bovinos, cavalos e muares, e aos rebanhos de menor porte, como ovinos, caprinos e suínos..

A relação entre hato e propriedade territorial variou conforme a região. Nos Lhanos venezuelanos, sobretudo durante os primeiros séculos coloniais, a existência de um hato podia depender mais do controlo do gado, das marcas e dos direitos de aproveitamento do espaço do que de uma propriedade fundiária perfeitamente delimitada.

Formação histórica

Introdução da pecuária na América

A criação de gado europeu foi introduzida nas Antilhas desde os primeiros momentos da colonização espanhola. Bovinos, cavalos, porcos, cabras e ovelhas encontraram condições favoráveis de reprodução, permitindo a passagem de pequenos rebanhos destinados ao abastecimento das expedições para explorações pecuárias permanentes..

A expansão dos rebanhos esteve relacionada com a disponibilidade de pastagens, a adaptação das espécies aos novos ambientes e a procura de carne, animais de transporte e matérias-primas como couros e sebo. Parte dos animais escapou ou foi abandonada e passou a reproduzir-se em liberdade, formando rebanhos bravios. A documentação colonial empregava um vocabulário variável e parcialmente sobreposto: cimarrones ou alzados para animais tornados silvestres ou subtraídos ao controlo dos criadores; orejanos para os que ainda não tinham sido marcados; e mostrencos para animais sem dono conhecido ou cuja propriedade não podia ser determinada..

A pecuária desenvolveu-se de forma desigual. As savanas, planícies interiores e vales com abundantes pastagens favoreceram a criação extensiva, enquanto outras regiões permaneceram mais associadas à agricultura, mineração ou actividades comerciais.

Hispaniola

Na Hispaniola, a criação de gado começou nas primeiras décadas da ocupação espanhola. Durante o governo de Nicolás de Ovando, a introdução e reprodução de animais receberam apoio régio, formando-se rebanhos destinados ao abastecimento da colónia, entre os quais o chamado Hato Real.

Durante o século XVI, o hato tornou-se uma forma característica de exploração pecuária da ilha. A crise da mineração e a transformação da economia colonial favoreceram a expansão da criação extensiva, baseada na produção de carne, couros, sebo e animais de transporte.

Nos séculos XVII e XVIII, a pecuária assumiu grande importância no Santo Domingo espanhol, estruturando relações sociais próprias entre proprietários, trabalhadores livres, agregados e escravos..

Nova Granada

No Novo Reino de Granada, os rebanhos introduzidos pelos espanhóis expandiram-se a partir das cidades costeiras e das primeiras zonas de ocupação colonial para áreas como o vale do Magdalena, o vale do Cauca, os planaltos andinos e os Lhanos Orientais.

Em regiões como Valledupar, Santa Marta, Neiva e os Lhanos, os hatos contribuíram para o abastecimento dos centros urbanos e para a ocupação económica de zonas de fronteira. No século XVIII, a procura de carne em Cartagena incentivou novas concessões e regularizações de terras destinadas à pecuária..

A palavra coexistiu com outras designações, como hacienda e estancia. Em algumas regiões indicava uma exploração pecuária independente; noutras, uma componente pecuária integrada numa unidade rural mais ampla.

Venezuela

Na Venezuela, a expansão pecuária acompanhou a ocupação espanhola de Coro, El Tocuyo, Barquisimeto, Maracaibo e outras povoações. El Tocuyo tornou-se um dos principais centros de reprodução e distribuição de gado durante o século XVI, fornecendo animais para outras regiões..

No final do século XVI existiam hatos em El Tocuyo, Barquisimeto, Maracaibo, Valência, San Sebastián de los Reyes e nos vales de Caracas. Posteriormente, a criação extensiva expandiu-se para os Lhanos e outras áreas de savana.

Nos Lhanos venezuelanos, o hato tornou-se uma instituição económica e social central. A criação extensiva de bovinos, o uso do cavalo, os rodeios e o controlo de rebanhos marcados contribuíram para a formação da cultura llanera e para a ocupação de extensas áreas de fronteira.

Base territorial e organização jurídica

O rebanho e a terra

Nos primeiros sistemas pecuários dos Lhanos, o hato não correspondia necessariamente a uma propriedade rural cercada e delimitada. Em muitas regiões, o elemento central era o controlo do rebanho, das marcas de propriedade e dos direitos associados ao uso das savanas, enquanto a posse formal da terra se desenvolveu de forma gradual.

Em San Sebastián de los Reyes, por exemplo, as concessões de sítios de hato podiam conferir sobretudo o direito de instalar casas e currais num determinado lugar, permitindo ao criador utilizar as áreas envolventes para a alimentação dos rebanhos. O direito associado ao hato estava, assim, ligado tanto ao gado como ao espaço necessário à sua criação.

A expansão pecuária contribuiu posteriormente para a consolidação de propriedades rurais. Os criadores procuraram regularizar a posse através de mercês de terras, compras, heranças, composições e outros mecanismos jurídicos. Esse processo aproximou progressivamente o hato da grande propriedade pecuária, embora continuassem a existir formas menores de criação e uso colectivo das pastagens.

A relação entre gado e território permaneceu uma fonte constante de conflitos. A circulação dos animais em espaços abertos, a existência de gado bravio e a sobreposição de direitos de uso originaram disputas entre grandes criadores, pequenos produtores, comunidades indígenas e autoridades coloniais.

Marcas, sinais e propriedade do gado

A identificação dos animais era essencial numa economia baseada em rebanhos extensivos. Os criadores utilizavam marcas de ferro e sinais aplicados nas orelhas para reconhecer a propriedade das reses e distinguir os seus animais dos pertencentes a outros proprietários..

A marca era aplicada normalmente durante os rodeios, quando os animais dispersos pelas savanas eram reunidos, contados e separados. Inventários, testamentos e documentos de transmissão de bens podiam incluir referências às marcas e ao número aproximado de animais pertencentes ao proprietário.

A dificuldade de controlar rebanhos dispersos favorecia conflitos sobre a posse dos animais. O gado sem marca ou perdido podia integrar rebanhos bravios, dando origem a disputas sobre o direito de captura e aproveitamento..

Direito de aucción

Nos Lhanos venezuelanos desenvolveu-se o chamado direito de aucción ou ausión, relacionado com a apropriação de gado bravio existente nas áreas próximas aos hatos. O interessado devia demonstrar perante a autoridade uma relação anterior com determinado sítio de hato e com os rebanhos existentes na região.

Esse direito permitia realizar entradas nas savanas para procurar animais, recuperar reses marcadas e aproveitar parte do gado sem marca. A aucción estava inicialmente associada ao gado e ao direito de criação, não constituindo simplesmente uma propriedade plena sobre toda a área utilizada pelo hato.

A possibilidade de incorporar animais bravios contribuiu para o crescimento dos rebanhos de determinados criadores e tornou-se um dos factores de concentração da riqueza pecuária nos Lhanos.

Organização económica e produtiva

A dimensão e organização dos hatos variavam conforme a região, o tipo de gado, a disponibilidade de água e a riqueza do proprietário. Grandes explorações podiam possuir casas, currais, áreas extensas de pastagem e numerosos trabalhadores; outras limitavam-se a pequenos rebanhos com estruturas rudimentares..

O núcleo do hato incluía normalmente a habitação do proprietário ou administrador, espaços para trabalhadores, currais e áreas destinadas à conservação de ferramentas, alimentos e produtos derivados da pecuária. Em explorações maiores podiam existir também capelas, armazéns e pequenas áreas agrícolas destinadas ao abastecimento interno.

Os currais eram fundamentais para a gestão do rebanho. Neles realizavam-se operações como marcação, separação, tratamento de animais, preparação para venda e outras tarefas associadas ao manejo pecuário.

Nos Lhanos, a maior parte da alimentação animal provinha de pastagens naturais. A disponibilidade de rios, lagoas e zonas sazonalmente inundadas condicionava os movimentos dos rebanhos e a localização dos sítios de hato.

A introdução posterior de cercas permanentes, novos sistemas de pastagem e técnicas modernas de criação modificou a organização espacial dos estabelecimentos pecuários, aproximando-os do modelo contemporâneo de propriedade rural delimitada.

Técnicas pecuárias

miniatura|direita|Llaneros no Hato El Frío, Venezuela. O trabalho pecuário dos hatos dependia de trabalhadores especializados no manejo dos rebanhos em grandes extensões de savana

A criação extensiva dos hatos baseava-se sobretudo no gado bovino, embora incluísse também cavalos, mulas, burros, cabras, ovelhas e porcos. Os cavalos eram essenciais para os trabalhadores encarregados de acompanhar e conduzir os animais em grandes áreas abertas.

O rodeio era uma das principais actividades do calendário pecuário. Consistia na reunião dos animais dispersos, permitindo aos proprietários recuperar reses, marcar crias, separar animais destinados ao comércio e controlar o crescimento dos rebanhos.

O trabalho exigia conhecimentos específicos de condução de animais, uso do cavalo, laço e outras técnicas de manejo. A actividade dos vaqueiros e llaneros tornou-se uma característica cultural das regiões de pecuária extensiva, sobretudo nos Lhanos venezuelanos e colombianos.

A reprodução dependia em grande medida de processos naturais. Nos sistemas extensivos, o controlo dos cruzamentos era limitado, e a dimensão dos rebanhos podia variar significativamente devido a doenças, secas, perdas, furtos e dispersão dos animais.